HISTORIA DO BRASIL

 Transcorreram quase quinhentos anos, desde aquele momento em que Cabral
resolveu desviar sua esquadra - que seguia ao largo da costa africana em
direo  ndia - e encontrou terras virgens e desconhecidas, at os dias de
hoje, quando um congresso constituinte apresentou ao povo e a nao a nova
Constituio.

  uma longa histria, embora seja cuna se a compararmos com a histria de
outras naes, que registram acontecimentos em datas anteriores a Cristo.
Nesta preparao para o vestibular, vamos apresentar a histria do Brasil em
quatro livros. No primeiro, comeamos com alguns fatos da histria de
Portugal, a nossa antiga metrpole, para compreendermos melhor os trezentos
anos de vida colonial. Naqueles primeiros tempos, Portugal, Espanha, Frana,
Inglaterra e Holanda nomeavam sua poltica em funo de lemas muito simples:
mais ouro, mais comrcio, mais colnias para explorar.  nesse contexto que o
Brasil ir, a partir de 1530, ocupar lugar de destaque na poltica
mercantilista portuguesa, inicialmente com a cana-de-acar e depois com a
minerao. Embora a economia da colnia fosse totalmente noneada pelos
interesses da metrpole, a vida no Brasil adquire feies prprias: com os
criadores de gado do Norte e do Sul, com os bandeirantes que marcam
fronteiras alm do Tratado de Tordesilhas, com os negros, transformados em
mercadoria-escrava e que criam o primeiro modelo de estado democrtico - o
Quilombo dos Palmares, e os ndios que recuam cada vez mais para o interior
diante do poderio do branco colonizador.

 Em 1822 inicia-se oficialmente o Brasil imprio, ainda que a data mais
precisa devesse ser 1808, com a chegada de D. Joo VI fugitivo de Napoleo.
So mais 80 anos de histria. Enquanto as outras naes americanas se
libertam do domnio espanhol, ns coroamos um imperador, mas tambm veneramos
aqueles que lutaram nesse perodo pela repblica como os mrtires de Vila
Rica, da Conjurao Baiana e da Revolta Pernambucana de 1817. Toda essa
histria voc ver no segundo livro alm das grandes revoltas que abalaram o
perodo regencial e o mais longo perodo da histria brasileira sob o governo
de um s homem: a era de D. Pedro II. O ano de nossa repblica, 1889,  o
marco inicial do terceiro livro desta srie.

  Nele estudaremos a Repblica Velha, a repblica das oligarquias, dos
senhores do caf, do coronelismo, do voto de cabresto, da poltica dos
governadores. Mas tambm  a repblica das greves operrias de 1917 e 1919,
da revolta da Chibata, do levante do Forte de Copacabana, do movimento
tenentista, da coluna Prestes e da Revoluo de 1930.

  E assim chegamos ao quarto livro e ao perodo mais conturbado de nossa
histria, de 1930 at os dias atuais. So mais 50 anos que, a grosso modo,
podem ser divididos em quatro perodos: a era Vargas, os governos populistas,
a ditadura militar e a chamada Nova Repblica.

  Como a proposta bsica deste curso  compreender as peculiaridades do
capitalismo num pas de industrializao tardia, todos os grandes perodos
sero analisados tendo em vista os aspectos econmicos, sociais e culturais,
alm dos polticos.

  E ao final de cada captulo inclumos alguns exemplos tpicos de exerccios
que costumam aparecer em vestibulares, com respectivas respostas e
comentrios.

  Cada livro  acompanhado de um caderno com resumos, quadros de referncia,
cronologia e exerccios de vestibular. Entre os exerccios voc encontrar
tanto questes de mltipla escolha como outras analtico-expositivas.

Feudalismo - apogeu e queda Diviso do perodo feudal e suas caractersticas

  Era crena comum na Idade Mdia que o mundo acabaria no ano 1000. Sabemos
que isso no ocorreu. Na verdade, essa poca assinalou o ressurgimento do
comrcio e o incio das transformaes gerais pelas quais a Europa passou ao
longo do perodo que se iniciou no sculo XII e se estendeu at o sculo XVI
(poca do descobrimento do Brasil).

  Para compreendermos mais adequadamente a Idade Mdia, lembremos que ela 
dividida em Alta Idade Mdia e Baixa Idade Mda. A Alta Idade Mdia -
sculos V ao X - caracterizou-se pela formao da sociedade medieval, que
marcou a transio do escravismo ao feudalismo. A Baixa Idade Mdia - sculos
X ao XV - caracterizou-se pela consolidao do feudalismo. O sistema feudal
conheceu seu apogeu entre os sculos XII e XIII, quando teve incio uma crise
geral e profundamente transformadora que conduziria ao seu declnio, nos
sculos XIV e XV

  Feudo era o local de produo dos bens necessrios  sobrevivncia da
populao.

  Era constitudo por castelos e vilas - as unidades de produo
essencialmente agrcolas. A economia feudal baseava-se na agricultura de
subsistncia, isto , todos os bens produzidos destinavam-se  manuteno dos
habitantes dos feudos (senhores dos castelos e servos produtores agrrios).
Naturalmente, numa economia desse tipo, voltada para a terra, o poder
econmico estava nas mos dos grandes senhores feudais.

  A propriedade da terra constitua a base do poder dos senhores feudais, que
alm disso detinham o poder militar, judicial e poltico, e se reservavam o
direito exclusivo de cunhar moedas.

  O grande proprietrio de terras, chamado suserano, doava feudos a outro
senhor de terras, que se tornava vassalo.

  A vassalagem consistia num contrato de deveres e obrigaes mtuas entre o
suserano e o vassalo. Por esse contrato, o vassalo ligava-se ao suserano
mediante os seguintes compromissos: a) auxlio militar obrigatrio por um
perodo aproximado de quarenta dias e durante as guerras; b) auxlio
financeiro ao suserano, quando este participasse de cruzadas, e ao seu
primognito, a fim de arm-lo para as gUerraS.

  Em troca, o suserano se comprometia a proteger os vassalos e seus
dependentes e a no tir-los das terras. Se o vassalo deixasse de cumprir as
obrigaes de vassalagem, poderia ser expulso da terra. Alm disso, quando o
vassalo morria, seu primo-gnito tornava-se tambm um vassalo, pagando ao
suserano uma taxa de transmisso do poder sobre a terra.

  Outra caracterstica do feudalismo era o militarismo. O vassalo, depois de
sagrado cavaleiro, defendia os domnios do seu senhor. A educao de um jovem
vassalo consistia no fortalecimento fsico, na habilidade do manejo das
armas, na prtica de cavalgar e caar e no treinamento para os torneios. Essa
preparao militar era a condio fundamental para se tornar um cavaleiro. As
guerras constantes constituam os meios concretos de se aumentar as riquezas,
pela conquista de novos territrios. A sociedade feudal dividia-se em
senhores e servos. Os primeiros administravam seus bens - castelos, armas,
terras, cavalos -, adquiridos pelas guerras, pelos saques, pelas revoltas. Os
segundos cuidavam da produo, lutavam nas guerras e protegiam os castelos
senhoriais.

Mentalidade feudal: senhor de terras, Senhor Deus

  Na Idade Mdia, o pensamento cristo, baseado na crena em um s Deus,
senhor de todo o universo, orientava a vida humana. No entanto, para melhor
conhecer os desejos de Deus, era necessria a mediao da Igreja Catlica
como intrprete "nica e verdadeira" das vontades divinas, pois "s a Igreja
salvaria.

  A Igreja, considerada como a representante dos ensinamentos de Cristo - com
poderes de expulsar demnios, curar doenas, e encarregada de espalhar a
doutrina da salvao -, dirigia o comportamento humano. Na viso da Igreja
medieval, o excedente daquilo que se produzia para a prpria subsistncia
deveria ser "distribudo". E, embora condenasse a usura e a especulao,
durante o perodo feudal foi dona de cerca de dois teros das terras
europias.

  A religiosidade norteava todas as atitudes dos homens daquela poca. Assim,
por exemplo, quando o servo entregava sua produo a seu senhor, estava
doando seu esforo ao Senhor Deus; quando o senhor feudal doava terras ao
Papa e  Igreja, tambm o fazia ao Senhor Deus. E ambos seriam recompensados
por isso. Essa ligao dos homens com o poder divino, por intermdio da
Igreja, caracterizou o teocentrismo. trao marcante do feudalismo.

  As lutas entre povos cristos e povos brbaros (predominantemente
germnicos) comearam no incio da era crist e s diminuram por volta dos
sculos IX e X (801 a 900). Durante esse perodo, iniciou-se uma interao
econmica, poltica, social e cultural entre os dois povos, com o predomnio
do cristianismo sobre os cultos brbaros.
  O resultado dessa aproximao foi um aumento populacional que acabou por
gerar a escassez de alimentos. A produo agrcola insuficiente levou ao
desenvolvimento de um pequeno comrcio de trocas entre os feudos. Mas isso
no foi o bastante para suprir a populao europia. As lutas entre servos e
senhores tornaram-se, assim, constantes. Os servos reivindicavam aumento das
terras para suas necessidades. Os senhores exigiam mais produo.

  Como resolver os problemas que causaram a falta de alimentos? Como evitar a
crise social, isto , as revoltas servis provocadas pela precariedade da
economia? Como impedir o enfraquecimento poltico dos senhores feudais e da
prpria Igreja, que tambm tinha servos nas suas terras?

O objetivo das Cruzadas

  A soluo foi conquistar novas regies fora da Europa. Igreja e senhores
feudais organizaram expedies crists ao Oriente Mdio - as Cruzadas - sob o
pretexto de conquistar a Terra Santa (lugar onde Cristo teria nascido e
vivido), que cara sob o controle dos turcos seldjcidas, seguidores radicais
da religio muulmana.

  At o sculo XI, o mar Mediterrneo foi controlado por rabes e bizantinos.
Os rabes compreendiam vrios povos que ocupavam a Arbia, uma regio do
Oriente Mdio, predominantemente desrtica, com poucas terras frteis. A
principal atividade econmica desses povos era o comrcio, controlado pelas
elites dirigentes das cidades. As contnuas lutas internas prejudicavam em
demasia o comrcio. Ser apenas no sculo VII, com Maom, fundador de uma
nova religio, o islamismo, que ocorrer a unificao dos povos dispersos nos
desertos e nas cidades rabes.

  A expanso do islamismo pelas armas fez com que os rabes ampliassem seu
domnio comercial sobre o Mediterrneo, onde, segundo afirmava um historiador
muulmano, 's crstos no conseguem fazer flutuar sequer uma tbua'. Essa
observao d a exata medida da fora muulmana naquela regio at o incio
das Cruzadas. Os rabes conquistaram todo o Imprio Persa, o Mediterrneo, o
Norte da frica e a Pennsula Ibrica.

  O Imprio Bizantino era o outro objetivo dos movimentos cruzadistas. A
origem de Bizncio remonta a fins do sculo IV, quando ocorreu a diviso do
Imprio Romano: o Oriental, com capital em Constantinopla (antiga Bizncio),
e o Ocidental, que logo chegaria ao fim. Bizncio se transformou no centro de
um poderoso Estado; suas origens romanas foram gradativamente abandonadas,
vindo a predominar cultura grega e asitica. Economicamente, o Imprio se
baseava nas atividades urbanas, como comrcio e manufaturas. Constantinopla
era a intermediria dos produtos comerciais entre o Oriente e o Ocidente.
Atravs de embarcaes bizantinas, produtos como especiarias (cravo e
canela), perfumes, acar, madeiras, pedras preciosas e ouro, vindos da sia
pelo Mar Negro, chegavam ao Mediterrneo e eram redistribudos para a Europa
Ocidental pelas cidades italianas, especialmente Veneza.

  Tanto o Papa quanto o Patriarca (chefe da Igreja bizantina) desejavam
controlar a arrecadao financeira do comrcio nas regies italianas. Essa
disputa, entre outros fatores, levou  ruptura, em 1054, entre Roma (capital
do cristianismo ocidental) e Constantinopla (capital do cristianismo
oriental), que recebeu o nome de Cisma (separao) do Oriente, dando origem a
duas igrejas: a Catlica Apostlica Ortodoxa e a Catlica Apostlica Romana.

Conseqncias das Cruzadas

  O movimento das Cruzadas, a intensificao da atividade mercantil e o
renascimento das cidades tiveram as seguintes consequncias:

 a) a abertura do Mediterrneo ao controle europeu, o que beneficiou
principalmente as cidades italianas (Veneza, Gnova e Florena), que passaram
a exercer o domnio comercial na Europa, com a eliminao de Constantinopla
como intermediria das mercadorias do Oriente;

 b) o abastecimento de madeira, peles, couros, especiarias, acar, ouro,
prata, perfumes, marfim - vindos do Oriente Mdio e da sia, principalmente
de uma regio conhecida como ndia - passou a ser freqente na Europa,
impulsionando definitivamente o seu desenvolvimento comercial;

 c) o contato com outros povos introduziu no continente europeu novas
tcnicas de navegao, alm dos algarismos arbicos (1, 2, 3, ...), que
passaram a ser utilizados em larga escala, facilitando os clculos;

 d) o crescimento de vilas e cidades que se tornavam centros de comrcio,
atraindo servos do campo para a cidade;

 e) o desenvolvimento de uma nova classe social, que no era de proprietrios
de terras nem de trabalhadores servis, mas dedicava-se ao artesanato e ao
comrcio: a burguesia (os habitantes dos burgos).

Crise: terra ou dinheiro?

  Se o sculo XIII representou para a Europa um lento mas seguro
desenvolvimento mercantil, o sculo XIV foi um perodo de crises sucessivas.
Os servos, atrados pelas atividades mercantis, transferiram-se
gradativamente para as cidades, gerando falta de mo-de-obra nos campos. A
agricultura estagnara devido s limitaes das tcnicas de produo. Mais do
que isso, o uso contnuo e excessivo das terras provocava a diminuio da
produtividade agrria. Os resultados no podiam ser outros: fome, desemprego,
revoltas, epidemias.

  Devido a todas essas dificuldades, o sculo Xii marcou o incio da
desarticulao da forma de organizao feudal. A sociedade passou por uma
crise geral, de repercusses irreversveis, cujas causas podemos assim
resumir:

 a) desequilibrio entre produo agrria e consumo de mercadorias, gerado
pela incapacidade de aumentar a produo;

 b) aumento da fome, ocasionando crescimento da mortalidade;

 c) diminuio populacional agravada pelas pestes e epidemias (na metade do
sculo XIV, uma epidemia de peste bubnica, conhecida como a "peste negra",
dizimou um tero da populao europia);

 d) em conseqncia, diminuio do mercado consumidor e da mo-de-obra;

 e) freqncia de guerras entre as regies europias, como a dos Cem Anos
(1337-1453), entre Frana e Inglaterra, e revoltas camponesas (servos), como
a de 1381, na Inglaterra, gerando a desorganizao da produo e do comrcio,
o declnio populacional e o crescimento dos impostos para atender aos gastos
militares.

  Como conseqncias dessa crise geral do feudalismo, temos:

 a) o enfraquecimento dos senhores que formavam as classes nobres, provocado
por disputas econmicas;

 b) o crescimento da burguesia e o fortalecimento de uma organizao poltica
centralizadora para melhor explorar o comrcio;

 c) a associao de interesses mercantis com a centralizao do poder
provocando o apoio da burguesia aos reis (nobres mais ricos e vencedores das
guerras entre senhores);

 d) a nobreza enfraquecida pelas sucessivas lutas lentamente obrigada a
aceitar sua integrao ao Estado Nacional criado pelo apoio da burguesia
mercantil aos reis.

  Do sculo XI ao XIII, a riqueza de um nobre media-se pela quantidade de
terras e servos em suas propriedades. J no sculo XIV, a quantidade de
terras ainda era importante, mas havia necessidade de dinheiro, que poderia
ser obtido atravs de transaes comerciais ou da arrecadao de impostos.
Para aumentar sua riqueza, alguns senhores comearam a se associar com os
burgueses que dominavam o comrcio da regio, desenvolvendo-se assim um
territrio demarcado pelas atividades comerciais e produo agrcola. Nobreza
enfraquecida, crescimeto econmico da burguesia, desenvolvimento do reino e
centralizao do poder nas mos dos reis foram as bases para o surgimento do
Estado Nacional Moderno, dentre os quazs o primeiro a se consolidar foi
Portugal.

468 - A Pennsula Ibrica

O nascimento de Portugal

  A formao do Estado Nacional de Portugal est intimamente ligada 
histria da formao da Espanha. Os pequenos reinos cristos visigticos
formados na Pennsula Ibrica (Espanha e Portugal) foram alvo, durante
sculos, das invases muulmanas. A unificao desses reinos relaciona-se 
reconquista dos territrios dominados pelos muulmanos.

  No sculo VIII os rabes, no seu processo de expanso, controlaram a
Pennsula Ibrica, que passou a fazer parte do grande Imprio Islmico. Do
sculo VIII ao sculo XV, o modelo da economia rabe estimulou o comrcio,
intensificando a vida urbana, e permitindo o desenvolvimento de uma ativa
burguesia composta por judeus, rabes, muladis (cristos convertidos 
religio islmica) e morabes (cristos que se dedicavam  atividade
mercantil, aceitando a dominao muulmana).

  A Guerra de Reconquista faz pane do amplo movimento das Cruzadas, que na
Pennsula Ibrica teve por objetivo retomar os territrios ocupados pelos
mouros (rabes do Norte da frica). A luta, que durou sculos, ajudou a criar
um esprito de nacionalidade entre os cristos ibricos. No sculo XI, quando
se inicia a guerra, unem-se para combater o inimigo comum os reinos de Leo,
Castela, Navarra e Arago. Ao reino de Leo ligavam-se os condados de Galiza
e Portucalense. Este ltimo, no bojo da luta contra os rabes, se tornaria um
reino independente j no sculo XII.

  Vrios nobres europeus, como os fidalgos franceses da casa de Borgonha, -
ajudaram o rei de Leo a expulsar os mouros de seus domnios. Como
recompensa, Rai mundo e Henrique de Borgonha receberam terras e a mo ds
filhas do rei. Raimundo casou-se com dona Urraca e ganhou a Galiza (nome da
Espanha). Henrique casou-se com dona Teresa e herdou o Condado Portucalense.
Ambos deviam fidelidade ao rei de Leo. Com a morte de dom Henrique ( 1112),
dona Teresa assume o poder e procura manter a autonomia do condado.

  No entanto, essa autonomia s foi consolidada por seu filho, Afonso
Henriques que passou a lutar mais decisivamente pela separao do condado em
relao a Leo.

  Aps vrias batalhas, Afonso Henriques consolidou a independncia de sus
domnios, assumindo o ttulo de rei de Portugal em 1139, ttulo esse
reconhecido pelo rei de Leo em 1143 e confirmado pelo Papa em 1179. Os reis
que se seguiram a Afonso Henriques conseguiram manter a autonomia de Portugal
em relao ao reino de Leo, ao mesmo tempo que prosseguiam a luta contra os
mouros. Na defesa da autonomia e consolidao do novo Estado soberano, a
populao portuguesa teve participao decisiva, pois, sem a presena das
classes produtoras (camponeses), os reis no conseguiriam assegurar a
independncia.

  Em meados do sculo XIII, com a expulso dos muulmanos ( 1249), e o fim
das querelas fronteirias com Leo e Castela (1267), Portugal estava de posse
de seu territrio definitivo. Os outros reinos da Pennsula Ibrica, no
entanto, prosseguiriam na luta contra os mouros at o sculo XV, e o Estado
espanhol unificado s se completaria em 1515, com a anexao do reino de
Granada.

Sociedade portuguesa: clero, nobres e povo

 Ao longo dos sculos, o territrio portugus tinha sido ocupado por gregos,
cartagineses (vindos da atual Tunsia,Norte da frica), romanos, povos
germnicos e rabes. No sculo XII, os descendentes desses povos estavam
socialmente divididos em 'grandes ', ou 'imunes ', e 'inidos ', ou "viles
', e "semi-servos". Os grandes - clero e nobreza - eram imunes porque os
rendimentos de seus bens estavam isentos de quaisquer pagamentos aos reis.

 Os homens do clero (padres, bispos, arcebispos) eram os nicos da populao
crist que tinham cultura literria. Eram tambm os mais bem organizados da
sociedade portuguesa. Como a Igreja representava Deus, que estava acima de
reis, nobres e camponeses, o clero tentava sobrepor-se ao poder real. Os reis
fizeram ento uma poltica de conciliao com a Igreja, reconhecendo suas
propriedades, aceitando a cobrana do dzimo e concedendo-lhe o direito de
cunhar moedas.

 Os viles compreendiam vrios grupos sociais. O vilo do campo trabalhava em
qualquer lugar e pelo preo que combinava. O vilo rico do campo tinha
cavalos, armas e roupas adequadas para a guerra, enquanto o pobre fazia o
servio militar a p. O vilo da cidade era o mercador Ao longo dos sculos
XII e XIII, e, principalmente, a partir dos sculos XIV e XV, esses
mercadores constituram as classes burguesas.

 Os servos eram homens ligados  terra. Embora no fossem escravos no podiam
ser vendidos -, os servos faziam parte das terras conquistadas ou doadas pelo
rei a algum nobre. Tinham a subsistncia garantida pelo senhor, mas nada
recebiam por seus servios. No caso de Portugal, os servos, a partir do
sculo XII, foram se transformando em colonos livres, ou semi-servos, pois
passaram a receber dinheiro (moedas) pelo trabalho produzido.

 Essa evoluo foi conseqncia indireta dos constantes ataques rabes, que
obrigavam as populaes portuguesas a organizarem a economia de maneira
centralizada.

 Essa centralizao precoce em relao aos outros reinos europeus colocou o
rei como organizador da economia em Portugal.

 Desde o sculo XII (1101-1200), a carncia de mo-de-obra tornou-se o maior
problema para a produo de alimentos. A soluo encontrada pelo rei foi
transformar o servo em semi-servo ou colono livre, pagando-lhe um salrio de
acordo com sua produtividade e assim evitando que ele se deslocasse para as
regies litorneas, onde poderia se dedicar com vantagem  pesca. Nesse
sentido, o feudalismo portugus fi diferente do das outras regies da
Europa, onde um servo no se confundia com um colono livre.

 Nas terras de propriedade dos reis trabalhavam os rendeiros, isto , homens
que cultivavam a terra em troca de gneros alimentcios e, principalmente, de
dinheiro.

 Os reis estimulavam ainda as feiras, isto , a troca de mercadorias.
Chegavam mesmo a obrigar novos produtores agrrios a comparecerem s feiras,
sob pena de pesadas multas, perseguies e confiscos dos gneros agrcolas.

 Alm disso, os armazns reais, sempre com abundncia de mercadorias,
regulavam os estoques para o consumo. Dessa forma, evitavam-se os problemas
de desequilibrio entre regies mais e menos produtivas. A produo de arroz,
azeite, vinho, trigo e algodo (matria-prima para tecidos) estava integrada
ao esquema de controle de produo/comercializao comandado pelos reis.

Morte de rei provocou revoluo

 Em 1383, com a morte de dom Fernando - ltimo rei da familha dos Borgonha -,
teve incio a crise monrquica em Portugal, que terminaria com a subida ao
trono portugus de outra familia lusitana atravs de uma revoluo.

 Dom Fernando no teve herdeiro varo. Do primeiro casamento com dona Leonor
deles nascera dona Beatriz, que se casou com dom Joo, rei de Leo e Castela.
O monarca castelhano ambicionava anexar Portugal aos seus domnios mas dom
Fernando, antes de falecer, obrigou-o a assinar um contrato de casamento pelo
qual ficava estabelecido que o primeiro filho do casal seria rei de Portugal,
abrindo mo do trono de Castela. Enquanto isso, dona Leonor ficaria como
regente.

 No entanto, dona Leonor aproximou-se demais de nobres lusitanos favorveis 
anexao de Portugal a Castela. Com isso, a burguesia mercantil portuguesa
sentiu-se amea- aada em seus interesses, enquanto o povo lusitano -
semi-servos, viles do campo e da cidade, marinheiros, pescadores - no
aceitava as manobras da regente. O assassinato de um nobre galego ligado a
dona Leonor deflagrou o conflito. A regente fugiu para Castela, onde pediu
ajuda.

 Em praa pblica, o povo aclamou dom Joo, da familia de nobres de Avis
(regio lusitana), como chefe militar para organizar a luta contra Castela. A
guerra entre Portugal e Castela teve seu desfecho em 1385, com a batalha de
Aljubarrota, na qual os portugueses derrotaram os invasores. Um pouco antes,
no mesmo ano, dom Joo fora aclamado rei de Portugal, dando incio  dinastia
de Avis e ao primeiro Estado Nacional moderno da Europa.

 Uma ampla associao de interesses foi a principal causa da consolidao de
Portugal como pas. A burguesia mercantil ficou temerosa de perder as
conquistas comerciais para a burguesia castelhana. O nobre de Avis percebeu
que po deria se tornar rei e construir o mais poderoso Estado da Europa no
sculo XIV. Viles e semi-servos estavam interessados em consolidar as
condies de trabalho. A unio da burguesia mercantil com o rei e sua vitoria
contra a aristocracia (senhores de terras) foi o trao marcante da Revoluo
de Avis.

 A burguesia mercantil e parte da nobreza que apoiou dom Joo criaram as
cortes, isto , uma assemblia formada pelas duas classes vitoriosas para dar
apoio poltico ao rei. Outro objetivo das cortes foi impedir o crescimento de
organizaes populares de viles, semi-servos, marinheiros e pescadores que
pudessem reivindicar maior participao poltica e melhores condies
econmicas e sociais.

Rumo ao mar: expanso ultramarina

 Como foi dito, o feudalismo em Portugal teve caractersticas prprias em
relao ao restante da Europa. Em primeiro lugar o rei centralizava as
decises econmicas estimulando as feiras para trocas comerciais e guardando,
em seus armazns, alimentos para as regies carentes. Com isso, o rei
arrecadava altos impostos, garantido dinheiro para estimular as atividades
mercantis e impulcionar a tecnologia maritima.

 Em segundo lugar a atividade pesqueira lanava os portugueses em direo ao
oceano. Inicialmente, apenas com a pesca da sardinha e a extrao do sal,
depois com a construo de embarcaes maiores, para a pesca de atum e
bacalhau, at chegar, no sculo XV, ao desenvolvimento das caravelas, que
possibilitaram a caa da baleia e a conquista de novas terras.

 Essas peculiariedades feldais associadas  localizao geogrfica do pais,
' beira- mar', plantado, estimularam, a partir do ceculo XIV (1301-1400), o
desenvolvimento das cincias nuticas. A construo de caravelas, o
aperfeioamento do astrolbio (instrumento de medio da altura das estrelas
no horizonte para orientar a navegao e a elaborao de mapas) e da bssola
propiaram a Portugal a abertura do comrcio com a Inglaterra, Frana e Pases
Baixos (Holanda).

 No sculo XV (1401 - 1500), a europa apresentava os sequinte quadro:
crescimento populacional, deslocamento de servos do campo para a cidade,
desenvolvimento urbano, escassez de produtos agrculas e ampliao comercial.
Essa ampliao exigia a expanso em busca de novos mercados produtores e
consumidores.

 O mar Mediterrneo estava dominado econmica e comercialmente pelas cidades
Italianas, em especial Veneza. no Sculo XV uma Europa necessitada de
mercadorias impulsionou Portugal a enfrentar os desafios do oceano para muito
alm das costas Portuguesas, em direo ao sul do Atlntico. Essas viagens
ficaram histricamente conhecidas como as Grandes navegaes. Foi o momento
da expanso ultramarina. A queda de Constantinopla nas mos dos Turcos, em
1453, e o conseqente fechamento da rota terrestre por onde passavam os
produtos vindos do Oriente, estimularam ainda mais a busca de um caminho
martimo para as ndias.

 Os passos foram lentos. A cada nova conquista ou avano sobre o oceano,
somavam-se novas experincias e conhecimentos: 1415 - conquista de Ceuta, na
frica, importante base dos mercadres muulmanos; primeiro porto do
Atlntico fora da Europa. 1416 e 1431- conquista de Madeira e Aores: dois
arquiplagos do Atlntico entre Europa e frica. 1434 - avano sobre o cabo
Bojador: passagem decisiva para a conquista definitiva da frica. 1440 a 1480
- conquista de vrias ilhas, entre elas as de Cabo Verde e Porto -Prncipe, e
regies do continente africano (Guin e Angola). 1487 - o navegador
Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperana no sul da frica: passagem do
Atlntico para o oceano ndico. 1498 - Vasco da Gama chega s ndias. 1500 -
descoberta do Brasil por Pedro lvares Cabral.

 Com a conquista das regies africanas e asiticas e a instalao de postos
comerciais para as atividades mercantis, Portugal tornava-se a nao mais
rica e de comrcio mais organizado e lucrativo de toda a Europa do sculo XV
As Indias representaram conquista significativa aos cofres do rei portugus,
pois de l vinham especiarias, pedras preciosas, marfins, perfumes, acar,
ouro, prata, -tecidos, madeira e porcelana, para suprir as necessidades
econmicas europias.

 A rota das ndias pelo Atlntico era muito mais lucrativa do que pelo
Mediterrneo, que inclua um longo trecho por terra. A primeira viagem de
Vasco da Gama foi exemplar para a economia portuguesa: obteve-se um lucro de
6 000%. Veneza jogava no mercado europeu 420 mil libras de pimenta por ano.
Vasco da Gama, com um navio apenas, jogou 200 mil libras no mesmo mercado. As
viagens pelo Atlntico eram mais longas, mas os lucros compensavam  medida
que as transaes comerciais cresciam.

 Na ltima dcada do sculo XV, Portugal e Espanha eram as duas maiores
potncias econmicas da Europa. A importncia desses reinos pode ser medida
pelo Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 com a aprovao do Papa, em que
ambos dividiram entre si o mundo conhecido ou o que viesse a ser descoberto:
as terras encontradas a leste seriam de Portugal, as terras a oeste, da
Espanha.

A escola de Sagres:

" Navegar  preciso, viver no  preciso :

 Como Portugal conseguiu conquistar uma posio to privilegiada? O que
permitiu o desenvolvimento das grandes navegaes? Que condies culturais e
mentais impulsionaram os portugueses para mares to desconhecidos?

 A partir do sculo XII, a realizao das Cruzadas abriu a possibilidade de
os europeus entrarem em contato com povos diferentes. As viagens pelo
Mediterrneo, as lutas entre catlicos, muulmanos e bizantinos acarretaram
grandes transformaes na vida europia, como o aperfeioamento das tcnicas
de guerra, a mudana de hbitos alimentares, novas palavras no vocabulrio e,
principalmente, o aperfeioamento de tcnicas martimas.

 Ao longo dos sculos XN, XV e XVI, os europeus perceberam que a ajuda divina
e da Igreja no eram suficientes para suas vidas. Era necessrio um esforo
pessoal nos empreendimentos comerciais, na produo agrcola, no domnio da
natureza, no conhecimento de tcnicas martimas. Os homens comeavam a
acreditar em si mesmos. Perceberam que de sua fraqueza diante da natureza
nascia a fora para domin-la. O teocentrismo medieval dava lugar ao
antropocentrismo renascentista: o homem era agora a medida de todas as
coisas, isto , pelas prprias foras ele poderia conquistar o mundo.

 No sculo XV, a criao da Escola Naval de Sagres. pelo infante dom
Henrique, foi um marco decisivo para as navegaes portuguesas no Atlntico.
A Escola de Sagres reuniu os maiores estudiosos do mundo europeu em tcnicas
de navegao e lanou ao mar pelo menos um navio por ano para estudar o
oceano, fazer mapas e anotar as posies das estrelas para guiar os
navegadores.

 As viagens pelo Atlntico eram muito inseguras: todos os tripulantes dos
navios, ao sarem de Portugal, assinavam o livro de bitos. Mesmo assim, os
portugueses colocavam em risco suas vidas, menos pela aventura do mar ou pela
religio, e mais pelas possibilidades de riquezas comerciais.

 A primeira expedio comercial s ndias, sob o comando de Pedro Ilvares
Cabral. em 1500 - encerrando espetacularmente o sculo XV -, foi o marco
definitivo das conquistas portuguesas. Reuniu-se a maior e mais bem
organizada frota para chegar s ndias. A magnitude do empreendimento
ressalta da comparao: enquanto Vasco da Gama levara apenas quatro naus em
sua viagem pioneira e Cristvo Colombo chegara  Amrica com apenas trs -,
Cabral saiu no dia 8 de maro com treze embarcaes e mil e quinhentos
homens. E trazia apenas uma recomendao do rei portugus, dom Manuel:
afastar-se o mximo possvel das guas conhecidas para descobrir um caminho
mais rpido para as ndias.

 Desse afastamento resultou a vista de inequvocos sinais de terra, a 21 de
abril. No dia seguinte pela manh avistaram um monte; como era a semana da
Pscoa, chamaram- no de Monte Pascoal. O porto era seguro. No dia 23 seguiram
os primeiros contornos e descobriram: no estavam nas ndias, porque os
tradutores que conheciam a lngua do Oriente no entenderam o que os
habitantes da terra falavam. Estava descoberta a Ilha de Vera Cruz, depois
Terra de Santa Cruz e, finalmente, Brasil. Decidiram continuar viagem em 1 
de maio para as ndias. Uma nau voltou a Portugal anunciando a nova terra
descoberta.

Na poesia a verdade do "Mar Portugus "

 Mar Salgado, quanto do teu sal So lgrimas de Portugal! Se a alma no 
pequena. Por te cruzarmos, quantas mes choraram, Quantos filhos em vo
rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso,  mar!

 Os versos do poeta portugus Fernando Pessoa revelam a fora do Atlntico
para a vida dos portugueses. O lema da Escola de Sagres e dos navegantes de
mares to desconhecidos e arriscados era: 'Navegar  preciso. viver no 
preciso Navegar era preciso para o enriquecimento do rei e da burguesia
mercantil. Viver no era preciso. Preciso era trazer ouro, prata, diamantes,
canela, cravo, acar para o poder de Portugal, ainda que isso custasse a
vida de muitos navegantes.

   Ouro e comrcio na riqueza da Europa

 No sculo XVI, a Europa passava por grandes transformaes. A atividade
mercantil crescia, forando os reis a organizarem os Estados Nacionais,
atravs de princpios econmicos que aumentassem suas arrecadaes
financeiras. Esses princpios eram:

- a maior quantidade possvel de ouro e prata constituiria a base da riqueza
   de um pas;

- o aumento da exportao de mercadorias permitiria acmulo dos metais
preciosos, ou seja, levaria a uma balana comercal favorvel;

- o protecionismo aos produtos nacionais deveria impedir a entrada de
mercadorias iguais ou semelhantes quelas que o pas possusse;

- a transformao das matrias-primas em manufaturas estimularia o
industrialismo;

- o estabelecimento de colnias para a produo de matrias-primas baratas e
a
   explorao de ouro e prata ajudariam a suprir as necessidades das
metrpoles;

- O Pacto Colonial (as colnias s podiam comerciar com sua metrpole) e a
   criao de Companhias de Comrcio garantiam o monoplio comercial do
sistema colonial. A prtica desses princpios ficou conhecida como poltica
mercantilista
   ou mercantilismo.

    A burguesia comercial era economicamente responsvel pelas transaes
mercantis, cujos lucros fortaleceram o poder dos Estados Nacionais. O lema do
mercantilismo poderia ser: ouro, poder e glria, ou seja, riqueza, domnio e
prestgio... O sistema de governo baseado economicamente no mercantilismo era
o Estado absolutista - o rei, apoiado pela burguesia comercial, centralizava
o poder.

 O comrcio monopolista (exclusivista) promovido pelo rei e burguesia exigia
que estes controlassem suas mercadorias no s em suas naes como tambm em
outras. Essa prtica gerou guerras na disputa de territrios comerciais entre
os pases europeus.

 A conquista de colnias tornava-se essencial para o equilibrio
econmico-financeiro das naes europias, pois as colnias poderiam produzir
as matrias- primas inexistentes nas metrpoles. Alm disso, os territrios
colonizados consumiriam as manufaturas produzidas nas metrpoles.

Colnias de explorao e de povoamento

 Nas colnias de povoamento a economia era organizada para atender aos
interesses dos colonos, que abandonaram seus pases de origem por motivos de
perseguio poltica ou religiosa, ou por condies subumanas de
sobrevivncia.

 No se deve pensar, no entanto, que se tratava de colnias em que
prevaleciam os interesses dos colonizados... Atravs das colnias de
povoamento, o que se visava era a ocupao territorial, ao mesmo tempo que se
tentava resolver os problemas sociais, polticos e econmicos das populaes
pobres da Europa, permitindo-lhe novas alternativas de sobrevivncia.

 Quanto s colnias de explorao, foram organizadas com a finalidade de
suprir a falta de matrias-primas da metrpole. Aqui, a economia obedecia ao
que se costumou denominar de Pacto Colonial, que subordinava integralmente 
metrpole toda transao comercial (exportao e importao) das colnias. Ou
seja, os colonizadores extraam toda a matria-prima possvel das colnias e
as obrigavam a importar seus produtos manufaturados.

 As colnias de explorao fundamentavam sua economia na extrao de metais
ou na produo de qualquer gnero agrrio, de alto valor mercantil, para ser
vendido nos mercados europeus. Produo em latifndio, especializao em um
nico produto agrcola (monocultura), emprego de mo-de-obra escrava eram as
caracte- rsticas desse modelo colonial.

 Entender o modelo de colnias de explorao  fundamental, pois ele
caracteriza todo um conjunto de colnias, exploradas pelos europeus em vrias
regies (frica , sia e Amrica), que permitiriam o crescimento da
acumulao de capitais gerados pelas atividades mercantis monopolistas.

 O monoplio da compra dos produtos coloniais permitia  burguesia mercantil
adquiri-los a preos baixos. Os lucros eram enormes, pois essas mercadorias
eram vendidas a preos vantajosos no continente europeu.

 As prticas mercantilistas deram origem  economia pr-capitalista, que se
de- senvolveu principalmente nos sculos XVI, XVII at fins do sculo XVIII.
A acumulao de capitais comerciais pelas prticas dos mercantilistas foi
responsvel pela transio do processo produtivo de manufaturas para o
desenvolvimento industrial, caracterstico da economia capitalista.

Acar: o ouro do Brasil Oriente lucrativo

 Portugal era um exemplo desse modelo mercantilista. A partir da viagem
lucrativa de Vasco da Gama, em 1498, os navegadores portugueses estabeleceram
acordos com mercadores da ndia para obter a exclusividade no comrcio das
especiarias. Atravs de guerras colonialistas os portugueses conseguiram
garantir o comrcio dos produtos orientais. Ouro da frica e do Oriente,
escravos africanos para a produo aucareira das ilhas do Atlntico, artigos
de luxo (perfumes, sedas, tapetes) do Oriente, socorro  escassez de cereais
do reino portugus e da Europa eram alguns objetivos lusitanos no incio do
sculo XVI.

 Nos primeiros trinta anos aps a descoberta do Brasil, Portugal
desinteressou-se pela Terra de Santa Cruz e quase a abandonou, pois as
especiarias e as manufaturas de luxo do Oriente eram mais lucrativas.

 Homens e dinheiro eram decisivos para o domnio militar e o combate aos
rabes no controle comercial do Oriente. Isso fazia com que pouco sobrasse
para investir na nova terra.

 Alm disso, os portugueses no haviam encontrado no Brasil nem ouro nem
prata, ou outro produto que pudesse ser comercializado no mercado europeu.
Mesmo assim, houve vrias expedies de reconhecimento do litoral brasileiro.
Numa delas, os navegadores descobriram grande quantidade de pau-brasil na
Mata Atlntica.

 Essa madeira j era conhecida pelos europeus, que a utilizavam como corante
na indstria txtil. At ento, o produto vinha do Oriente. O rei de Portugal
firmou um contrato com mercadores para a explorao do pau-brasil nas novas
terras.

 O Estado portugus comprometeu-se com os mercadores a no importar mais
pau-brasil do Oriente. Em troca, eles deveriam enviar navios ao Brasil,
construir e manter aqui uma fortaleza e pagar impostos  Coroa. Assim
nasceram os 'brasileiros" - nome dado aos comerciantes do pau-brasil.

Brasil: ocupao ou perda?

 Depois que os espanhis encontraram ouro e prata em suas possesses nas
Amricas, a Frana resolveu tambm enviar navios ao Brasil e aqui disputar
com Portugal a procura de metais preciosos.

 As expedies francesas ao litoral brasileiro provocavam protestos dos
portugueses, que reclamavam o acordo estabelecido no Tratado de Tordesilhas.
O rei da Frana - Francisco I - respondeu ao rei portugus que a Frana
deixaria o litoral do Brasil se Portugal apresentasse o "Testamento de Ado",
em que constasse a doao das terras do Novo Mundo aos espanhis e
portugueses...

 Diante de tais ameaas, Portugal decidiu-se, a partir de 1530, a ocupar
economicamente o Brasil, colonizando-o. Alm das ameaas europias ao Brasil,
o comrcio das especiarias-no Oriente estava enfraquecendo. A concorrncia de
outras naes da Europa, os altos custos militares e de transporte, a enorme
distncia entre a ndia e Portugal e principalmente a diminuio dos lucros
mercantis foram os fatores decisivos para os lusitanos optarem pela
explorao comercial da colnia brasileira. Por ordem de dom Joo III, a
expedio de Martim Afonso de Sousa ao Brasil, em 1530, visava expulsar os
franceses do litoral, observar e relatar cuidadosamente as caractersticas
geogrficas da nova terra e fundar povoamentos. So Vicente (no atual litoral
paulista) foi a primeira vila brasileira, fundada em 1532. Aps o relatrio
de Martim Afonso, que mostrava a viabilidade da colonizao, e tendo em vista
a falta de capital da Coroa, o rei decidiu entregar as despesas da
colonizao  iniciativa privada.

 A diviso da terra em capitanias hereditrias foi o esquema encontrado pela
Coroa portuguesa para a ocupao colonial. Eram quinze faixas lineares de
terras, entregues a doze proprietrios, incumbidos de montar engenhos de
acar, de pagar ao rei um quinto dos metais preciosos encontrados, e, em
troca, o donatrio (proprietrio da capitania) poderia vender pau-brasil e
ndios em Portugal. A posse da terra era garantida pela Carta de Doao e
pelo Foral.

 Os donatrios eram capites com poder de fazer leis, administrar a produo
e a renda das capitanias. Esses poderes eram bastante amplos; no entanto, o
sistema de capitanias no foi feudal, a mo-de-obra era escrava e a produo
visava o mercado externo. A economia da colnia funcionava de acordo com o
comrcio internacional.

 O sistema de capitanias hereditrias foi adotado no Brasil devido ao xito
obtido com um esquema semelhante na produo de gneros agrrios nas ilhas de
Aores, Madeira, Cabo Verde, Porto Prncipe e em Angola (todos territrios
portugueses no Atlntico). No Brasil, as capitanias tiveram pouco resultado.
A falta de recursos financeiros foi a principal causa do fracasso; de resto,
a maioria dos donatrios nem veio ao Brasil para assumir a colonizao.

 O fracasso das capitanias determinou a necessidade de substituir a poltica
descentralizada por um centro de unidade poltica e administrativa. Assim, em
1548, foi criado o Governo Geral. Tom de Sousa foi o primeiro governador,
com a funo primordial de ajudar os capites donatrios na produo
agrcola. Ao governador geral cabia tambm combater tribos indgenas rebeldes
aos colonizadores, realizar buscas de jazidas de ouro e prata pelo interior e
construir navios para a defesa territorial.

 Os governadores gerais pouco puderam fazer para estimular a produo e
defender as terras brasileiras, dada a enorme extenso territorial e os
parcos recursos financeiros que a Coroa enviava.

 O poder de fato estava nas mos dos proprietrios de terras - os chamados
senhores coloniais -, donos das fazendas de acar, movidas a trabalho
escravo.

 Essa classe social detinha, na prtica, o poder local atravs dos
municpios, organizados em cmaras. Nestas, reuniam-se os 'homens bons", isto
, homens de propriedades, para as decises polticas, administrativas e
econmicas do municpio. Nelas ainda se decidia sobre a declarao de guerra
e paz com ndios, arrecadao de impostos, catequese, abastecimento de
mo-de-obra escrava (negros e ndios) para as fazendas.

xito aucareiro garante colonizao

 A deciso de colonizar a nossa terra estava intimamente associada  escolha
do cultivo de um gnero agrrio que trouxesse elevados lucros  Coroa. A
ausncia de metais preciosos, os baixos recursos obtidos com a extrao do
pau-brasil e o decl- nio do comrcio de especiarias no Oriente exigiram uma
opo agrcola lucrativa. O acar foi a escolha portuguesa para o projeto
colonizador.

 A produo aucareira oferecia vrias vantagens:

 a) as boas experincias produtivas dos portugueses com o acar cultivado
nas ilhas de Aores e Madeira;

 b) o pequeno tempo gasto entre a produo e a comercializao do produto, em
relao aos outros gneros, permitia que o capital empregado, embora elevado,
tivesse retorno rpido;

 c) o mercado europeu era garantido porque no haveria concorrentes;

 d) a grande quantidade de terras disponveis no Brasil, com solo tipo
massap favorvel a essa cultura.

 A organizao da produo aucareira obedeceu ao esquema de plantation:
produo agrcola baseada no latifndio (grande propriedade), monocultura
(somente produo de acar), com mo-de-obra escrava, voltada exclusivamente
para o mercado externo.

Negro: caado como animal para o trabalho escravo

 A mo-de-obra escrava constituiu outro fator de lucratividade para a
burguesia mercantil metropolitana. O negro africano era vendido como
mercadoria e as classes burguesas traficantes obtiveram com ele altos
rendimentos.

 Como o objetivo da colonizao no era favorecer o desenvolvimento de um
mercado interno, o uso da mo-de-obra escrava cumpria a finalidade
mercantilista: produzir para o mercado externo, em benefcio da metrpole.

 O negro ou era caado como animal pelos comerciantes portugueses com o uso
da violncia ou trocado com os chefes das tribos por produtos de pouco valor,
como fumo, armas de fogo etc.

 Nos pores dos navios negreiros (os chamados tumbeiros) a viagem era
difcil, havia pouca comida (em geral, banana e gua). Eram comuns as
epidemias, que chegavam a matar metade dos prisioneiros.

 A vida dos negros nas colnias era ainda mais cruel que as viagens.
Submetidos, em mdia, a catorze horas de trabalho dirio, poucos sobreviviam
mais que cinco a doze anos. Plantio da cana, colheita, moagem eram as
atividades cotidianas. "Os negros so as mos e os ps dos senhores de
engenho." Essa frase do jesuta Antonio - que escreveu sobre as condies
sociais, econmicas e polticas do perodo colonial - expressa a dependncia
total que os proprietrios dos engenhos tinham em relao aos escravos
africanos.

Acar, o negcio dos flamengos

 A montagem do empreendimento aucareiro no Brasil contou com o financiamento
dos holandeses, pois a burguesia mercantil lusitana estava em crise
financeira em decorrncia do declnio do comrcio de especiarias, nas
primeiras dcadas do sculo XVI. No havia disponibilidade de capitais para
bancar a empresa agrcola aucareira. Ento, maquinaria para os engenhos
(moenda - conjunto de peas de ferro para triturar o acar), instrumentos
como a enxada e a foice, bem como o trfico de negros, eram financiados pelos
flamengos (holandeses).

 A Portugal ficava a tarefa de produzir o acar na colnia brasileira. O
acar saa daqui na forma de rapadura ou melao.

 Comerciantes portugueses vendiam esse acar para os batavos (holandeses),
que executavam o refino do melao (transformao em p, acar mascavo),
comercializavam e distribuam o produto na Europa.

 Assim, as tcnicas de produo do acar eram dominadas pelos portugueses,
mas o refino e o domnio comercial dos mercados europeus pertenciam aos
holandeses. Como, pelas leis mercantilistas, a atividade comercial era muito
mais lucrativa que a atividade produtora, podemos afirmar que "o negcio do
acar foi, em resumo. mais flamengo que portugus'. (Eduardo Galeano, As
veias abertas da Amrica Latina)

 Em 1578, dom Sebastio, o rei de Portugal, desapareceu numa batalha contra
os muulmanos, em Alccer-Quibir, territrio africano, e deixou vago o trono
lusitano. Filipe II, rei da Espanha e primo de dom Sebastio, reclamou a
herana da Coroa portuguesa. No entanto, subiu ao trono de Portugal o cardeal
dom Henrique, tio de dom Sebastio e de Filipe II. Tropas espanholas
invadiram Portugal e depuseram dom Henrique. Em 1580, Filipe II proclamou a
Unio Ibrica.

 A unio de Portugal  Espanha durou sessenta anos (1580-1640). A Unio
Ibrica, sob o reinado de Filipe II, proibiu a venda do acar brasileiro
para os holandeses. Proibia-se tambm aos flamengos realizarem qualquer
atividade mercantil em portos portugueses de todo o mundo. Tropas espanholas
controlaram com a fora das armas os portos de Portugal, para impedir as
possveis transaes comerciais holandesas.

 A burguesia flamenga reagiu: contratou piratas para realizar
ataques-surpresa s tropas luso-espanholas, visando romper o bloqueio
econmico da Unio Ibrica.

 Alm disso, os holandeses criaram duas companhias de comrcio: a Companhia
das ndias Orientais e a Companhia das Indias Ocidentais. A primeira se
encarregava do comrcio na Malsia e nas Ilhas Molucas (ambas na sia). As
atividades da segunda voc conhecer a seguir.

Brasil holands

 Apesar da reao flamenga, o embargo espanhol conseguiu desmantelar o
comrcio aucareiro holands na Europa. Por isso, a Holanda decidiu invadir o
Brasil: tentava buscar o acar diretamente na fonte produtora, a fim de
recuperar seu comrcio.

 A primeira invaso, realizada sob a responsabilidade da Companhia das ndias
Ocidentais, ocorreu em Salvador, na Bahia, no ano de 1624.

 O bispo dom Marcos Teixeira, no entanto, organizou a resistncia: mobilizou
a populao de negros, ndios e brancos pobres, convencendo-os a lutar contra
o invasor "protestante, infiel e satnico".

 Os holandeses perceberam que dominar a capital da colnia (Salvador) no
garantiria a retomada do comrcio aucareiro, pois o centro econmico da
colnia no era a Bahia, mas Pernambuco. Por isso, a segunda invaso
aconteceu em Pernambuco (Recife e Olinda), a maior regio de produo
aucareira, em 1630.  possvel distinguir trs fases nessa invaso:

 1630 a 37 - fase da conqusta

 1637 a 44 - fase da acomodao

 1644 a 54 - fase da expulso

 Na fase da conquista, os holandeses enfrentaram resistncias dos colonos,
mas obtiveram a ajuda do portugus Domingos Fernandes Calabar, que levou os
flamengos a obter importantes vitrias.

 Na fase da acomodao, a administrao holandesa ficou a cargo do conde
Mauricio de Nassau, que ofereceu aos proprietrios de engenho emprstimos
para recuperarem as plantaes, maquinaria e escravos. Nassau soube conviver
com os colonos catlicos, autorizando construes de igrejas e respeitando
seus dias sagrados. Promoveu tambm construes de palcios, pontes, alm de
trazer cientistas europeus com o objetivo de estudar a terra tropical para
melhor dominar as diferenas geogrficas e econmicas, tornando mais
eficiente a explorao do Brasil. Nassau procurou uma convivncia pacfica
com os colonos, conforme convinha aos objetivos da Companhia das ndias
Ocidentais, da qual era um dos investidores. A habilidade poltica de Nassau
como governador teve como resultado a retomada da produo a nveis melhores
que os da fase de conquista, conseguindo assim aumentar as reas de
plantao.

 A partir de 1640, Portugal, auxiliado pela Inglaterra, recuperou a autonomia
em relao  Espanha, aps sucessivas guerras. Os ingleses estavam
interessados em monopolizar o fornecimento de manufaturas aos portugueses.

 O rei portugus assinou, ento, um acordo com os holandeses, permitindo-lhes
permanecerem no Brasil por mais dez anos (at 1650). Em troca, os holandeses
continuaram a financiar a produo do acar.

 Entretanto, comea a haver, nessa poca, um declnio da economia holandesa ,
cuja causa principal foi a guerra entre catlicos (sob a liderana da
Espanha) e protestantes (liderados pela Holanda). Na verdade, essa luta,
aparentemente motivada por razes religiosas, nasceu como disputa entre a
nobreza feudal (catolicismo espanhol) e a burguesia (protestantismo
holands). O conflito durou de 1618 a 1648

 Por isso recebeu o nome de "Guerra dos 30 anos". Nesse perodo
intensificou-se a luta holandesa pela conquista defmitiva da independncia em
relao  Espanha.

 A Holanda buscou obter o mximo de recursos financeiros para enfrentar a
crise: elevou a produo e os impostos aucareiros, no tolerou atraso no
pagamento dos emprstimos e aumentou os juros dos emprstimos aos colonos
brasileiros, governados por Nassau. O governador holands sabia dos problemas
de produo, equipamentos e capitais dos senhores de engenho. Havia muitas
dificuldades na colnia , apesar da confiana e do crdito pessoal
conquistados por Nassau ao longo dos sete anos de administrao colonial no
Brasil. Entretanto, as novas exigncias da Holanda impossibilitavam a Nassau
a manuteno de sua habilidosa poltica de convivncia com os colonos.
Alertou ento os holandeses, mostrando que a nova orientao econmica
provocaria lutas armadas dos colonos contra os flamengos.

Expulso e crise

 A fase de expulso dos holandeses iniciou-se com a sada de Nassau do
Brasil. Uma junta de trs holandeses substituiu-o na administrao da
colnia. A junta seguiu as orientaes recusadas por Nassau. O resultado
deste procedimento foi a reao imediata dos colonos, organizando resistncia
armada e conseguindo a expulso dos holandeses. Em 1654, a Holanda aceitou a
perda da guerra, assinando a rendio da Campina da Taborda.

 Mais tarde, em 1661, os holandeses assinaram o acordo da Paz de Haia,
reconhecendo o domnio portugus sobre o Nordeste brasileiro e a regio
africana de Angola. Em troca, os portugueses aceitaram a dominao holandesa
em suas possesses do Oriente e pagaram uma indenizao de quatro milhes de
cruzados (moeda portuguesa)  Holanda.

 A Inglaterra, que j se impunha como nova potncia martima, serviu de
intermediria nos acordos entre flamengos e lusitanos. Com isso, passou a
influenciar Portugal, com quem estabeleceu uma aliana econmica e poltica.
Atravs dessa aliana, a Inglaterra torna-se o principal fornecedor de
manufaturas inglesas s colnias portuguesas. Quebra-se o domnio comercial
holands e os britnicos substituem os flamengos enquanto grande potncia
pr-capitalista.

 Em troca do apoio a Portugal ; a Inglaterra ficou com os domnios
portugueses de Tnger (frica) e Bombaim (Asia), e a permisso para o
trnsito de mercadores ingleses no comrcio portugus da ndia. Por esse
acordo, que culmina com o casamento entre a princesa Catarina (portuguesa) e
o rei Carlos II (ingls), Portugal recebeu da Gr-Bretanha dois milhes de
cruzados, suficientes para quitar metade da indenizao prometida  Holanda.
Pela outra metade, os portugueses tiveram de pagar juros em libras aos
britnicos.

 A partir do sculo XVII, aps a expulso dos holandeses, o Brasl tornou-se
a mais importante colnia portuguesa. Isso porque a Coroa lusitana perdera
pontos comerciais importantes nos acordos com a Holanda e a Inglaterra, tendo
que voltar- se integralmente  explorao econmica na colnia brasileira.

 A partir da segunda metade do sculo XVII, os holandeses levaram a
tecnologia da produo de acar, aprendida no Brasil, para seus domnios nas
Antilhas (ilhas do Caribe), na Amrica Central e na Guiana Holandesa
(fronteira com o Amazonas). O acar brasileiro passou a ter como concorrente
o acar flamengo. mais barato, porque os holandeses no dependiam de capital
estrangeiro, o que ocorria com Portugal em relao ao capital ingls.

 Alm disso, os preos do acar sofreram uma queda geral no continente
europeu, provocada pela diminuio da atividade das minas de ouro e prata na
Amrica espanhola. Como resultado, faltavam moedas no mercado, o que levou ao
declinio da produo aucareira do Brasil.

Serto: os caminhos do gado O gado penetrava e ocupava o interior

 A economia agroaucareira foi a base da colonizao na Amrica portuguesa,
nos sculos XVI e XVII, e o gado dava sustentao local ao acar. A criao
bovina foi um dos fatores decisivos para a penetrao e conquista do interior
brasileiro - especialmente o Nordeste.

  possvel distinguir trs fases da pecuria colonial. A primeira iniciou-se
logo aps a Descoberta, em 1533, estendendo-se at o comeo do sculo XVII.
Engenho e curral faziam parte do latifndio canavieiro. O gado alimentava a
populao das fazendas e era usado como fora de trao na moagem da cana,
alm de transportar as caixas de acar aos locais de embarque no litoral.

 A segunda fase inicia-se nas primeiras dcadas do sculo XVII, com a
necessidade de mais terras cultivadas para atender ao crescimento da produo
aucareira. A criao de gado amplia-se rumo ao interior, alm dos limites
agrcolas. Isso ocorreu desde as primeiras dcadas do sculo XVII at por
volta de 1660. Nessa poca diminui a produo canavieira, provocada pela
concorrncia do acar antilhano-holands, e o gado comea a ser uma
alternativa econmica para a crise.

 A caracterstica marcante dessa etapa  a separao, na mesma fazenda, entre
as reas de cultivo e as de pecuria. A terceira fase caracteriza-se por uma
separao definitiva entre a pecuria e a agricultura. A atividade de criao
de gado interiorizou-se pelo seno. Ampliam- se os rebanhos e as pastagens,
marcando duas reas bem distintas: enquanto o serto era pastoril, o litoral
era agrcola. Apareceram as feiras de gado localizadas entre as reas
pastoris e as reas agrcolas.

 Os sertanejos levavam sua produo s feiras que, com o tempo, foram-se
trans- formando em cidades. Esse perodo vai da segunda metade do sculo XVII
at fins do sculo XVIII.

 Enfrentando pastos escassos, curtos perodos de chuva, clima quente e seco,
o gado penetrava o interior, ocupando as regies dos futuros Estados
brasileiros.

 Duas correntes de penetrao partiram dos principais centros de atividade
aucareira: a baiana, formando os contornos dos cinco "sertes de dentro" uma
rea correspondente aos atuais Estados da Bahia, Cear, Piau e Maranho. A
corrente pernambucana acaba formando os "sertes de fora", a regio que hoje
corresponde aos limites dos Estados da Paraiba, Rio Grande do Norte,
Pernambuco e parte do Ceara e Piau. Essas correntes seguiam o curso dos
rios, para proviso de gua.

 Em Alagoas, Cear e, principalmente, no Rio Grande do Norte, desenvolveu-se
o extrativismo do sal, criando uma outra opo econmica no sculo XVIII para
os nordestinos,  desse perodo do sculo XVIII a criao da 'carne-do-cear'
isto , da carne-seca, ou carne-de-sol, charqueada no sal ou no sol.

 O charqueamento da carne contribuiu para a penetrao no interior da colnia
pois possibilitava percorrer distncias maiores. Os homens poderiam saciar a
fome durante vrios dias, porque as carnes charqueadas conservavam-se por
longos perodos. Esse fato permitiu o surgimento de uma outra atividade
comercial voltada para o mercado interno, no qual se integrava a economia da
minerao.

A era do couro.

 Estabelecer um curral de gado exigia o trabalho aproximado de oitenta
vaqueiros. Era necessrio amansar os bois para acostum-los s pastagens.
Depois disso, apenas dez pees chefiados por um vaqueiro davam conta do
trabalho de ferrar os bezerros, tirar-lhes as bicheiras, realizar as
queimadas dos campos na estao apropriada, matar onas, cobras, lagartos,
morcegos, abrir bebedouros.

 A necessidade de pequenos investimentos, pouca mo-de-obra, pequenos esforo
na ocupao da terra por causa da vegetao tpica pouco abundante explicam o
grande desenvolvimento da pecuria no Brasil. Por essas razes, proprietrios
das fazendas aucareiras, falidos pela decadncia do acar, tornaram-se
fazendeiros de gado.

 A atividade pastoril nordestina passou, de simples economia complementar 
aucareira, a uma economia de exportao do couro de boi para a Europa. Era a
poca do couro, matria-prima com que o sertanejo nordestino do sculo XVIII
confeccionava inmeros utensilios: cama, roupas, cordas, cantis etc. Nesse
perodo o Brasil chegou a ter 1300 000 cabeas de gado vacum (destinado ao
corte, isto   alimentao) com um abate anual de 55.000 cabeas. '

 A pecuria sulista teve desenvolvimento semelhante  nordestina: poucos
recursos financeiros e pequena necessidade de mo-de-obra. A diferena era a
quali- dade superior da vegetao sulina que permitia um gado de melhor
qualidade e maior quantidade.

 As fazendas sulinas de gado, chamadas estncias, formaram-se com a domesti-
cao dos bois dispersos e selvagens que haviam sido trazidos pelos
portugueses e espanhis.

 Couro e sebo dos bois sulinos e nordestinos eram exportados para a Europa.
Os pecuaristas do Sul vendiam tambm s Minas Gerais cavalos, muares (mulas)
e gado bovino, para o transporte do ouro at o litoral fluminense (Rio de
Janeiro) e para a alimentao.

As "drogas" do Amazonas

 A integrao da regio Amaznica  colonizao portuguesa no Brasil
realizou-se durante a Unio Ibrica (anexao de Portugal  Espanha, de 1580
a 1640 perodo em que o Tratado de Tordesilhas era letra morta. Franceses,
ingleses e holandeses subiam o rio Amazonas em direo s minas de ouro
peruanas. Logo aps a restaurao portuguesa (separao de Portugal em
relao  Espanha), os lusitanos organizaram expedies para dominar o
Amazonas - instalando feitorias ao longo do rio.

 Dois objetivos se completavam na penetrao amaznica pelos portugueses:
militar e econmico. Defendendo o rio Amazonas, tropas sulistas expulsaram
franceses, holandeses e ingleses, ao mesmo tempo que exploravam as drogas do
serto - cravo, canela, castanha-do-par, fumo, salsaparrilha (tempero),
essncias de perfume, urucum (planta utilizada pelos indgenas para pintar o
corpo e tambm para tempero) e guaran -, vendidas a altos preos nos
mercados europeus.

 Com a ocupao da Amaznia, ultrapassava-se a "linha" norte de Tordesilhas
os bandeirantes iriam anul-la ao sul.

Bandeirantes: caa aos ndios e busca do ouro Vicentinos: pobreza e produo
de subsistncia.

 A capitania de So Vicente prosperou pouco desde sua fundao em 1532. Um
ano mais tarde (1533) ali foi erguido o primeiro engenho de acar do Brasil
(o Engenho do Bom Governador). A prpria Coroa portuguesa financiou a
instalao da produo aucareira na regio. O objetivo do Estado portugus
era a descoberta de caminhos que levassem s minas espanholas da Bolvia e do
Peru pelos afluentes do rio da Prata. No entanto, o ouro no foi encontrado e
a produo aucareira no progrediu dada a concorrncia com a produo
aucareira de Pernambuco e Bahia. Trs motivos fundamentais impediram o
progresso de So Vicente. Primeiro, a longa distncia da capitania vicentina
at os mercados europeus. Em segundo lugar, a terra era imprpria para a
agricultura. Alm disso, So Vicente era alvo constante da pirataria
martima.

 A pobreza vicentina forou seus habitantes a novos empreendimentos. Assim,
surgiram as bandeiras, isto , grupos de homens organizados em expedies
militares particulares, com objetivos de penetrao pelos sertes  procura
de metais preciosos, ndios e negros foragidos dos engenhos. Os seguidores
das bandeiras chamavam-se bandeirantes.

A busca de novas alternativas

 Desde a segunda metade do sculo XVI, iniciou-se o ciclo do ouro de lava-
gem. Descobriu-se ouro na prpria capitania de So Vicente e depois em
Iguape. Os bandeirantes seguiram pelo litoral, encontrando ouro no Paran e
Santa Catarina. Nessa busca ao metal, as bandeiras colonizaram a regio
paranaense, fundando as vilas de Paranaqu, Nossa Senhora do Desterro (hoje
Florianpolis) e Laguna, na regio catarinense, no sculo XVII. A explorao
aurfera exigia uma regulamentao, e o governo lusitano decretou o Cdigo
Mineiro, no incio do sculo XVIII. Por esse cdigo ficou estabelecido que a
quinta parte do ouro extrado era da Coroa portuguesa e, ainda, exigiu que o
metal fosse fundido em barras em casas especiais, autorizadas pelo governo em
Lisboa, para evitar o contrabando.

 Elemento essencial  penetrao dos bandeirantes pelo interior da colnia, o
ndio servia como guia na mata, em busca de pedras e metais preciosos. Alm
disso, senhores de engenho contratavam os bandeirantes para trazer-lhes
braos indgenas usados no trabalho agrcola. A busca dos nativos era feita
principalmente nas misses jesuticas. isto , em regies controladas pelos
padres que realizavam a catequese ensino da doutrina crist -, pois l os
ndios j estavam "docilmente domsticos" para a explorao escravocrata.

 No segundo cclo dos bandeirantes. de 1617 a 1641 (sculo XVIn, o monoplio
do comrcio de escravos para o Brasil era feito pela Holanda, que se apossara
de territrios coloniais portugueses na frica e vendia os negros a altos
preos. A essa questo financeira, associaram-se as invases holandesas no
Brasil, de 1624 e 1630, e desorganizou-se o trfico negreiro. Da a opo
pela escravido do indgena, que passou a ser uma mercadoria altamente
valorizada.

 Os conflitos entre os missionrios indgenas e bandeirantes foram violentos.
Outra prtica dos vicentinos era estimular a guerra entre tribos indgenas
inimigas. Os perdedores nos conflitos eram escravizados.

 Com a restaurao do trono portugus e a reconquista de domnios portugueses
na frica que estavam em mos holandesas, reinicia-se o abastecimento da
mo-de- obra negra nas lavouras brasileiras. Alm disso, a crise da produo
aucareira portuguesa, em decorrncia da produo aucareira das Antilhas
flamengas, levou  queda do preo do escravo ndio. Todos esses fatores,
aliados  escassez do ouro de lavagem, levaram os bandeirantes  se
desinteressar pela caa ao ndio, trocando-a pelo sertanismo de contrato, que
ocorreu desde fins do sculo XVI at o sculo XVIII.

 Nessa atividade, os bandeirantes eram contratados por senhores de engenho,
proprietrios, pecuaristas e governadores, para reprimirem as tribos
indgenas resistentes  escravizao e os negros foragidos das fazendas, os
quais se organizavam em quilombos - aldeias negras de ex-escravos que se
rebelavam contra a escravido.

 As tribos indgenas lutavam contra a expanso das plantaes de acar e da
pecuria em suas terras nativas. Em relao aos quilombos, os conflitos entre
negros e brancos podem ser vistos como lutas da classe escravista pela
libertao. Os conflitos foram violentos, o que provocou o extermnio de
sociedades tribais indgenas e comunidades quilombolas.

Entradas: nenhum ouro nas exploraes

 Havia outra forma de penetrao do interior brasileiro que "rompia" a linha
de Tordesilhas, ou seja, desrespeitava o tratado de 1494, pelo qual as terras
da Amrica se dividiam entre os espanhis e os portugueses.

 Eram as entradas: expedies oficiais que, do sculo XVI ao XVIII, o governo
portugus organizou. Com pequeno nmero de participantes, as entradas partiam
da costa atlntica e penetravam na mata, com a finalidade de reconhecer o
territrio e localizar pedras e metais preciosos.

 As entradas serviram para ajudar o reconhecimento do serto, especialmente
na Amaznia; no entanto, todas elas fracassaram no seu principal objetivo:
no encontraram ouro.

 Foram expedies de bandeirantes, no final do sculo XVII, que localizaram
as jazidas de ouro e prata na regio das Minas Gerais. O bandeirante Antnio
Rodrigues Arzo  mencionado no relatrio do governador do Rio de Janeiro ao
governo real lusitano (1695) como sendo o descobridor das minas aurferas na
regio de Ouro Preto e Mariana.

A febre do ouro Burocracia para o controle do ouro

 As descobertas aurferas em Vila Rica (Ouro Preto), Ribeiro do Carmo
(Mariana), Sabarabuu (Sabar) provocaram profundas transformaes na
economia colonial.

 Em primeiro lugar, o centro econmico da colnia deslocou-se do Nordeste
para o Sudeste, isto , para as Minas Gerais. A corrida ao ouro atraiu
senhores dos engenhos nordestinos decadentes, homens e mulheres das cidades,
vilas, sertes. Portugal tambm foi atingido pela febre brasileira do ouro.

 Cerca de quatro mil pessoas chegavam anualmente s regies aurferas, a
partir de 1695. Falava-se na poca que metade da populao portuguesa viera
ao Brasil atrada pelo metal amarlo. Talvez fosse exagero, mas em 1720, o
governo portugus restringiu fortemente a emigrao para a colnia lusitana
na Amrica. Para emigrar, era necessrio passaporte fornecido pelo governo
real.

 A Intendncia das Minas. o organismo administrativo criado pelo governo
lusitano para controlar a produo aurfera, regulamentava a explorao da
rea, dividindo-a em datas. Essas datas eram propriedades de terras de at
trinta braas. O descobridor do filo ficava com o direito de explorar as
duas datas mais prximas do veio, ao rei cabia a data seguinte e ao
guarda-mor (delegado militar nomeado pelo rei) pertencia a quarta data.

 O restante das datas era soneado. Os participantes do soneio tinham de fazer
um pedido ao superintendente (supervisor-executivo, tambm nomeado pelo rei)
oferecendo seus lances no leilo aurfero. Os grandes proprietrios de
escravos obtinham maior nmero de datas. O Regulamento da Intendncia impunha
entre quarenta a cem dias para iniciar a explorao. Passado esse perodo sem
que se iniciasse a produo, o explorador perdia o direito e a intendncia
fazia novos sorteios.

 O ouro de aluvio  o tipo caracterstico da regio das minas. Aluvies so
depsitos de areia e barro, encontrados nos rios e barrancos. As pepitas de
ouro ficavam nos leitos dos rios, bastando apenas uma peneira para lav-las e
separ-las de outros minerais sem valor e do barro que as encobria.

 Os depsitos de minrios preciosos eram extensos e, como ficavam a pequenas
profundidades, sua extrao no exigia grandes investimentos.

 Para essa atividade, organizaram-se as faisqueiras, mineradores isolados ou
grupos formados por um minerador e quatro ou cinco escravos. Algumas vezes, o
minerador estabelecia uma quota de produo para o escravo, permitindo que o
excedente ficasse com ele. Dessa maneira, alguns escravos conseguiram obter
sua liberdade.

 Para atingir as veias aurferas mais profundas, organizaram-se as lavras.
isto , empresas que utilizavam equipamentos e mquinas hidrulicas, chegando
a desviar leitos dos rios para encontrar o ouro. Empregavam mo-de-obra
escrava, alguns at cem indivduos. Essa organizao teve seu perodo ureo
enquanto a produo era abundante. Com a decadncia, aumentou o nmero de
faiscadores, pois as lavras exigiam elevado capital e alta produo.

 Todas essas unidades eram muito especializadas (as pessoas envolvidas com a
minerao dedicavam-se exclusivamente  procura do metal precioso), exigindo
a presena de outros setores que se dedicassem  produo de bens e servios.
Desenvolveu-se, assim, em pleno sculo XVIII, um incipiente mercado interno
em torno das Minas Gerais.

O Brasil produz para as minas

 reas tradicionalmente produtoras para o mercado externo, como Bahia e
Pernambuco, passaram a fornecer mercadorias s regies mineradoras. At as
capitanias de So Vicente e So Paulo, que produziam para a subsistncia,
aumentaram as reas de cultivo nos caminhos dos viajantes s Minas.

 Os altos preos que os mineradores pagavam por qualquer mercadoria
desequilibravam o mercado na colnia, provocando escassez de produtos.
Escravos, carne charqueada, sal, acar, galinhas, porcos, vinho custavam
dez, doze e at vinte vezes mais caro do que em qualquer outra regio
brasileira.

 Duas rotas davam acesso s Minas Gerais, no final do sculo XVII: o caminho
geral do serto e o do rio So Francisco. O primeiro era mais curto, mas
atravessava regies montanhosas, que, em determinados trechos, s eram
transitveis a p ou com o recurso de cavalos e mulas muito fortes. O segundo
era mais longo, porm vantajoso, porque o terreno era menos acidentado, alm
da gua e alimentos facilmente encontrveis nas fazendas de gado espalhadas
ao longo das margens do rio So Francisco.

 Por esses caminhos formaram-se cidades, vilas, locais para pouso e ranchos.
Eram as chamadas '1eidades viajantes ', isto , locais que ofereciam uma
srie de servios aos viajantes rumo s minas. Pouso Alegre, Passo Fundo,
Moji-Mirim, Moji- Guau, foram cidades fundadas a partir de prestaes de
servios s Gerais.

 A circulao por estas cidades criou a figura dos tropeiros, isto , homens
que conduziam mulas, jumentos, bois, cavalos, por trilhas e encostas difceis
da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar.

 As regies do ouro eram distantes do litoral. No incio, os mineradores
utilizaram os escravos para o transporte. No entanto, era anti-econmico
tirar o negro da pro- duo. Os cavalos logo mostraram-se inadequados para os
caminhos acidentados das Gerais e foram subistitudos pelos muares, criados
no Rio Grande do Sul. O progresso parecia inevitvel no interior do Brasil,
graas s regies aurferas. Palacetes e igrejas foram construdos e surgiu
uma intensa vida comercial, integrando as vrias regies do Brasil. De 1741 a
1761, a produo aurfera do Brasil atingiu seu ponto mais alto.

 A partir de 1761, a produo comeou a diminur, As causas da queda esto no
esgotamento das jazidas e na inadequao tecnolgica utilizada nas lavras.

 O ouro da colnia equilibrou temporariamente a balana comercial de
Portugal. Mas no tirou os lusitanos da dependncia inglesa. O Tratado de
Methuen, assinado em 1703 pela Inglaterra e Portugal, foi totalmente
desvantajoso aos portugueses. Por esse tratado, a Inglaterra fornecia tecidos
britnicos ao mercado metropolitano e colonial, e, em troca, Portugal vendia
vinhos que os prprios ingleses fabricavam em Portugal para mercados
ingleses.

 Fazia parte ainda do tratado que o transporte de panos ingleses e vinhos
"portugueses" fosse realizado por navios ingleses, at mesmo para os portos
coloniais.

 Dessa forma, a partir de 1730, a balana comercial portuguesa favoreceu os
produtos ingleses. A principal conseqncia do Tratado de Methuem (diplomata
ingls que negociou este acordo) foi o desinteresse de Portugal em criar uma
indstria txtil nacional, pois no havia condies de competir com os preos
dos tecidos ingleses. Alm disso, os britnicos condicionavam a concesso de
emprstimos aos lusitanos  proibio de que estes montassem manufaturas de
tecidos em Portugal ou nas colnias, principalmente a brasileira.

 Por outro lado, o minerador era obrigado pelo Pacto Colonial (a colnia s
podia comprar da metrpole) a adquirir as mercadorias da burguesia
metropolitana portuguesa. Esta, como foi dito, era forada a comprar dos
ingleses os artigos posteriormente revendidos aos colonos brasileiros.

 No entanto, os ingleses conseguiam burlar o pacto, subornando funcionrios
portugueses e vendendo diretamente seus produtos para a colnia.

 Dessa forma, ou seja, comprando manufaturas inglesas, o ouro brasileiro teve
importante papel no processo de acumulao de capital, necessrio para que a
Inglaterra realizasse a passagem do capitalismo comercial para o industrial.

Acar , gado e ouro: um s plano.

 O acar constituiu desde o incio da colonizao uma atividade econmica de
altarentabilidade. A partir da segunda metade do sculo XVI (1550), a
produo se expandiu rapidamente pelo litoral nordestino, em particular Bahia
e Pernambuco.

 O crescimento da produo aucareira exigia aumento de reas cultivveis e o
emprego do gado para transportar os estoques de cana,  medida que as
plantaes se dirigiam para o interior. A criao de gado mostrava-se vivel
como outra forma de renda aos proprietrios de terras. Com a queda dos preos
do acar, principalmente devido  concorrncia do acar antilhano, a
atividade criatria permitiu por algum tempo a sustentao econmica dalguns
senhores de engenho arruinados. Mas a tendncia era a diminuio da produo
pecuria, acompanhando a crise aucareira nas ltimas quatro dcadas do
sculo XVII. Com o surto minerador refloresceu a atividade pecuria do
Nordeste colonial, com suas exigncias de gado para a alimentao e
transporte.

 Tambm a economia criatria do Sul cresceu com os altos preos decorrentes
das necessidades das Minas. Cavalos, jumentos e, principalmente, muares (por
sua elevada resistncia s ms condies dos territrios das Minas) tornaram
a pecuria sulista uma opo rentvel diante das escassas possibilidades
econmicas do incipiente mercado interno.

 A minerao, assim, desenvolveu vrias regies diferentes da colnia,
possibilitando o aparecimento de um mercado interno em torno do crescimento e
expanso da produo aurfera.

 O acar nordestino e os metais das Gerais voltavam sua produo para o
mercado externo, de acordo com o Pacto Colonial (a exclusividade econmica e
comercial com a metrpole). Por outro lado, a produo pecuarista e as
atividades de produo de alimentos para as cidades, vilas e povoamentos
dinamizaram-se diante das necessidades da economia mineradora.

 Sintetizando esses estudos sobre as condies econmicas do Brasil-colnia,
podemos afirmar que nos primeiros dois sculos da colonizao do Brasil, na
falta de metais preciosos, Portugal criou outra opo econmica com grande
xito lucrativo: o acar.

 Essa outra opo, no entanto, s ofereceu lucros at a segunda metade do
sculo XVII.
  'O que poderia Portugal esperar da extensa colnia sul-americana, que se
empobrecia a cada dia' (com a competio do acar holands), 'crescendo ao
mesmo tempo seus gastos de manuteno? Era mais ou menos evidente que da
agricultura tropical.no se podia esperar outro milagre similar ao do acar.
Em Portugal compreendeu-se claramente que a nica saida estava na descoberta
de metais preciosos." (Celso Furtado, A Formao Econmica do Brasil)

 Os conhecimentos dos vicentinos sobre o interior do Brasil foram
fundamentais para o descobrimento aurfero. Os dois interesses se conjugaram
como uma luva, isto , Portugal necessitava urgentemente de uma atividade
econmica imediatamente lucrativa e os bandeirantes vicentinos precisavam
curar sua pobreza: caando ndios, matando negros e buscando ouro... para no
final ficar tudo para a Inglaterra e suas indstrias... Colonizar teve um
significado claro: produzir uma economia complementar s necessidades
financeiras e comerciais do desenvolvimento mercantilista europeu. A colnia
brasileira introduziu-se na economia mundial trazendo para a burguesia
mercantil portuguesa, e principalmente a holandesa, os lucros do trfico
negreiro e do acar.

  importante lembrar que outros gneros tropicais alm do acar fizeram
parte da economia colonial, como o cacau, algodo, fumo, caa  baleia.

 O cacau era coletado como "droga" do serto. A partir da administrao do
Marqus de Pombal (1750-1777), foi plantado originaLmente na Bahia. e servia
para a produo de licores, manteiga e chocolate.

 As extensas plantaes de algodo desenvolveram-se a partir da segunda me-
tade do sculo XVIII, no Maranho e Par. Exportado para a Inglaterra,
exatamente no perodo do processo industrializante ingls, o algodo era
matria-prima para as indstrias txteis britnicas: Outras reas coloniais
(Cear, Rio de Janeiro, So Vicente, Gois) chegaram tambm a produzir
algodoeiros, porm a maior produo era maranhense.

 O fumo tambm era matria-prima exportvel, chegando a ocupar o segundo
lugar na atividade produtiva colonial (depois do acar). As grandes
plantaes de fumo ocorreram na Bahia e em Alagoas.

 Como a produo do tabaco desgastava rapidamente o solo, seu plantio
realizava-se em lugares prximos aos currais de gado, pois o estrume fornecia
a adubao necessria  fertilizao da terra.

 A caa  baleia tornou-se uma atividade produtiva nos sculos XVII e XVIII.
Desse animal marinho extraa-se a carne para o alimento, o leo para
iluminao, matria-prima para objetos artesanais e argamassa (misturada com
cal) para construo. A Coroa monopolizou a caa  baleia at o incio do
sculo XIX, quando a diminuio desse animal em guas territoriais
brasileiras desinteressou a metrpole, que aboliu o controle estatal.

 Embora os gneros tropicais complementares fossem lucrativos, no ofereceram
sustentao comercial capaz de se tornarem os substitutivos agrcolas do
acar, na pauta de exportao da colnia brasileira.

 Deve-se perceber que a produo aurfera constituiu um plano excepcional na
estratgia de colonizao, mas, paralelamente a essa atividade comercial,
foram-se criando opes econmicas, nas quais se engendravam atividades
produtivas vinculadas ao processo europeu de acumulao capitalista.

 Assim, o grosso das riquezas aqui produzidas no acabou servindo ao
desenvolvimento do Brasil. Sequer Portugal foi grande beneficirio dessas
riquezas. Elas acabaram mesmo impulsionando o enriquecimento das naes
europias de grande organizao comercial, como a Holanda e, principalmente,
a Inglaterra.

O caso da Europa

 A estrutura poltica da Europa, do sculo XV at fins do sculo XVIII,
baseou- se, de maneira geral, numa organizao em que o rei tinha plenos
poderes para governar. Um reino continha vrios interesses, desejos e
aspiraes de vida de seus diferentes habitantes. No entanto, esses diversos
interesses passaram a ser representados por uma nica pessoa: o rei. Para
legitimar o poder absoluto, foi necessrio apelar para a crena na origem
divina desse poder: pela "graa de Deus", o rei recebia o direito de governar
os outros homens de seu reino.

  importante lembrar que a crise econmica dos sculos XIV e XV ampliou o
comrcio, desenvolvendo a classe burguesa responsvel pela atividade
mercantil Isso gerou o crescimento urbano e a formao de um mercado nacional
livre das barreiras impostas pela organizao feudal. A burguesia, ainda sem
condio de caminhar sozinha, aliou-se ao rei para alcanar seus objetivos:
criao de moeda nica, unificao do comrcio interno e ampliao da
atividade mercantil externa O rei, por sua vez, apoiou-se na burguesia para
enfraquecer o poder da nobreza feudal.

 Com o dinheiro da burguesia o rei pde montar exrcitos profissionais
bem-armados para enfrentar os senhores feudais que porventura resistissem ao
poder central,

 Assim surgiu a monarquia absolutista. A centralizao do poder permitiu a
ampliao dos domnios do rei, consolidando o Estado Nacional, que
conpreendia uma superfcie de territrio sob sua direo, com autoridade de
direito e de fato, com exrcitos permanentes, numerosos funcionrios reais
(burocratas) com impostos e moedas reais para custear as despesas do Estado.
Nessa organizao social (que os historiadores chamaram de Antigo Regime),
coexistiam relaes feldais (trabalho servil) e novas relaes
pr-capitalistas (trabalho assalariado).

Brasil: das capitanias ao Governo Geral

 O absolutismo consolidou-se em Portugal j no sculo XVI. O Estado lusitano
controlava as atividades econmicas do reino e nada fugia  vigilncia do
monarca: O rei era um delegado de Deus "para fazer valer a vontade divina e
exprimir o desejo do Pai Todo-poderoso a seus filhos". No entanto, o monarca
portugus no tomava decises sozinho. Havia o Conselho Real, composto por
homens nomeados por ele e que o auxiliavam nas orientaes polticas a serem
adotadas.

 A colnia brsileira tambm estava sujeita ao poder central do rei: dessa
forma; as terras eram dele por direito e os habitantes, seus sditos. Para
ocupar e colonizar a terra brasileira, o rei adotou o sistema de capitanias
hereditrias, isto , dividiu a colnia em lotes de terras que foram doados a
fidalgos. Estes tinham o conpromisso de realizar o investimento inicial, para
povoar as terras (o que foi feito atravs da concesso de sesmarias a
colonos) e produzir riqezas para o reino. O sistema de capitanias cumpriu,
de forma geral, seu objetivo de estabelecer o dominio lusitano nas terras da
Amrica, ainda que a presena portuguesa ocorresse de forma dispersa pelo
territrio e apenas a capitania de Pernambuco chegasse a dar os lucros
desejados pela Coroa, graas s primeiras plantaes de cana-de-acar

 A criao do Governo Geral em 1549 teve por objetivo fortalecer o combate s
ameaas estrangeiras e, principalmente, centralizar a administrao da
colnia, para que ela se adequasse a sua verdadeira finalidade de fornecedora
de matrias-primas. Para isso, o Governo Geral deveria dinamizar o processo
de colonizao, coordenar a defesa do litoral brasileiro e estimular a
produo agrria de gneros tropicais e a busca de metais preciosos.

 O prmeiro governador geral. Tom de Sousa (1549-1553), fixou a primeira
capital da colnia em Salvador (BA), por localizar-se, aproximadamente, a
igual distncia dos limites sul e norte, das terras portuguesas demarcadas
pelo Tratado de Tordesilhas. Mil colonos vieram com o governador, que
introduziu a pecuria e o cultvo da cana em regies prximas de Salvador,
procurou povoar a terra, garantiu a defesa contra ataques europeus, construiu
edifcios pblicos e criou o municpio de Salvador, no qual montou sua
primeira Cmara de Vereadores de "homens bons" (proprietrios de terras).
Tom de Sousa percorreu todo o litoral brasileiro, exceto a capitania de
Pernambuco, cujo donatrio - Duarte Coelho - no queria a intromisso do
governador em seus negcios aucareiros.

 O conflito entre Tom de Sousa e Duarte Coelho levou ao afastamento do
primeiro governador da colnia, pois o donatrio de Pernambuco usou toda a
sua influncia na corte, inclusive os jesutas, para impedir o controle da
Coroa em sua capitania. O rei portugus aceitou as presses de Duarte Coelho
porque Pernambuco era a nica capitania a cumprir seus objetivos
mercantilistas, com a produo bem-sucedida de acar.

 O governo de Duarte da Costa (1553-1558) assinalou-se pela deficincia
administrativa. Ao permitir e incentivar a escravizao de indgenas,
descontentou os jesutas, que se julgavam responsveis pela "salvao da alma
dos selvagens indgenas", nas palavras do primeiro bispo da colnia, dom Pero
Fernandes Sardinha, que ironicamente acabaria sendo morto pelos ndios
caets, em 1556. Essa escravizao tambm no agrdava  burguesia
mercantilista lusitana, que auferia grandes lucros com o trfico negreiro da
Africa para o Brasil.

 Foi ainda durante o governo de Duarte da Costa que os franceses tentaram
estabelecer uma colnia na Amrica do Sul. Em 1555, aportava, numa ilha do
litoral do Rio de Janeiro, Nicolas Durand de Villegaignon com seus
companheiros para fundar a Frana Antrtica. Os objetivos dos franceses eram
lanar as bases para iniciar a explorao mercantil, abrir caminho para a
implantao da soberania francesa no Brasil e abrigar os protestantes
calvinistas que estavam sofrendo duras perseguies na Frana.

 O governador geral pediu ajuda  Metrpole para expulsar os franceses e, no
recebendo apoio, desistiu de tomar qualquer providncia. Os constantes
conflitos com os jesutas e a invaso francesa no litoral fluminense levaram
ao afastamento de Duarte.

A resistncia dos ndios - Confederao dos Tamoios

 Mem de S. terceiro governador geral ( 1558-1572), consolidou a administra-
o da Coroa portuguesa na colnia, controlando as resistncias  sua
autonomia por parte de alguns donatrios e solucionando o problema da
mo-de-obra escrava para a agricultura atravs da importao regular de
negros africanos para o Brasil. Mem de S conseguiu, ainda, expulsar os
franceses do Rio de Janeiro, em 1567. No entanto, a ameaa principal 
colonizao do Brasil no era francesa, mas indgena. A primeira resistncia
ao modelo de povoamento e ocupao da terra foi a organizao, entre 1554 e
1555, da Confederao dos Tamoios.

 Vrias tribos indgenas reuniram-se contra a dominao portuguesa,
estabelecendo alianas eventuais com os franceses. Aps a expulso destes, a
luta dos tamoios continuou na regio de Cabo Frio. Com a morte de Mem de S (
1572), a Coroa portuguesa dividiu o Brasil em duas regies. entregando o
governo da parte sul, com sede no Rio de Janeiro, a Antnio de Salema, cuja
tarefa prioritria era acabar com a resistncia indgena. Com soldados
portugueses e aliados indgenas, Salema cercou os tamoios em Cabo Frio,
submetendo-os  fome e  sede para que se rendessem.

 Diante do cerco, os tamoios decidiram negociar. O governador no aceitou a
negociao, impondo uma rendio completa  confederao e aos indgenas das
regies prximas a Cabo Frio que tinham ajudado os rebeldes na luta. 'ram
mas de quinhentos'. Os quais foram chacinados. quando no escravizados.
Igual sorte teriam. alis. os prprios habitantes. Em face de tamanhas
atrocidades, precipitaram-se pelo serto os habitantes indgenas de toda
aquela redondeza, mas nem assim escaparam  fria dos assaltantes. Consta que
dois mil desses fugitivos foram mortos e quatro mil reduzidos ao cativeiro.

Unio Ibrica: arrocho colonial

 Durante a anexao de Portugal  Espanha (1580-1640), os reis espanhis
passaram a designar os governadores no Brasil. A mudana mais importante na
administrao da colnia nesse perodo ocorreu nas funes do provedor-mor da
fazenda do Brasil (espcie de ministro das Finanas). Ele passou a ter amplos
poderes para impedir abusos fiscais, punir funcionrios e controlar
rigidamente a arrecadao de impostos. Durante os sessenta anos de dominao
espanhola em Portugal, os governadores nomeados preocuparam-se com a
corrupo administrativa e fiscal, com a defesa do territrio, sujeito a
constantes ataques de ingleses e franceses, com a colonizao do Norte, em
direo  Amaznia, e do Sul, em direo ao rio da Prata.

 Em 1642, aps a restaurao da soberania portuguesa ( 1640), com a ascenso
de dom Joo IV ao trono portugus, criou-se o Conselho Ultramarino, que se
tornou o organismo de controle da colonizao brasileira. Os homens nomeados
para o conselho eram da estrita confiana do rei e tinham por misso auxiliar
a Coroa na poltica de colonizao. Com a perda dos territrios na sia e
frica (pelos acordos com Inglaterra e Holanda), o Brasil passou a ser a
principal colnia lusitana, a "tbua de salvao" da situao econmica
crtica de Portugal. Em 1661, o Conselho Ultramarino decidiu que somente
embarcaes portuguesas estariam autorizadas a entrar e sair das colnias
lusitanas. Essa deciso manteve-se em vigor at 1684. Dessa forma, a Coroa
portuguesa controlava rigorosamente as relaes mercantis externas da colnia
brasileira, no s com a finalidade de evitar o contrabando, mas tambm de
assegurar para si a exclusividade comercial das mercadorias brasileiras. Por
outro lado, um novo modo de explorao econmica da colnia, atravs das
companhias privilegiadas de comrcio, permitiu a Portugal aumentar a sua
arrecadao financeira no Brasil.

Movimentos de contestao: Irmos Beckman contra o monoplio comercial

 Em 1682 foi criada a Companhia de Comrcio do Estado do Maranho para
resolver o problema da falta de mo-de-obra escrava na regio. Pernambuco e
Bahia pagavam preos mais elevados pelos negros africanos, ocasionando uma
diminuio da produo agrria no Maranho. Os colonos voltaram-se ento para
a escraviza- o indigena. No entanto, a vigilncia severa dos jesutas
impedia os fazendeiros de escravizarem os ndios e, em conseqncia, eram
frequentes as lutas entre colonos e missionrios.

 A Companhia de Comrcio obteve a concesso do monoplio do comrcio na
regio do Maranho, comprometendo-se a fornecer por vinte anos quinhentos
escravos africanos por ano, a abastecer a regio com os gneros importados da
Europa, a comprar a produo local para vender no mercado europeu e a
incentivar, alm da produo aucareira, o plantio de cravo, cacau e
baunilha. No entanto, a atuao da Companhia acabou com os sonhos de riqueza
dos latifundirios maranhenses, porque os produtos importados eram de m
qualidade e tinham preos altos. Apenas parte da produo local era comprada,
e ainda assim a preos baixos, e, alm disso, a Companhia falsificava pesos e
medidas e no cumpria com regularidade o fornecimento de escravos negros.

 Por todas essas dificuldades, os fazendeiros maranhenses, sob a liderana
dos Irmos Beckman (Toms e Manuel) senhores de engenho -, rebelaram-se
contra os abusos da Companhia, em 1684. O movimento ficou conhecido como a
Revolta de Beckman e seus objetivos compreendiam o fim do monoplio comercial
e a liberdade de escravizar ndios. Os revoltosos decidiram ainda, em
assemblia realizada na Cmara Municipal, a exonerao do capito-mor, a
organizao de um novo governo (com os proprietrios locais), a tomada dos
depsitos da Companhia e o cerco do Colgio Jesuta (com a priso dos
religiosos).

 Toms Beckman seguiu para Lisboa com os jesutas a bordo, para explicar os
motivos da revolta s autoridades lusitanas. Mas Gomes Freire de Andrada,
nomeado governador do Maranho em 1685, prendeu e enforcou os lideres Manuel
Beckman e Jorge Sampaio, e deportou outros revoltosos, liquidando com o
movimento. Mas um dos objetivos dos maranhenses foi alcanado: a Companhia de
Comrcio do Maranho foi extinta por ordem real. Os jesutas, por sua vez,
voltaram  regio para continuar a catequese.

Revolta dos mascates: senhores x comerciantes

 Outros movimentos polticos de contestao ao severo controle metropolitano
sobre a colnia surgiram das contradies entre os interesses portugueses e
os de vrios setores da sociedade brasileira: senhores de engenho,
mineradores de lavras, bandeirantes, comerciantes.

 A medida que a minerao de ouro crescia, a economia colonial se
desequilibrava. Os altos preos pagos pelas mercadorias nas Minas Gerais
provocaram uma alta geral no resto da colnia. Alm disso, o deslocamento de
artesos, tcnicos e comerciantes para as regies do ouro em busca de
melhores empregos e condies de vida levou a um aumento rpido da populao
nas Minas e gerou escassez de mercadorias e servios em outras regies
coloniais.

 A situao chegou a nivel insuportvel logo na primeira dcada do sculo
XVIII. Ogovernador do Rio queixou-se s autoridades metropolitanas de que a
cidade estava sem o suprimento necessrrio de carne e farinha. pois as
pessoas que costumavam supri-la de tais artigos tinham ido para Minas Gerais.
(A Idade do Ouro no Brasil). Por sua vez, Bahia e Pernambuco passaram por uma
crise de mo-de-obra, pois "exportadores de escravos de Angola preferiam
embarcar seus escravos para o Rio de Janeiro, onde podim ' alcanar preos
mais altos, a fim de serem reexportados para as Minas".

 O problema para os senhores de engenho do Nordeste era duplo. De um lado, o
Rio de Janeiro tornava-se rea de produo aucareira, abastecendo o mercado
mineiro. Com isso, o Nordeste, alm de sofrer a concorrncia externa do
acar das Antilhas Holandesas, sofria agora uma concorrncia interna. De
outro, a elevao do preo do escravo encarecia o acar nordestino. A
consequncia imediata foi o endividamento dos senhores de engenho com os
comerciantes, que, alm de manipular os preos das mercadorias, emprestavam
dinheiro para a produo.

 Devido ao monoplio mercantil lusitano na colnia, os comerciantes eram, em
sua grande maioria, portugueses. Os conflitos entre senlrores de engenho e
mascates, como eram chamados depreciativamente os comerciantes, acabaram se
configurando na rivalidade entre Olinda e Recife. A primeira, vila e sede da
capitania e da Cmara Municipal, estava sob o controle dos senhores de
engenho, que impunham o pagamento de altas taxas aos habitantes de Recife,
lugar controlado pelos comerciantes e que, embora economicamente fo.rte, no
tinha recebido o direito de tornar-se vila.

 Entretanto, um decreto da Coroa, em 1709, elevou Recife  condio de vila
autnoma, cabendo s autoridades locais (governador e ouvidor da capitania)
estabelecer os limites das fronteiras entre as duas municiplidades. No
perodo da demarcao entre as vilas, os senhores de engenho tomaram Recife,
prenderam o governador e os comerciantes mais ricos e elegeram o bispo Manuel
lvares para governador, com o compromisso de aceitar as suas reivindicaes.

 As lideranas latifundirias, atravs de um documento, exigiram a anulao
do decreto real que toFnara Recife independente da administrao olindense, o
tabelamento do preo dos escravos africanos, a no-hipoteca das terras dos
proprietrios aos mascates por causa das dvidas e a permisso para o
comrcio direto com embarcaes inglesas e holandesas.

 Olindenses e recifenses travaram vrios combates e os conflitos diminuram
com a nomeao de Flix Mendona para governar a capitania. As principais
lideranas foram punidas, inclusive Bernardo Vieira de Melo e seus filhos,
lderes dos senhores de engenho de Olinda. Recife foi confirmada como vila,
mas o governador assumiu o compromisso de alternar sua residncia de seis em
seis meses em cada uma das vilas.

Emboabas e paulistas: guerras de morte

 Outro episdio envolvendo comerciantes e relacionado com o monoplio reinol
foi a Guerra dos Emboabas ou Revolta dos Emboabas.

 A corrida do ouro trouxera 'nxame de aventureiros e desempregados de todos
recantos da colnia" e tambm de Portugal: a cada ano vm nas frotas
quantidades de portugueses e de estrangeiros, para passarem s minas das
cdades, vilas, recncavos, e sertes do Brasil vo brancos, pardos, pretos e
muitos ndios de que os paulistas se servem. A mstura  de toda a condio
de pessoa: homens, mulheres, moas e velhos, pobres e ricos, nobres e
plebeus, seculares, clrigos e religiosos de diversos instintos, muitos dos
quais no tm no Brasil convento nem casa'.

 Os vicentinos (paulistas) se opunham aos estrangeiros na corrida s Gerais.
Achavam-se com maiores direitos sobre as ricas jazidas de minrios por dois
motivos: primeiro, porque tinham sido eles os descobridores do ouro; segundo,
porque naquela poca - incio do sculo XVIII -, a regio das minas pertencia
 capitania de So Vicente. Em 1700, chegaram a fazer petio ao rei, atravs
do governador geral, exigindo que as terras da regio das Minas Gerais fossem
exclusivamente deles.

 O modo de vida dos vicentinos era outro fator de ressentimento em relao a
baianos, Pernambucanos e estrangeiros. Suas casas eram pobres, a alimentao
modesta, as roupas simples e andavam descalos, aparentando ser incivilizados
perante os recm-chegados, que vinham de regies de produo voltada para o
mercado externo e desfrutavam de condies econmicas mais semelhantes s dos
portugueses.

  importante lembrar que, por emboabas, os paulistas compreendiam
portugueses e todos os outros habitantes da colnia que no eram da capitania
de So Vicente.

 Os incidentes iniciaram-se em 1707, quando dois chefes dos grupos mais
provocadores dos paulistas foram linchados por emboabas. Seguiram-se
violncias nos caminhos das minas. No final de 1708, os emboabas tinham o
controle completo de duas das trs reas principais de minerao; e os
paulistas estavam confinados na regio do Rio das Mortes. Os emboabas
aclamaram ento o portugus Manuel Nunes Viana "governador" da regio das
Gerais, o qual encarregou Bento do Amaral Coutinho de expulsar os paulistas
de onde se haviam aquartelado. Derrotados, os vicentinos recuaram at a vila
de Parati (na fronteira do Rio de Janeiro com So Paulo).

 A Coroa portuguesa, preocupada com o fato de que esses conflitos diminuam a
produo mineira, criou a Capitania Real de So Paulo e Minas de Ouro,
distribuiu perdo geral e conseguiu a pacificao. Portugal tambm atendeu s
reivindicaes dos mineradores, com a elevao  condio de vila das
localidades de Ribeiro do Carmo, Sabar e Vila Rica (Ouro Preto).

 A guerra dos Emboabas durou aproximadamente um ano. Segundo depoimentos de
pessoas da poca, emboabas e paulistas arruinaram-se uns aos outros e foi
"pelas graas de Deus" que se resolveu o conflito. Na verdade, foi mais
"pelas graas do dinheiro" e pelas armas mais numerosas e melhores dos
emboabas, que assim impuseram sua fora poltica e econmica.

Revolta de Vila Rica: forca e esquartejamento

 Apaziguados temporariamente os conflitos mais violentos nas Gerais, foi a
prpria Coroa portuguesa que passou a dar motivos para movimentos de
rebeldia. A paRTir de 1710, Portugal aumentou os impostos, criando uma rede
de novas tributaes, taxas e dzimos, no s para as regies aurferas, como
tambm para toda a colnia.

 Por um lado, a carga tributria sobre a populao resultava em maior
controle da produo colonial; por outro, estimulava a corrupo e o
contrabando. Mineradores treinavam escravos, desde meninos, para engolirem
pepitas de ouro (o exerccio era feito com feijo e milho). Outra ttica
comum de contrabando foi o uso dos "santinhos do pau oco": dentro das imagens
de santos catlicos carregava-se ouro, prata e diamantes.

 Cabia s Cmaras Municipais a cobrana do quinto, isto , dos vinte por
cento do ouro descobeRTo que deveriam ser encaminhados ao rei. No entanto, a
vinculao dos mineradores s Cmaras provocava dvidas sobre a quantidade de
ouro enviada a Portugal. Para controlar melhor o pagamento dos impostos e
evitar o contrabando, a Coroa passou a designar funcionrios para fiscalizar
a atividade das Cmaras.

 Apesar dessas aes fiscais, o contrabando se acentuava. Por isso, a partir
de 1719, a Intendncia das Minas montou casas de fundio, local onde o Ouro
deveria ser fundido. L separava-se o quinto da Coroa e o ouro restante era
reduzido a barras marcadas com o selo real.

 Em 1720, um levante comandado por Filpe dos Santos e Pascoal GUimares
tomou Vila Rica e apresentou as seguintes reivindicaes: fechamento das
casas de fundio, extino do monoplio da Coroa sobre o sal e perdo
incondicional aos revoltosos. O conde de Assumar. governador da Capitania de
So Paulo e de Minas de Ouro, pediu tempo, sob o pretexto de estudar as
propostas, mas com o objetivo de reunir foras militares contra os rebeldes.
Aps vinte dias, o governador ordenou uma represso violenta, com a queima
das casas dos lderes. Filipe dos Santos conseguiu fugir, mas logo foi
aprisionado. O conde de Assumar resolveu fazer de Filipe dos Santos um
exemplo para a populao: assumindo poderes que legalmente no detinha,
conduziu-o a um julgamento que o condenou  forca e ao esquartejamento.

 O assassinato de Filipe dos Santos evidenciou as contradies entre os
interesses da colnia e os da metrpole. As classes abastadas da colnia
desejavam diminuir a severa vigilncia da Coroa para obterem mais autonomia
nas suas atividades produtivas e aumentarem os lucros de seus negcios.
Enquanto isso, a metrpole queria retirar o mximo lucro possvel da colnia
para resolver a precria situao econmica portuguesa. Em 1720, as Minas
Gerais passavam a capitania e seu primeiro governador, dom Loureno de
Almeida, chegava com a incumbncia de aumentar a arrecadao do quinto sobre
a produo aurfera.

 Os tratados de fronteiras

 Ao mesmo tempo que Portugal consolidava sua rgida explorao da colnia
brasileira, buscava tambm fixar as fronteiras de seu territrio na Amrica.
A linha de Tordesilhas j havia sido ultrapassada h muito tempo, tanto ao
norte, com a ocupao do Maranho, como ao sul, com os bandeirantes. Parte
dessa ocupao ocorreu durante o perodo de dominao espanhola, quando no
havia limites entre as duas colnias. Aps a Restaurao, os espanhis
entraram em conflito com os portugueses, em particular na regio sul, por
onde escoavam os metais preciosos vindos de Potosi. Em 1680, os portugueses
fundam, s margens do rio da Prata, em frente a Buenos Aires, a colnia do
Santissimo Sacramento, ameaando diretamente os interesses espanhis. Esses
revidam com o ataque e ocupao da Colnia do Sacramento, alm da fundao,
pelos jesutas, dos Sete Povos das Misses, em 1687.

 Em 1715, Portugal e Espanha assinam o Tratado de Utrecht, pelo qual os
espanhis devolviam aos portugueses a Colnia do Sacramento. Pelo acordo,
definiu-se que Sacramento teria como limite, em relao ao territrio
espanhol, a distncia alcanada por uma bala de canho. Portanto, a Colnia
do Sacramento seria uma "ilha" portuguesa, com espanhis de todos os lados.

 Em 1750, portugueses e espanhis discutiam novamente as fronteiras entre as
duas colnias, assinando o Tratado de Madri. Nessas negociaes se aceitou
pela primeira vez o princpio do usucapio (nti possidetis), isto , o
princpio de que a terra pertence a quem de fato a ocupa. Esse princpio foi
defendido pelo brasileiro Alexandre de Gusmo e garantiu a Portugal todo o
territrio at ento efetivamente ocupado, o que representou a demarcao de
fronteiras muito semelhantes ao Brasil de hoje. Com relao ao sul,
entretanto, as negociaes no seguiram essa linha: a Colnia do Sacramento
voltava para os espanhis e os Sete Povos das Misses para os portugueses. Os
ndios e padres jesutas deveriam se retirar da reduo e seguir para alm
das fronteiras portuguesas.

 Como sempre, assinar um tratado no papel foi mais fcil do que colocar em
prtica o cumprimento do acordo. De um lado, os jesutas espanhis se
recusaram a mudar suas misses para o outro lado do rio Uruguai, entregando o
territrio aos portugueses. Por outro, os comerciantes lusitanos e espanhis,
estabelecidos em Sacramento com operaes lucrativas de contrabando, se
indispuseram com as autoridades portuguesas e espanholas. Esses comerciantes
incentivaram os ndios guaranis a se rebelarem contra as demarcaes em suas
terras. Os jesutas ficaram divididos entre "a cruz e a espada". Alguns
submeteram-se s ordens dos reis, outros ficaram com os guaranis e ajudaram a
organizar a resistncia armada contra as coroas ibricas. Esses conflitos na
regio dos Sete Povos das Misses, que compunham a repblica dos ndios
guaranis, denominaram-se guerras guaraniticas e terminaram com a destruio
das misses e o aniquilamento dos ndios.

 Mas as divergncias entre espanhis e portugueses no tinham terminado
ainda. Em 1761, foi anulado o Tratado de Madrid. Um novo tratado teve que ser
assinado em 1777, o de Santo Ildefonso, muito desvantajoso para os
portugueses. Os espanhis haviam ocupado todo o sul, chegando at a ilha de
Santa Catarina. Por esse tratado Portugal recebia de volta as terras
ocupadas, mas, em contrapartida, cedia para Espanha a Clnia do Sacramento e
os Sete Povos das Misses. Como os limites firmados por esse tratado nunca
foram demarcados, os gachos ocuparam novamente a regio dos Sete Povos das
Misses, o que levou ao ltimo tratado sobre essa regio, assinado em 1801,
que definitivamente concedia a Portugal os Sete Povos das Misses.

 As reformas de Pombal

 O grande estadista portugus do sculo XVIII foi o marqus de Pombal.
primeiro-ministro de 1750 a 1777. O objetivo de sua poltica era retirar
Portugal do atraso econmico e da dependncia da Inglaterra, atravs do
desenvolvimento industrial e da interveno do Estado na economia. Para isso,
tratou de diminuir a influncia dos nobres e dos jesutas, que poderiam
colocar resistncias ao fomento industrial portugus, retirando o privilgio
da iseno de impostos que diminua a arrecadao do Estado.

 Pombal desejava dinamizar a colnia, integrando-a ao mecanismo industrial
portugus. Para isso, decretou a abolio das diferenas entre ndios e
portugueses, impedindo a escravizao indgena. As misses jesuticas
deveriam se transformar em vilas, com um diretor leigo, at que os prprios
indgenas fossem capazes de assumir a administrao. Determinou ainda que os
ndios deveriam aprender a lngua portuguesa e pagar o dzimo, como todos os
cidados.

 Fcava evidente que o primeiro-ministro lusitano queria transformar o
indigena em trabalhador assalariado. Os jesutas no aceitaram essas
determinaes e isso foi mais um motivo para que Pombal ordenasse a expulso
deles do Brasil e de Portugal. Assim, um dos inimigos mais fortes do projeto
industrializante de Pombal foi eliminado. Tratava-se agora de reunificar o
comrcio colonial.

 A reorganizao das atividades mercantis na colnia tentou preservar o
Brasil da influncia comercial inglesa. Para isso, Pombal organizou duas
companhias. A primeira, Companhia Geral do Comrcio do estado do Gro-Par e
Maranho (1755), teve exclusividade do comrcio por vinte anos em troca da
produo de algodo e arroz, com crditos facilitados nos transportes,
fretes, compra de maquinaria e regularizao de escravos negros para a
regio. A segunda, Companhia Geral do Comrcio de Pernambuco e Paraiba
(1759), estimularia a plantao de cana, fumo e cacau, com capitais
investidos diretamente na produo.

 As reformas pombalinas, como ficaram conhecidas as medidas de dinamizao
econmico-comercial executadas por Pombal, estenderam-se at a colnia,
envolvendo os proprietrios ricos nos organismos fiscais, militares e
judiciais do governo local. Os administradores da colnia, segundo Pombal,
deveriam colocar sua habilidade comercial a servio dos negcios pblicos.

 As reformas pombalinas permitiram, a partir de 1770, o desenvolvimento da
produo de artigos de luxo como sedas, chapus, louas, tapearias, jias,
botes, fitas, tecidos, com matrias-primas brasileiras. Surgiu assim uma
elite mercantil-manufatureira em Portugal. Por sua vez, houve o
desenvolvimento de um mercado interno na colnia brasileira, que possibilitou
a garantia do desenvolvimento manufatureiro. E, principalmente nas Minas
Gerais, organizaram-se grupos que mesclavam interesses coloniais e
metropolitanos.

 Em 1777, com a morte de Dom Jos I, subiu ao trono lusitano dona Maria 1.
Essa rainha representava os interesses daqueles que se sentiram prejudicados
pela poltica pombalina: comerciantes que no tinham obtido privilgios,
padres, nobres descomprometidos com o governo anterior e, principalmente, dos
ingleses, cuja dominao econmica sobre Portugal havia sido ameaada pela
poltica pombalina. A queda de Pombal do posto de primeiro-ministro foi
inevitvel.

 De um modo geral, pode-se dizer que a poltica portuguesa no Brasil obedeceu
ao principio da centralizao caracterstico do regime absolutista. Embora
houvesse vrias instncias de poder - capites donatrios, governadores
gerais, Cmaras Municipais - tudo dependia, em ltima anlise, do rei.
Deve-se levar em conta, no entanto, que as decises do monarca eram
influenciadas por conselheiros palacianos da nobreza, do clero e da burguesia
mercantil. A paRTir da criao do Conselho Ultra-marino (1642), o nmero de
conselheiros aumentou, permitindo mais interesses em jogo, o que dificultava
as decises da Coroa.

 Por outro lado, nem sempre foi possvel cumprir as ordens do rei na colni.
A grande distncia da metrpole, as condies concretas de produo das
mercadorias, as diferenas regionais entre o Nordeste agrrio, que produzia
para o mercado externo, e o Sudeste (So Vicente), que tentava sobreviver com
enormes dificuldades, impediram o cumprimento das decises portuguesas.

 Nos sculos XVI e XVII, a administrao metropolitana foi ineficiente para a
produo aucareira, porque no fornecia escravos negros com regularidade e
porque a anexao de Portugal  Espanha desorganizou o comrcio do acar. No
sculo XVIII, a administrao portuguesa tornou-se catica e confusa devido
ao aumento da burocracia (intendentes, fiscais, cobradores, funcionrios para
vigiar funcionrios), o que permitiu a corrupo e o contrabando e acabou
provocando movimentos de rebeldia.

SENHORES DE ENGENHO E ESCRAVOS

 Sociedade europia

 A sociedade do Estado Nacional Moderno europeu era caracterizada como
estamental: as relaes sociais baseavam-se em rgidas diferenas
estabelecidas pelos privilgios de um estamento ( = camada social) sobre
outro. A mobilidade entre os estamentos era quase nula, de modo que era
praticamente impossvel a indivduos de uma camada adquirirem os privilgios
da outra e, assim, ascender socialmente. Era possvel identificar trs ordens
ou estados na diviso social do Estado Moderno, excluindo o rei, que estava
acima de todos. O primeiro estado era formado pelo clero, ou melhor, o alto
clero, a alta hierarquia da Igreja Catlica. O segundo compreendia a nobreza.
E o terceiro era constitudo pela burguesia. dividida em: alta burguesia
(grandes comerciantes), mdia burguesia (comerciantes, profissionais liberais
- cientistas, mdicos, professores...) e baixa burguesia (pequenos "
comerciantes, pequenos produtores, baixo clero, trabalhadores da cidade e
trabalhadores do campo - compreendidos aqui os servos e camponeses livres).

 Tanto o primeiro quanto o segundo estado eram os privilegiados: Possuam
grandes extenses de terras e muitos servos, no pagavam impostos e,
autorizados pelo rei, tinham o direito de cobrar tributos dos camponeses do
terceiro estado. O terceiro estado era formado por grupos sociais diferentes,
desde banqueiros at servos.

 Havia, no entanto, um ponto em comum entre os grupos do terceiro estado:
sustentavam a nobreza, a Igreja e o rei atravs do seu trabalho e do
pagamento de impostos.

 Por outro lado, esse Estado Nacional absolutista precisava desenvolver o
comrcio para enriquecer-se. Isso gerava a fortuna da burguesia mercantil e
fmanceira (banqueiros). Concentrando riquezas, a burguesia buscava o
enobrecimento, ou seja, comprava titulos de nobreza, para usufruir de seus
privilgios. Outra forma de enobrecimento da burguesia era o casamento entre
burgueses enriquecidos e nobres arruinados.

 O emprstimo de capitais ao rei pela burguesia lhe trazia uma srie de
concesses: monoplios comerciais, isenes de impostos e permisso para o
exerccio de vrias atividades comerciais como o trfico negreiro, transporte
de acar, especiarias etc.

  importante assinalar que, apesar do desenvolvimento comercial, o processo
de produo era ainda muito semelhante ao sistema feudal, principalmente no
campo, onde continuavam vigentes as relaes servis de produo. Ao mesmo
tempo, havia o trabalho assalariado, especialmente nas cidades.

 Sociedade indgena: solidariedade e cooperao

 Enquanto a sociedade dos Estados Nacionais europeus era dividida em camadas
sociais, os habitantes primitivos das terras do Brasil, quando chegaram os
lusitanos, viviam numa sociedade sem classes. N sociedade indgena, a
diviso de trabalho era orgnica, com base no sexo e na idade.

 Aos homens cabia a derrubada da mata e a queimada (essa prtica chama-se
coi- vara e  utilizada ainda hoje em muitos lugares do Brasil). Era tambm a
populao masculina que caava, pescava, fabricava arcos e flechas,
instrumentos musicais, canoas e adornos, obtinha o fogo e cortava lenha, alm
de preparar expedies guerreiras e capturar inimigos. Entre algumas tribos
havia o hbito do pai manter o resguardo e a dieta aps o parto da mulher.
Esse costume se chama couvade e  explicado pela crena , segundo nos relata
Anchieta, de que para os ndios o ventre da mulher  um saco no qual o homem
deposita o embrio, sendo, portanto, o pai o agente da reproduo.

 s mulheres cabia a carga mais pesada na distribuio do trabalho. Elas
faziam os servios domsticos, cuidavam das crianas pequenas, da cozinha e
da alimentao, do suprimento de gua e transporte de fardos. Tambm o
rtesanato era uma tarefa feminina: tranavam algodo, teciam redes,
fabricavam cestos, coziam o barro e modelavam panelas e todos os utensilios
de cozinha. No campo, eram as mulheres que aravam, plantavam e colhiam.

 As crianas integravam a vida comunitria: os meninos aprendiam a caar,
pescar, lutar, acompanhavam os velhos para carregar-lhes as armas e aprender
com suas experincias. As meninas aprendiam os trabalhos da casa, da lavoura,
a tecelagem e cermica, alm de tomarem conta dos menores.

 Os mais velhos - homens e mulheres - gozavam de grande respeito da parte de
todos. A experincia conseguida pelos anos de vida transformava-os em
smbolos de tradies da tribo.

 Os indgenas no conheciam a propriedade privada da terra. Assim, a terra
abandonada por uma tribo podia ser ocupada por outra. A produo era
coletiva, isto , dividiam-se os alimentos, a caa, a pesca entre todos da
tribo, sendo individuais s o arco, a flecha e o machado de pedra.
Soldariedade e cooperao constituam os traos marcantes do modo de vida
indgena. Compartilhavam tanto a escassez como a fartura.

 A distribuio de alimentos fazia-se de acordo com as necessidades
individuais. Ningum ficava observando se um comia mais que o outro, para
depois cobrar o excesso de alimento ingerido. Na escassez, dava-se
preferncia  alimentao das crianas, dos velhos e doentes. As trocas de
vveres entre as tribos eram pequenas, pois os indgenas no produziam
excedentes. Alm da pouco freqente troca de mantimentos, ainda podiam
ocorrer as trocas rituais, ou seja, aquelas que serviam para estreitar a
amizade entre as tribos.

Alianas desfavorveis dos ndios

 A tribo compunha-se de aldeias ou grupos unidos por parentescos e interesses
prximos.

 Tais aldeias possuam de quatro a sete malocas (habitaes coletivas), cujo
tamanho variava em funo do nmero de pessoas que as habitariam. Abrigavam
entre cinqenta e duzentos indivduos e no apresentavam divises internas.
Os chefes das malocas ocupavam a parte central.

 A relao do ndio com a natureza obrigava-o a situar sua aldeia em lugares
prximos de rios, onde houvesse fartura de lenha, caa, pesca e segurana
contra ataques de tribos inimigas e de animais. Para construir as malocas, o
chefe tribal reunia homens e mulheres disponveis em esquema de mutiro,
prtica tambm usada nos perodos de semeadura e colheita.

 Atravs desses elementos,  possvel perceber a relao de cooperatividade
entre os membros da sociedade indgena. No entanto, havia lutas intertribais.
Os conflitos podiam ser provocados por excedentes demogrficos, por atitudes
contrrias  solidariedade (acusaes falsas entre as tribos, rapto de
mulheres e crianas, vinganas de amigos, prisioneiros antigos a serem
resgatados). Assim, a guerra existia para recompor a cooperao e a
solidariedade entre as tribos.

 Por causa das guerras, montavam-se sistemas de alianas que procuravam unir
vrias tribos frente a um inimigo poderoso. Essas alianas eram fortes mas
momentneas, ultrapassado o perigo comum, as tribos retomavam suas atividades
diarias. A fragilidade dessas alianas, exatamente pela sua curta durao,
foi muito utilizada pelos colonizadores europeus, para colocar uma tribo
contra a outra e tirar vantagens do enfraquecimento de ambas.

 Assim, no litoral do Rio de Janeiro, tribos inimigas uniram-se a povos
europeus diferentes. Os tupiniquins aliavam-se aos portugueses (chamados de
pers pelos ndios) e os tupinambs aos franceses (chamados de mairs).
Franceses e lusitanos usaram as intrigas entre essas tribos para obter
mo-de-obra escrava nos trabalhos de explorao do pau-brasil e outros
recursos naturais ("drogas" do serto).

Sociedade aucareira: rigidez social

Formao bsica

 Nos primeiros anos do sculo XVI, a mo-de-obra indgena era utilizada na
extrao do pau-brasil tanto pelos portugueses como pelos ingleses e
franceses, que contrabandeavam o produto. J entre 1510 e 1520, os
portugueses capturavam os ndios e os levavam como escravos para trabalhar
nas lavouras das ilhas de Madeira, Aores, Cabo Verde, Porto Prncipe (todas
de domnio lusitano).

 A escravido do indio, entretanto, mostrou-se inadequada ao plano de colo-
nizao lusa do Brasil. Em primeiro lugar, porque-as misses jesuiticas,
encarregadas da catequese (pregao do cristianismo e dos valores da cultura
europia), ofereceram resistncias  transformao do indgena em escravo. A
segunda razo decorre dos lucros muito superiores obtidos pelo comrcio
negreiro, realizado pela burguesia mercantil. A terceira razo relaciona-se
ao fato de que os indgenas brasileiros no conheciam a lavoura sedentria,
isto , sua produo agrcola no era fixa: mudavam-se para novas reas 
medida que o solo se esgotava. Ao contrrio dos indgenas brasileiros, os
negros africanos, em sua maioria, dominavam este tipo de lavoura e conheciam
a metalurgia. Portanto, estavam mais prximos do modelo produtivo europeu do
que os ndios, constituindo-se, desse modo, na base social da produo
aucareira. No entanto, o ndio, durante todo o perodo colonial, foi
utilizado como mo-de-obra escrava alternativa nos momentos de desorganizao
do trfico negreiro ou escassez de escravos negros.

 Para compreendermos a sociedade colonial como um todo, aps termos visto
alguns de seus elementos econmicos e sociais,  necessrio lembrar que: era
uma sociedade de caractersticas perifricas, criada a partir das
necessidades mercantis portuguesas. Surgiu, pois, dos interesses
metropolitanos, a fim de concretizar as prticas mercantilistas. Metrpole e
colnia formavam juntas, portanto, uma nica ordem econmica.

 No incio da colonizao, as metrpoles passaram por um perodo de transio
do feudalismo para uma economia capitalista. Essa caracterstica da sociedade
europia impunha regras comerciais que determinavam as regras para a
colonizao do Brasil. Em decorrncia disso, por exemplo,  que se optou pela
monocultura da cana-de-acar. A estrutura econmica adequada a uma
determinada atividade (no caso, a aucareira) acabou compondo a ordem social:
senhores de engenho, trabalhadores assalariados e escravos. embora na colnia
brasileira houvesse pequena mobilidade social, e, portanto, caractersticas
medievais, o senhor de engenho no era um senhor feudal. Ele compunha a
aristocracia rural. distinguindo-se dos senhores feudais da Europa medieval
porque as prpriedades e produo coloniais estavam organizadas para atender
ao mercado externo, atravs da produo de excedentes comerciais;
diferentemente, a propriedade feudal visava apenas  auto-suficincia dos
feudos. a organizao social da colnia no sofreu modificaes importantes
nos trs primeiros sculos da Histria do Brasil. Do sculo XVI at o final
do sculo XVII, a sociedade colonial girava em torno dos engenhos
aucareiros.

Casa-grande, engenho, capela e senzala

 A estrutura dos engenhos compreendia quatro edificaes centrais: as casas
de engenho (moendas), a casa-grande (residncia dos senhores), a senzala
(morada dos escravos), e a capela (local de expresso da religiosidade). Alm
disso, havia a casa dos trabalhadores assalariados, os canaviais, os currais
e as matas virgens.

 O engenho era uma unidade agrcola praticamente auto-suficiente. Nele havia
escolas para alfabetizao administradas pelos padres. A alimentao diria
dos moradores e hspedes vinha das plantaes, da criao de gado, da caa e
da pesca.

 Nas serrarias faziam-se as peas de mobilirio e se trabalhava a madeira
para todas as construes do engenho.

 A casa de engenho (ou moenda) abrigava a maquinaria e instrumentos para a
transformao da cana em acar. Inicialmente, se extraa o caldo da cana na
casa da moenda, em cilindros movidos a gua ou a fora animal. O caldo era
colocado em tachos na casa da fornalha onde, com o cozimento, o caldo se
transformava, por evaporao, em produto slido. Na casa de purgar, o acar
era purificado e depois acondicionado em caixas.

 O mestre-de-acar  o tcnico que supervisiona toda a atividade do preparo
do acar, no engenho. Outros tcnicos, em especializaes particulares.
ajudam o mestre-de-acar em funes especficas: o caldeireiro que baldeia o
caldo para as tachas e vai tambm limpando, com a espanadeira, a espuma
fervente nas caldeiras, ajudando o caldo: o tacheiro, que se incumbe de
acompanhar o desenvolvimento do caldo nas tachas; e o purgador, que  o
qumico no preparo da cristalizao do acar nas frmas.

 Mestre-de-acar, purgador, tachiro, moendeiro, caixeiro (aquele que
colocava o acar em caixas) eram os tcnicos da preparao do acar e
formavam, junto com o feitor (responsvel pela produo do acar desde a
safra at o transporte e tambm pelo trabalho escravo), assalariados,
responsveis entre 20% a 30% pelas despesas do engenho.

 Alm disso, havia lavradores livres, cultivadores de terras prprias, que
trabalhavam em roas de subsistncia e por isso eram chamados de roceiros
(no produziam para o mercado externo).

 Com o declnio do acar, a partir da segunda metade do sculo XVII, surgiu
a figura dos moradores. Em geral mestios de mulatos, negros livres e ndios.
Constituam a plebe dos campos pauprrimos, viviam de cultura de mandioca.
Alm dos moradores, os agregados. tambm mestios (ndios, negros, brancos
pobres), prestavam servios aos proprietrios dos engenhos. Eram os guardas
de propriedade, espcie de milcia particular. Embora esses agregados fossem
livres, suas condies de vida pouco se distinguiam das dos escravos.

Os quilombos

  Os escravos negros constituam a sustentao da produo aucareira:
plantavam, colhiam, transportavam cana para as moendas, participavam das
vrias etapas de produo do acar no engenho e do transporte das caixas de
acar para os navios. Tinham um d alimentao era  base de mandioca. As
condies em que trabalhavam podem ser resumidas cruamente a trs "ps": pau,
pano e po. ' Pau" eram os castigos corporais pelas faltas cometidas; ' pano"
significava a roupa mnima para esconderem "as vergonhas", e "po" o alimento
para no morrerem de fome.

 As reaes do negro contra a explorao e a violncia eram severamente
reprimidas. Os rebeldes eram punidos com o viramundo (instrumento de ferro
que servia para prender as mos e os ps dos escravos) e surrados com o
bacalhau (chicote de couro cru). As feridas eram curadas com sal. Faltas
graves recebiam tratamentos mais duros, como a castrao, a amputao dos
seios, a quebra dos dentes com martelo.

  noite, aps doze a quinze horas de trabalho, os negros recolhiam-se na
senzala - habitao de compartimento nico onde muitos dormiam com correntes
prendendo ps e mos. As mulheres cuidavam dos feridos nos castigos e dos
doentes por excesso de trabalho

 Existem poucos documentos que registram as formas de resistncia adotadas
pelos negros diante da brutalidade dos senhores brancos. Mas sabe-se que
havia suicdios, assassinato de feitores e capites-do-mato (homens
encarregados de buscar os foragidos na mata). Mitas vezes entravam num
estado de apatia total, o chamado banzo ou 'nostalgia da frica ': em
profunda depresso, no se alimentavam mais nem trabalhavam, acabando por
morrer.

 Alm dessas formas de resistncia, eram comuns as fugas e a formao dos
quilombos. Os quilombos eram ncleos autnomos de aldeias de negros
foragidos, que buscavam na mata reconstituir a vida africana.

 Vrios quilombos formaram-se no final do sculo XVI at o final do sculo
XIX. Apesar de no termos o registro da maioria deles, sabe-se da existncia
dos quilombos de Rio Vermelho ( 1632), Itapicuru ( 1636), Mocambo ( 1646),
Orob ( 1796), Urubu (1826), todos na Bahia; Rio das Mortes (1751), em Minas
Gerais; Malunguinho (1836), em Pernambuco.

 O mais importante reduto da resistncia negra foi o quilombo dos Palmares,
que se instalou na Serra da Barriga, no atual.Estado de Alagoas. Liderados
por Ganga Zumba e depois por Zumbi, os negros formaram um verdadeiro Estado
livre, dentro do rgido e aristocrtico sistema colonial. Durante a invaso
holandesa, com a desorganizao das tropas luso-brasileiras ocorreram fugas
em massa de escravos, engrossando a populao de Palmares, que j existia
desde o comeo do sculo XVII.

 Em 1640, o quilombo abrigava cerca de 6 000 fugitivos e trinta anos depois
havia 20000 a 30 000 indivduos.

 Em Palmares, cultivou-se feijo, banana, mandioca, batata-doce, milho e
cana- de-acar. Essa agricultura desenvolveu-se a ponto de os quilombos
palmarinos realizarem at atividades comerciais com os vilarejos brancos
prximos  serra.

 A represso a Palmares tornou-se uma necessidade aos senhores de engenho e 
metrpole, pois, ' quilombo era um constante chamamento, um estimulo, uma
bandeira para os escravos das vizinhanas - um apelo  rebelio,  fuga para
o mato.  luta pela liberdade. As guerras na Serra da Barriga e as faanhas
dos quilombos assumiram carter de lenda, alguma coisa que ultrapassava os
limites da fora dos engenhos humanos. Os negros de fora dos quilombos
consideravam ' imortal" o chefe Zumbi - a flama da resistncia contra a
incurses dos brancos '.

 Durante o sculo XVII, holandeses, senhores de engenhos e a Coroa lusitana
uniram-se para destruir Palmares. Vrios ataques foram realizados ao longo de
muitos anos. Os latifundirios contratavam o bandeirante Domingos Jorge Velho
para combater os quilombos. As tropas do bandeirante eram formadas por
aproximadamente mil homens e, na maior parte, constituam-se de ndios.

 A violncia e a brutalidade dos homens comandados por Domingos Jorge Velho
resumem a prtica das lutas dos brancos contra ndios e negros: ' Certa vez,
Domingos assassinou duzentos indgenas, cortando-lhes a cabea, exclusi-
vamente porque estes se recusaram a acompanha-lo na luta contra Palmares".

 Todos os tipos de artimanhas foram usados pelos bandeirantes: realizaram-se
desde ataques-surpresa at "um hediondo expediente para enfraquecer os
palmarinos: vestiu alguns negros capturados com roupas de doentes e
pestlentos, permitindo-lhes fugir para o redulto. espalhando ali molstias
contagiosas..."At que, em 20 de novembro de 1695, Zumbi, aps resistir com
apenas vinte homens, foi morto e decapitado. Senhor de engenho: "ser servido,
obedecido e respeitado..."

 Do outro lado da escala social estava o senhor de engenho. ' ttulo a que
muitos aspiram porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de
muitos.' Um mundo oposto ao da senzala - mas totalmente dependente dele - era
o mundo da casa-grande, do propriet- rio do engenho, ao qual todos deviam
obedincia: o patriarca. Este impunha respeito e medo at em sua familha,
sendo comum ter vrias comboras (amantes negras). Na casa-grande, havia
tambm as mucamas (escravas domsticas), que ajudavam a sinh-dona (mulher do
patriarca) nas tarefas caseiras. A sinh, submissa, obediente e temerosa do
senhor de engenho, ensinava as suas filhas, as sinhazinhas, no aprendizado
das prendas domsticas (bordado, preparao do enxoval para o casamento).

 Essas meninas - sinhazinhas -, futuras sinhs, 'faziam oraes e copavam a
receita da marmelad : segundo ditado popular da poca. ' menina negouse a
tudo qne de leve parecesse independncia. At levantar a voz na presena dos
mais velhos. Adoravam-se as acanhadas de arhumilde. Criadas em ambiente
rigorosamente patriarcal, viveram sob a mais dura tirania dos pais - depois
substituida pela tirania dos maridos."

 Os meninos, quietos e respeitosos, seguiam o pai no aprendizado do ofcio do
mando. Respeitavam os mais idosos, tomavam-lhes a bno. 'S depois de
casado arriscava-se o filho a fumar na presena do pai, e fazer a barba era
cerimnia para que o rapaz necessitava sempre de licena especial."

 As capelas, erguidas ao lado da casa-grande, centralizavam a vida religiosa.
As construes eram luxuosas e imponentes, j que os homens livres do engenho
as freqentavam nas missas, rezas e festas religiosas. As cerimnias
religiosas constituam o momento apropriado para os senhores exibirem suas
riquezas.

 Construir belas igrejas e associ-las ao nome do proprietrio do engenho era
sinnimo de poder e fora econmica.

 Em suma, praticava-se nas capelas "uma religiosidade de superfcie, menos
atenta ao sentido ntimo das cerimnias do que ao colorido e  pompa
exterior, quase carnal em seu apelo ao concreto e em sua rancorosa
incompreenso da verdadeira espiritualidade':

 Grandes e belas construes de igrejas, religiosidade superficial, "pompa
exterior", ligavam padres e senhores proprietrios. Na tradio da metrpole,
a Igreja tinha pouca autonomia, pois o clero estava atrelado ao Estado e s
ordens do rei.

 Na colnia, o clero subordinava-se aos senhores, formando laos de famlia,
propriedade e poder com o patriarca.

Sociedade pecuarista: Da capitania dos paulistas

 Sociedade pecuarista: nordestina e sulista A sociedade pecuarista do
Nordeste e Sul diferenciou-se da aucareira. A figura predominante dessa
sociedade era a dos vaqueiros, isto , homens livres no-proprietrios de
terras, que cuidavam das boiadas, e, na maioria das vezes, no estavam
submetidos aos proprietrios de terras. A prpria caracterstica de
semi-nomadismo da pecuria tornava mais livre a vida dos vaqueiros e a sua
melhor adaptao aos descendentes de indgenas.

 Em geral, 'depois de quatro ou cinco anos de servio. comeava o vaqueiro a
ser pago, de quatro cras cabia-lhe uma; podia assim fundar uma fazenda por
sua conta.

 Os chefes dos vaqueiros recebiam dos proprietrios das fazendas uma pequena
propriedade de terras, onde produziam para sua prpria sobrevivncia, alm de
terem o direito a um certo nmero de crias e a um salrio anual estabelecido
com o dono da fazenda. ' sses homens rudes e duros. muitas vezes escravos
fugidos das fazendas do litoral, foram os verdadeiros conquistadores do
serto, abrindo caminhos. fundando povoados e ocupando reas antes totalmente
virgens da presena dos colonizadores."

 No caso da atividade criatria do Nordeste, a penetrao para o interior
provocou choques com os ndios, os quais se refugiavam sempre mais para
dentro do territrio, procurando escapar do confronto com os brancos, ou
integravam-se nas mis- ses, ou, ainda, tornavam-se vaqueiros. Muitos
paulistas depois das lutas com escravos foragidos e apresamento de ndios nas
regies da Bahia e Pernambuco "preferiam a vida de grandes proprietrios nas
terras adquiridas por suas armas: de bandeirantes passaram a conquistadores,
formando estabelecimentos fixos. Ainda antes do descobrimento das minas,
sabemos que nas ribeiras do rio das Velhas e do So Francisco havia mais de
cem famlias paulistas entregues  criao de gado.

 O sul do pas, que se estende alm dos Campos Gerais, foi ocupado e
colonizado de maneira bem diversa da do Nordeste e regio das Minas. Zona de
intensos conflitos entre portugueses e espanhis, era habitada por homens
guerreiros e aventureiros.

 A partir da segunda metade do sculo XVII, os paulistas, em sua penetrao
para o interior, chegaram at o Rio Grande do Sul. Em 1680 os portugueses
fundaram, s margens do Rio da Prata, em frente a Buenos Aires, a Colnia do
Sacramento, que se instituiu como excelente base para o contrabando e aguou
ainda mais as rivalidades luso-espanholas.

 A nica forma de integrar essa regio ao restante da colnia era povo-la.
Dessa maneira a Metrpole distribuiu em grande fartura sesmarias,
constituindo-se as estncias, voltadas para a criao de gado que vivia
semi-selvagem, quase em abando- no, sobrevivendo graas s frteis regies do
pampa. A pecuria exigia pouca mo-de-obra: um capataz e alguns pees, que
geralmente eram ndios ou mestios. O trabalho era assalariado, a escravido
era rara. Alm do gado, criavam-se nas estncias cavalos e muares.

 Ser apenas no fin do sculo XVIII que se consolidar a pecuria sulina.
Inicialmente houve apenas o aproveitamento do couro, sebo e ossos; a carne
era desprezada. Mas logo descobriram-se formas de conservao (salgamento e
secagem), surgindo as grandes charqueadas que iriam abastecer o mercado
interno, particularmente a regio das Minas.

Paulistas: uma sociedade pobre da poca

 Os paulistas rumaram em direo ao norte e ao sul da colnia por uma razo
muito simples: as capitanias de So Vicente e de So Paulo de Piratininga no
ofereciam condies de sobrevivncia. Isoladas dos centros coloniais pela
falta de investimentos da Coroa ou de particulares, So Vicente e So Paulo
mantinham poucos contatos com a Metrpole (apenas um navio por ano passava
por So Vicente). Por isso mesmo, tornaram-se autnomas. Quando a Metrpole
tentava intervir diretamente nas capitanias, seus moradores no obedeciam s
ordens ou simplesmente as ignoravam.

 De outro lado, e at por causa do isolamento, a sociedade paulista formou-se
com caractersticas prprias e diferenciadas da sociedade aucareira. 
ausncia de mulheres brancas (era comum os portugueses virem sozinhos, sem
suas famlias, para o Brasil) provocou a mestiagem entre brancos e ndios,
constituindo-se uma populao mameluca. Gradativamente, a lngua da Metrpole
foi trocada pelo tupi, que serviu para dar denominao a cidades e acidentes
topogrficos.

 O isolamento e a falta de recursos obrigaram os paulistas a construir seus
prprios mveis, utensilios, armas, roupas e sapatos. Tiveram tambm que
absorver as tcnicas indgenas de sobrevivncia na selva - o que facilitou
aos bandeirantes sua penetrao pelo interior. Sem as comodidades das
familias dos engenhos do Nordeste, habitando em casebres rsticos, 'o
vicentino mostrou-se avesso s esco- las, livros, 'coisas de padres', diziam,
e que em nada os ajudavam em suas buscas. ndios, ouro, pedras preciosas,
isso sim os tirava daquela vida miservel."

Sociedade mineradora

 Durante a fase de minerao (sculo XVIII), a colnia brasileira sofreu
algumas alteraes em termos de modo de vida. Isso porque, enquanto as
sociedades aucareira e pecuarista estavam fixadas nas reas rurais e a
sociedade paulista, marcada pela pobreza, conseguia no mximo formar vilas, a
sociedade mineradora proporcionou o surgimento de centros urbanos.

 Apesar dessas diferenas, havia traos em comum. Na sociedade de Minas
tambm se privilegiava os proprietrios de maior nmero de escravos,
dando-lhes direito a maiores extenses de terra para a extrao aurfera.

 A produtividade mineradora decorria mais do nmero de escravos empregados do
que do aperfeioamento tcnico e aquisio de maquinaria.

 No entanto, um conjunto de fatores acabou por prejudicar a rentabilidade das
lavras. De um lado, a fiscalizao, a tributao sobre a quantidade de
escravos e a organizao exclusivista de comrcio, tudo em benefcio da
Metrpole. Por outro lado, os gastos com a compra e manuteno de escravos
somados a inmeras despesas menores nas operaes das lavras resultavam num
saldo bastante negativo. Dessa forma, o nivel de renda era baixo da a
existncia de um nmero muito pequeno de pessoas que conseguiam fazer fortuna
nas Gerais.

 Quando a produo do ouro entrou em crise, a partir de 1760, os senhores de
lavras no tinham condies econmicas para suportar os custos com a
mo-de-obra escrava, e promoveram, ento, a alforra (libertao) de seus
escravos. Assim os alforriados tornavam-se homens livres, que se dedicavam 
procura de fascas e de files de ouro. Em geral, mulatos, negros e mestios
viviam pobremente, no conseguindo sobreviver do trabalho livre. Muitos
desses libertos voltaram  condio de escravos, ou por engano prprio, ou
por m-f das autoridades.

 Por outro lado, nas Minas, existiam indivduos que exerciam uma variada gama
de profisses, mas que lhes permitiam, no mximo, sobreviver numa regio rica
em ouro, prata e diamantes. Esses indivduos formavam as camadas mdias ou
intermedirias da sociedade mineira: eram os artistas, artesos, pequenos
comerciantes, militares de baixa patente e pequenos mineradores (os chamados
faiscadores ou garimpeiros).

  possvel, ento, distinguir na formao social das Minas duas camadas
bsicas: a primeira, constituida de uma pequena parcela de homens ricos e
poderosos - proprietrios das lavras e grandes comerciantes. Alguns de seus
descendentes estudavam na Metrpole e tornavam-se advogados, mdicos,
professores de lnguas, participavam do alto clero ou obtinham cargos
administrativos. A segunda era uma camada mdia e uma maioria formada
basicamente por comerciantes e artesos. E abaixo dela estavam os escravos
que, segundo os documentos da poca, chegavam a mais de cem mil indivduos.

 E importante lembrar que uma anlise da vida social das regies aurferas do
sculo XVIII permitia considerar "uma economia de baixos niveis de renda.
distribuidos de maneira menos desigual do que na regio aucareira.
originando. pelo seu baixo poder de concentrao. uma estrutura social mais
aberta. Da o nmero de pequenos empreendedores e o mercado maior consttudo
pelo avultado contingente de homens livres - homens esses. entretanto. de
baixo poder aquisitivo e pequena dimenso econmica. A constituio
democrtica da formao social mineira poderia assim se reduzir numa
expresso: um maior nmero de pessoas dividia a pobreza."


    Novos valores na Europa moderna Renascimento e humanismo

 Entre os sculos XIV e XVI, a Europa passou por grandes transformaes. As
alteraes na economia (desenvolvimento comercial) e na poltica (surgimento
do Estado Nacional, centralizao do poder e ascenso da burguesia mercantil)
foram acompanhadas por mudanas na mentalidade, no comportamento e na maneira
de perceber a realidade e de interferir nela. Foi,  bom frisar, um processo
que durou sculos, em que conviviam formas antigas, como as relaes servis
de produo e os privilgios da nobreza feudal, com novas formas de
organizao da sociedade.

 A partir do sculo XIV, o teocentrsmo medieval foi sendo substitudo por
uma nova viso do mundo, na qual o ndividuo passou a ser, de maneira geral,
o centro das preocupaes humanas.

 Dessa forma, a relao Deus-Igreja-Homem, que organizava a mentalidade
medieval, cedia lugar para a relao Homem-Natureza, que passava a ser a
preocupao dos indivduos interessados em acreditar nas capacidades humanas
para resolver os desafios do meio ambiente. Tratava-se da 'crena de que o
homem  fonte de energias criatvas ilimitadas, possundo uma disposio
inata para ao, a virtude e a glria. (Nicolau Sevcenko, O Renascimento). Os
indivduos que desejavam a ruptura com os ideais medievais acreditavam nas
potencialidades fsicas e espirituais do homem.

 Surgiu assim o humanismo - movimento intelectual que privilegiava a razo
para compreender a natureza e o prprio homem e se inspirava nos valores
greco-romanos para pensar criativamente nos novos desafios do comrcio, das
navegaes, das conquistas de terras desconhecidas. A esse movimento
filosfico e intelectual humanista, inspirado nos valores da Antiguidade
clssica (Grcia e Roma), deu-se o nome de Renascimento.

 A imitao dos valores 'no seria a mera repetio dos gregos e romanos, mas
a busca de inspirao em seus atos. suas crenas, suas realzaes, de forma
a sugerir um novo comportamento do homem europeu. Um comportamento calcado na
determnao da vontade, no desejo de conquistas e no anseio do novo."
(Nicolau Sevcenko, O Renascimento). A glorificao do homem caracterizou o
antropocentrismo (o homem como centro das indagaes e preocupaes).

 O movimento rnascentista e humanista desenvolveu concepes opostas ao modo
de vida medieval:  f ops a razo, ao coletivismo feudal, o individualismo,
ao teocentrismo, o antropocentrismo. Pintura, literatura, escultura e
arquitetura refletiam essa nova maneira de pensar e foram estimuladas pelos
reis, pois a manuteno de uma vida artstica luxuosa fortalecia o prestgio
das cortes absolutistas.

Reforma: novo movimento do cristianismo

 Enquanto os movimentos de valorizao do homem atravs das obras artsticas
e literrias buscavam mudar a mentalidade europia, um outro movimento, no
sculo XVI, procurou adequar a religio s alteraes da sociedade do perodo
moderno.

 Economia comercial, Estado Nacional absolutista e desenvolvimento da
burguesia mercantil representavam as novas foras que, gradativamente,
substituram a sociedade feudal e seu principal sustentculo nos valores,
comportamentos, idias e crenas: a Igreja Catlica. Ao mesmo tempo que
condenava os lucros obtidos pelo comrcio a Igreja concentrava riquezas
atravs da cobrana de taxas e impostos que diminuam o dinheiro investido no
comrcio e na produo manufatureira.

 Portanto, em alguns pases europeus, o catolicismo representava um obstculo
 consolidao do Estado Nacional. Alm disso, o universalismo da Igreja
procurava colocar o papado acima de todos os interesses locais e regionais,
enquanto o nacionalismo do Estado Moderno promovia a sustentao da
monarquia, considerando o rei como autoridade suprema. Isso implicava
rejeitar papa nos assuntos internos do reino.

 A Igreja Catlica tambm representava um obstculo  nobreza feudal, pois
suas enormes extenses de terras impediam o crescimento das propriedades e
dos poderes dos nobres. Alm disso, os camponeses engrossavam a camada dos
descontentes com a Igreja, pois bispos, arcebispos e padres viviam  custa do
trabalho servil nas propriedades eclesiais.

 Por outro lado, a Igreja Catlica passava por uma profunda crise de
disciplina e organizao. Vrios membros do clero, que ocupavam cargos
mediante o pagamento de enormes quantias, viviam de forma ostensivamente
mundana, causando descrdito  instituio. Para manter todo esse luxo e essa
riqueza, cobrava dizimos sobre qualquer propriedade ou renda financeira dos
fiis e traficava relquias e as chamadas indulgncias.

 O conjunto desses abusos provocou protestos em toda a Europa, que culminaram
na Reforma, movimento de contestao ao poder da Igreja Catlica, apoiado por
reis, nobres, burgueses e camponeses. Seu lder, Martinho Lutero, monge
agostiniano alemo, condenava os abusos catlicos como a venda de
indulgncias, a compra de cargos eclesisticos e a falta de vocao
religiosa. Sua doutrina baseava-se na idia de que "s a f salva", em
oposio  pregao do catolicismo de que "s a Igreja salva".

 Lutero encontrou ambiente favorvel nas regies alems, onde os bens da
Igreja eram mais cobiados pela nobreza feudal,. que resistia ao processo de
centralizao monrquica desenvolvido pelo imperador germnico Carlos V. Alm
disso, nas regies alems realizavam-se estudos dos textos bblicos de acordo
com as aspiraes do humanismo. Excomungado (expulso da comunidade crist)
pelo Papa, mas apoiado pela nobreza feudal, Lutero reafirmou suas idias
perante a Dieta de Worms , reunio parlamentar convocada pelo imperador em
1521.

 Diante do crescente movimento protestante, em 1530 Carlos V convocou uma
nova Dieta para Lutero apresentar sua doutrina - a chamada ' Confisso de
Augsburgo". O imperador no aceitou a posio luterana, passando a perseguir
os protestantes. Houve, ento, sucessivas guerras entre catlicos e
protestantes, at a Paz de Augsburgo (1555), quando Carlos V reconheceu o
direito de os prncipes alemes imporem a religio luterana aos habitantes de
seus domnios, enfraquecendo, assim, o catolicismo e o prprio imperador.
Reconhecia-se ento a existncia de uma nova religio crist e ficava marcado
o fracasso poltico de Carlos V ao perder sua autoridade para a nobreza
feudal do Imprio.

 O luteranismo cresceu em toda a Europa e permitiu o surgimento de novos
movimentos protestantes, como o calvinismo. Francs de nascimento e de origem
burguesa, Calvino deu maior consistncia aos princpios colocados por Lutero
ou, por exemplo, as atividades econmicas condenadas pela Igreja. Para o
calvinismo, todo trabalho honesto e sbrio agradava a Deus e somente os
predestinados venceriam na vida. Sendo assim, banqueiros, comerciantes,
industriais, armadores trabalhavam, segundo Calvino, para a glorificao de
Deus...

 Diante dos movimentos de contestao ao seu poder, a Igreja Catlica tratou
de reagir. O Concilo de Trento, reunido entre 1545 e 1563, condenou os
protestantismos atravs da reafirmao das doutrinas catlicas. Para combater
com energia os rebeldes, a Igreja criou a Inquisio (tribunal catlico que
condenava os rebeldes  fogueira) e a Congregao do ndice (grupo de
religiosos encarregados de censurar e destruir na fogueira obras impressas e
de organizar as listas de livros proibidos). E, para fazer frente ao
crescimento reformista, criaram-se ainda inmeras ordens religiosas, dentre
as quais a Companhia de Jesus. fundada por Incio de Loyola em 1534, que se
tornou a mais expressiva e eficiente no combate ao protestantismo.

Brasil: uma cultura diversificada

 O contato de ndios e brancos O impacto dos portugueses ao descobrir o
Brasil pode ser avaliado pelos primeiros contatos entre eles e os indgenas.
A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal comunicando o descobrimento
revelou sua estranheza diante dos habitantes da terra: 'Fomos diretamente 
praia. Ali acudiram logo cerca de duzentos homens, todos nus e com arcos e
flechas nas mos. (...) O ca (Pedro lvares Cabral) deu ao velho com quem
falara uma carapua vermelha E com toda a conversa que com ele teve e com a
carapua recebida de presente nada mais quis e logo se despediu, passando o
rio para no mais aqui retornar (...) Outros trocavam rcos e flechas por
sombreiros (chapus) e carapuas (capuzes) de linho ou por qualquer coisa que
algum desejasse dar-lhes."

 A troca de presentes significava uma espcie de aperto de mo entre o ndio
e o branco. Na impossibilidade de se comunicarem pela fala, os gestos
substituam as vozes.

 A carta de Caminha revelava uma dupla percepo diante do novo; do
diferente, do outro mundo completamente diverso da Europa.

 Preste ateno nestes trechos: "(...) Os outros dois que o capito teve nas
naus, aos quais deu o que j foi dito (carapuas), nunca mais aqui
apareceram, fatos que me induzem a pensar que se trata de gente bestial e de
pouco saber, e por isso mesmo to esquivas. Mas apesar de tudo isso andam
bemcurados e muito limpos (...) Parece gente de tal inocncia que. se ns
entendssemos a sua fala e eles a nossa. seriam logo cristos... "(...) No
duvido que eles, segundo a santa teno de Vossa Alteza. se faro cristos e
ho de crer na nossa santa f,  qual praza o Nosso Senhor que os traga,
porque certamente esta gente  boa e de bela simplicidade."

 Que 'imagens" diferentes do ndio aparecem nesses dois trechos da carta? De
um lado, a simples meno ao comportamento 'bestial" dos ndios pode ilustrar
a atitude "superior ' dos lusitanos diante de indivduos desconhecidos e que
reagiram de uma forma diferente da 'civilizada'. De outro, a observao sobre
a limpeza, pureza e inocncia dos ndios parece ter atrado os portugueses,
que acreditaram na possibilidade de ' melhor-las"... Eram animadoras as
notcias enviadas por Ca- minha sobre a descoberta: embora no oferecesse
ouro e prata, a terra era to 'graciosa que. querendo aprovet-la, tudo dar
nela'. Quanto aos habitantes, havia como "salv-los": aplicando-lhes a
catequese e ao mesmo tempo escravizando-os.

 Ao longo do processo de colonizao, os portugueses passaram de simples
economia extrativista do pau-brasil para a produo em larga escala de
acar. Ao mesmo tempo aumentou a escravizao e a catequese dos indgenas,
ou seja, a imposio de padres europeus que foram destruindo o mundo dos
"selvagens ndios" - como eram chamados os habitantes do Brasil nas cartas
dos primeiros padres que aqui chegaram aos seus superiores na Europa.

Jesutas: ensino e catequese

 Em 1549, com o primeiro governador geral, chegaram tambm ao Brasil os
primeiros jesutas, sob a chefia de padre Manuel da Nbrega. Traziam duas
misses muito claras e definidas pela Contra-Reforma: ampliar a f catlica e
recuperar os fiis perdidos com a diviso do cristianismo. A catequese se
propunha  formao de novos catlicos; o Deus cristo abriria o caminho da
santidade e da "salvao dessa gente" selvagem, brbara, incivilizada. Dessa
forma, o catolicismo tornou-se um trao cultural marcante da sociedade
colonial brasileira. A tarefa da educao, por exemplo, coube aos jesutas,
que fundaram colgios como o de Salvador e o de So Paulo, o qual emprestou o
nome  vila de Piratininga, fundada por Jos de Anchieta e Manuel da Nbrega,
em 1554.

 A pedagogia jesutica consistia em aulas de ler, escrever e contar nmeros,
para os filhos dos colonos e para os ndios mais avanados. Dessa prtica
pedaggica faziam parte os castigos corporais, pois, segundo um ditador
medieval,  "com sangue que a letra entra' Havia oraes e mssas em latim,
com a presena obrigatria no s dos alunos mas tambm de todos os seus
familiares. Pode-se dizer que a Com- panhia de Jesus foi a instituio
responsvel pelo nico trabalho intelectual realizado durante os sculos XVI
e XVIi, no Brasil.

  bom lembrar que a aprendizagem das letras era considerada "coisa de homem"
, enquanto a mulher deveria aprender apenas o trabalho domstico. "Mais que
isso era coisa do demnio", j que sabedoria e desobedincia andariam juntas,
segundo a maneira de pensar dominante. A funo da mulher, no perodo
colonial, criou traos culturais que se prolongaram at nossos dias.

 As mulheres brancas ficavam confinadas ao comando das atividades domsticas.
No Brasil aucareiro, por exemplo, era hbito que a sinh (mulher do senhor
do engenho) s aparecesse aos visitantes se fosse autorizada pelo marido.

 Por sua vez a sinhazinha, filha da sinh, deveria ser mantida virgem a todo
custo, pois a ausncia de mulheres brancas fazia com que as moas tivessem um
valor de troca: serviam para altas negociaes casamenteiras que ampliavam
fortunas e garantiam a posse da propriedade. Essa ausncia de mulheres
brancas explica-se pelo fato de os portugueses raramente trazerem suas
mulheres e familias para a colnia. Por outro lado, foi muito comum, nos
primrdios da colonizao, a unio eventual de portugueses com mulheres
indgenas, e, mais tarde, com escravas negras.

 A oposio dos jesutas  escravizao dos ndios encaixava-se nos objetivos
mercantis da poca, pois enquanto o trfico interno de ndios no era
lucrativo, o trfico de escravos africanos, permitido e at legitimado pelos
padres, constitua um negcio muito rentvel, que permitia aumentar a
acumulao de capital da burguesia mercantil.

Negros: da resistncia nasceu uma nova cultura

 O negro integrou-se ao processo produtivo colonial como um instrumento de
trabalho negocivel, uma mercadoria; bastava ' bater-lhe e o orgulho e
quebrar-lhe o brio" para estar pronto a produzir.

 Atribua-se ao negro uma srie de defeitos: preguioso, libidinoso, vadio,
traiueiro, maldoso, malicioso, que legitimavam os castigos corporais
aplicados quando os escravos cometiam faltas ou rebeldias que prejudicavam o
ritmo da produo. Associava-se a cor negra  inferioridade de raa,
inculcando no cativo uma pssima viso de si mesmo. Alm disso, o prprio
trabalho manual executado pelos negros era visto como tarefa inferior,
indigna dos brancos:

 Enfim, tentou-se destruir culturalmente o negro, negando e reprimindo os
traos que poderiam ajud-lo a recuperar sua identidade.

 Nesse contexto, a prtica dos cultos africanos tornava-se, para o negro, uma
forma de resistncia  dominao. A macumba, a reza, a batucada, a dana e o
canto serviam no s para aliviar os sofrimentos da escravido, mas tambm
significavam uma espcie de ritual para promover as fugas, a contestao, a
insubordinao.

 Por outro lado, esses elementos da cultura africana influenciavam o
dia-a-dia da casa-grande. As crenas mgicas, as supersties, os tipos de
alimentao, os novos vocbulos que faziam parte da convivncia entre brancos
e negros desde a infncia, formavam o conjunto de influncias recprocas
entre brancos e negros, que marcaram a cultura brasileira.

  importante lembrar que a resistncia  ordem escravista no se dava apenas
atravs dos cultos religiosos. As manifestaes individuais da revolta dos
negros iam desde a fuga, o suicdio, o "banzo", at a execuo de brancos.

 Os negros que viviam no Brasil desconheciam as prticas de suicdio coletivo
da frica, mas era comum o afogamento de crianas negras, executado pelas
prprias mes, para evitar os sofrimentos da escravido. Para o escravo, o
suicido representava uma atitude de contestao contra os senhores; pois
significava a destruio da mo-de-obra e do capital do seu proprietrio.

 A fuga individual era perigosa devido  rgida vigilncia dos feitores, s
perseguies dos capites-do-mato e ao desconhecimento que o negro tinha da
terra e dos recursos de sobrevivncia na mata. Alm disso, se fosse
recapturado, o foragido passava por todo tipo de torturas.

 Melhor chance tinham as fugas em massa para a formao de quilombos. Em
geral, o quilombo localizava-se em regies de difcil acesso, onde os
quilombolas (habitantes dos quilombos) reconstruam a vida dos tempos
africanos, plantavam gneros para a sobrevivncia e, em alguns casos,
produziam excedentes de mercadorias para as trocas com brancos.

 A recriao do modo de vida da frica no era, no entanto, fiel aos rituais
africanos, pois, alm de os negros quilombolas serem de regies diferentes,
com ritos distintos, a religio catlica marcara o dia-a-dia dos escravos.
Eram comuns imagens de santos catlicos nos quilombos. Para os negros, porm,
esses santos tinham sig nificados diferentes que para os cristos. A
associao e a convivncia entre os deuses negros e os santos catlicos criou
o "sincretismo religioso': isto , a fuso entre os rituais brancos, negros e
indgenas, dando origem a vrias formas religiosas como umbanda, candombl e
quimbanda.

 Enfim,  importante ressaltar que os negros criavam formas de manifestao
contrrias aos valores brancos nas senzalas, nos quilombos, nos terreiros,
nos cultos, para manterem uma sobrevivncia digna.

 Por outro lado, os santos catlicos eram cultuados nas capelas de construo
obrigatria nos engenhos e na formao das vilas e cidades brasileiras. As
missas e festas religiosas marcavam a presena dos laos europeus na colnia.
Alm disso, a vida cultural dos brancos girava em torno dos colgios fundados
pelos jesutas.

literatura brasileira

 A literatura, no Brasil, iniciou-se pelo teatro com orientao catequtica,
e, at a segunda metade do sculo XVIII, com algumas excees, teve direta e
indiretamente motivao religiosa. Por dois sculos aproximadamente, os
jesuitas foram construindo alguns dos pilares mais slidos de nossa formao
intelectual, atravs dos sermes, de textos literrios e do ensino nas
escolas.

 Dois indivduos de expresso no Brasil-Colnia, o padre Jos de Anchieta e o
padre Antnio Vieira (ambos jesutas), tornaram-se figuras de relevo na
defesa da conquista da terra, da catequese e da luta contra as invases
estrangeiras, podendo ilustrar a fora da tutela jesutica na colnia.

 Na verdade, a sociedade colonial brasileira tinha horizontes culturais
limitados. No havia universidade, imprensa e autonomia na produo de
cultura erudita, o que fazia com que os filhos dos senhores de engenho fossem
obter formao universitria em Lisboa ou Coimbra.

 As razes da formao brasileira

 Antes da chegada dos portugueses ao Brasil, os indgenas tinham uma cultura
transmitida oralmente atravs de mitos e rituais religiosos. Os mitos.
espcie de histria sagrada das tribos, e os rituais, que marcavam todas as
etapas da vida dos indgenas, eram transmitidos aos mais jovens pelos homens
mais velhos de cada tribo, e em especial pelo paj, espcie de curandeiro e
conselheiro espiritual.

 O processo de colonizao fez com que influncias brancas e negras se
fundissem com as razes indgenas. Assim, foi nascendo aquilo que chamamos de
folclore brasileiro ou "cultura popular isto , uma fuso de traos culturais
distintos. mas mantendo em comum a resistncia  cultura oficial, imposta
pela Metrpole.

 Ainda que os ndios tenham sofrido um vasto e violento extermnio cultural,
no s pela matana, mas principalmente pela perda de identidade. suas
lendas, supersties, danas, cantos e maneira de cozinhar se entrelaaram
com a presena negra; exemplo disso so as lendas do saci-perer e os
temperos para feijoada e canjica.

 Tambm os negros africanos deixaram sua marca atravs do ritmo de suas
msicas. das danas e rituais religiosos. Caboclos e mulatos, os herdeiros da
cultura indgena e negra - e das tradies catlicas e europias trazidas
pelos portugueses -, criaram uma cultura mesclada que deu origem aos
reisados,  capoeira, aos maracatus, ao samba,  macumba e  poesia de
cordel.

 Em concluso, o "custo" e as contradies da formao cultural do Brasil
podem ser expressos atravs de um trecho da poesia de Carlos Drummond de
Andrade:

 As fazendas misturam dor e consolo em caldo verde-ganafa e sessenta mil ris
de impostos.

 Dores, torturas, mutilaes, fome, desespero para a maioria dos escravos;
consolo aos senhores de engenho que obtinham lucros pelo trabalho rduo do
escravo na produo do acar, embora pagassem altos impostos  Coroa
lusitana e tambm sofressem, a seu modo, o processo de aculturao.

FORMAO DO CAPITALISMO INDUSTRIAL

 Vimos no livro 1 que o descobrimento do
Brasil esteve ligado ao desenvolvimento
da economia pr-capitalista, cuja
poltica econmica era o mercantilismo,
no perodo correspondente  Idade
Moderna - sculo XV(1453) a XVIII(1789).
Assim, o comrcio tornou-se uma
atividade fundamental para os Estados
nacionais, que organizavam suas
economias para obter capitais (lucros)
atravs de transaes mercantis. Dessa
forma, ouro e prata em grande
quantidade, balana comercial favorvel,
protecionismo, industrialismo e sistema
colonial constituram as prticas
econmicas tpicas do mercantilismo.
Nessa conjuntura, o sistema colonial
tornou-se um dos pontos decisivos para o
processo de acumulao de capitais, pois
as colnias, principalmente nas
Amricas, eram ricas em metais
preciosos; ou ento, como no caso do
Brasil - onde, de imediato, no foram
localizados tais metais -, a produo de
um gnero agrcola permitiu suprir a
metrpole em sua atividade comercial.

 No entanto, para que as colnias
viabilizassem sua principal finalidade,
que era a de produzir para dinamizar a
economia metropolitana, era necessrio
que s vendessem as mercadorias e s
comprassem as manufaturas de suas
respectivas metrpoles. Assim, o
monoplio comercial, isto , o pacto
colonial (exclusividade
econmico-comercial das colnias com a
metrpole) garantiu o atrelamento das
colnias s economias metropolitanas.

  importante lembrar que, no processo
de formao da economia capitalista, os
Estados nacionais europeus disputaram o
controle dos mercados europeus e
coloniais com casamentos entre nobres,
guerras, contrabandos, pirataria, morte,
assassinatos, enfim, todos os
instrumentos disponveis. Da as
disputas de reas coloniais entre
Portugal, Espanha, Frana, Inglaterra e
Holanda, desde o sculo XV.

A Revoluo Industrial eclode na
Inglaterra

 O processo de colonizao da Amrica
foi decisivo para a formao do
capitalismo nas metrpoles europias. Se
por um lado a expanso martima e
mercantil de Portugal e Espanha
proporcionou a estes pases o
pioneirismo na explorao de metais
(caso da Espanha) e o pioneirismo na
produo de gneros agricolas (caso de
Portugal), por outro, esses pases
ibricos fixaram-se no comrcio de
intermediao (particularmente
Portugal), bloqueando assim o
desenvolvimento do processo
manufatureiro.

 De fato; os lucros da colonizao da
Amrica beneficiaram a ascenso da
Frana e da Inglaterra, permitindo a
este ltimo pas reunir as condies
econmicas, polticas e sociais que
resultaram na exploso da Revoluo
Industrial, no sculo XVIII. "O que
significa a frase: a Revoluo
Industrial explodiu? Significa que a
certa altura da dcada de 1780, e pela
primeira vez na histria da humanidade,
foram retirados os grilhes do poder
produtivo das sociedades humanas, que
da em diante se tornaram capazes da
multiplicao rpida, constante, e at o
presente ilimitada, de homens,
mercadorias e servios.

 Resumindo, a Revoluo Industrial
resultou das transformaes ocorridas na
agri- cultura, indstria, transportes,
bancos e comunicaes, que propiciaram o
desenvolvimento da economia capitalista.
Nesse processo de transformaes, a
burguesia assumiu o poder poltico na
Inglaterra, aps anos de guerra civil
com a monarquia absolutista; o rei
acabou por submeter-se ao parlamento
controlado pelos grupos burgueses. A
nvel social, o processo de
transformaes dividiu a sociedade
inglesa, a grosso modo, em duas classes:
a burguesia, que se tornava a
proprietria dos meios de produo -
mquinas, ferramentas e fbricas -, e o
proletariado, a classe assalariada que,
para sobreviver, vendia sua fora de
trabalho.

  necessrio perceber que, ao longo da
Idade Moderna (sculo XV a XVIII),
desenvolveram-se as pr-condies para
deflagrar a Revoluo Industrial, ou
seja:

 acumulao de capitais, liberao da
mo-de-obra (servil em assalariada),
aperfeioamento tcnico-cientfico e
ampliao de capitais. Enfim, a
Revoluo Industrial considerada de
maneira restrita, significou o processo
de mecanizao do setor industrial, que
ocorreu primeiro na Inglaterra e depois
em outros pases como a Frana, os
Estados Unidos, a Alemanha, o Japo etc.

 E por que a Revoluo Industrial
ocorreu primeiro na Inglaterra? A
resposta  simples. Porque a Inglaterra
reuniu, antes dos demais pases, as
condies bsicas para tanto. Durante os
sculos XVI, XVII e XVIII, a Inglaterra
realizou mudanas profundas em dos
setores essenciais: agricultura e
indstria. Na agricultura, promoveu-se
uma revoluo de amplas conseqncias,
com a acumulao de capitais pela
produo de excedentes agrcolas e
liberao de mo-de-obra. Como se deu
esse processo?

Condies favorveis da Inglaterra

 Em sntese, as condies favorveis
para a ecloso da Revoluo Industrial
na Inglaterra foram as seguintes:

- acmulo de capitais provenientes do
comrcio colonial, do contrabando, do
trfico de escravos com outros pases;

- ocorrncia da Revoluo Agrcola,
fonte de acumulao de capitais pela
produo mecanizada de alimentos,
possibilitando a venda de excedentes
agrcolas a preos menores em maiores
quantidades;

- como conseqncia da Revoluo
Agrcola que ocorreu em toda a Europa,
mas comeou na Inglaterra, houve a
liberao de mo-de-obra do campo para a
cidade. Essa mo-de-obra, barata porque
numerosa e disponvel para entrar a
qualquer momento na produo, favoreceu
o acmulo de capitais graas aos baixos
salrios pagos aos trabalhadores;

- ampliao do mercado interno e
externo; a Inglaterra garantiu o
crescimento do mercado interno pela
abertura de canais, estradas e portos. A
nvel externo, os ingleses expandiram o
comrcio sobretudo pela conquista de
mercados consumidores para seus produtos
atravs de guerras, principalmente na
Europa. Dispondo de uma esquadra
poderosa, a Inglaterra dominava o
mercado externo;

- as ricas jazidas de ferro e carvo,
importantes para a construo de
mquinas e ferramentas, aliadas 
produo de l e algodo (das colnias),
garantiram a supremacia inglesa nas
matrias-primas bstcas para a
industrializao;

- o desenvolvimento cientf co assegurou
o surgimento de mquinas capazes de
aumentar a produtividade das fbricas.

 Todos esses fatores, conjugados ao
sistema poltico da Inglaterra, no qual
os grupos empresariais podiam dispor do
poder de deciso para orientar a
economia em direo aos seus interesses,
fizeram desse pas o ponto de apoio para
o desencadeamento da Revoluo
Industrial.

  fundamental percebermos as
transformaes ocorridas com a Revoluo
Industrial:

- o capitalismo firmou-se como economia
preponderante no processo industrial;

- a utilizao da mquina e a diviso
tcnica do trabalho provocaram aumento
da produo e da produtividade, e
conseqente alargamento do mercado
consumidor e produtor;

- a produo industrial ampliou a
urbanizao e resultou no despovoamento
dos campos diante da Revoluo Agricola;

- a sociedade industrial, formada com o
desenvolvimento capitalista,
estruturou-se em duas classes bsicas: a
burguesia, detentora dos meios de
produo e controladora do capital, e o
proletariado, que vendia sua fora de
trabalho, ganhando salrio pela produo
na indstria e na agricultura, criando
uma sociedade de privilgios, assentada
na relao capital versus trabalho;

- a partir de 1780, o conjunto de todas
as condies produtivas (ferro, carvo,
mquinas, desenvolvimento tcnico e
cientfico e abundncia de mo-de-obra
humana) permitiu o desenvolvimento do
capitalismo industrial de modelo
liberal.

 Capitalismo industrial liberal

 O capitalismo, que se desenvolveu no
processo da Revoluo Industrial, passou
por trs fases significativas: de 1780 a
1870, a primeira fase chamada de
capitalismo industrial liberal; de 1870
a 1945, a segunda fase, chamada de
capitalismo industrial monopolista; e de
1945 em diante, a terceira fase chamada
de internacionalizao do capitalismo. '

 A primeira fase (1780/1870)
caracterizou-se pela total liberdade
econmica da burguesia ao produzir,
vender e fazer circular as mercadorias
produzidas, comprar matrias-primas e
fixar os salrios do proletariado.

 A produo industrial realizava-se em
pequenas e mdias fbricas, com diviso
de trabalho entre os operrios,
utilizao das mquinas movidas a vapor,
mo-de- obra assalariada, produo em
larga escala para possibilitar lucros ao
empresrio.

 A livre concorrncia marcou esse
processo industrial. A competio entre
as empresas baseava-se na idia de que
produtores e consumidores
beneficiavam-se mutuamente, pois esses
produtores, para superarem seus
concorrentes, ofereciam melhor qualidade
e mercadorias a preos baixos. Assim, a
livre concorrncia seria um processo
natural no qual o prprio mercado teria
sua auto-regulao, sem a necessidade de
interveno do Estado na economia, como
acontecera no mercantilismo.

 Alis, as prticas mercantilistas foram
condenadas e combatidas pela nova
economia capitalista.

 A economia passou a ser regida pelo
laissez faire, lasez passer (deixar
fazer, deixar passar), com leis
prprias, livre concorrncia e o mercado
produtor e consumidor estabelecendo-se a
harmonia da oferta e procura.

 Na sociedade industrial liberal, o
Estado tinha por funo: ajudar o
empresrio capitalista atravs do
controle social das massas proletrias
(em caso de revoltas); organizar o
exrcito para garantir a soberania do
pas e enfrentar guerras com outros
pases; assegurar as conquistas de
mercado externo; executar obras pblicas
para facilitar a expanso interna dos
investimentos capitalistas.

 Dessa forma  possvel identificar,
nessa primeira fase (1780/1870), duas
etapas da expanso capitalista que levou
 segunda revoluo industrial (1870): a
primeira etapa, de 1830 a 1850, 
marcada pela construo de ferrovias; na
segunda etapa, de 1850 a 1870, comea a
declinar o livre comrcio.

 Entre 1830 e 1870, a formao bruta de
capital na Gr-bretanha superou a
barreira dos 10 /por cento e j ento a
era da industrializao (barata) baseada
em artigos como tecidos cedia lugar 
era das estradas de ferro, carvo, ferro
e ao. (...) As estradas de ferro
pareciam estar vrias geraes  frente
do resto da economia, e, na verdade,
'estrada de ferro' tornou-se uma espcie
de sinnimo de ultramodernidade na
dcada de 1840, como 'atmico' o seria
depois da II Guerra Mundial".

 A etapa que vai de 1850 a 1870 poderia
ter sido uma poca de produo em grande
escala e reduo do custo por unidade
(aumento no volume de produo = reduo
do custo da mercadoria), se no fossem
as medidas que os capitalistas
precisaram tomar para enfrentar os
problemas gerados pela livre
concorrncia entre produtores. As
mercadorias tiveram, num primeiro
momento, seus preos barateados e o
empresrio vitorioso seria aquele que,
por possuir um capital maior, resistisse
a esse barateamento, sobrepujando o
empresrio que dispunha de menor
capital: uma verdadeira batalha, na qual
a runa de pequenos capitalistas
significava o crescimento dos maiores,
que adquiriam os bens dos vencidos.
Dessa forma, a livre concorrncia foi
cedendo lugar aos monoplios: grandes
indstrias que detinham o controle total
da produo - desde os locais
fornecedores de matrias-primas at a
distribuio das mercadorias, dentro e
fora do pas.

Capitalismo industrial monopolista

 A partir da dcada de 1870, uma segunda
revoluo industrial iniciou-se, com o
fim do livre comrcio preconizado pelo
liberalismo do sculo XVIII. O
capitalismo passava por uma nova fase,
baseada nas tarifas protecionistas que
cada pas impunha s suas mercadorias,
para evitar a concorrncia de outros
pases. Nessa fase comearam os trustes,
organizaes industriais de controle da
produo e distribuio das mercadorias,
com o objetivo de impor o preo dos
produtos industriais a seu favor.

 Por outro lado, os capitalistas
perceberam que seria mais til buscar
alianas, man tendo empresas separadas
mas sem competir entre si, estabelecendo
a diviso dos mercados e dos preos;
esse tipo de associao denominou-se
cartel.

 Nesse novo capitalismo, com o aumento
do monoplio, os preos passaram a ser
fixados pelos trustes, cartis e
holdings (uma empresa central controla
outras empresas subsidirias, que se
mantm autnomas, embora a maioria das
aes pertenam  empresa central. Um
exemplo de holding poderia ser a
Autolatina, empresa que administra a
Ford e a Volkswagen no Brasil).

 Se uma primeira caracterstica dessa
segunda fase da Revoluo Industrial
foi, sem dvida, a concentrao de
capitais, com a transio do capital
concorrencial para o capital
monopolista, uma segunda caracterstica
foi o estabelecimento do im perialismo e
do neocolonialismo.

 O imperialismo configorava-se pela
necessidade de novas reas de aplicao
dos capitais industriais. Tratava-se de
buscar reas "atrasadas" a nvel
industrial, que fornecessem
matrias-primas e mo-de-obra barata,
com proteo dos governos locais, para
garantir a prtica monopolista do
capital.  importante perceber que o
imperialismo iniciava um novo tipo de
colonialismo. O colonialismo do sculo
XVIi baseava-se na busca de produtos
tropicais e metais preciosos e na
colocao de produtos manufaturados. J
esse novo colonialismo do sculo XIX se
organizava na busca de carvo, ferro,
petrleo (destinados a mquinas
europias) e produtos alimentcios.

  claro que as potncias europias
continuavam a exportar produtos
industrializados, mas essa no era a
atividade econmica predominante. A
partir de 1870 , o fundamental era
aplicar os capitais europeus excedentes
e amplilos. O capital agora era
utilizado, nas novas relaes coloniais,
para construir estradas de ferro e
explorar minrios importantes para o
desempenho do parque industrial europeu.
A Amrica Latina, a sia e sobretudo a
frica foram as regies de penetrao
imperialista no sculo XIX.

 Portugal e Espanha j tinham seus
domnios na frica desde o sculo XVI.
Agora, nessa nova fase de colonialismo,
a Inglaterra, Frana, Alemanha, Itlia e
Blgica passariam a disputar os
territrios africanos. A Frana ocupou a
Arglia, Tunsia , Africa Ocidental
Francesa, frica Equatorial, Senegal,
Madagscar. A Inglaterra apossou-se da
Rodsia, Unio Sul=Africana, Nigria,
Costa do Ouro, Serra Leoa , Egito,
Sudo, Qunia. A Alemanha anexou o
Camerum, sudoeste da Africa e parte da
frica Oriental. A Itlia dominou o
litoral da Libia, a Eritria, parte da
Somlia, A Blgica organizou a
Associao Internaconal Africana e o
Comit de Estudos do Alto Congo com
finalidades colonialistas, dominando uma
regio central da frica conhecida como
Congo Belga. Portugal e Espanha
controlaram territrios que j dominavam
desde o sculo XVI. Portugal fixou-se
hegemonicamente em Angola, Moambique e
parte da Guin.  Espanha pertenciam
Marrocos, rio do Ouro e outra parte da
Guin.

 A penetrao europia na frica foi
realizada com todas as formas de
violncia s populaes nativas.
Destruio dos valores tradicionais
(como a vida comunitria) das tribos
africanas, escravido, guerras, uso da
fora (estupros e corte dos seios nas
mulheres e castrao nos homens, corte
das mos e ps etc.) foram os mtodos
europeus para submeter a frica aos
objetivos exploratrios do imperialismo.

 A Asia tambm se tornou territrio da
cobia imperialista. Do sculo XV ao
XVIII, a dominao europia no atingiu
internamente as sociedades asiticas,
pois j havia inmeros portos abertos ao
comrcio ocidental. No entanto, do final
do sculo XVIII at 1880 houve outra
tendncia: "Por sua imensa populao, a
sia Oriental passou a ser encarada como
apetitoso mercado consumidor de produo
da nascente indstria fabril europia. O
desencadear da Revoluo Industrial
levou os pases industrializados a
buscar mercados para vender seus
produtos e obter matrias-primas a baixo
preo".

  importante lembrar que, a partir da
dcada de 1870, "o capitalismo passou
por uma violenta crise, provocada pelo
prprio crescimento econmico dos pases
europeus que passaram a disputar novos
mercados. Essa crise provocou a falncia
de slidos bancos, diminuio da
produo industrial e dos salrios e
aumento do desemprego. A extenso desta
crise se deu de 1870 at 1895, o que
inaugurou novas relaes capitalistas.
(... ) Durante a Grande Depresso
(1870/1895), a Gr-Bretanha deixou de
ser a oficina mecnica do mundo e
tornou-se uma de suas trs maiores
potncias industriais; e, em certos
sentidos, a mais fraca delas".

 As duas potncias que emergiram da
Grande Depresso foram os Estados Unidos
e a Alemanha. A corrida para a sia e a
Amrica Latina possibilitou a ampliao
de mercados para solucionar os problemas
econmicos ocasionados pela crise.

 frica, sia e Amrica fizeram parte da
estratgia imperialista, pois "esses
mercados funcionariam como fornecedores
de matrias-primas, consumiriam a
produo industrial dos pases
dominadores, proporcionariam gneros
agrcolas e serviriam de campo de
investimento de capitais excedentes da
Europa. Note-se que, a partir de 1870, a
corrida imperialista enfatizou a busca
de reas para investimento e capitais
disponveis, garantindo maior margem de
lucro".

 Durante o sculo XIX, a Amrica Latina
gradativamente se articulou com o
capitalismo industrial, em particular
com a Inglaterra, seguida pela Frana e
pela Alemanha. Ao longo da dcada de
1870, a economia latino-americana esteve
atrelada aos interesses imperialistas da
Europa, mantendo-se fornecedora de
matrias-primas e alimentos. Essa
especializao em produtos primrios fez
com que se mantivessem as
caractersticas do perodo colonial
anterior, desde o sculo XVI.

 A regio latino-americana consolidava
sua posio de economia complementar 
europia, mas rompia com as naes
ibricas (Espanha e Portugal) e com um
tipo de colonizao. O processo de
emancipao poltica vinculava-se na
verdade a um novo modelo colonizador: o
imperialista, muito mais profundo e
difcil de se romper. A independncia
dos laos coloniais mercantilistas
representou um reajustamento econmico e
poltico s novas relaes do
capitalismo industrial, ao longo do
sculo XIX.

As bases polticas e ideolgicas do
capitalismo

 "Se a economia do mundo do sculo XIX
foi formada principalmente sob a
influncia da Revoluo Industrial
britnica, sua poltica e ideologia o
foram fundamentalmente pela Revoluo
Francesa. A Gr-Bretanha forneceu os mo-
delos para as ferrovias e fbricas, o
explosivo econmico que rompeu com as
estruturas scio-econmicas tradicionais
do mundo no-europeu, mas foi a Fran- a
que fez suas revolues e a elas deu
suas idias..."

 Enquanto a Revoluo Industrial criou
as bases de sustentao da economia
capitalista, a Revoluo Francesa
estabeleceu as bases polticas e
ideolgicas do capitalismo.

 A Revoluo Francesa representou o
predomnio das classes burguesas que,
durante todo o processo revolucionrio,
controlaram o movimento. Assim, os
ideais revolucionrios foram burgueses,
os rumos do movimento permaneceram sob o
controle das classes burguesas.
Tratava-se, ento, do triunfo da
burguesia sobre a nobreza feudal na
Frana.

Antecedentes da Revoluo Francesa

 A Frana passava por uma crise
econmica estrutural e conjuntural, no
sculo XVIII. A nvel estrutural, o
feudalismo francs corroa-se pelo
aumento demogrfico e pelo crescimento
das foras capitalistas de produo. A
agricultura, base da economia francesa,
tivera sua produo comprometida por
sucessivas e ms colheitas, com
conseqente elevao dos preos dos
gneros alimentcios, e pela falta de
recursos tcnicos para superar problemas
climticos; a populao camponesa
crescia e eram constantes os perodos de
fome, acarretando misria e
subalimentao.

 A nvel econmico conjuntural, um
tratado comercial com a Inglaterra, na
dcada de 1780, estabeleceu que a Frana
compraria tecidos e produtos
metalrgicos ingleses, em troca de os
britnicos concederem certas
preferncias ao vinho francs.

 A incipiente manufatura francesa no
tinha a menor condio de concorrer com
a indstria inglesa, em pleno processo
da Revoluo Industrial. A consequncia
disso foram falncias, desemprego,
subemprego, queda de salrios, elevao
do custo de vida, alm do
comprometimento da nascente
industrializao francesa. Comearam
ento os movimentos sociais contra a
monarquia.

 A crise social da dcada de 1780
aprofundava as diferenas estruturais da
sociedade, dividida em trs classes,
ordens ou estados: clero, nobreza e
povo. O clero, representante da primeira
ordem, exigia o pagamento do dzimo
(dcima parte da produo) das massas
camponesas, que tambm deveriam pagar
outras taxas  nobreza (segunda ordem).
A terceira ordem, formada pela
burguesia, camponeses e populaes
urbanas empobrecidas (os chamados
sans-culottes, sem-calas, a massa de
desempregados de Paris), tinha que arcar
com o aumento dos impostos para cobrir
os gastos com guerras de conquista e
para manter uma corte rica, parasitria
e luxuosa.

 A monarquia absolutista, incapaz de
fazer as reformas necessrias para
solucionar os problemas, era combatida
pelo terceiro estado, chefiado pela
burguesia. A burguesia, consciente da
sua fora poltica e econmica, desejava
submeter o rei e apossar- se do poder.

Queda da Bastilha

 Em maio de 1789, o rei Lus XVI (da
familia dos Bourbon) convocou uma
reunio dos Estados Gerais, reunindo em
Assemblia Nacional representantes das
trs ordens sociais para votar diversas
reformas. O clero e a nobreza, com menor
nmero de representantes, procuraram
manobrar as votaes, para que fossem
feitas por ordem; assim,  evidente, s
seriam aprovadas as reformas que
interessassem ao clero e  nobreza, j
que estes tinham interesses comuns. A
terceira ordem clamava pela votao
individual, pois os membros da burguesia
e proletariado formavam maioria na
Assemblia. Como forma de resistncia, o
Terceiro Estado declarou-se em
Assemblia Nacional permanente; o rei
tentou, em vo, reagir. Em 14 de julho
de 1789, a burguesia, aliada  massa do
proletariado, marchou sobre a Bastilha
presdio reservado aos opositores do
regime - e destruiu com machdos e
foices a fortaleza, pedra por pedra.
Esse episdio, que ficou conhecido como
Queda da Bastilha, significou o fim do
antigo regime na Frana.

Fases da Revoluo

  possvel dividir a Revoluo Francesa
em trs fases:

- a) das instituies: 1789/1792;

- b) das antecipaes: 1792/1794;

- c) das consolidaes: 1794/1815.

 A fase das instituies (1789/1792)
compreendeu o perodo da Assemblia
Nacional Constituinte, liderada pela
burguesia, quando surgiu a Declarao
dos Direitos do Homem e do Cidado. Pelo
contedo dessa declarao, todos os
homens teriam iguais direitos 
liberdade,  propriedade,  igualdade
perante a lei,  segurana, e a lutar
contra qualquer forma de opresso. Essas
aspiraes foram reunidas em um
documento que originou a primeira
Constituio da Frana (1791), ficando
instalada a monarquia constitucional. A
Constituio estabelecia trs poderes:
executivo, legislativo e judicirio. O
primeiro era da incumbncia do rei, que
indicava os ministros. O poder
legislativo, exercido por uma Assemblia
de Deputados, tinha por funo aprovar
ou no as medidas do executivo e fazer
as leis. Os deputados seriam eleitos
segundo critrios censitrios, isto ,
s poderiam ser eleitos os indivduos
que possussem renda (essa foi uma
maneira de a burguesia afastar as
classes populares-proletrias do poder).
O poder judicirio era exercido por
juzes eleitos, e suas funes
baseavam-se na vigilancia dos outros
dois poderes. Dois pontos sobressaram
dessa Constituio: a liberdade
econmica e o fim dos privilgios
feudais (dos nobres e clero),
consolidando o poder das classes
burguesas.

 A fase das antecipaes (1792/1794) foi
o perodo da Revoluo Popular. Essa
nova fase originou-se com a deposio do
rei francs. Lus XVI, aliou-se a
potncias absolutistas (Prssia e
ustria) para esmagar a Revoluo.
Descoberto o plano da invaso da Frana
por aquelas potncias, a Assemblia
deps o rei, condenando-o  morte, e
anulou a Constituio de 1791. Para
elaborar uma outra constituio, a
Assemblia convocou eleies gerais por
sufrgio universal - direito do voto a
todos os cidados. As eleies gerais
formaram a Conveno, onde os deputados
eleitos estavam divididos em trs
partidos: o partido dos girondinos,
representantes da alta burguesia
(grandes industriais, grandes
comerciantes, banqueiros), em defesa de
uma repblica burguesa, contra a
ascenso das massas populares; o partido
da Planci que congregava parcelas da
burguesia sem um projeto poltico
definido; o partido dos jacobinos,
representando a pequena e mdia
burguesia (pequenos comerciantes, que
buscou o apoio dos sans-culottes e
defendeu uma repblica popular, com a
liderana de Robespierre e Saint-Just.

 Os jacobinos, que formavam o partido
mais radical da revoluo
(representantes da esquerda), superavam
em nmero de deputados os girondinos
(representantes da direita) e a Plancie
(representantes do centro). Assim, em 21
de setembro de 1792, a Conveno
proclamou a Primeira Repblica Francesa,
na qual os jacobinos dominavam as
comisses encarregadas do poder
executivo.

 O governo jacobino teve que enfrentar
forte oposio externa e interna. A
nvel externo, vrios pases
absolutistas europeus organizaram a
Primeira Coligao Antifrancesa. A nvel
interno, para conter os movimentos
contra-revolucionrios dos opositores 
poltica de austeridade econmica
implantada por Robespierre, os jacobinos
recorreram a todo tipo de violncia,
instalando o perodo do Terror com
perseguies, torturas e mortes
atingindo todas as classes sociais.

 Dentro do partido, a formao de vrias
faces acabou por enfraquec-lo, bem
como o fracasso das medidas econmicas e
a rejeio geral ao regime de terror. A
alta burguesia, aliada s altas patentes
do exrcito, derrubou os jacobinos do
poder, atravs do golpe conhecido como
reao termidoriana - realizado no dia 9
de termidor (agosto) de 1794.

 A fase das consolidaes (1794/1815)
caracterizou-se por trs
etapas:1794/1799, perodo do
Diretrio;1799/1804, perodo do
Consulado;1804/1815, perodo do Imprio.

 O Diretrio foi uma repblica burguesa
cujo poder executivo era exercido por
diretores. Nessa fase predominou a
instabilidade poltica provocada pelos
conflitos entre jacobinos, girondinos e
realistas (partidrios da volta 
monarquia). Externamente, em 1799,
Inglaterra, ustria e Rssia formaram a
Segunda Coligao Antifrancesa.

 O Diretrio mostrou-se incapaz de
resolver as crises, favorecendo a
organizao do golpe de 18 de brumrio
(novembro) de 1799. Desse golpe
participaram os grupos mais ricos da
burguesia e a jovem oficialidade
francesa, sob a liderana do general
Napoleo Bonaparte (ento com trinta
anos de idade).

Era napolenica

 O perodo do Consulado, de 1799 a 1804,
estruturou-se sobre uma repblica na
qual a Frana era governada por trs
cnsules, embora, na prtica, apenas o
primeiro cnsul, Napoleo Bonaparte,
exercesse de fato o poder. Esse periodo
caracterizou- se pela restaurao
financeira (criao do Banco de Frana e
do franco como moeda nacional), pela
restaurao interna, concedendo anistia
a jacobinos e realistas, pela
restaurao do catolicismo, que resultou
no reatamento das relaes com Roma,
subordinando o clero francs 
autoridade civil.

 Externamente, Napoleo venceu a Segunda
Coligao Antifrancesa e consolidou
definitivamente os princpios liberais
burgueses no Cdigo Civil, promulgado em
1804. Esse cdigo garantiu os princpios
da Declarao dos Direitos do Homem e do
Cidado como a liberdade individual, de
trabalho, de conscincia, de igualdade
de todos perante a lei. Porm, o Cdigo
realizou o maior desejo dos burgueses,
que era a manuteno da propriedade
privada.

 Durante o Consulado, Napoleo Bonaparte
reformou o Estado francs para sustentar
os interesses da burguesia e, ainda,
preparou-se pra tornar-se o imperador
da Frana.

 No Imprio, de 1804 a 1815, Napoleo
completou as reformas iniciadas no
Consulado. As principais medidas foram:

- a nvel econmico, o Banco de Frana
financiava a burguesia para a instalao
de indstrias;

-a nvel poltico, estabeleceu-se a
censura de livros, peas teatrais, artes
plsticas e promoveu-se a centralizao
do Estado;

-a nvel religioso, pregava-se a crena
no Estado;

-a nvel educacional, Napoleo tinha
dois objetivos: um, de criar tcnicas
para desenvolver o setor industrial;
outro, de preparar os jovens dentro de
um esquema militar disciplinar para as
guerras.

A crise do absolutismo na Europa

 A poltica externa do Imprio
napolenico foi marcada por guerras de
conquista, para ampliar os mercados
consumidores dos produtos industriais
franceses e os fornecedores de
matrias-primas para as suas fbricas.
Outro objetivo era diminuir o poderio
econmico da Inglaterra, que tinha a
Europa continental como principal fonte
de escoamento de seus produtos
industriais.

 Impossibilitado de dominar 33mtmente
a Inglaterra, Napoleo serviu-se do fato
de dispor dos exrcitos mais
bem-organizados e bem-treinados de toda
a Europa para conquistar e sbmeter os
Estados europeus. Para enfraquecer a
Inglaterra, Napoleo decretou em Berlim
(1806) e em Milo (1807) o bloqueio
continental, proibindo o comrcio da
Europa continental com a Inglaterra. A
finalidade do bloqueio era aumentar o
consumo dos produtos industriais
franceses, liberando-os da concorrncia
inglesa para arruinar o comrcio e a
indstria da Inglaterra.

 O bloqueio continental no cumpriu os
objetivos franceses, pois sua indstria
no conseguiu substituir os produtos
ingleses, principalmente no mercado
europeu. Mas as guerras napolenicas e o
bloqueio aceleraram as mudanas
econmicas e polticas no restante da
Europa.  medida que Napoleo avanava
sobre os territrios europeus, anexando
pases ou fazendo alianas, o modelo
econmico francs era gradativamente
implantado A igualdade perante a lei, o
fim dos direitos feudais, a liberao da
mao-de-obra concedendo liberdade
econmica aos artesos e camponeses,
foram reformas que aceleraram o
desenvolvimento de uma sociedade
consumidora de produtos industriais.

 Em dois pases europeus o bloqueio
continental provocou repercusses bem
mais fortes: Espanha e Portugal. A
interveno napolenica na Espanha foi
desastrosa , pois a populao organizou
guerrilhas para combater o inimigo
francs; no entanto, esse processo
acelerou a emancipao poltica das
colnias espanholas na Amrica. Caso
semelhante ao da Espanha foi o de
Portugal, em que a populao tambm
resistiu ao domnio francs, e a familia
real, pressionada pela Inglaterra a no
aderir ao bloqueio, transferiu sua corte
para o Brasil, iniciando assim o
processo de independncia.

 Para compensar a desorganizao
temporria dos mercados europeus, a
Inglaterra interessou-se em patrocinar,
isto , incentivar e apoiar os
movimentos de emancipao na Amrica,
criando assim novos mercados
consumidores de produtos industriais.
Com isso provocou a ruptura do pacto
colonial, principal eixo da poltica
mercantilista, ocasionando a crise do
sistema colonial.

 O imprio napolenico entrava em
colapso e o seu final foi marcado pela
derrota na campanha da Rssia, em 1814.
Napoleo, inicialmente deportado para a
ilha de Elba, retornou e governou a
Frana durante os Cem Dias, em 1815.
Nesse mesmo ano, Napoleo perdeu a
batalha de Waterloo e foi
definitivamente exilado na ilha de Santa
Helena.

 Com a derrota de Napoleo surgiram na
Europa foras reacionrias s conquistas
burguesas. As monarquias absolutistas
europias se reuniram, sob a liderana
da ustria (maior potncia absolutista
da Europa), no Congresso de Viena
(1815), para organizar a estratgia de
combate s revolues liberais. Para
lutar contra os, movimentos liberais,
formou-se a Santa Aliana, uma fora
militar integrada pelas diversas naes
absolutistas.

 No entanto, os governos absolutistas
foram incapazes de controlar os avanos
econmicos e polticos da burguesia. De
1815 a 1830, a Europa foi sacudida por
aes contra-revolucionrias, de
resistncia ao liberalismo. Na dcada de
20, a burguesia liberal triunfou na
Blgica que, aps muita luta, se
libertou da Holanda. A partir de 1830,
novos movimentos liberais ocorreram na
Frana, provocando a queda de Carlos X,
ltimo rei Bourbon. A Santa Aliana no
conseguiu fazer reverter esse quadro
revolucionrio. Junto com o liberalismo
poltico, a burguesia propunha a
ideologia nacionalista. Mas o
nacionalismo e o liberalismo tiveram
expresses mais agudas e profundas nas
Revolues de 1848.

Socialismo e nacionalismo

 Em 1848, os movimentos liberais
ganharam o continente europeu,
consolidando a burguesia no poder por
toda parte. O Congresso de Viena era
apenas uma recordao do passado; a
nobreza submeteu-se definitivamente s
revolues burguesas. A partir da a
burguesia foi se tornando to
reacionria contra qualquer revoluo
quanto a nobreza havia sido
anteriormente. Esse comportamento
burgus agigantou- se pelo fato de o
operariado, com dificuldades de
sobrevivncia diante da explorao de
sua fora de trabalho, reagir como
herdeiro do esprito revolucionrio da
burguesia e ameaar o poder dos grandes
capitalistas. A burguesia combateu todas
as foras de avano das classes
operrias na luta contra o capital.
Emdposio s idias liberais que
buscavam a legitimao da burguesia, e
que garantiram a essa classe o direito 
propriedade dos meios de produo, o
operariado apresentou sua proposta de
democracia popular: o socialismo, no
qual haveria a abolio da propriedade
privada dos meios de produo.

 Na Frana, a monarquia de 1830 a 1848
foi controlada pela alta burguesia
conservadora, que obtinha fora poltica
na Assemblia Nacional atravs de
eleies censitrias (somente os que
possuam renda podiam participar).
Embora o processo industrial tenha sido
mais lento do que na Inglaterra, tambm
na Frana o proletariado formava uma
massa considervel que, por suas ms
condies de vida, tornava- se receptiva
s idias socialistas. Vrios grupos
polticos, como os republicanos
lberais, os socialistas, os
bonapartistas (burguesia que desejava a
volta de um descendente de Napoleo) e
legitimistas (nobreza que apoiava a
volta dos Bourbon) fizeram a Revoluo
de Fevereiro de 1848. Dessa revoluo
resultou a proclamao da Segunda
Repblica Francesa, um governo
provisrio e eleies livres para uma
Assemblia Constituinte. Republicanos
livres e socialistas governaram a nova
repblica. Por iniciativa de Louis
Blanc, lder dos socialistas, criaram-se
oficinas nacionais para absorver os
empregados e algumas outras medidas em
benefcio do trabalhador.

 A burguesia francesa armou-se
politicamente contra o chamado "perigo
vermelho". Na eleio para a Assemblia
Constituinte, os lderes moderados
obtiveram maioria de deputados. O
resultado foi o fechamento das oficinas
nacionais e restries s conquistas
trabalhistas. Os socialistas reagiram,
tentando defender as conquistas do
proletariado, mas a reao da burguesia
foi violenta, com forte represso ao
proletariado.

 Uma nova constituio estabeleceu o
regime presidencialista e o primeiro
presidente eleito foi o sobrinho de
Napoleo, Lus Napoleo Bonaparte. Para
superar suas dificuldades com o poder
legislativo, Lus Napoleo deu um golpe
de Estado e proclamou o II Imprio da
Frana.

 No restante da Europa tambm foram
intensos os movimentos liberais e
socialistas, sobretudo em dois pases:
Itlia e Alemanha.

 Na Itlia, as caractersticas do
movimento de 1848 foram simultaneamente
liberais e nacionalistas. O nacionalismo
apareceu quando os italianos procuraram
eliminar a dominao austraca em duas
regies: Lombardia e Veneza, dando
incio ao processo de unificao da
Itlia. A revoluo teve a liderana do
rei da Sardenha- Piemonte, que pretendia
expulsar os austracos. O movimento
fracassou e o rei abdicou do trono em
favor de seu filho, Vtor Emanuel II,
que em 1870 unificou a Itlia
coroando-se seu primeiro rei. O carter
liberal do movimento se expressou na
presso para obrigar os governantes a
conceder  sociedade italiana uma
constituio.

 O motivo da Alemanha tambm foi de
carter nacionalista e liberal, como na
Itlia. Aps o Congresso de Viena (
1815), os Estados alemes constituram
uma Confederao coordenada por uma
assemblia, que se reunia em Frankfun.
Prssia, ustria e vrios pequenos
principados alemes faziam parte da
Confederao. Para obter uma integrao
entre os Estados alemes criou-se uma
liga aduaneira para estimular o
desenvolvimento industrial. Com isso
manifestou-se o nacionalismo germnico,
expresso no desejo de unio poltica dos
Estados. Em 1848, surgiram na Prssia
vrias manifestaes populares exigindo
restries ao poder de Frederico
Guilherme, rei prussiano. Os
manifestantes foram duramente
reprimidos, mas o rei comprometeu- se a
dar uma constituio  sociedade alem.
Vrios Estados alemes apoiaram os
revoltosos na tentativa de promover a
unificao da nao. Seguiram-se muitos
anos de luta entre os Estados
germnicos, at que, em 1870, o
primeiro-ministro da Prs- sia, Otto Von
Bismarck, atravs de guerras com a
Frana, ustria e com outros Estados da
Confederao conseguiu a unificao
poltica da Alemanha. O regime poltico
adotado foi o Imprio, com Guilherme I
como primeiro imperador e Bismarck como
primeiro-ministro.

 De 1871 a 1890 a Alemanha estabeleceu
sua supremacia nas relaes
internacionais da Europa, sobretudo na
parte continental. Bismarck limitou-se a
preservar a unidade alem, opondo-se a
qualquer tentativa de expansionismo. Por
outro lado, a poltica bismarckiana
visava isolar a Frana, que jamais
aceitara a derrota sofrida diante dos
alemes na guerra franco-prussiana, em
1871. Bismarck atraiu para o lado
germnico todos os possveis aliados
franceses, criando um sistema secreto de
tratados com pases rivais : Inglaterra,
ustria-Hungria (que se constituram num
s Estado em 1867) e Rssia.

 Com a morte de Bismarck, seus
sucessores entraram na corrida
imperialista, principalmente na frica,
gerando tenses nas relaes europias.
Para completar a falta de habilidade
poltica, os sucessores do unifcador
alemo deixaram de lado a Rssia (que
Bismarck tentava conservar como aliada)
e possibilitaram  Frana romper o
isolamento e aproximar-se da Inglaterra
e da Rssia. Estavam criadas as bases
para a I Guerra Mundial.

O Brasil diante do contexto europeu

 Este painel econmico, social,
poltico, e ideolgico do continente
europeu entre o final do sculo XVIII e
as ltimas dcadas do sculo XIX forma o
contexto histrico no qual a economia
das Amriras passou a integrar o modelo
capitalista. A industrializao
capitalista montou uma nova relao
entre o continente europeu e suas
colnias da Amrica. O antigo sistema
colonial mostrou-se inadequado ao
desenvolvimento da produo. A partir de
1780, as contradies do modelo
colonial, evidenciadas nas lutas de
emancipao poltica das colnias com
suas metrpoles europias, apareceram em
toda a Amrica.

 No caso brasileiro, dois movimentos de
tentativa de ruptura do Pacto Colonial,
a Inconfidncia Mineira (1789) e a
Inconfidncia Baiana (1798), anunciaram
mudanas que s se concretizaram nas
primeiras dcadas do sculo XIX.

 A transferncia da sede da corte
portuguesa para o Brasil (1808) foi a
causa imediata do incio do processo de
independncia brasileira. Mas a falncia
do modelo colonial com base no
mercantilismo foi a causa estrutural da
emancipao poltica dos laos coloniais
do Brasil com Portugal.



O REI DO CAF

Transferncia da corte portuguesa

 Conforme vimos, os conflitos pelas
reas coloniais obrigaram os portugueses
a investir na ocupao e povoamento do
Brasil, para consolidar sua presena.
Iniciar a colonizao significava
transformar o Brasil numa rea produtora
de mercadorias que deveriam subsidiar a
combalida economia portuguesa do incio
do sculo XVI. Diante da ausncia de
metais preciosos, os lusitanos optaram
pela produo de um gnero agrrio de
penetrao comercial garantida no
mercado europeu: o acar.

 O clima tropical do Brasil era ideal
para o cultivo da cana-de-acar; alm
disso, a explorao econmica do acar
depende de grandes unidades de produo
e sem dvida havia na colnia fartura de
terras. Para completar o quadro, a
necessidade de grande volume de
mo-de-obra podia ser suprida, de forma
barata, pelo trabalhador escravo.

 Assim foi possvel estabelecer a
empresa agrcola dentro do esquema de
plantation (monocultura, em latifndios,
com mo-de-obra escrava), e o pacto
colonial garantia a Portugal todos os
lucros do empreendimento. Alm do mais a
colnia integrava-se ao processo
produtivo metropolitano, permitindo a
acumulao de capitais para Portugal e,
principalmente, para a Europa.

 Assim, ao mesmo tempo que a produo
aucareira atendia ao mercado europeu;
criavam-se na colnia outras economias
paralelas ao acar, como a da pecuria
nordestina e sulista, a do fumo, a do
algodo, a do cacau, a da caa  baleia.
No Sul, os paulistas lanavam-se  busca
de metais preciosos e, ao longo dos
caminhos que percorriam, praticavam a
caa ao ndio e a negros foragidos das
fazendas. Alis, o interesse dos
paulistas pelos metais se adequava ao da
metrpole que, mesmo nos momentos de
lucro alto do mascavo, no desistiu de
procurar jazidas aurferas.

 Dessa forma, a descoberta do ouro nas
Gerais (sculo XVIII) revitalizou a
economia colonial que se encontrava em
crise provocada pela concorrncia com o
acar antilhano. O ouro das Gerais
agilizou as economias paralelas (gado,
agricultura), integrando economicamente
as vrias regies da colnia, que
passaram a produzir tambm para a regio
das Minas Gerais.

  importante observar que o ouro
brasileiro contribuiu para o
desenvolvimento industrial europeu, em
particular o da Inglaterra; por um lado,
criou-se no Brasil um mercado
consumidor, que comprava as manufaturas
inglesas; por outro, e principalmente, a
Inglaterra se enriquecia com o
contrabando aurfero que os britnicos
realizavam na costa litornea do Brasil.

 Diante da decadncia da produo
aurfera a partir da segunda metade do
sculo XVIII e da precria situao
econmica de Portugal, o marqus de
Pombal (primeiro- ministro de 1750 a
1777) reafirmou o mercantilismo,
estreitando as relaes entre metrpole
e colnia, pois esta tornava-se o
elemento da sobrevivncia lusitana.
Pombal pretendia minar a hegemonia
econmica que a Inglaterra estava
exercendo sobre Portugal.

 A era pombalina chegou ao fim com a
morte de Dom Jos I e a subida ao trono
de Dona Maria I, que destituiu o marqus
e procurou anular a poltica econmica
implantada por ele. Em relao 
colnia, o novo governo portugus fechou
as companhias de comrcio, mas manteve a
rigidez administrativa da poca
anterior. Exemplo dessa rigidez foi a
proibio de qualquer atividade
manufatureira no Brasil (1785), para
evitar a competio com a metrpole.

 No final do sculo XVIII, a decadncia
da minerao pelo esgotamento das
jazidas, bem como outros fatores
conjunturais e estruturais da economia
europia, favoreceu o retorno da
agricultura de explorao na colnia
brasileira.

 No sculo XVIII, a populao europia
cresceu significativamente e, com isso a
atividade comercial se ampliou, pois os
mercados aumentaram; novos produtios
foram valorizados obrigando 
diversificao da produo agrria
comercial. Alm disso, a posse das
colnias causou inmeras guerras entre
as potncias europias pela disputa de
reas de produo agrcola, de
matrias-primas e de mercados con-
sumidores. Essas guerras desorganizaram
o comrcio de exportaes e importaes
coloniais. Portugal manteve-se neutro
nesses conflitos e, com isso, reafirmou
sua posio de pas intermedirio no
comrcio internacional.
Conseqentemente, interessava aos
lusitanos estimular as atividades
produtivas da colnia brasileira que
pudessem servir  Europa.

 Outro fator que favoreceu a agricultura
brasileira na poca foram os conflitos
sociais desencadeados nas Antilhas
francesas e inglesas (principalmente
Haiti e So Domingos), desestruturando a
produo canavieira daquelas regies.
Essa desorganizao possibilitou o
crescimento da produo aucareira no
Brasil, que passou a abastecer o mercado
europeu. Confirmava-se, mais uma vez, a
funo da colnia brasileira: produzir
para o mercado externo.

 Nesse contexto histrico, tambm foi
fundamental para a retomada das
atividades agrcolas o incremento ao
setor algodoeiro criado pela Revoluo
Industrial. Os fornecedores habituais,
ndia e Estados Unidos (na ocasio
paralisados por causa da guerra da
independncia, de 1776 a 1781), no
conseguiam suprir as necessidades do
mercado britnico. Diante dessa nova
conjuntura, a produo de algodo do
Brasil cresceu para atender  demanda do
mercado.

 Em decorrncia de todos esses fatores,
o eixo econmico da colnia
transferiu-se do interior, onde dependia
das atividades aurferas, para as
regies mais prximas ao litoral,
estendendo-se de norte a sul da costa
brasileira. Esse deslocamento econmico
tornou-se possvel graas  existncia
de terras frteis e clima propcio, mas
ocorreu principalmente por causa da
proximidade de portos. Como a produo
destinava-se  exportao, essa
proximidade facilitava o transporte e o
escoamento comercial.

Crise do Antigo Regime e do antigo
sistema colonial

  fundamental perceber que a economia
colonial, ao atender ao mercado externo
sofria com as suas oscilaes. Dessa
forma, a Revoluo Industrial foi o
fator estrutural que contribuiu para a
alterao do eixo econmico. Assim, a
produo de algodo centrava-se no
Maranho, mas houve tambm outras
regies algodoeiras no Par, no Paran,
no Cear, em Minas Gerais e em Gois. Na
produo aucareira alm da Bahia e
Pernambuco, novas regies produtoras
localizavam-se no Rio de Janeiro e em
So Paulo (Moji-Guau, Piracicaba,
Sorocaba, Jundiai. O porto de Santos
transformou-se no principal porto do
comrcio externo aucareiro.

 A retomada do impulso produtivo de
gneros primrios se adequava s novas
formas de articulao do processo
industrial, que colocara em crise o
Antigo Regime (Estado absolutista) e o
sistema colonial. A burguesia,
responsvel pelos lucros das atividades
comerciais, condenava os privilgios da
nobreza e do Estado monrquico
absolutista, que a exclua de qualquer
deciso do poder poltico.

 Os intelectuais burgueses, atravs do
movimento filosfico Iluminista ou
Ilustrao, questionavam as bases do
Antigo Regime propondo mudanas no
sistema econmico, poltico e social.
Contra a interveno do Estado na vida
econmica, os intelectuais burgueses
exigiram a livre-concorrncia (laissez
faire, laissez passer). Contra o
absolutismo monrquico, os iluministas
propunham um governo representativo: ou
na forma de uma monarquia constitucional
e parlamentar ou na forma de uma
repblica democrtica. A luta dos
iluministas, que representavam os ideais
das classes burguesas, estende-se contra
o sistema de privilgios do clero e da
nobreza e a sociedade estamental feudal,
oferecendo em troca a igualdade de todos
os homens perante a lei.

 Se esse sistema absolutista entrava em
choque com os novos interesses da
burguesia, toda a organizao que girava
em torno do Antigo Regime tambm
declinava, Assim, o sistema colonial,
que dependia dos privilgios do pacto
colonial, comeava a ser desfeito. As
ltimas dcadas do sculo XVIII
marcaram-se por uma srie de movimentos
de ruptura do pacto colonial. A primeira
regio a obter sucesso nessa ruptura
foram as Treze colnias inglesas da
Amrica, que iniciaram, em 1776, a
formao dos Estados Unidos da Amrica,
inaugurando um novo ajustamento nas
relaes internacionais atravs da
independncia de sua metrpole europia
(Inglaterra).

 Outros movimentos de independncia
seguiram-se por toda a Amrica, ainda no
sculo XVIII. Porm, somente no sculo
XIX  que as lutas coloniais contra as
metrpoles do Velho Continente se
concretizaram. Sem dvida, a Revoluo
Industrial minara as bases econmicas do
Estado absolutista, mas foi a Revoluo
Francesa que deu o golpe fatal contra o
Antigo Regime e o antigo sistema
colonial, que foi destrudo a partir das
guerras napolenicas (1804 - 1815).

As guerras napolenicas e a vinda da
famlia real para o Brasil

 Dois aspectos fundamentais das guerras
de Napoleo relacionavam-se com a crise
do Antigo Regime e do antigo sistema
colonial. De um lado, as lutas
napolenicas foram empreendidas contra
os Estados absolutistas, para a
concretizao dos ideais burgueses, isto
, o livre comrcio entre as naes. Por
outro lado, as guerras francesas de
Napoleo contra a Inglaterra eram
disputas econmicas entre duas naes
burguesas. O principal objetivo de
Napoleo era derrotar a Inglaterra para
obter a supremacia francesa no
continente europeu. O bloqueio
continental ( 1806) tornou-se sua
principal arma para desorganizar a
indstria inglesa. No entanto, o
dinamismo e a solidez da
industrializao britnica e o fraco
desempenho da indstria francesa no
permitiram que o bloqueio atendesse aos
desgnios de Napoleo.

 Outro obstculo a Napoleo foi Portugal
- tradicional aliado da Inglaterra.
Diante da hesitao portuguesa em aderir
ao bloqueio, em agosto de 1807, Napoleo
ordenou que a corte portuguesa rompesse
relaes comerciais com a Inglaterra,
prendesse e confiscasse os bens dos
ingleses em Portugal. Caso persistisse a
recusa, tropas francesas invadiriam o
territrio lusitano. A situao
portuguesa era delicada: de um lado, a
Coroa no poderia resistir a Napoleo;
de outro, a aliana com os britnicos
era imprescindvel para a frgil nao
portuguesa. Os britnicos anteciparam-se
 Frana na soluo do problema
lusitano.

 Em outubro de 1807, Inglaterra e
Portugal assinaram uma conveno secreta
com os seguintes acordos:

1) a sede da monarquia portuguesa seria
transferida para o Brasil;

2) a esquadra portuguesa deveria ser
entregue aos britnicos;

3) a ilha da Madeira seria o ponto de
combate das tropas britnicas, aps a
ocupao total da Pennsula Ibrica
pelas tropas francesas;

4) novos tratados comerciais seriam
feitos quando a corte portuguesa
estivesse no Brasil.

 Para a Inglaterra esse acordo
significou a oportunidade de acabar com
a funo de comrcio intermedirio
exercida por Portugal na Europa. Alm
disso, perpetuava- se a dependncia da
economia lusitana. Por outro lado,
apesar da perda momentnea do comrcio
na Europa, a Inglaterra poderia
consolidar a hegemonia sobre a Amrica
portuguesa, ao mesmo tempo que apoiava a
independncia das colnias espanholas.

 A funo desempenhada por lorde
Strangford, embaixador ingls em Lisboa,
foi decisiva para o cumprimento da
conveno secreta. No incio de novembro
de 1807, a corte portuguesa passava por
um perodo de pnico, pois as tropas
francesas, sob o comando do general
Junot, atacavam o norte do pas. Segundo
o historiador Nelson Werneck Sodr, a
sada da familia real "foi um
salve-se-quem-puder trgico, amargo,
caracterstico do nvel de degradao a
que chegara o reino de Portugal sob o
governo bragantino e de uma classe
feudal inepta e corrupta". A corte e a
nobreza lusitana saram em 29 de
novembro de 1807, escoltados pela
esquadra inglesa, levando a metade do
dinheiro em circulao e mais todo o
ouro, prata e diamantes que os 15.000
funcionrios do Estado conseguiram
carregar.

Abertura dos portos: incio da
emancipao

 A transferncia da corte portuguesa
para o Brasil mudou as relaes
coloniais. Uma semana aps a chegada, o
prncipe regente, Dom Joo, decretou em
28 de janeiro de 1808, atravs de uma
carta-rgia, a abertura dos portos a
todos "os navios estrangeiros das
potncias que se conservem em paz e
harmonia com a minha Real Coroa" Um
alvar de 1  de abril de 1808 anulava a
proibio de 1785, permitindo agora a
instalao de manufaturas no Brasil. Por
ltimo, a elevao do Brasil  categoria
de Reino Unido a Portugal e Algarves, em
16 de dezembro de 1815, completou as
alteraes no estatuto colonial
brasileiro. Assim, essas trs medidas,
ao mesmo tempo que asseguravam a
sobrevivncia da corte no Brasil, tambm
configuravam a ruptura do pacto
colonial. Embora a data oficial da
independncia do Brasil tenha sido 7 de
setembro de 1822, o professor Caio Prado
Jr mostrou que "se os marcos
cronolgicos com que os historiadores
assinalam a evoluo social poltica dos
povos no se estribassem unicamente em
caracteres externos e formais dos fatos,
mas refletissem sua significao ntima,
a independncia brasileira seria
antecipada de quatorze anos, e se
contaria justamente da transferncia da
corte em 1808".

 Logo aps a abertura dos portos, as
atividades comerciais tornaram-se
intensas. As observaes do viajante
ingls John Mawe sobre o Brasil
mostraram as contradies do desperdcio
e da aquisio de mercadorias
suprfluas, numa sociedade
economicamente pobre: "O mercado ficou
inteiramente abarrotado, e to grande e
inesperado foi o fluxo de manufaturas
inglesas no Rio, logo em seguida 
chegada do Prncipe Regente, que os
aluguis das casas para armazen-las
elevaram-se vertiginosamente. A baa
estava coalhada de navios, e em breve a
alfndega transbordou com o volume de
mercadorias. Montes de ferragens e
pregos, peixe salgado, montanhas de
queijos, chapus, caixas de vidro,
cermica, cordoalha, cerveja em barris,
tintas, gomas, resinas, alcatro etc,
achavam-se expostos no somente ao sol e
 chuva, mas  depredao geral (... )
espartilhos, caixes morturios, selas e
mesmo patins de gelo abarrotavam o
mercado, no qual nunca poderiam ser
vendidos e para o qual nunca deveriam
ter sido enviados".

 Por outro lado, a Inglaterra, principal
fornecedora das manufaturas ao Brasil,
comprava poucas mercadorias brasileiras
porque era abastecida por suas colnias.
Mesmo assim, as exportaes de algodo,
acar e couro aumentaram. Os ingleses
ficaram atentos  euforia das transaes
comerciais. Percebendo a intensidade das
trocas de produtos novos, a burguesia
inglesa cobrou a assinatura de um
tratado comercial, como ficara acinado
na conveno secreta.

 Em 1810, Portugal e Inglaterra
assinaram os tratados de Aliana e
amizade e de Comrcio e navegao, nos
quais se destacam os seguintes anigos:

- renovavam-se os direitos de
permanncia da Inglaterra na ilha da
Madeira e os ingleses teriam um porto
neutro na ilha de Santa Catarina, no
Brasil;

- os dois reinos se apoiaram mutuamente;
os ingleses aprovaram a invaso da
Guiana Francesa pela coroa lusitana,
como represlia  ocupao de Portugal
pelas tropas francesas;

- a Inglaterra obteve permisso de
explorar o comrcio da madeira de
jacarand e vinhtico, bem como de
construir navios, alm de ter o direito
de permanncia de uma esquadra de guerra
inglesa no litoral brasileiro;

- os britnicos residentes no Brasil
tinham garantias de liberdade religiosa,
e o julgamento de qualquer ingls seria
feito por juzes nomeados pela
Inglaterra, obedecendo s leis
britnicas;

- a corte lusitana deveria abolir
gradativamente o trabalho escravo, e o
trfico negreiro s poderia ser
praticado com as colnias portuguesas na
frica;

- concedeu-se aos ingleses o direito de
reexportao de gneros agrcolas
tropicais a qualquer pas;

- os produtos ingleses tiveram taxas
alfandegrias preferenciais; produtos
britnicos pagariam 15% ad valorem
(sobre o valor da mercadoria), produtos
portugueses teriam tarifas de 16%, e
para mercadorias de outros pases a taxa
seria de 2% a 7%.

 A pauta brasileira de importaes, aps
o tratado de 1810, tornou-se basicamente
a seguinte: ferro, cobre, zinco, chumbo,
tecidos de l, linho e algodo,
porcelanas, louas, armas, calados (da
Inglaterra); mveis, jias, perfumarias,
licores, medicamentos, pinturas e
gravuras (da Frana); papel, cerveja e
vidro (Holanda); relgios, pianos,
espingardas (ustria); brinquedos e
objetos de lato (Alemanh); cereais,
azeite de baleia, alcatro, velas, breu,
mveis grosseiros (Estados Unidos);
pimenta, ouro em p, marfim, bano
(Moambique); azeite-de-dend,
goma-arbica, en- xofre (Angola); ch,
seda, musselina, canela, cnfora
(Macau); bacalhau, azeite, VinhO, Sal,
manteiga, farinha de trigo, vinagre,
biscoito (de Portugal); e noz-noscada
groselha e fruta-po (Guiana Francesa .

 As exportaes brasileiras, alm do
acar, fumo, algodo e couro (produo
em larga escala desde os fins do sculo
XVIII), incluam: melao, cachaa,
cacau, arroz, bauni.lha, anil,
carne-seca, graxa, sebos, chifres,
pau-brasil, ipecacuanha a algumas
madeiras-de-lei. Fato signifcativo foi
a criao do Hono Real (1809), hoje
Jardim Botnico, com a funo de
pesquisar, selecionar e introduzir
outras espcies vegetais. Assim,
desenvolveram-se as culturas do ch, da
cana-caiana (trazida da Guiana Francesa)
e do caf - futura base agrcola
econmica do Brasil.

 Apesar da predominncia agrcola, o
setor manufatureiro obteve um relativo
desenvolvimento. Com o alvar de 1  de
abril de 1808, o prncipe regente
revogou a proibio (de 1785) de
instalar manufaturas no Brasil. A
simples deciso jurdica era sem dvida
insuficiente para promover o setor
fabril. No entanto, como afirma o
historiador Caio Prado Jr., houve
pequenas fbricas txteis localizadas em
Minas Gerais, provncia a este
respeito mais avantajada, tanto pela
relativa densidade da populao e
abundncia de matria-prima de produo
local como pelo seu afastamento dos
portos e isolamento. Na metalurgia
ocorre a mesma coisa: o interesse da
administrao se torna grande na
matria, e conta-se pela primei- ra vez
com tcnicos capazes - dois alemes,
Eschwege e Varnhagen - que,
respectivamente, em Minas Gerais e So
Paulo, organizaram empresas de certa
importncia. E seu exemplo  seguido por
vrias iniciativas privadas".

 As incipientes tentativas
manufatureiras no obtiveram grande
xito; por um lado, a escravido impedia
o desenvolvimento fabril, na medida em
que o escravo no era consumidor. Por
outro lado, havia o problema da poderosa
concorrncia inglesa, favorecida pela
abertura dos portos e pelos tratados de
1810. Dessa forma , o escravismo e o
imperialismo britnico transformaram o
alvar de 1  de abril em lei apenas no
papel.

 A dominao inglesa era evidente; o
Brasil no exportava mercadorias na
mesma proporo que importava e o
resultado tornava-se previsvel: balana
comercial defcitria. Para compensar o
dficit, a soluo dependia dos
emprstimos feitos pelo governo
portugus. O Brasil ficava, ento,
sujeito s oscilaes do mercado
internacional, que constantemente sofria
alteraes, ora aumentando os juros dos
emprstimos, ora diminuindo a compra das
mercadorias brasileiras. Ia-se
estruturando uma economia frgil e
vinculada s incertezas do mercado
internacional.

 Para compensar a defasagem monetria do
comrcio e dos emprstimos, o governo
lusitano cobrava impostos dos
brasileiros. Alis, esse foi o objetivo
da criao do Banco do Brasil (em
12/10/1808): o banco funcionava como
arrecadador para os cofres da Coroa, ao
invs de oferecer crditos para o
desenvolvimento dos setores produtivos -
comrcio, indstria e agricultura. O
Banco do Brasil serviu para subsidiar os
gastos da corte, emitir papel-moeda,
recunhar a prata peruana e facilitar o
pagamento das transaes comerciais.

 A medida que o dficit pblico, isto ,
a falta de dinheiro do governo se
ampliava, a Coroa aumentava os impostos,
mas a arrecadao era sempre insufciente
para gastos cada vez mais excessivos. O
desequilibrio provinha da diminuio das
rendas da corte, em funo das baixas
taxas dos produtos importados. A
Inglaterra, responsvel por mais da
metade das importaes, pagava as
menores taxas alfandegrias (15%). A
populao brasileira pagava, portanto, o
que a Inglaterra deixava de pagar.
Ficava claro que, apesar dos altos
impostos, a arrecadao dos Estados era
insuficiente inclusive para o pagamento
do funcionalismo pblico. Da, a prtica
da corrupo por parte dos funcionrios,
que cobravam das pessoas interessadas
para fornecer despachos, processos,
concesses, qualquer servio pblico.
Alm disso, era comum altos funcionrios
associarem-se ao contrabando e a
operaes fraudulentas.

Economia do Imprio

 A abertura dos portos permitiu o
contato direto dos grandes proprietrios
rurais com o comrcio exterior,
ampliando as transaes mercantis e as
margens de lucro sem o nus da
intermediao de Portugal. O limite da
abertura dos portos foi o imperialismo
britnico, que imps todas as vantagens
da liberdade de comrcio, isto , do fim
do monoplio metropolitano, para
continuar o exerccio da dominao
econmica. A burguesia mercantil
portuguesa foi a mais atingida pela
liberao comercial do Brasil, pois os
comerciantes lusos s haviam conseguido
riquezas pelas garantias do pacto
colonial.

 Outras medidas foram tomadas por Dom
Joo: liberdade para a venda de qualquer
mercadoria mediante pagamento de
direitos, autorizao para a explorao
do pau-brasil, liberdade para
estabelecer manufaturas, livre acesso de
navios estrangeiros e nacionais. Essas
medidas favoreceram, sem dvida, os
proprietrios rurais. Porm, o objetivo
principal das leis, decretos e alvars
era a criao de condies materiais
para a manuteno do Estado lusitano no
Brasil.

  preciso no exagerar a importncia
das medidas liberais da Coroa, porque
tais decises no promoveram um
crescimento econmico autnomo,
independente. A permanncia da
escravido mostrou a fraqueza do mercado
interno, que constituiria uma barreira
intransponvel ao desenvolvimento
econmico auto-sustentado. As decises
de Dom Joo no tiveram apenas carter
econmico; tambm no plano poltico as
decises que se sucederam  abertura dos
portos beneficiaram a aristocracia rural
brasileira e o imperialismo ingls. De
tal modo que as decises joaninas, alm
de assegurar, embora parcialmente, a
soberania do Estado, permitiram o
desencadeamento do processo de
emancipao poltica no Brasil, ao mesmo
tempo que favoreciam a penetrao
inglesa.

 Nem a Coroa, nem os proprietrios
rurais poderiam enfrentar o poder
econmico dos britnicos. Para evitar a
completa dependncia da Inglaterra, Dom
Joo atenuou as medidas economicas, numa
tentativa de diminuir a influncia
inglesa. Desde a abertura dos portos,
todos os tratados tinham um carter
"provisrio", deixando aberta a
possibilidade do retorno das medidas
mercantilistas aqualquer momento. Ao
longo do perodo joanino no Brasil,
seguiram-se vrias leis e decretos para
restringir o comrcio ingls. Os mais
importantes foram a iseno de taxas aos
tecidos portugueSes e aos produtos
chineses importados pelos lusitanos e a
equiparao das taxas de 222 /o sobre o
valor das importaes para os
comerciantes portugueses e ingleses.
Essas medidas buscavam atenuar as
reivindicaes da burguesia colonialista
portuguesa, mas sem satisfaz-las
totalmente.

 Com o fim da era napolenica (1815) e a
organizao do Congresso de Viena (1815)
para reativar as monarquias absolutistas
na Europa, a burguesia lusitana passou a
exigir a volta de Dom Joo VI a
Portugal. Mas Dom Joo s retornou 
Europa (1821) aps a revoluo liberal
do Porto (1820), sob a liderana da
burguesia mercantilista portuguesa e sob
a forte presso da nobreza lusitana, com
o apoio da Inglaterra. Como regente do
reino do Brasil, Dom Joo nomeou seu
filho mais velho e herdeiro, Dom Pedro.

 A burguesia mercantilista lusitana
tinha um claro objetivo ao exigir a
volta da familia real: recuperar a
prtica mercantilista e reintegrar o
Brasil no pacto colonial. No entanto, as
classes proprietrias brasileiras, com o
apoio da Inglaterra, pressionaram o
prncipe regente Dom Pedro, a fim de que
fosse proclamada a separao definitiva
do Brasil em relao a Portugal, o que
ocorreu em 7 de setembro de 1822.

Governo de Dom Pedro I: crises

 A independncia poltica do Brasil no
alterou a estrutura de produo, que
continuou a ser latifundiria e
escravista. Assim, a estabilidade do
Primeiro Reinado, com Dom Pedro I,
dependia do desempenho favorvel das
exportaes. No entanto, na primeira
metade do sculo XIX, a economia
brasileira sofreu pela ausncia de um
produto de exportao que assegurasse as
bases econmicas de uma nao que se
formava. A exportao de acar
declinava, em funo da concorrncia com
Cuba e Jamaica (Amrica Central); alm
disso, a Europa utilizava em larga
escala o acar de beterraba. O algodo
e o arroz brasileiros competiam, em
situao de desvantagem, com a produo
norte-americana. O mesmo ocorreu com o
fumo, que se retraiu pela concorrncia
com a frica. O couro perdeu mercado
pela competio com a pecuria platina.
Sobrava a produo de caf, cujo mercado
consumidor estava em expanso e no
tinha concorrentes. A crise econmica s
iria atenuar-se a partir de 1850, com a
hegemonia da produo cafeeira.

 Simultaneamente  crise econmica, e
at por relaxo desta, houve uma crise
financeira. O Imprio gastava mais do
que conseguia arrecadar. A diminuio
das taxas alfandegrias contribuiu para
desequilibrar a j debilitada balana
comercial. Os tratados assinados com
Portugal, Inglaterra e outros pases
europeus reduziram as tarifas de
importao a 15%. Para compensar tais
deficincias, o Estado contraiu
emprstimos no exterior, com juros altos
(10%), o que provocou dficit
oramentrio e endividamento crescente a
cada ano, exigindo o recurso a novos
emprstimos para o pagamento dos juros.
O agravamento da crise financeira
ocorreu entre 1825 e 1828. O
reconhecimento da independncia
brasileira por parte de Portugal ( 1825)
custou aos cofres nacionais dois milhes
de libras esterlinas, que foram pagos 
antiga metrpole como uma espcie de
indenizao. Outro acontecimento crtico
des- se perodo foi a Guerra Cisplatina.
A populao da Provncia Cisplatina,
pertencente ao Brasil, empenhou-se em
defender a formao de uma nova nao,
ao sul do rio da Prata. Aps trs anos
de lutas, o Brasil e a Argentina
reconheceram a independncia do novo
pas, que passou a denominar-se
Repblica Oriental do Uruguai.

 Os gastos inteis e excessivos na
manuteno da guerra debilitaram a
imagem de Dom Pedro I junto s classes
proprietrias brasileiras. Numa
tentativa desesperada de superar a crise
financeira, o imperador adotou o recurso
de emitir papel- moeda, provocando
aumento geral dos preos (mais dinheiro
disponvel no mercado, sem crescimento
da oferta de produtos), que se refletia
na diminuio do poder aquisitivo das
camadas mais pobres. Com a falncia do
Banco do Brasil, em 1829, a crise
atingiu o auge. As tenses sociais
geradas pela insatisfao diante das
dificuldades econmicas e financeiras
refletiram-se na ordem poltica. Sob a
liderana da aristocracia rural, que
insuflava a sociedade contra o
imperador, seguiram-se de 1829 a 1831
inmeros protestos, manifestaes,
saques, violncias, mortes, culminando
com a abdicao de Dom Pedro I (1831).

A soluo cafeeira

 De 1831 a 1840 o Brasil viveu sob o
governo de regentes, at a maioridade de
Dom Pedro II. A crise econmica e
financeira estendeu-se at 1840, com o
desenvolvimento da produo cafeeira,
que recuperou a economia de exportao.

 O consumo de caf, originrio dos povos
rabes, iniciou-se na Europa a partir de
Veneza, no sculo XVII; rapidamente
difundiu-se por todo o continente. No
sculo XVIII, sua produo atingiu as
Antilhas e, no sculo XIX, o Brasil,
onde se tornou em pouco tempo o
principal produto de exportao. O
cultivo do caf comeou nas regies
prximas  capital (Rio de Janeiro). O
reaproveitamento da mo-de-obra escrava
(disponvel em virtude da desarticulao
da economia mineradora), a existncia de
abundncia de animais de transporte e a
proximidade do porto, constituram a
infraestrutura fundamental para dar
impulso  economia cafeeira.

 De outro lado, o caf exigia um
investimento inicial menor que a
economia aucareira: os tanques para a
lavagem do gro aps a colheita, os
terreiros para espalhar e secar o caf e
os equipamentos para a descorticao
eram simples e de fabricao local,
dispensando os grandes investimentos dos
engenhos aucareiros. A cultura cafeeira
baseava-se no uso da terra e da
mo-de-obra escrava.

 Outra diferenciao entre a cultura do
caf e a do acar encontrava-se no
processo de produo. O fato de a
economia aucareira subordinar-se ao
regime colonial implicava uma separao
entre as vrias etapas da produo e da
comercializao, na qual as decises
eram tomadas pelos setores comerciais.
Dessa forma, os mercadores
apropriavam-se da maior parte dos
capitais, diminuindo os lucros dos
produtores canavieiros. Por ter se
desenvolvido no perodo de independncia
do pas, a economia cafeeira permitiu
aos cafeicultores servir-se do Estado
para assegurar seus interesses.

 Alm disso, o caf estabeleceu-se com
um grupo de homens com largos
conhecimentos comerciais. "Em toda a
etapa de gestao, os interesses da
produo e do comrcio estiveram
entrelaados. A nova classe dirigente
formou-se numa luta que se estende em
uma frente ampla: aquisio de terras,
recrutamento de mo-de-obra, organizao
e direo da produo, transporte
interno, comercializao nos portos,
contratos oficiais, interferncias nas
polticas econmica e financeira."

 Nas primeiras dcadas do sculo XIX, a
cultura cafeeira atingiu a cidade de
Vassouras (RJ) e, no litoral, Angra dos
Reis e Parati, avanando para So Paulo:
Ubatuba, Caraguatatuba e So Sebastio.
Mas foi no vale do Paraba que o caf se
desenvolveu, graas s condies
geogrficas adequadas, conforme comenta
o historiador Caio Prado Jr.: "Uma
altitude que oscila entre 300 e 900 m
mantm a temperatura, embora em latitude
tropical, dentro dos limites ideais para
a planta, e regulariza as precipitaes.
Regio muito acidentada, no lhe faltam
encostas bem protegidas contra o vento
(fator importante numa planta arbustiva
de grande porte como o cafeeiro) e
convenientemente expostas (...) a
lavoura do caf, gnero ento de largas
perspectivas nos mercados
internaconais, contar com uma base
financeira e de crdito, bem como um
aparelhamento suficiente que lhe
permitir considervel expanso..."

 Principalmente a partir da segunda
metade do sculo XIX, todas as foras
econmicas do Brasil voltaram-se para a
cultura do caf, que se transformou no
elemento de estabilizao econmica do
Imprio. No entanto, a manuteno da
estrutura escravocrata fortaleceu e
reproduziu os padres coloniais. Os
latifundirios cafeicultores, desejosos
dos lucros imediatos, depredavam a
natureza com todo o vigor, repetindo a
cultura extensiva e predatria do
perodo colonial. As terras do vale no
suportaram por muito tempo a floresta
derrubada e a eroso do solo. A
consequncia era previsivel: a partir de
1870, a cultura cafeeira do vale
declinou. Comeou uma nova trajetria do
caf, em direo ao oeste paulista.

 O ncleo inicial da produo cafeeira
no oeste de So Paulo foi a regio de
Campinas, e de l se estendeu por
Moji-Guau e Ribeiro, Preto (por volta
de 1880). O relevo mais regular do oeste
favoreceu as plantaes contnuas,
uniformizando as paisagens,
transformando-as num "mar de caf". No
vale do Paraiba, de terreno acidentado,
o cultivo era descontnuo, mas no oeste
paulista se estendia por vrios
quilometros quadrados de solo frtil - a
terra roxa, originria da decomposio
de antigas rochas vulcnicas. A
regularidade do relevo propiciava uma
adequada conservao do solo,
possibilitando uma melhoria na qualidade
do caf. Inicialmente, o transporte do
caf era feito por animais;  medida que
as distncias cresceram e o volume da
produo se multiplicou, as estradas de
ferro foram montadas. Em 1854, a
locomotiva Baronesa percorria 18 km de
trilhos, com seus vages abarrotados de
caf. Seguiram-se a So Paulo Railway
(ligava Santos a Jundia/1868), a Ituana
(de Itu a Campinas/1873), a Mojiana e a
Sorocabana (1875).

Modernizao e surto industrial

 O desenvolvimento da cafeicultura
possibilitou a modernizao das lavouras
e fortaleceu-se graas a certas medidas
favorveis  economia brasileira. Em
1844 foi criada a tarifa Alves Branco,
que elevou de 15% para 30% os direitos
alfandegrios, aumentando os recursos
financeiros do Estado e dinamisando o
mercado produtor interno. Em 1850 foi
abolido o trfico negreiro, pela lei
Eusbio de Queirs; essa medida permitiu
liberar capitais, antes concentrados na
aquisio do brao africano, para
aplicao no mercado interno.

 Os resultados econmicos dessas medidas
comearam a aparecer na dcada de 1860.
Os supervits comerciais tornavam-se
frequentes, propiciando um novo
ajustamento da economia brasileira ao
mercado internacional.

 O conjunto dos fatores favorveis -
tarifa Alves Branco, abolio do trfico
e expanso da cafeicultura -
possibilitou uma onda de empreendimentos
urbanos: indstrias, bancos, companhias
de navegao a vapor, de seguros, de
colonizao, de minerao, de
transportes urbanos, de gs e estradas
de ferro. Irineu Evangelista de Sousa
foi o industrial que mais se destacou. O
baro de Mau (como era conhecido
Irineu) assinalou-se pela ousadia de
seus investimentos nos setores da
produo de navios, estradas de ferro,
comunicaes telegrficas, bancos etc.

 No entanto, tratava-se de um surto
industrial, isto , surgiam indstrias
efmeras, cujo desenvolvimento foi
comprometido quando as condies
propcias se esgotaram. A economia
brasileira continuava organizada em
funo da produo de gneros agrcolas
para o mercado externo. Nesse sentido, o
desenvolvimento da lavoura cafeeira
funcionava como uma faca de dois gumes:
produzia capitais excedents que eram
aplicados em novas atividades, mas
impedia o desenvolvimento dessas
atividades, na medida em que o capital
acumulado nos novos empreendimentos era
em grande parte aplicado na compra de
terras e plantaes de caf. A atividade
agrcola era vista como um investimento
garantido e a propriedade de terras um
fator de riqueza e status, dentro dos
moldes da sociedade tradicional."

 Por outro lado, "no havia tambm uma
oposio entre os interesses do novo
grupo de empresrios" (ligado aos
setores industriais) "e os interesses do
grupo agrrio exportador. Os conflitos
principais ocorreram entre os
representantes dos setores agrrios
decadentes e os do grupo cafeicultor
emergente (oeste novo paulista), que
procuravam dar um cunho mais empresarial
 produo, introduzindo melhoramentos
tcnicos, substituindo o escravo pelo
trabalhador assalariado, empregando
capitais em indstrias e no setor
financeiro, e que, apartir de um
determinado momento aderiram a idias
mais progressistas: Apesar da euforia,
justificada por alguns progressos
industriais, financeiros e comerciais, o
Brasil continuava centralizando sua
economia em torno de uma mono- cultura
para exportao. Ainda na dcada de
1860, a tarifa Silva Ferraz anulou a
tarifa Alves Branco, por presses
inglesas. Assim, reduziram-se as taxas
alfandegrias para a importao de
mquinas e ferramentas. Alm disso, o
Estado brasileiro retraiu os crditos,
provocando at a falncia de
empreendimentos.

 Finalizava a era Mau. Aos poucos, suas
empresas foram vendidas para norte-
americanos e britnicos; em alguns
casos, Mau associou-se aos empresrios
ingleses. Sem dvida, a continuao da
estrutura econmica colonial
(escravista, latifundiria, monocultora,
voltada para o mercado externo) gerava
lucros somente para os grandes
proprietrios.

 Um novo surto industrial teve origem a
partir de 1870, estendendo-se at a pri-
meira dcada da Repblica. Os setores da
minerao, com fbricas de artefatos de
ferro, de mveis, de bens de consumo
no-durveis (laticnios, bebidas),
outros setores fabris, como chapus,
sabo, papis, tecidos, ganham impulso.
A Guerra do Paraguai ( 1865 a 1870) foi
a responsvel pelo segundo surto
industrial. A durao da guerra e a
manuteno do exrcito exigiram a
produo de mercadorias necessrias s
foras militares. Alm disso, houve
emisso de papel-moeda para enfrentar os
gastos com a guerra, o que gerou aumento
de crditos, desenvolvendo novos
investimentos. Outra explicao para
esse surto reside nas transformaes da
estrutura social brasileira. Ampliava-se
o mercado interno, como resultado da
expanso cafeeira e da crescente
presena do trabalho assalariado.

 As fbricas situavam-se no eixo Rio de
Janeiro-Minas Gerais. Com o aumento da
imigrao europia, os estrangeiros se
incorporaram ao comrcio e
principalmente s indstrias, onde sua
mo-de-obra era disputada, pela melhor
qualificao tcnica.

 No entanto, os valores tradicionais da
aristocracia rural permaneciam nas
vilas, pequenas cidades e campo. As
transformaes ocorridas a partir de
1850, embora ocasionassem alteraes na
poltica nacional, eram determinadas
pelos proprietrios de terras e de
escravos. As profundas articulaes
entre os vrios grupos senhoriais
perpetuavam um poder que exclua a maior
parte da populao brasileira.

 Um modelo poltico sob a liderana das
classes abastadas do Rio, So Paulo e
Minas traou os rumos das decises
nacionais. Mas como foi possvel
articular os interesses to diversos das
vrias camadas sociais brasileiras e
submet-las a um regime poltico
centralizador?



O IMPRIO  A ORDEM

A transformao do antigo sistema
coloniaL

 A segunda metade do sculo XVIII foi
marcada por transformaes profundas nas
relaes internacionais, como reflexo
das revolues Industrial e Francesa que
levaram a burguesia ao poder. Por outro
lado, o processo de emancipao poltica
das Amricas reafirmou a vitria das
classes burguesas e a implantao de seu
modelo de organizao estrutural da
sociedade: o capitalismo.

 O descobrimento e a conseqente
explorao das terras americanas pelos
europeus relacionou-se, em um primeiro
momento, com a formao do Estado
moderno absolutista e de organizao
centralizadora. A seguir, as poderosas
classes mercantis associaram- se  Coroa
no processo colonizador. De um lado, as
Coroas europias interessavam-se pela
expanso de seus domnios territoriais e
pelas rendas obtidas graas os produtos
coloniais. De outro, as classes
mercantis e os banqueiros precisavam do
apoio dos reis para garantir o controle
do mercado (atravs dos exrcitos
reais), como condio fundamental para
assegurar a acumulao de capitais - a
poltica mercantilista foi a prtica da
unio de interesses entre a burguesia
comercial e o rei.

 Com o desenvolvimento do capitalismo
industrial, o tradicional sistema
colonial comeou a sofrer crticas. Os
monoplios e privilgios comerciais
assegurados pelo pacto colonial criavam
obstculos para os setores industriais,
interessados na produo de mercadorias
em larga escala. Os setores industriais
criticavam a poltica mercantilista,
condenavam os monoplios, os tratados, o
trabalho servil e escravo - base do
sistema colonial. Tais setores
defenderam a superioridade do trabalho
assalariado sobre o trabalho escravo, a
livre concorrncia e o livre comrcio,
bases da nova ordem industrial
capitalista.

 Novas idias de organizao da
sociedade foram elaboradas pelos
iluministas, que criticavam o
absolutismo do Antigo Regime e todas as
suas formas de organizao econmica,
poltica, social e cultural. Os
iluministas advogavam o pleno uso da
razo que, com base nas leis naturais,
deveria reger as sociedades hurbanas. A
igualdade perante a lei, a
inviolabilidade da propriedade, a
liberdade de expresso e pensamento, a
solidariedade humana constituiriam as
leis naturais do homem e do cidado.
Assim sendo, o Estado absolutista e sua
organizao baseada em privilgios e no
mercantilismo violariam a lei natural da
economia: a liberdade total do comrcio,
sem monoplios.

 Como vimos no livro 1, vrios
movimentos de rebelio das classes
proprietrias, como a revolta de
Beckman, a guerra dos Mascates, a guerra
dos Emboabas, a revolta de Vila Rica,
constituram, de forma geral,
manifestaes de protesto contra a
excessiva rigidez da hegemonia de
Portugal.  claro que as contradies do
sistema colonial geravam na colnia um
processo de mudana. Assim, ao explorar
a colnia, a metrpole ao mesmo tempo
promovia seu desenvolvimento, aumentava
a populao, ampliava as reas
produtivas e diversificava a produo.
Desenvolver a colnia implicava
possibilitar a criao e o
desenvolvimento de interesses prprios.
Dessa forma, as lutas contra a metrpole
passaram de simples reivindicaes
locais para movimentos de ruptura do
pacto colonial. "A explorao colonial
ativou a economia europia,
possibilitando a Revoluo Industrial,
iniciada pioneiramente pela Inglaterra.
Acontece que o capitalismo industrial
era incompatvel com as barreiras
mercantilistas, ou seja, com o regime de
exclusividade da metrpole e com o
regime escravista de trabalho."

 Por outro lado, as crticas feitas na
Europa pelo pensamento ilustrado ao
absolutismo assumiram no Brasil o
sentido de crticas ao sistema colonial.
No Brasil, Ilustrao, foi, antes de
mais nada anticolonialismo. Criticar a
realeza, o poder absoluto dos reis
significava lutar pela emancipao dos
laos coloniais".

 Nas duas dcadas finais do sculo XVIII
ocorreram dois movimentos de oposio ao
pacto colonial: a Inconfidncia Mineira
( 1789) e a Inconfidncia Baiana ou
Conjurao dos Alfaiates (1798). No
mesmo final de sculo uma outra
conjurao; a Inconfidncia Carioca
(1794), caracterizou-se mais como um
movimento da crescente ideologia liberal
do que como uma manifestao pela
independncia.

Inconfidncia Mineira: movimento das
elites

 A Inconfidncia Mineira ocorreu em Vila
Rica, atual Ouro Preto, como a primeira
grande manifestao das contradies do
sistema colonial no Brasil. A partir do
governo de Pombal (1750/1777), a Coroa
portuguesa passou a exigir da colnia
brasileira um rendimento anual de cem
arrobas de ouro. A origem da medida
estava nos relatrios da administrao
lusitana das Minas Gerais, que xx varo o
declnio do fornecimento de ouro e
atribuam as causas disso a fraudes e
contrabando. Por isso Pombal determinou
que, para completar as cem arrobas, o
pagamento seria imposto a um centro
aurfero qualquer, escolhido de surpresa
e arbitrariamente por Sua Majestade.
Esse "imposto" estabelecido para
completar a falta das arrobas foi
chamado de Derrama.

 O anncio da derrama era motivo de
grande temor para a populao, pois sua
decretao prenunciava toda a sorte de
violncia aos moradores na vila
escolhida pelas autoridades: invaso das
casas, saque, prises e torturas. O
esgotamento aurfero, causando crise
econmica; o controle opressivo da
populao pela metrpole; as notcias
das vitrias norte-americanas sobre os
ingleses (1783); e a proibio de
instalaes manufatureiras na colnia
(1785) foram acontecimentos conjunturais
que favoreceram o surgimento de protesto
contra a poltica colonizadora da
metrpole. Os setores intermedirios da
sociedade mineira - padres, milimres,
literatos, estudantes, pequena burguesia
urbana (comerciantes) - empolgavam-se
com as idias iluministas dos franceses
e o xito da independncia dos Estados
Unidos.

 Os inconfidentes mineiros pertenciam s
elites, a familias influentes e ricas.
Na liderana do movimento estavam Incio
Jos de Alvarenga Peixoto (advogado,
minerador e latifundirio), Cludio
Manuel da Costa ( rico minerador), Jos
lvares laciel (qumico com formao em
Coimbra), Lus Vieira da Silva (cnego
formado em filosofia e teologia), Carlos
Correia de Toledo e Melo (padre e grande
proprietrio minerador), Francisco de
Paula Freire de Andrade (militar). A
nica exceo era Joaquim Jos da Silva
Xavier o Tiradentes, que, embora fosse
filho de Fazendeiro, teve uma vida
profissional inconstante: foi minerador,
tropeiro, comerciante, dentista (da o
apelido) e finalmente alferes da
cavalaria vrios ofcios de Tiradentes
demonstravam as dificuldades dos membros
daquela "camada mdia" das Minas Gerais
diante do declnio da minerao, dos
altos impostos e dos aumentos de preos.
Joaquim Jos era o inconfidente de
menores posses.

 Os conspiradores desejavam o rompimento
com a metrpole e, no plano econmico
defendiam um projeto que compreendia:
livre produo baseada no
desenvolvimento das manufaturas txteis,
siderurgicas e fbricas de plvora,
estmulos  produo agrcola e
liberdade comercial com eliminao do
monoplio metropolitano.

 No plano social, a maioria dos
inconfidentes desejava manter a
escravido, como ficou evidenciado na
afirmativa de Jos lvares Maciel: com a
libertao dos escravos ficaria sem
haver quem trabalhasse nas terras, tanto
na minerao como na cultura:'.

 No plano poltico, os conjurados no
tinham posies comuns: alguns apoiavam
um regime republicano, segundo o modelo
norte-americano; outros queriam uma
monarquia constitucional. De comum,
haviam acertado: a transferncia da
capital para So Joo del Rei, a
fundao de uma universidade em Vila
Rica, uma bandeira com o lema Libertas
quae sem tamen (Liberdade ainda que
tarde) e o comeo do levante contra a
Coroa no dia da cobrana da demduia.
Naquele ano de 1789, o imposto atrasado
atingia 384 arrobas.

 O isolamento dos conspiradores em
relao  grande massa da populao e a
falta de organisao militar (os
rebeldes s se lembraram de providenciar
armas nos ultimos dias) evidenciavam a
fraqueza do movimento. Por isso, assim
que o coronel Silvrio dos Reis fez a
denuncia, as autoridades adiaram o dia
da cobrana e prenderam os
inconfidentes.

 A devassa (processo contra ato
considerado criminoso) iniciou-se em
Minas e durou trs anos, terminando no
Rio de Janeiro. A sentena lavrada pela
rainha Dona Maria I condenou  priso
perptua ou ao degredo os dez membros da
conjurao. A Tiradentes - que jurara
dar dez vidas, se dez vidas tivesse -,
foi suprimida a nica vida. Depois de
morto, lhe seja cortada a cabea e
levada a Vila Rica, onde em seu lugar
mais pblico ser pregada em poste alto,
at que o tempo a consuma, e o seu corpo
ser dividido em quatro quartos e
pregado em postos onde o ru teve suas
infames prticas, e a casa em que vivia
ser arrasada e salgada:' Essa sentena
real foi executada a 21 de abril de
1792, ao meio-dia, no Rio de Janeiro.

 A sentena no deve ser vista apenas
pelo lado do sofrimento individual de
Tiradentes. Esses requintes de crueldade
dirigidos a um nico homem serviram como
smbolo para causar medo, horror,
vergonha e, principaLmente, uma
advertncia para que nenhum morador da
colnia ousasse rivalisar contra o reino
de Portugal.

 Alm disso,  importante recordar que,
ao acusar e condenar Tiradentes como
lder da conspirao, puniu-se apenas o
menos abastado dos dez principais
revoltosos.

 Apesar disso, a conjurao mineira foi
um movimento de proprietrios para
proprietrios, de homens abastados que
queriam romper com a metrpole para
defender seus prprios interesses e o
aumento de suas margens de lucros. Basta
lembrar que a maioria dos inconfidentes
era contrria  libertao dos escravos.

Inconfidncia Carioca: influncias
liberais

 Um outro movimento, conhecido como
Inconfidncia Carioca, ocorreu no Rio de
Janeiro, em 1794. Tratava-se da
incriminao de dez membros da Sociedade
Liberria, na capital da colnia, sob a
acusao de que os mdicos, poetas,
artesos, estudantes e outros elementos
pertencentes  sociedade manifestavam,
em conversas pblicas e particulares,
preferencias pelo regime republicano.

 Condenados  priso por dois anos,
foram depois colocados em liberdade e
considerados inocentes, mas o governo
fechou a Sociedade literria em 1795,
proibindo sua reabertura. Essa
conjurao mostra como a ideologia
liberal ganhou fora no final do sculo
XVIII, at mesmo na colnia.

Inconfidncia Baiana: conjurao popular

 O terceiro movimento influenciado pelas
idias iluministas de inspirao
francesa foi a Inconfidncia Baiana
(1798). Essa conspirao teve carter
mais popular e mais abrangente que as
duas anteriores. O movimento iniciou-se
em 1797, quando um grupo de
proprietrios e intelectuais organizaram
a primeira sociedade secreta do Brasil,
de orientao manica, sob inspirao
francesa: Cawdleiro da Luz. Seus
principais lderes - padre Agostinho
Gomes, Cipriano Barata, Francisco
Barreto e Hermgenes Pantoja -
traduziram textos dos iluministas
Voltaire e Rousseau, divulgando os
princpios revolucionrios franceses, e
fizeram circular vrios panfletos com
propostas para a formao da Repblica
fluminense.

 A circulao de panfletos foi o marco
inicial da Conjurao Baiana. No
princpio, fizeram parte do movimento
artesos, profissionais liberais,
oficiais, soldados, escravos, negros,
comerciantes, padres e alguns
proprietrios das elites brancas da
Bahia, embora nem todos tivessem o mesmo
tipo de participao, nem os mesmos
objetivos. As elites brancas,
estimuladas pelas idias francesas,
defendiam posies de autonomia em
relao  metropole portuguesa e
liberdades individuais, de expresso e
poltica. J os baianos das classes mais
humildes, que compunham a maioria do
movimento, viam nos ideais da Revoluo
Francesa a expresso de seu
descontentamento econmico, social e
poltico. Os membros da elite utilizavam
os aspectos polticos e ideolgicos do
liberalismo para reforar suas crticas
ao sistema colonial, mas no pretenderam
provocar profundas alteraes na
estrutura escravista, por exemplo,
inclusive por sua condio de
proprietrios escravocratas. Veja como
os autores da Histria da sociedade
brasileira traaram o perfil daS elites
abastadas: Os proprietrios eram pouco
numerosos, pois a maioria recuperava-se
da longa crise da economia aucareira
com o chamado"renascimento agrcola" do
final do sculo. Pior para os
no-proprietrios: as terras que
abrigavam as culturas de subsistncia
foram novamente tomadas por canaviais.
Preos altos e fome torturavam 90% da
populao; s os ricos fazendeiros e os
grandes comerciantes portugueses de
Salvador estavam bem. No eram,
portanto, casuais os saques aos armazns
em busca de carne e farinha, nem o
incndio do pelourinho, smbolo da
dominao lusitan'. (Francisco Alencar
e outros, Histria da sociedade
brasileira.)

 Num primeiro momento, as elites
buscaram o apoio de escravos e de grupos
mais pobres. Mas as propostas liberrias
e igualitrias francesas despertaram as
populaes humildes para a idia de
igualdade entre os homens, com o fim da
escravido. Quando o movimento
incorporou a luta antiescravista, os
proprietrios abandonaram a conjura.

 A adeso de bordadores, pedreiros,
sapateiros e alfaiates deu novo impulso
ao movimento. Destacaram-se na liderana
do movimento Joo de Deus (de 24 anos) e
Manuel Faustino dos Santos (de 23 anos),
ambos mulatos e alfaiates - por isso a
rebelio ficou tambm conhecida como
Conjurao dos Alfaiates.

 No dia 12 de agosto de 1798, as paredes
e muros da cidade de Salvador
amanheceram repletas de cartazes
manuscritos: "Animai-vos, povo bahiense,
que est por chegar o tempo feliz da
nossa liberdade, o tempo em que todos
seremos iguais". Outros boletins diziam:
"A liberdade consiste no estado feliz,
no estado livre do abatimento: a
liberdade  a doura da vida o descanso
do homem com repouso e bem-aventurana
do mundo'. Havia panfletos que
esclareciam o programa poltico da
Repblica Baianense: fim da escravido,
impostos mais eqitativos, abertura dos
conventos, aumento do soldo das tropas,
eleies gerais para a escolha dos
representantes da populao, luta contra
o clero, os reis e as autoridades. 
importante perceber que estes trs
ltimos pontos reproduziam os aspectos
mais radicais da Revoluo Francesa. Por
outro lado, todos os movimentos e
manifestaes que proliferaram na
Amrica nas ltimas dcadas do sculo
XVIII tinham um ponto central em comum:
a liberdade do comrcio.

 A represso lusitana foi rpida e
eficiente. O governo proibiu uma reunio
que havia sido convocada no campo do
Dique e iniciou a priso dos conjurados
mais conhecidos. Instalou-se o pnico na
populao, enquanto a polcia espalhava
o terror, com invases de casas, prises
arbitrrias, torturas, fugas, delaes.
Os proprietrios que ainda no haviam se
afastado do movimento conseguiram
escapar  represso graas a seu
prestgio e dinheiro. Mas a perseguio
aos pobres, negros e mulatos foi
incansvel. Quatro mulatos foram
enforcados, outros 49 rus foram presos
e exilados, e no, caso dos escravos,
aoitados.

Perodo joanino

 As trs conjuras (mineira, carioca e
baiana) manifestavam as contradies do
antigo sistema colonial. Teria sido
impossvel  metrpole estimular o
crescimento e a diversificao da
produo colonial sem promover o
desenvolvimento da colnia e a oposio
de suas elites ao regime mercantilista e
ao absolutismo monrquico.

 O processo de emancipao do Brasil
acelerou-se, portanto, dentro desse
contexto de questionamento do Antigo
Regime na Europa, com as revolues
Industrial e Francesa, com a ascenso de
Napoleo Bonaparte e o bloqueio
continental imposto por ele, originando
a vinda da famila real portuguesa para
a colnia.

 Tambm a abertura dos portos ( 1808)
provocou um impacto poltico com amplas
contradies. A camada senhorial
(proprietria de terras e escravos) foi
beneficiada pelas medidas de livre
comrcio com qualquer nao do mundo,
pois pernitiu-lhe livrar-se do
intermedirio metropolitano e, ao mesmo
tempo, vender a quem melhor pagasse por
suas mercadorias, obtendo maiores
lucros. Do lado britnico, as decises
joaninas (como os tratados de 1810)
atendiam aos interesses da burguesia
inglesa, pois representavam o fim do
monoplio colonial.

 Na poltica externa, Dom Joo invadiu a
Guiana Francesa em 1809, com apoio da
Inglaterra. Tratava-se de uma represlia
a Napoleo por ter ocupado Portugal, mas
em 1817, no Congresso de Viena, Portugal
foi obrigado a devolver o territrio da
Guiana  Frana.

 J a ocupao da Banda Oriental (atual
Uruguai), em 1811, foi determinada por
interesses econmicos e polticos. O
controle da bacia do Rio da Prata
representava para o governo portugus
uma importante conquista dos mercados
platinos e andinos. As lutas dos grupos
econmicos de Buenos Aires e da Banda
Oriental facilitaram a dominao
brasileira sobre a regio.

Insurreio Pernambucana

 As contradies da poltica econmica
preocupavam mais o governo joanino do
que a conquista de territrios
fronteirios. Desde a transferncia da
Corte para o Brasil e a abertura dos
portos, ficara alterado o fundamento da
colonizao, ou seja, decretou-se o fin
do monoplio metropolitano sobre a
colnia. A nova posio brasileira
dentro do mprio lusitano consolidou-se
com a elevao do Brasil  categoria de
Reino Unido formando um s corpo
poltico" (como afirmava a Carta Rgia
de dezembro de 1815) a Portugal e
Algarves. Dom Joo VI era o soberano que
se consolidara no trono portugus com a
morte de Dona Maria I, em 1816. No
entanto, a categoria de Reino Unido no
evitava os problemas econmicos. Esses
agravaram-se ainda mais com a crise
europia geral que se seguiu  queda de
Napoleo, em 1815. No Brasil, o Nordeste
era a regio onde as crises econmicas
se tornavam mais agudas; ao declnio da
produo aucareira e algodoeira
somaram-se a presso dos impostos
criados em 1812 para a formao das
tropas lusitanas e o agravamento das
condies de vida dos nordestinos por
causa da seca de 1816. Tudo isso
estimulou a Insurreio Pernambucana em
1817. Diante desse quadro de crises
econmicas e sociais, os grandes
proprietarios rurais e os homens livres
no-proprietrios uniram-se contra os
comerciantes lusos, apesar de seus
objetivos serem diferentes. Fra a
aristocracia rural tratava-se de uma
luta poltica, pois pretendiam a
autonomia em relao a Portugal e aos
comerciantes lusitanos, elaborando uma
ordem econmica que atendesse a seus
objetivos. Os homens livres no-
proprietrios opunham-se aos mercadores
portugueses para defender a prpria
sobrevivncia, porque o monoplio
comercial luso cobrava preos elevados
pelos gneros de primeira necessidade.
Outros grupos sociais - padres,
militares, juzes e comerciantes
brasileiros - participaram da
insurreio e formaram um governo
provisrio no dia 6 de maro de 1817. O
governo era republicano e criou-se uma
nova bandeira e uma lei orgnica, com a
inspirao da Revoluo Francesa. A nova
lei permitia a liberdade de imprensa,
mas proibia ataques  religio e 
Constituio; decretava a tolerncia
religiosa, embora o catolicismo fosse a
religio oficial e o clero recebesse
salrio do Estado; os estrangeiros que
aderissem  repblica seriam
considerados "patriotas". Estabeleceu-se
que o governo provisrio duraria at
elaborar-se uma nova constituio, por
uma assemblia constituinte a ser eleita
dentro de um ano. Como medida de carter
popular, foram abolidas as taxas que
aumentavam os preos dos produtos de
    primeira necessidade.  O Conde dos
Arcos, governador, comandou a represso
ao movimento por terra e mar A violncia
repressora tambm atingiu Alagoas, Rio
Grande do Norte e Paraba, pois estas
duas ltimas provcias haviam aderido 
insurreio. Aps vrios conflitos
sangrentos, o movimento foi derrotado em
19 de maio de 1817, seguindo-se o
fuzilamento e enforcamento dos lderes.

Revoluo Liberal do Porto: mais um
passo para a emancipao

 Por ironia dos fatos, cinco anos aps a
morte de dezenas de participantes dos
acontecimentos de 1817, o prncipe
Pedro, filho do rei que ordenara a
represso ao movimento pernambucano,
comandou a separao do Brasil em
relao a Portugal. Dom Pedro
provavelmente no imaginava que se
transformaria na figura mais importante
para romper com Portugal, sua ptria de
nascimento. As mudanas econmicas,
sociais e polticas aceleraram a
emancipao poltica do Brasil. Em 24 de
agosto de 1820, funcionrios, militares,
artesos e camponeses, liderados pela
burguesia mercantil da cidade do Porto,
organizaram um governo: a Junta
Provisional do Governo Supremo do Reino.
O movimento, que se estendeu a Lisboa,
ficou conhecido como Revoluo liberal
do Porto. As circunstncias econmicas e
sociais para a rebelio do Porto foram
criadas pela abertura dos portos
brasileiros em 1808 e pelo tratado de
1810, que favoreceu o comrcio do Brasil
com a Inglaterra e resultou na
estagnao do comrcio portugus. Contra
esse estado de coisas, os rebeldes do
Porto exigiam a volta de Dom Joo,
pretendendo reconduzir o Brasil 
condio de colnia. Mas a revoluo do
Porto tinha tambm um carter liberal,
ao reivindicar a elaborao de uma
constituio; o liberalismo do movimento
atacava o absolutismo e subordinava o
rei ao parlamento. Aps relutar muito e
resistir s presses das elites,
particularmente da camada aristocrtica,
que era a principal beneficiria das
medidas joaninas Joo VI decidiu voltar
a Portugal em 26 de abril de 1821.
Deixou em seu lugar o prncipe regente
Dom Pedro, recomendando-lhe: "Pedro, se
o Brasil se separar, antes que seja para
ti, que me hs de respeitar, do que para
algum desses aventureiros". O decreto
rgio que determinou o retorno do rei
tambm autorizou a eleio de deputados
brasileiros para participar das cortes
gerais extraordinarias e constituintes
da nao portugusa. Realizadas as
eleies dos deputados brasileiros,
todos representantes das camadas mais
abastadas, estes no tinham ainda a
idia da separao entre Brasil e
Portugal, e defendiam as conquistas do
governo joanino no Brasil.  medida que
as Cortes comearam a suprimir as
decises assumidas com a abertura dos
portos, foi ficando transparente a
finalidade de recolonizao do Brasil.
Diante das tentativas recolonizadoras,
as posies dos grupos intluentes na
sociedade brasileira comearam a se
definir. Comerciantes portugueses que se
opunham  abertura econmica do perodo
de Dom Joo formaram o Partido
Portugus, defendendo a recolonizao
brasileira para recuperar os privilgios
do sistema colonial. Por oposiso, a
aristocracia rural, os comerciantes e os
grupos que se beneficiavam das
liberdades comerciais criaram o Partido
Brasileiro. Apesar de tudo, o Partido
Portugus e o Partido Brasileiro no
correspondiam a uma posio de luta
entre portugueses e brasileiros. A
diviso partidria relacionava-se
principalmente com os interesses
econmicos. Conviviam no Partido
Brasileiro, por exemplo, todos os que
defendiam a liberdade comercial, assim
brasileiros, portugueses ou at mesmo
ingleses e franceses. Por outro lado,
muitos brasileiros no pertenciam a esse
partido. Na prtica, os dois partidos
defendiam propostas diferentes: a
tendncia colonialista era representada
pelo Partido Portugus e a
anticolonialista tornou-se bandeira do
Partido Brasileiro. Mas os dois partidos
tinham um interesse em comum: no
desejavam o fim da escravido. Havia,
ainda, uma terceira tendncia poltica,
a dos chamados Liberais Radicais, que
reuniam uma populao urbana de mdicos,
jornalistas, professores, advogados,
padres, pequenos comerciantes e at
representantes da aristocracia rural.
Concentravam-se principalmente no
Nordeste, que no fora beneficiado pelas
medidas polticas de Dom Joo VI.
Defendiam a independncia do Brasil, com
estabelecimento de um regime
republicano, opondo-se ao Partido
Brasileiro, que lutava por uma monarquia
dual para estes, o Brasil no romperia
com Portugal, porm teria poderes
autnomos a nvel econmico e
administrativo. Ao mesmo tempo que as
Cortes investiam na recolonizao do
Brasil, as classes proprietrias do
norte e Nordeste exigiam a separao
definitiva, e as camadas populares
urbanas desejavam uma revoluo social,
para mudar a estrutura escravocrata e
promover uma ordem econmica mais
igualitria, com um regime poltico
voltado para a defesa dos interesses da
maioria da populao.

As posies se definem em direo 
independncia

 Diante de tais presses, a liderana do
Partido Brasileiro - representada por
Jos Bonifcio de Andrada e Silva - e a
dos liberais radicais - chefiados por
Joaquim Gonsalves Ledo - uniram-se para
articular a separao do Brasil. Assim,
a 9 de janeiro de 1822, Dom Pedro
respondeu com o Fico s exigncias das
Cortes para retornar a Portugal. Essa
atitude representou  aproximao de Dom
Pedro com o Partido Brasileiro. A 13 de
maio de 1822, Dom Pedro recebeu o ttulo
de Defensor Perptuo do Brasil, por
impedir o desembarque de tropas
lusitanas. Em junho, ele assinou um
decreto convocando eleies para a
composio de uma Assemblia
Constituinte. A ruptura definitiva
ocorreu com a intimao das Cortes,
exigindo a presena imediata do prncipe
regente em Portugal e ameaando-o com
tropas portuguesas para forar seu
retorno  metrpole. Essa radicalizao
portuguesa tornou a separao
inevitvel: a 7 de setembro de 1822, Dom
Pedro proclamava a independncia do
Brasil, e no dia 1 de dezembro foi
coroado como Dom Pedro I, Imperador do
Brasil. E preciso, no entanto, perceber
que a forma como se operou a emancipao
do Brasil e o carter de arranjo
poltico, se assim nos podemos exprimir,
de que se revestiram os meses que
medeiam da partida de Dom Joo 
proclamao da Independncia, perodo
final em que os acontecimentos se
precipitavam, decorreu num ambiente de
manobras de bastidores, em que a luta se
desenrola exclusivamente em torno do
prncipe regente, num trabalho intenso
de o afastar da influncia das Cortes
Portuguesas e traz-lo para o seio dos
autonomistas. Resulta da que a
independncia se fez por uma simples
transferncia pacfica de poderes da
metrpole para o governo brasileiro.
(...) Fez-se a independncia
praticamente  revelia do povo, e se
isto lhe poupou sacrifcios tambm
afastou por completo sua participao na
nova ordem poltica. A independncia
brasileira  fruto mais de uma classe
que da nao tomada em seu conjunto. Sem
dvida, a articulao da independncia
foi executada pela classe proprietria
de terras e escravos. A aristocracia
rural do Centro-Sul - Minas Gerais, Rio
de Janeiro e So Paulo - no desejava
nem a recolonizao, nem o separatismo
(pregado pela aristocracia do Norte e
Nordeste), nem a revoluo (proposta
pelas camadas populares urbanas). Para
esta articuladora da emancipao, o
ideal era uma nova independncia,
preservando a unidade do territrio
brasileiro e a ordem social. Em outras
palavras: tratava-se de combater,
simultaneamente, a burguesia
mercantilista lusitana, a aristocracia
nortista e nordestina e as camadas
populares. A independncia conciliou os
interesses da camada senhorial com a
convenincia de uma soluo monrquica.
Entretanto,  preciso compreender que a
figura de Dom Pedro interessava 
aristocracia rural sulista, j que sua
formao poltica, voltada para a
ideologia do absolutismo, permitia a
conciliao entre o conservadorismo
dessa aristocracia e os princpios
autoritrios absolutistas. As notcias
da independncia no foram bem-aceitas
principalmente pelos grupos de
proprietrios do Nordeste, onde
ocorreram vrios movimentos de protesto.
Tambm as camadas populares
manifestaram-se contra a forma pela qual
se processara a independncia. Mas o
imperador, juntamente com Jos
Bonifcio, o principal articulador da
independncia, esmagou com violncia
todo e qualquer protesto popular, sob o
pretexto de abafar grupos republicanos
ameaadores da "estabilidade" monrquica
e da ordem social.

A Constituio "da mandioc" e a
consolidao da independncia

 Superada a fase de separao de
Portugal, a principal preocupao da
aristocracia rural consistia em
controlar a organizao do novo Estado
brasileiro, conseguindo conduzir a
eleio para a Assemblia Constituinbe
de 1823 de maneira a refletir seus
interesses. Foram eleitos noventa
membros vindos de catorze provncias. O
projeto de constituio tinha 27
artigos, feitos por uma comisso de seis
deputados sob a liderana de Antnio
Carlos de Andrada, irmo de Jos
Bonifcio. O texto, inspirado nos
iluministas, centrava- se em dois pontos
bsicos: a soberania nacional e o
liberalismo econmico. O ante- projeto
tinha artigos anticolonalistas,
marcadamente xenfobos, isto , de dio
aos estrangeiros de maneira geral e aos
portugueses em particular. A
desconfiana em relao ao estrangeiro
explicava-se em boa parte pelo fato de
Dom Pedro I ser herdeiro legtimo da
Coroa portuguesa, e isso criava o risco
de retorno do Brasil  condio de
colnia. Por isso, todo estrangeiro
ficou proibido de ocupar cargos de
representao nacional. Por outro lado,
o anteprojeto procurava limitar o poder
do executivo, principalmente de Dom
Pedro, dando maior peso  representao
nacional. Patenteia-se, assim, o carter
antiabsolutista, quando a comisso
coloca a indissolubilidade da Cmara, o
veto apenas suspensivo do imperador e o
controle das Foras Armadas pelos
deputados, atravs do parlamento, e no
pelo imperador O poder legislativo tinha
mais atribuies que o executivo. O
anteprojeto refletia tambm o domnio da
aristocracia rural sobre o restante da
populao, radicais e grupos
comerciantes portugueses. No sistema
eleitoral, propunha-se a convocao de
eleies segundo distintos graus. No
primeiro grau, os eleitores precisavam
ter uma renda mnima de 150 alqueires de
farinha de mandioca, e poderiam eleger
apenas eleitores de segundo au que, por
sua vez, deveriam ter uma renda de 250
alqueires. Estes ltimos elegeriam
deputados e senadores, sendo que cada um
deveria ter, respectivamente, uma renda
de quinhentos e de mil alqueires. Era a
Constituio da mandioca, como foi
chamada na poca. Esse projeto
inviabilizava a participao das camadas
populares, ao condicionar a eleio 
renda (voto censitrio), e exclua os
comerciantes, pois a base de renda no
era monetria, mas sim uma mercadoria: a
farinha de mandioca. O Partido
Brasileiro dominava a Assemblia
Constituinte com maioria de deputados, e
isso criava grandes antagonismos. O
prprio imperador aproximou-se do
Partido Portugus, defensor do
absolutismo e da recolonizao, em
oposio ao Partido Brasileiro, que
pretendia instaurar uma monarquia
constitucional. Os irmos Andrada
proprietrios de dois jornais, O Tamoio
e A Sentinela da Liberdade, que
combatiam os radicais, os
revolucionrios e os absolutistas. Um
desses jornais publicou uma carta
assinada com o apseudnimo de
"Brasileiro Resoluto'; atacando os
oficiais portugueses do exrcito
imperial. Estes reagiram com violncia,
agredindo o farmacutico David Pamplona,
que se suspeitava ser o auvo da carta. A
Assemblia mobilizou a populao para
uma viglia cvica e colocou-se em
sesso permanente, sob a ameaa de
invaso por parte do imperador A 12 de
novembro, Dom Pedro dissolveu a
Constituinte e, diante da permanencia
dos deputados na Assemblia, na noite
conhecida como Noite da Agonia, as
tropas imperiais, sob o comando de Dom
Pedro, prenderam e deportaram vrios
deputados, inclusive os irmos Andrada
(Jos Bonifcio, Martim Francisco e
Antnio Carlos). Seguiu-se uma onda de
protestos em vrias provncias. Dom
Pedro I, para atenuar o
descontentamento, escolheu uma comisso
de dez membros, o Conselho de Estado,
para elaborar uma constituio que, em
quarenta dias - a 25 de maro de 1824 -,
foi imposta pelo imperador, sem votao
da Assemblia. Embora o Conselho de
Estado preservasse muitos anigos da
comisso anterior, a Constituio de
1824 representou uma vitria do
executivo sobre o legislativo, do
imperador sobre a aristocracia rural. O
Partido Portugus assendeu ao poder Tal
como o anteprojeto, a nova Carta
Constitucional afastava as classes
populares, consolidando o voto
censitrio, com a exigncia de renda em
dinheiro: cem e duzentos mil ris para
os eleitores de primeiro e segundo
graus, respectivamente. Os candidatos a
deputado precisavam ter quatrocentos mil
ris, enquanto os senadores deveriam ter
oitocentos mil ris. Quatro poderes
foram adotados: legislativo, judicirio,
executivo e moderador. O legislativo
inclua o senado vitalcio (cujos
membros eram escolhidos pelo imperador a
partir de uma lista de trs nomes
relacionados pelas provncias) e a
Cmara de Deputados (renovada a cada
trs anos). O judicirio era constitudo
pelo Supremo Tribunal, cujos juzes eram
apontados pelo imperador. O executivo
era integrado pelo imperador e seus
ministros, responsveis pelo cumprimento
das leis. Mas o centro do poder poltico
ficou nas mos do imperador, na forma do
poder moderador, encarregado de buscar a
harmonia dos trs outros poderes. O
poder moderador permitia a Dom Pedro I
nomear e destituir ministros,
presidentes de provncias, juzes e
mesmo membros da Igreja. A Constituio
de 1824 reconheceu o catolicismo como
religio oficial do Estado. Seus membros
(clero) eram funcionrios pblicos,
recebendo pagamento do Estado. O
imperador indicava os sacerdotes e
supria os cargos eclesisticos, alm de
conceder prvia autorizao para aplicar
as bulas (recomendaes) papais. A
atitude de Dom Pedro I ao fechar a
Constituinte mostrava que seus atos
continuavam absolutistas, embora alguns
artigos da constituio fossem liberais.
O centralismo e o unitarismo poltico do
imperador ao reprimir qualquer tentativa
de autonomia das provncias provocavam
protestos e manifestaes contrrias 
constituio e a Dom Pedro I.  que esse
modelo poltico conservava a estrutura
colonial: escravocrata, latifundiria,
voltada para o mercado externo. Desde
setembro de 1822, a Cisplatina, o Pr,
o Maranho e a Bahia protestavam contra
as decises da aristocracia do
Centro-Sul e, a partir da dissoluo da
Constituinte, o descontentamento
voltou-se principalmente contra o
monarca.

A Confederao do Equador

 Se o descontentamento pelas atitudes de
Dom Pedro I foi contido na capital e nas
provncias do Sul, o mesmo no aconteceu
com o Nordeste, especialmente
Pernambuco, onde se evocavam os
acontecimentos da Insurreio
Pernambucana. Alis, de 1817 a 1824, o
clima de agitao revolucionria serviu
para sedimentar os ideais liberais de
republicanismo, a luta contra o
escravismo e a autonomia das provncias
(federalismo). Em 1822, Jos Bonifcio,
primeiro-ministro de Dom Pedro, anulou
um golpe contra a Junta Democrtica e
Independente, eleita pela populao
pernambucana para governar a provncia
de forma autnoma. Formou-se uma outra
junta conhecida como junta dos Matutos,
sob a liderana de Francisco Paes
Barreto, com representantes da
aristocracia rural, mas afinada com o
governo imperial. esse acontecimento
levantou a oposio das lideranas
liberais pernambucanas. Cipriano Barata
(revolucionrio da conjurao baiana de
1798) e Frei joaquim do Amor Divino
Rabelo Caneca (que participara da
insurreio Pernambucana de 1817)
atacavam em seus jornais a dissoluo da
Constituinte e o absolutismo de Dom
Pedro. As presses populares levaram 
demisso da Junta dos Matutos. Dom Pedro
nomeou outros presidentes para a
provncia, mas houve enorme resistncia.
Os pernambucanos elegeram o seu prprio
governador, rompendo com o governo
imperial. A ruptura final ocorreu em 2
de julho de 1824, quando o governador
eleito, Manuel de Carvalho Paes de
Andrade, proclamou a Confederao do
Equador. A Confederao organizou-se
como um novo pas, de regime republicano
representativo e federativo inspirado no
modelo norte-americano. Para evitar o
isolamento, Pernambuco buscou apoio de
outras provncias e obteve adeso do
Cear, do Rio Grande do Norte e da
Paraiba. Os confederados con eleies
para uma Assemblia Legislativa e uma
Constituinte, para 7 de agosto de 1824.
Enquanto isso, Manuel Paes de Andrade
elaborou um projeto de constituio
inspirado na Carta da Colmbia. No
projeto de Paes de Andrade havia dois
poderes: o executivo e o legislativo,
tendo este mais fora que o primeiro. A
Confederao decidiu abolir a escravido
e a comearam os desentendimentos: a
aristocracia agrria, sentindo-se
prejudicada, afastou-se do movimento e
passou a fazer oposio. A participao
das camadas populares contribuiu para
acirrar a resistncia. Aos poucos, o
movimento caracterizava-se como uma
revolta social; a participao de
negros, mulatos e militares de baixa
patente nas chamadas brigadas populares
amedrontou a aristocracia agrria. Os
proprietrios rurais romperam com os
lderes da Confederao e abriram
caminho para a represso. O governo
central, deficitrio, precisou contrair
emprstimos em libras para organizar o
combate. As esquadras eram comandadas
por Lord Cochrane, e mercenrios,
principalmente ingleses, formavam as
tropas de mar e terra (sob a presidncia
do brigadeiro Francisco de lima e Silva)
para combater cada provncia em
separado. Em setembro e novembro de 1824
dominou-se Pernambuco e Cear,
respectivamente. Frei Caneca foi
fuzilado junto com outros rebeldes, e
Paes de Andrade fugiu. O fim da
Confederao do Equador evidenciou a
separao dos enteresses entre grupos
liberais e o imperador

O reconhecimento da independncia

 Controladas as lutas internas, ainda
que parcialmente, o imprio se dedicou 
tarefa de obter o reconhecimento da
independncia por parte das outras
naes. Mantendo sua estrutura
agroexportadora, o Brasil necessitava
fortalecer suas relaes comerciais,
especialmente com a Europa. A Inglaterra
logo se prontificou a servir de
mediadora entre Brasil e Portugal.
Vrios intereces estavam em jogo. Os
ingleses poderiam fazer bons
investimentos no Brasil, conservando
vantagens comerciais como pas
preferencial nas relaes
anglo-brasileiras.  Inglaterra
interessava manter o regime monrquico,
no so para agradar Portugal, mas tambm
para evitar a formao de naes
republicanas fortes, sob a liderana
norte-americana. Mas as negociaes eram
lentas, pois a Inglaterra desejava
eliminar o trfico negreiro e abolir a
escravido no Brasil, para melhorar as
condies de competio com as colnias
inglesas, que dependiam de mo-de-obra
assalariada e, por isso, no conseguiam
praticar os baixos preos do produto
brasileiro. A Inglaterra condicionava o
reconhecimento da independncia do
Brasil  extino do trfico negreiro e,
consequentemente, ao fim da escravido.
Outros obstculos vinham da Frana, que,
por sua vez, influenciava Portugal:
neste caso, o objetivo era a
recolonizao das Amricas. Na prpria
Amrica Latina o Brasil enfrentava
resistncia, pois os vizinhos
republicanos no concordavam com o
regime monrquico adotado pelo Brasil,
sobretudo depois dos acontecimentos que
envolveram a Assemblia Constituinte e a
Constituio de 1824, com a imposio do
absolutismo de Dom Pdro I. O primeiro
pas a reconhecer o Brasil independente
foram os Estados Unidos, que pretendiam,
com o rpido reconhecimento, obter
privilgios comerciais e fortalecer sua
posio de potncia poltica e
econmica. ApS muitas negociaes,
Portugal aceitou a independncia do
Brasil, atravs dos Tratados de paz e
amizade, em 1825. A antiga metrpole
reconheceu a separao de Portugal e
Algarves, com a condio de que fossem
respeitados os bens de portugueses e
brasileiros confiscados durante o
processo de emancipao e que se
restabelecessem os privilgios
portugueses nas relaes comerciais, com
a taxa de 15%. Alm sso, Portugal imps
o pagamento de dois milhes de libras
esterlinas, como indenizao pelos
prejuso causados pela separao. Essa
quantia era a mesma que os portugueses
deviam aos cofres britnicos; assim, o
ouro brasileiro foi direto para a
Inglaterra.

 Alm do pagamento pela independncia, a
guerra da Cisplatina, que comeou tambm
em 1825, exigiu grandes somas em libras.
A provncia Cisplatina, tambm chamada
Banda Oriental, procurava emancipar-se
do imprio brasileiro. Um grupo
revolucionrio intitulado "Los treinta y
tres ", chefiado pelo general Lavalleja,
declarou a separao da Cisplatina e sua
incorporao s Provncias Unidas do Rio
da Prata (atual Argentina).

 Os interesses do imperador brasileiro
centralizavam-se na tentativa de evitar
a formao de grandes pases na Amrica
do Sul e tambm na preocupao de
controlar o territrio da Cisplatina.
Alm de ser uma regio rica em gado, a
Bacia do Rio da Prata era fundamental
para o acesso ao oeste de Santa
Catarina, Paran, Rio Grande do Sul e
sudoeste de Mato Grosso: tendo em vista
as precrias condies de transporte
terrestre, o deslocamento pelos rios era
obrigatrio. Por isso, o imprio
brasileiro procurava incentivar a
formao de pequenos pases, lutando
contra sua unio. Esse foi o principal
motivo do rpido reconhecimento da
independncia do Paraguai pelo Brasil,
pois a aliana em torno das Provncias
Unidas ameaava os interesses de Dom
Pedro I em se tornar o grande imperador
das Amricas.

Crise no Primeiro Imprio: Dom Pedro
perde apoio

 Enquanto a guerra se desenrolava no
Sul, delineava-se na Corte um novo
quadro poltico. Em 1826, na Assemblia
Geral, formada pelo Senado e pela Cmara
dos Deputados, o Partido Brasileiro
estava dividido em dois grupos: os
liberais moderados e os liberais
exaltados. A faco liberal moderada,
representada predominantemente pela
aristocracia rural, exigia a reviso dos
tratados assinados com Portugal,
Inglaterra e outros pases, e
requisitava a presena do ministrio no
legislativo, para explicar a guerra e a
crise econmica. Enquanto isso, a faco
liberal exaltada dava um passo mais
ousado: defendia a descentralizao da
monarquia, com maior autonomia das
provncias; os mais radicais pregavam
mesmo a criao de uma repblica
federativa, segundo o modelo
norte-americano.

 Contrrios a essas posies estavam os
senadores escolhidos por Dom Pedro, que
apoiavam integralmente o imperador. Mas
na prtica esse apoio era frgil demais
para enfrentar as oposies. A imprensa
tambm contribuiu para aumentar o
confronto com o imperador. Os jornais
dos moderados, principalmente o Aurora
Fluminense,de Evaristo da Veiga,
atacavam o imperador e os exaltados,
pregando a obedincia  Constituio; os
ataques dos moderados compreendiam os
excessos do autoritarismo de Dom Pedro e
os avanos dos liberais radicais.

 Outro acontecimento veio aprofundar o
desgaste poltico de Dom Pedro: a
sucesso em Portugal. Com a morte de Dom
Joo VI (1826), Dom Pedro seria seu
legtimo sucessor; como no poderia
assumir as duas coroas, Dom Pedro
abdicou do trono lusitano em favor de
sua filha, Dona Maria da Glria. Tudo
parecia perfeitamente arrumado: Dom
Pedro outorgou uma constituio a
Portugal e nomeou uma regncia para
governar at o casamento de seu irmo,
Dom Miguel, com a sobrinha (Dona Maria
da Glria). Aps o enlace, a rainha de
Portugal seria Dona Maria da Glria (com
o ttulo de Dona Maria I e Dom Miguel
governaria  sombra de sua
sobrinha-esposa. Mas isso no chegou a
se efetivar. Em 1826, os grupos
absolutistas portugueses aclamaram Dom
Miguel como rei de Portugal, depois de
um golpe de Estado, afastando Dona
Maria. Esse problema sucessrio
preocupava o imperador e originava
protestos do Partido Brasileiro, que o
acusava de negligenciar os problemas
internos, entregando-os ao Partido
Portugus, enquanto se dedicava aos
acontecimentos lusitanos. O Partido
Brasileiro centrava suas crticas no
fato de o Brasil ser governado pelos
chalaas (nome dado aos membros do
Partido Portugus), especialmente o
chalaa Francisco Gomes da Silva,
elemento da guarda pessoal de Dom Pedro,
que exercia amplos poderes na
administrao econmica e poltica.

 Para aprofundar a crise
econmico-financeira, o governo imperial
assinou em 1827 um tratado de
livre-cambismo com a Inglaterra. Por
esse acordo, que se assemelhava ao
Tratado de 1810, os produtos da
Gr-Bretanha pagariam uma taxa de 15%
sobre o preo das mercadorias por um
perodo de 15 (quinze) anos e o Brasil
se comprometeria, a partir de 1830, a
extinguir o trfico negreiro e permitir
 Inglaterra o direito de revistar os
navios suspeitos de trfico.

 Diante desse conjunto de
acontecimentos, a aristocracia agrria
aumentava seu descontentamento com o
imperador e tramava sua queda. As
contradies polticas, econmicas e
administrativas de Dom Pedro aceleravam
os conflitos sociais. Por sua vez, a
aristocracia rural apontava a
incompetncia do imperador como a nica
causa dos problemas econmicos do pas.
As dificuldades de Dom Pedro em
dministrar as crises sucessivas eram
evidentes, mas ele no era o ncleo das
crises. A questo essencial era a
manuteno da estrutura escravocrata e
do modelo agroexportador.

 1828 poderia indicar o incio das
conseqncias desastrosas da poltica de
Dom Pedro. Derrotado na guerra, o Brasil
perdeu o terntrio da Cisplatina, onde
se estabeleceu a Repblica Oriental do
Uruguai. Esse conflito provocara grande
desgaste poltico do imperador, pois a
despesa com a guerra aprofundou as
dificuldades financeiras do pas. Alm
disso, o conflito teve amplas
repercusses negativas no exterior, pois
as repblicas do continente perceberam
que o expansionismo do Brasil podia
representar uma ameaa  Amrica do Sul.
No mesmo ano de 1828 Dom Miguel (irmo
de Dom Pedro) consolidava-se no trono
portugus, e o imperador brasileiro
enviou tropas ao reino lusitano para
defender seus interesses e recolocar
Dona Maria da Glria no poder.

 O Partido Brasileiro aproveitou-se
desse episdio do envio de tropas
brasileiras a Portugal para acusar Dom
Pedro I de pretender a unio das duas
coroas, ameaando com isso a
independncia do Brasil. O quadro
poltico era cada vez mais desfavorvel
ao imperador, que sofria todo tipo de
presso por parte da aristocracia rural.

 Os fatos pareciam favorecer a
aristocracia agrria, em detrimento do
imperador. Em 1829, a falncia do Banco
do Brasil demonstrava o desastre da
administrao financeira, com os
emprstimos e a emisso de papel-moeda
desvalorizando o dinheiro brasileiro e
provocando aumento dos preos. O
descontentamento da populao
pauperizada, das camadas mdias urbanas
e da aristocracia rural manifestou-se
nos constantes protestos destas contra a
poltica econmica do governo. Para
contornar a situao, neste mesmo ano de
1829, Dom Pedro formou um novo governo,
mais liberal, mas o novo gabinete no
conseguiu resolver os problemas mais
imediatos e foi logo demitido. A
nomeao de um novo governo de
tendncias absolutistas acirrou os
conflitos.

 A oposio ao governo crescia. A
imprensa de todo o pas combatia
cotidianamente Dom Pedro e sofria
violenta represso: em So Paulo, em
1830, o jornalista Libero Badar (franco
oposicionista do imperador) foi
assassinado por pessoas fiis ao
governo. Embora isso nunca fosse
comprovado, a no-punio dos assassinos
levantou suspeitas de que Dom Pedro
estivesse diretamente envolvido.

 Na tentativa de conter sua
impopularidade, em fevereiro de 1831 o
imperador fez uma viagem a Minas Gerais,
acompanhado da imperatriz (Dona
Leopoldina) e de uma comitiva. A
populao de Ouro Preto recebeu Dom
Pedro com faixas de luto pela morte do
jornalista de So Paulo. No retorno 
capital, o Partido Portugus, atravs da
loja manica Colunas do Trono,
preparou-lhe uma grande festa de
recepo e desagravo. O Partido
Brasileiro, que tambm montara uma loja
manica (Carpinteiro de So Jose,
organizou manifestaes de oposio.
Assim, "portugueses" e "brasileiros" se
confrontaram nas ruas do Rio de Janeiro,
transformando a capital num campo de
batalha. Esses conflitos ficaram
conhecidos como as Noites das Garrafadas
(11, 12, 13/maro/1831).

 Dom Pedro organizou um ministrio
liberal conhecido como "Ministrio dos
Brasileiros", mas em 5 de abril
destituiu esse gabinete, que se recusava
a reprimir as manifestaes da populao
contra o imperador. A nomeao do novo
gabinete, integrado por elementos do
Partido Portugus que desejavam governar
sem a Cmara, provocou uma reao total
de oposio: at mesmo as tropas
colocaram-se contra o imperador. Em 7 de
abril de 1831, Dom Pedro renunciou 
monarquia do Brasil, tornando-se Pedro
IV, rei de Portugal.

Os significados da abdicao e as novas
composies polticas

 Por um lado, a abdicao consolidou a
independncia do Brasil em relao a
Portugal. Por outro, o afastamento de
Dom Pedro I permitiu que os
proprietrios rurais, principalmente da
regio Centro-Sul (Minas Gerais, So
Paulo e Rio de Janeiro), controlassem o
poder e organizassem o imprio segundo
seus interesses econmicos e polticos.
Por ltimo, a abdicao deflagrou as
contradies entre a aristocracia rural,
os grupos urbanos e as camadas
populares, anteriormente unidos apenas
na oposio ao imperador.

 O Perodo regencial ( 1831 a 1840)
constituiu-se no mais agitado da
histria do imprio. A partir da
abdicao, formaram-se 3 grupos
polticos: os restauradores ou caramurus
(antigos representantes do Partido
Portugus); os moderados ou chimangos
(antigos participantes do Partido
Brasileiro, em geral membros da
aristocracia rural) e os esaltados,
farroupilhas ou jurujubas ( antigos
membros dos liberais radicais).

 Os restauradores, membros da sociedade
conservadora (mais tarde sociedade
militar) defendiam o retorno e a
restaurao do modelo poltico de Dom
Pedro I. Tratava-se de uma tendncia com
fora poltica secundria; seus membros
principais foram os Andrada, sob a
liderana de Jos Bonifcio.

 Os moderados, agrupados na Sociedade
Defensora da Liberdade e da
Independncia Nacional, formavam a fora
poltica mais importante, composta das
aristocracias de Minas Gerais, So Paulo
e Rio de Janeiro. Favorveis ao regime
monrquico (embora contrrios ao
absolutismo poltico), os moderados
pregavam o centralismo administrativo
como forma de buscar a unidade
territorial. Evaristo da Veiga (editor
do jornal Aurora Fluminense), padre
Antnio Feij e Bernardo Pereira de
Vasconcelos eram os elementos mais
influentes dessa agremiao poltica.

 A terceira corrente poltica, formada
pelos esaltados, reunidos em torno da
Sociedade Federalista, defendia a
autonomia das provncias, e alguns de
seus membros pregavam o regime
republicano. Essa tendncia poltica
representava as aspiraes das camadas
mdias urbanas. Os jornalistas Antnio
Borges da Fonseca e Lus Augusto May,
editores dos jornais O Repblico e A
Malagueta, respectivamente, eram os
membros mais proeminentes.

 Essas trs correntes polticas
disputavam o controle do poder no Brasil
entre a abdicao de Dom Pedro I (1831)
e a antecipao da maioridade de Dom
Pedro II (1840). Na impossibilidade de o
sucessor de Dom Pedro I assumir o trono
brasileiro, a Constituio de 1824
estabelecia eleies para a composio
de uma Regncia Trina, eleita pela
Assemblia Geral, formada pelos
senadores e pelos deputados. Configurada
a impossibilidade de sucesso, pois o
herdeiro tinha apenas cinco anos de
idade, convocou-se a Assemblia Geral.
Mas os parlamentares estavam em frias;
os poucos senadores e deputados que
estavam no Rio de Janeiro escolheram uma
Regncia Trina Provisria, composta
pelos senadores moderados Nicolau de
Campos Vergueiro e o brigadeiro
Francisco de Lima e Silva (pai de duque
de Caxias) e pelo senador restaurador
Jos Joaquim de Campos (marqus de
Caravelas).

Da Regncia Trina  Regncia Una - um
projeto centralizador

 A primeira regncia governou durante
trs meses. Em junho de 1831 a
Assemblia Geral elegeu a Regncia Trina
Permanente, composta apenas por
representantes dos moderados, escolhidos
por um critrio geogrfico para tentar
uma conciliao poltica entre os grupos
da aristocracia rural. Compunham a
regncia: Brulio Muniz (representante
do Norte), Jos da Costa Carvalho
(representante do Sul) e o brigadeiro
Francisco de Lima e Silva. Para o
ministrio da Justia, o governo
regencial escolheu o padre Diogo Antnio
Feij, com plenos poderes para reprimir
qualquer ao popular. Feij usou de
toda represso aos movimentos populares
que contestavam as medidas autoritrias
da regncia. At mesmo alguns membros do
exrcito, apiando os desejos da
populao, pediram a dissoluo da
Cmara e do governo, chegando a defender
uma nova Assemblia Constituinte. Feij
desfechou uma violenta perseguio e
priso aos membros do exrcito e dos
liberais exaltados que apoiaram as
propostas de setores militares.

 Percebendo que no podia contar com as
tropas do eXrcito para as aes
repressivas, Feij criou a Guarda
Nacional, pela lei de 18 de agosto de
1831. A Guarda Nacional consistia em
milcias formadas por fazendeiros
armados, comandando voluntrios, isto ,
os agregados ( feitores e capatazes) de
suas fazendas, que obtiveram legitimao
para reprimir qualquer ao local de
protesto contra o governo. Essa
organizao subordinava-se aos juzes de
paz de cada municpio, reforando assim
o poder de mando dos grandes
proprietrios de terras, que controlavam
totalmente os juzes.

 As lutas pelo poder entre as trs
faces aprofundavam os problemas
politicos da regncia. Em 1832, os
restauradores fundaram a Sociedade
Conservadora,sob a liderana de Jos
Bonifcio; tratava-se de uma organizao
poltica para fazer frente  Sociedade
Defensora da Liberdade e da
Independncia, sob o comando de Evaristo
da Veiga, fundada no ano anterior
(1831), com o objetivo de dar apoio
poltico a Feij e combater os
exaltados. Aproveitando-se dos conflitos
entre chimangos e farroupilhas, os
caramurus, no mesmo ano de 1832,
organizaram protestos no Rio de Janeiro.
Embora os caramurus no tivessem
conseguido promover o retorno de Dom
Pedro I, eles representavam uma ameaa.

 Para conter os avanos dos caramurus,
Feij tentou conseguir da Cmara dos
Deputados a destituio de Jos
Bonifcio do cargo de tutor do futuro
Dom Pedro II  props que a regncia e o
ministrio apresentassem suas renncias,
para formar-se uma Assemblia Nacional.
A proposta de Feij previa tambm o fim
do senado vitalcio (o senador
permanecia no cargo at a sua morte), e
maiores poderes para o executivo. Para
tanto, Feij defendia uma nova
constituio, sem a influncia dos
restauradores. As propostas foram
rejeitadas pelo Senado - composto, em
sua maioria, de restauradores -, embora
encontrassem algum apoio na Cmara dos
Deputados.

 Os prprios representantes dos
moderados, na Cmara dos Deputados,
dividiram-se em relao a Feij.
Bernardo Vasconcelos e Carneiro Leo
(ambos moderados) discordavam dos
mtodos de Feij na represso aos
movimentos populares, da escolha dos
membros da Guarda Nacional, do trfico
de influncias para a escolha do
presidente das provncias. O ministro da
Justia procurava afastar os deputados
de suas decises e contava na Cmara com
o apoio de Evaristo da Veiga. O grupo de
Bernardo de Vasconcelos e Carneiro Leo
viu nessas atitudes de Feij uma manobra
para fortalecer o executivo e
enfraquecer o legislativo. A regncia e
a Cmara tornavam-se o cenrio das
disputas entre os vrios grupos de
moderados.

 Carneiro Leo deu um lance favorvel a
seu grupo: apresentou para votao na
Cmara uma proposta segundo a qual, na
prxima eleio para o legislativo, os
eleitores concederiam amplos poderes aos
deputados para realizar reformas na
constituio. A Cmara aprovou a lei de
Carneiro Leo; Feij, desmoralizado,
pediu demisso. Fechou-se assim um golpe
para afastar o ministro da Justia, que
tentara governar autoritariamente, sem
mesmo respeitar os membros de seu
partido.

 Embora divididos, os moderados
reafirmavam sua fora: destituram Jos
Bonifcio da tutela do prncipe Pedro;
sob a acusao de conspirador, Bonifcio
foi preso, e a tutela entregue ao
marqus de Itanham. Com a morte de Dom
Pedro I, em 1834, os restauradores
deixaram de existir como partido
poltico.

 Os parlamentares foram realizando
reformas na constituio. Em 12 de
agosto de 1834, a Cmara e o Senado
aprovaram a emenda constitucional
chamada Ato Adicional  Constituio de
1824. Esse ato eliminava o Conselho de
Estado (organismo consultivo de apoio ao
imperador, que fora uma criao da Carta
de 1824), mantinha o poder moderador e a
vitaliciedade do senador; as Provncias
(atuais Estados) passaram a ter
Assemblias (de deputados). O mesmo ato
adicional transformou a Regncia Trina
em Regncia Una, sendo o regente eleito
para um mandato de quatro anos; o voto
continuava censitrio e aproximadamente
6 000 indivduos Poderiam participar das
eleies. Um ultimo destaque desse ato
foi a criao do Municpio Neutro da
Corte, que correspondia  capital do
Imprio, no Rio de Janeiro; a capital da
Provncia do Rio de Janeiro foi
transferida para Niteri.

 Uma outra composio poltica surgiu do
Ato Adicional, dividindo as foras
polticas em dois grupos: os que o
aprovavam, chamados progressistas, e os
que se colocavam contra ele, denominados
regressistas. O Ato Adicional de 1834
apresentava uma contradio bsica: ao
mesmo tempo que centralizava o poder nas
mos do regente nico, dava autonomia s
Provncias. A conciliao entre
descentralizao poltica e manuteno
da unidade territorial parecia ser
problemtica. Foi em meio a tais
contradies que o padre Feij,
candidato dos progressistas, venceu as
eleies para regente, embora com
pouqussima vantagem sobre os
regressistas, liderados por Bernardo
Pereira de Vasconcelos. No entanto, nas
eleies legislativas de 1836, os
regressistas obtiveram vantagem e
elegeram mais deputados que os
progressistas.

 Essas disputas polticas acirravam os
conflitos entre as elites aristocrticas
e as camadas populares, que desde a
poca da independncia aspiravam a
transformaes scio-econmicas capazes
de melhorar suas precrias condies de
sobrevivncia.  medida que a
independncia poltica do Brasil ia se
consolidando, as elites agrrias
concretizavam seus interesses econmicos
e polticos, utilizando-se das massas
populares para impor sua hegemonia.
Durante todo o perodo regencial,
seguiram-se as agitaes populares.
Cabanagem ( Par ), Farroupilha (Rio
Grande do Sul), Balaiada (Maranho) e
Sabinada (Bahia) constituram-se em
movimentos populares de revolta contra a
poltica aristocrtica, que direcionava
a produo agrcola para o mercado
externo, provocando alta de preos e
aumento do custo de vida.

 Temerosa das manifestaes populares, a
aristocracia rural aproximou-se cada vez
mais de posies conservadoras que
apresentavam, como soluo para as
revoltas sociais, o uso de armas e o
emprego de toda a sorte de represso e
violncia: torturas, seqestros, saques
de casas, incndios de lavouras, prises
indiscriminadas. Os regressistas
souberam capitalizar politicamente essa
situao e manipular os desejos dos
conservadores de forma mais eficiente.
Os progressistas passaram a ser acusados
pelos regressistas - que possuam
maioria no legislativo (Cmara e Senado)
- de benevolncia para com os
revoltosos, responsabilizando Feij por
permitir o aumento e o descontrole dos
movimentos populares. Ao mesmo tempo, a
maioria regressista negava os constantes
pedidos de Feij de liberao de
recursos financeiros para enfrentar as
dificuldades sociais: mais uma vez, a
regncia transformava-se em palco das
lutas das elites pelo poder. O objetivo
dos regressistas era de afastar Feij da
regncia. Diante de uma oposio cada
vez mais crescente, Feij viu-se sem
condies de permanecer no cargo,
renunciando em 1837. Para ocupar a
regncia interinamente, isto , por
pouco tempo, o legislativo indicou
Arajo Lima - representante dos
regressistas -, que, vencendo as
eleies regenciais de 1838, manteve-se
como regente.

 As presses da aristocracia rural no
se esgotavam no controle da regncia.
Fazia parte de seus planos obter uma
reviso do Ato Adicional em relao 
autonomia das Provncias e
descentralizao poltica. Segundo os
regressistas, essa estrutura poltica
era responsvel pelas revoltas que
levavam a populao s ruas. Os
regressistas, ao assumirem o poder em
1837, prepararam a Lei de Interpretao,
que passava para o governo regencial as
atribuies conquistadas pelas
assemblias provinciais atravs do Ato
Adicional. Essa lei criava o Cdigo de
Processo, pelo qual o poder central, no
Rio de Janeiro, tinha o direito de
nomear os elementos da Guarda Nacional e
os juzes de paz; estes no mais seriam
eleitos pelos municpios, mas nomeados
pela Corte, e passariam a denominar-se
juzes municipais, subordinados ao
ministrio da Justia. As funes
policiais seriam atribuio dos chefes
de polcia (com delegados e
subdelegados), nomeados pela Corte em
comum acordo com os presidentes
provinciais.

Golpe da Maioridade, golpe na regncia

 Muitos debates seguiram-se no
legislativo at a aprovao, em 12 de
maio de 1840, da Lei de Interpretao.
Os progressistas ofereceram muita
resistncia para aprov-la, mas souberam
dar seu troco aos regressistas:
iniciaram um movimento pela antecipao
da maioridade de Dom Pedro de Alcntara,
que por lei s poderia ocupar o trono em
1844. O Clube da Maioridade, criado em
1840, sob a presidncia de um dos
principais lderes progressistas,
Antnio Carlos de Andrada e Silva,
trabalhou publicamente pela decretao
da maioridade de Dom Pedro. De incio, o
Partido Regressista se ops, porque
poderia perder o controle do governo
nomeasse um ministrio com
representantes do outro partido.

 Aps vrios acordos entre os dois
partidos, Dom Pedro de Alcntara foi
aclamado em 23 de julho de 1840, como
Dom Pedro II (1840 a 1889). Era o fim da
regncia e dos regressistas; o imperador
subiu ao trono pelas articulaes dos
progressistas, que foram convidados a
organizar o ministrio. Pelo chamado
Golpe da Maioridade, tomou posse
antecipada do trono brasileiro o jovem
Dom Pedro, com quinze anos incompletos.

Segundo Reinado com Dom Pedro II - 1840
a 1889

 Com o novo imperador no trono, os
partidos Progressista e Regressista
passaram  denominao de Liberal e
Conservador, respectivamente. No
entanto, no havia diferenas entre os
dois, porque ambos se propunham impedir
qualquer participao das camadas
populares nas decises polticas. Era
voz corrente entre a populao
brasileira que o Partido Liberal, ao
assumir o poder, entregava ao Partido
Conservador seu programa de oposio e
este passava ao Liberal seu programa de
governo.

 O primeiro governo da Maioridade foi do
Partido Liberal. Participavam do
ministrio os irmos Andrada (Antnio
Carlos e Martim Francisco) e os rmos
Cavalcanti (futuros viscondes de
Albuquerque e Suassuna); da o nome de
"Gabinete dos irmos". A partir do Golpe
da Maioridade, a aristocracia rural
passou a utilizar mtodos violentos para
permanecer no poder. Para controlar a
nao, o partido governante nomeava
presidentes de provncias, juizes e
chefes policias de sua confiana. Em
perodos de eleies, os polticos
armavam seus capangas para garantir,
pela fora, a vitria nas urnas. O
prprio governo fraudava os resultados,
reprimia grupos rebeldes e servia-se da
coao a seus eleitores para impor seus
candidatos ao legislativo.

 Assim, nas eleies para a Cmara dos
Deputados de 1 de outubro de 1840
(vencida pelos liberais), iniciou-se uma
prtica nova para fazer poltica, que
ficou conhecida como eleio do cacete,
isto , a conquista do voto pela
violncia, para garantir sempre
resultados favorveis ao partido que se
encontrava no poder.

 Embora tivesse vencido as eleies, o
"Gabinete dos Irmos" no permaneceu no
poder. Sua atuao - opondo-se aos
tratados livre-cambistas, impondo a
cobrana de altas tarifas para os
produtos importados e rejeitando as
restries ao trfico negreiro - foi
responsvel pela queda do gabinete
liberal sob presso da Inglaterra. Alm
disso, internamente, os liberais no
conseguiram reprimir os movimentos
populares. O imperador destituiu o
Partido Liberal e nomeou um ministrio
conservador. Por lei aprovada no
legislativo em novembro de 1841, os
conservadores restauraram o Conselho de
Estado (que fora extinto durante as
regncias) como instrumento para
legitimar o poder moderador, sempre que
Dom Pedro II o desejasse. O novo Cdigo
Criminal, tambm aprovado em novembro,
subordinava os juzes e os chefes
policiais ao imperador, destituindo a
autonomia das provncias.

 Contra essas medidas e a dissoluo da
Cmara dos Deputados, os liberais de So
Paulo e Minas Gerais organizaram, em
1842, os movimentos conhecidos como
revoltas liberais. Em So Paulo, o
movimento teve a liderana do brigadeiro
Tobias de Aguiar que, a partir de
Sorocaba, liderou as manifestaes
contra o governo. Em Minas Gerais, na
cidade de Barbacena, o deputado Tefdo
Otoni chefiou os rebeldes liberais.
Essas revoltas duraram pouco, sendo
neutralizadas pela atuao enrgica de
Lus Alves de Lima e Silva, futuro duque
de Caxias. Pouco tempo dep o imperador
concedeu anistia poltica aos
revoltosos.

 Embora os conservadores tivessem
controlado as revoltas liberais, o
imperador substituiu o gabinete em 1844,
levando ao poder o Partido Liberal. Essa
medida foi conseqncia da recusa dos
conservadores em conciliar-se com os
liberais, colocando em risco a harmonia
poltica das classes aristocrticas do
prprio Imprio. Outro motivo para a
substituio do gabinete foi a defesa
intransigente dos conservadores do
trfico negreiro, ameaando com isso as
relaes com a Inglaterra. O ministrio
liberal governou de 1844 a 1848. Em 1844
implantou a tarifa Alves Branco, que
elevou a arrecadao dos impostos graas
ao aumento das taxas alfandegrias sobre
as mercadorias estrangeiras. Sob a
alegao de que a moeda brasileira se
desvalorizava, os liberais implantaram
uma reforma eleitoral em 1846, elevando
a renda mnima e aumentando assim as
dificuldades para ser ele

No Brasil, um parlamentarismo s avessas

 A partir de 1847, o imperador criou a
presidncia do Conselho de Ministros,
implantando o parlamentarismo. Com esse
regime poltico pretendia-se diminuir os
atritos entre a aristocracia agrria
(representada pelos dois partidos
polticos) e o poder moderador, no qual
o imperador nomeava o presidente do
Conselho que, ento, montaria a equipe
de ministros. As possibilidades de
manobras polticas aumentaram para as
elites agrrias, que passaram a defender
seus interesses de maneira mais
eficiente.

 O fortalecimento do executivo no
governo de Dom Pedro II foi diferente do
de Dom Pedro I; no Segundo Reinado, o
poder moderador estava em harmonia com
os interesses dos partidos polticos,
que passaram a se revezar no poder. O
revezamento trazia a "estabilidade
poltica" necessria  monarquia, cujo
modelo poltico era a centralizao
administrativa do Imprio.para atender
aos proprietrios de terra e de
escravos. De um lado, o revezamento era
possvel porque os dois partidos se
assemelhavam. De outro, o revezamento
limitava, a nvel local, a autonomia dos
senhores rurais que, por isso,
precisavam sempre recorrer ao poder
central. Atravs da centralizao
poltica, o Imprio representava a
"ordem", que fora to ameaada nos
perodos de Dom Pedro I e das regncias.
O Imprio era a ordem porque garantia a
indispensvel tranqilidade para a
aristocracia rural exercer o poder em
seu benefcio.

IMPERADOR (poder moderador)

CONSELHO DE ESTADO (rgo consultivo)

SENADO (orgo consultivo)

PRIMEIRO MINISTRO (poder executivo)

CMARA DOS DEPUTADOS (poder Legislativo)

GABINETE DE MINISTROS (poder executivo)

ELEIOES (censitrias)

Conciliao: liberais unem-se a
conservadores

 O imperador nomeava um presidente
conservador ou liberal de acordo com a
conjuntura poltica. Por isso, Oliveira
Viana chegou a afirmar que "nada mais
conservador que um liberal no poder.
Nada mais liberal que um conservador na
oposio..: '

 O Partido Conservador esteve por mais
tempo na situao. Quando governou, de
1848 at 1853, promoveu a extino do
trfico negreiro, o impulso  imigrao
(principalmente europia), o envio de
trabalhadores assalariados para o campo
e a implantao de reformas financeiras.
Com a derrota dos movimentos liberais e
diante das crises econmicas provocadas
fundamentalmente pela transio do
trabalho escravo para o trabalho
assalariado, liberais e conservadores
uniram-se em 1853, formando o Gabinete
da conciliao, isto , um gabinete
ministerial composto pelos dois
partidos.

 Na realidade, a Conciliao foi uma
prtica poltica constante durante todo
o Imprio. Mas, a partir de 1853, essa
poltica adquire novos aspectos que se
estendem at a consolidao da Liga
Progressista.

 O jornalista Justiniano Jos da Rocha,
em um estudo publicado em 1855, denomina
esse perodo de "arrefecimento das
paixes".

 Nesse mesmo ano de 1853, o governo
imperial criou o segundo Banco do Brasil
iniciando uma srie de reformas
bancrias. Dentre essas reformas,
destacou-se o estabelecimento do
controle da emisso de dinheiro
exclusivamente pelo Banco do Brasil,
procurando assim restringir a circulao
de dinheiro e conter o processo
inflacionrio. O alto preo dos gneros
alimentcios e as dificuldades da
agricultura constituam o centro das
preocupaes das elites agrrias. As
restries ao trfico negreiro e a
poltica inglesa de forar a utilizao
de mo-de-obra assalariada atraves da
imigrao representaram o fator-chave d
crise econmica.

 Em 1858, uma grave crise financeira
desestruturou a conciliao e provocou a
subistituio do gabinete, sem romper
totalmente com a conciliao. Novas
crises seguiram-se no perodo de 1859 a
1868. Todas se relacionavam com a
permisso aos bancos privados de emitir
dinheiro, para fornecer emprstimos aos
setores industrial, agrcola e
comercial. Isso porque "o Banco do
Brasil foi acusado de possuir capacidade
limitada em multiplicar suas filiais,
inibindo o desenvolvimento economico e
financeiro daqueles setores". Novas
composies polticas apresentaram novas
conciliaes criando a Liga
Progressista, resultado da aliana de
grupos dssidentes entre os
conservadores e os liberais. Essa Liga
Progressista governou no perodo de 1862
a 1868.

O Brasil nos conflitos externos

 Paralelamente a essas crises internas,
o governo brasileiro envolveu-se, a
partir de 1850, em problemas externos,
gerados pela importncia da posio
geogrfica, econmica e poltica,
ocupada nas Amricas, sobretudo a do
Sul. As regies que hoje formam a
Argentina, Paraguai e Uruguai
constituam o Vice-Reino do Prata, que
no recebia muita ateno da Coroa
espanhola, mais interessada nas rotas da
prata (compreendendo as regies peruana
e mexicana) e no ouro das Antilhas. O
relativo desinteresse pelas regies do
Vice-Reino do Prata possibilitou a
expanso da colonizao portuguesa,
rompendo com o Tratado de Tordesilhas
(1494).

 A emancipao poltica do Vice-Reino do
Prata (incio do sculo XIX) fragmentou
a regio, originando trs pases:
Argentina, Uruguai e Paraguai. Os
comerciantes portenhos (de Buenos Aires)
procuravam reconstituir o Vice-Reino,
com o unitarismo. Contra esses
interesses colocavam-se as regies do
interior da Argentina, do Paraguai, do
Uruguai e do Brasil, que defendiam o
federalismo, com a manuteno da
autonomia poltica de cada um dos
pases.

 A oposio brasileira ao unitarismo
portenho coincidia com as posies
inglesas na regio do Prata. Para o
Brasil, o unitarismo representava a
possibilidade da formao de um grande
pas na Bacia do Rio da Prata, ameaando
a hegemonia brasileira.

 O porto de Buenos Aires monopolizava as
exportaes das mercadorias platinas
como o couro, a erva-mate e at pequenas
manufaturas paraguaias, como tambm o
couro uruguaio e das prprias regies
interioranas da Argentina. Isso explica
o interesse dos comerciantes portenhos
na defesa intransigente do unitarismo.
Para o Brasil, a luta se estabelecia em
dois nveis. Por um lado, tratava-se de
assegurar a fragmentao poltica, com a
manuteno de pequenos pases. Por outro
lado, interessava ao Brasil o equilbrio
entre Argentina, Paraguai e Uruguai,
porque o uso livre da bacia hidrogrfica
platina - formada pelos rios Uruguai,
Paraguai e Paran - garantia a ligao
das regies de Santa Catarina, Paran e
Mato Grosso ao litoral do Atlntico.

Apoio aos colorados, guerra aos blancos

 Desde o governo de Dom Joo VI, o
Brasil manteve uma poltica agressiva,
expansionista e intervencionista na
regio platina. A anexao da Cisplatina
e, posteriormente, a resistncia
promovida pelos uruguaios contra o
governo de Dom Pedro e na Guerra de
Independncia (1825 a 1828) aumentaram o
interesse do Brasil pela hegemonia na
regio. Desde a mdependncia, a
Repblica do Uruguai oscilava ora para o
Brasil, ora para a Argentina. Essa
atitude configurava-se nos dois partidos
uruguaios: os blancos, representantes
dos interesses pecuaristas das regies
interioranas, buscavam apoio na
Argentina, e os colorados, representados
pelos comerciantes de Montevidu
(capital), apoiavam-se no imprio do
Brasil.

 No perodo de 1828 a 1851, as
intervenes brasileiras no Uruguai
foram apenas de carter diplomtico, com
negociaes para manter livre a
navegao na Bacia do Prata. A partir de
1851, o Imprio passou a intervir com
foras militares. Tratava-se, agora, de
apoiar os estanceiros e charqueadores
gachos do Rio Grande do Sul que
competiam com os uruguaios e argentinos
nos produtos pecuaristas, para abastecer
a regio Centro-Sul do Brasil. A
interveno militar brasileira no
Uruguai se efetivou quando os gachos
denunciaram a invaso de suas terras
pelas tropas de Manuel Oribe, lder dos
blancos. O Brasil passou a apoiar com
soldados e armas o grupo de Frutuoso
Rivera, comandante dos colorados e rival
poltico de Oribe. Este foi finalmente
vencido em agosto de 1851.

Brasil contra Rosas

 Oribe era aliado do ditador argentino
Rosas, que implantara uma longa ditadura
na dcada de 1830, aps anos de lutas
entre federalistas e unitaristas. Rosas,
embora fosse federalista, promoveu a
centralizao poltica em Buenos Aires,
buscou intervir na poltica interna
uruguaia e procurou dominar a navegao
dos rios platinos controlando a passagem
pelo rio Paran com homens e armas.

 A poltica de Rosas contrariava os
interesses dos gachos brasileiros e do
governo imperial. O Brasil passou a
apoiar o general Urquiza, governador das
provncias interioranas argentinas de
Corrientes e Entre-Rios, aps a queda de
Oribe no Uruguai. Em novembro de 1851,
tropas brasileiras aliadas s do general
Urquiza iniciavam a luta contra Rosas,
derrubando-o do poder em fevereiro de
1852. O novo governo argentino de
Urquiza garantiu a livre navegao e,
dando nfase ao federalismo, aliou-se 
poltica brasileira.

 A queda de Oribe e Rosas no
estabilizou a agitada poltica uruguaia.
Os conflitos entre blancos e colorados
continuaram com o predomnio dos
blancos, que continuavam no poder. No
entanto, durante os conflitos ocorriam
violaes das fronteiras com o Brasil,
invases das estncias gachas, roubo de
gado e lutas dentro do territrio do Rio
Grande do Sul. Em 1864, os blancos,
atravs de Anastcio Aguirre, assumiram
o poder no Uruguai e, agora sem o apoio
de Rosas, uniram-se a Solano Lpez,
presidente paraguaio. Diante das
disputas no Uruguai e da aproximao dos
blancos ao Paraguai, a Argentina
aliou-se ao Brasil em apoio aos
colorados.

 No mesmo ano de 1864, o Brasil enviou a
Montevidu a Misso Saraiva (misso
diplomtica sob o comando do Conselheiro
do Imprio Jos Antnio Saraiva), com um
ultimato do imperador, atendendo s
presses gachas, no qual exigia
indenizao pelos prejuzos aos
estanceiros sulistas. Aguirre no
atendeu aos pedidos do imprio e as
relaes entre Brasil e Uruguai foram
rompidas. Negando-se a aceitar Solano
Lpez como mediador, o Brasil declarou
guerra a Aguirre, por terra e mar.
Cercado, Aguirre rendeu-se. Em 1865, o
colorado Venncio Flores assumiu a
presidncia uruguaia, realizou o
pagamento aos estanceiros gachos e fez
um acordo de no-violao das
fronteiras.

Guerra contra o Paraguai

 Durante o processo das lutas do Brasil
com o Uruguai, surgiram desentendimentos
com a repblica paraguaia, que
culminaram na guerra contra o Paraguai.
O Paraguai tornara-se independente da
Espanha desde 1811. A liderana de Jos
Gaspar Rodrigues de Francia no processo
de emancipao poltica foi decisiva.

 Tornando-se presidente em 1814, Francia
se autodeclarou supremo ditador (at
1840). Em sua administrao, Francia
efetivou a interveno do Estado na
economia, limitou o forte poder do clero
e isolou o pas de contatos
diplomticos, para asse gurar a
independncia paraguaia contra as
intenes portenhas de reconstruir o
Vice- Reino do Prata. Francia estimulou
o de senvolvimento de pequenas e mdias
propriedades de produo agrcola
voltadas para o consumo interno,
confiscou as terras de grandes
proprietrios e monopolizou para o
Estado o comrcio exterior.

 A poltica baseava-se, portanto, em
trs pontos principais: estatizao,
pequenas propriedades e ditadura. Esse
modelo, sem dvida, trouxe benefcios 
populao paraguaia, mas de forma
indireta, porque Francia se preocupava
principalmente em construir um Estado
forte. Em 1840, El supremo dictador foi
sucedido por Carlos Antonio Lpez, que
promoveu o desenvolvimento industrial,
pois o pas j contava com as bases de
uma slida produo agrcola. A renda
das exportaes de couro e erva-mate era
utilizada para a produo local. Carlos
Antonio Lpez construiu fundies,
enviou estudantes paraguaios para o
exterior e contratou tcnicos
estrangeiros para aperfeioar o setor
manufatureiro.

 Em 1862, Francisco Solano Lpez
substituiu o pai na presidncia. Na
administrao do jovem Solano Lpez
(ento com 36 anos), o Paraguai obteve
seu maior desenvolvimento. Solano Lpez
implantou um sistema de telgrafos,
construiu estradas de ferro, fbricas de
tecidos, de material de construo, de
tintas, de loua, de chapus, de
plvora, organizou a administrao das
fazendas e fortaleceu a siderurgia
nacional. Com uma poltica
protecionista, conseguiu fazer com que
as exportaes fossem o dobro das
importaes. Alm de tudo, montou um
bem-equipado exrcito nacional.

 No entanto, o Paraguai, uma nao
continental "prensada" entre a Argentina
e o Brasil, sem mar territorial, logo
sentiu as limitaes a seu
desenvolvimento. A partir de 1864,
Solano Lpez empreendeu uma poltica
continental no sentido de buscar uma
saida para o oceano Atlntico. Do lado
paraguaio, a independncia do Uruguai
permitia manter a livre navegao pelo
Prata, e a aliana com os blancos
uruguaios era a garantia da sada para o
mar. As tenses aumentavam nas
fronteiras entre Brasil e Paraguai. A
interveno armada do Imprio brasileiro
no Uruguai, consolidando a posse do
colorado Venncio Flores na presidncia,
deflagou a declarao de guerra. Solano
Lpez imediatamente invadiu Mato Grosso
e as provncias de Entre-Rios e
Cornentes (Argentina).

 O plano paraguaio tratava de assegurar,
atravs de Mato Grosso, o abastecimento
de gado para as tropas e a populao e
de manter as comunicaes de Corumb at
a Bolvia - que na poca ( 1864) possua
sada para o oceano Pacfico. Quanto as
provncias argentinas, o plano de
ocupao visava  passagem do exrcito
paraguaio em direo ao Uruguai para,
junto com os blancos e os gachos do Rio
Grande do Sul (simpatizantes do modelo
poltico republicano), bloquear
argentinos, brasileiros e uruguaios.
Porm a aliana com os gachos nunca se
realizou, e Lpez percebeu a avaliao
equivocada que fizera dos sulistas
brasileiros.

 A ofensiva contra o Paraguai firmou-se
atravs da associao do Brasil,
Argentina e Uruguai na Trplice Aliana,
em maio de 1865. Esse acordo entre os
trs pases tinha por formalidade:

- tirar do Paraguai o controle sobre
seus rios e responsabiliz-lo pelas
dvidas da querra; - garantir a queda de
Solano Lpez, para depois estabelecer
qualquer trgua; - dividir grandes
extenses territoriais do Paraguai entre
Brasil e Argentina.

 Nos primeiros tempos da luta, o preparo
e a rgida organizao militar dos
soldados paraguaios garantiram-lhes
vitrias sobre a Trplice Aliana. Em
1866, as batalhas de Passo da Ptria e
Tuiuti animaram os aliados. Em 1867, o
comando da Trplice Aliana no Paraguai
passou para o marqus de Caxias que,
rearticulando as tropas brasileiras e
aliadas, conseguiu conquistar Humait.
Seguiram-se as batalhas de Itoror,
Ava, Lomas Valentinas e Angustura,
desfavorveis para os paraguaios. Em
1869, os aliados invadiram Assuno (a
capital). Em 1870, o conde D'Eu, casado
com Dona Isabel, filha de Dom Pedro II,
empreendeu a Campanha da Cordilheira, na
qual eliminou os focos finais da
resistncia paraguaia, culminando com a
morte de Solano Lpez.

Conseqncias da guerra: crises e
decadncia

 Em 1872, Brasil e Paraguai assinaram um
acordo de paz, aps inmeras
divergncias entre os aliados sobre os
limites das fronteiras e a posse das
disputadas terras paraguaias. Depois da
guerra, o Paraguai desfigurou-se como
pas, ficando totalmente aniquilado ;
nunca mais se recuperou, at os dias
atuais. A Argentina consolidou sua
hegemonia sobre a Bacia do Rio da Prata.
O Uruguai transformou-se numa espcie de
"estado-tampo", isto , um pas
dividido entre o jogo de interesses
argentino-brasileiro.

 Para a Inglaterra, que esteve por trs
da guerra do Paraguai, vendendo armas e
realizando emprstimos aos pases em
conflito, era preciso destruir um
regime que promovia um desenvolvimento
autnomo, que em 1840 j havia
erradicado o analfabetismo, que se
fechava  penetrao de manufaturas
inglesas, desenvolvendo uma vasta
indstria artesanal (...) Diante de um
Brasil dominado por um Imprio
escravocrata e de uma Argentina dominada
por uma oligarquia de latifundirios e
mercadores, diante desses dois pases
subordinados ao imperialismo ingls, o
Paraguai constitua uma 'odiosa exceo;
principalmente para os interesses das
potncias capitalistas".

 Para o Brasil, a guerra resultou no
agravamento da situao scio-econmica
e poltica, pois aumentou a relao de
dependncia com a Inglaterra, provocada
pelo crecimento da dvida externa. Por
outro lado, o exrcito nacional, que era
insignificante no incio da guerra,
passou a ter fora poltica aps 1870.
Os oficiais do exrcito
                  membros das nascentes
classes mdias, organizaram uma
corporao capas de superar a Guarda
Nacional, brao armado da aristocracia
rural, de tornar a profisso de armas um
instrumento de ascenso social e de
presena poltica decisiva para
enfrentar o decadente Imprio.

 O Brasil ganhara a guerra, mas a
monarquia foi derrotada. As evidncias
apareceram mesmo antes do trmino do
conflito. Em 1868, o gabinete da Liga
Progrecista foi destitudo; um grupo de
liberais reagiu imediatamente, formando
o Partido Liberal Radical, e, na dcada
seguinte, criou o Partido Republicano.
Em seu jornal Opinio Liberal, os
liberais defendiam a descentralizao
poltica, o fim da Guarda Nacional e do
poder moderador, a realizao de
reformas eleitorais e, principalmente, a
extino do trabalho escravo. As
campanhas abolicionistas foram
episdicas processo de transformao do
trabalho escravo em trabalho
assalariado. A monarquia representava a
herana da estrutura escravocrata do
perodo colonial. A atuasso das classes
mdias urbanas, a luta internacional
contra o trfico negreiro ( a liderana
da Inglaterra), o assentamento do
trabalho livre em substituio ao
escravo minaram as bases do regime
monrquico no Brasil.

Igreja e militares: problemas internos

 Ao longo das dcadas de 1870 e 1880,
uma srie de acontecimentos abalou a
estrutura do Imprio. A criao do
Partido Republicano, em 1870, deflagrou
o incio de um processo poltico que
finalizou na proclamao da Repblica em
1889. Assim, fechada em seu
conservadorismo poltico e na manuteno
intransigente da escravido, a monarquia
isolou-se gradativamente, tanto a nvel
nacional como internacional. No nvel
internacional, as classes burguesas
industriais desejavam o fim da
escravido como meio de ampliar, pelo
trabalho assalariado, o consumo de suas
mercadorias. No nvel nacional, as
camadas mdias urbanas lutavam pela
abolio; fazendeiros, principalmente do
oeste paulista, desejavam o federalismo
(maior altonomia aos Estados); os
militares aspiravam  ascenso econmica
e ao prestgio social, influenciando as
decises polticas do pas, e at mesmo
a Igreja colocou-se contra sua submisso
ao Estado, atravs do padroado.

 A religio oficial do Brasil monrquico
era o catolicismo, e a Igreja
subordinava-se ao Estado atravs de duas
instituies: padroado e beneplcito.
Pelo padroado, tradio herdada de
Portugal, o imperador indicava os padres
para cargos importantes dentro da
Igreja; portanto, o clero era
considerado funcionrio pblico
                e ganhava salrio do
Estado brasileiro. Pelo beneplcito, o
papa escolhia os bispos, mas eles
deveriam ser aprovados pelo imperador.
At mesmo as bulas papais recebiam
ordens diretas do monarca para sua
aplicao.

 Em 1864, o papa Pio IX proibiu o
ingresso de fiis na maonaria ou em
qualquer sociedade secreta. Essa
determinao foi ignorada no Brasil,
onde um grande nmero de catlicos
(inclusive padres) pertencia 
maonaria. Em 1872, os bispos de Recife
(Dom Vital Maria e Dom Antnio Macedo)
fizeram cumprir a bula papal expulsando
os maons de irmandades religiosas. As
irmandades que resistiram  ordem foram
fechadas pelos bispos. Pressionado pelos
grupos manicos, Dom Pedro ii ordenou a
reabertura das instituies religiosas,
mas os bispos firmaram suas posies.
Diante da insubordinao, Dom Pedro II
moveu processo judicial contrtra os
bispos, condenando-os a quatro anos de
priso. Embora os bispos fossem em
seguida anistiados pelo imperador, a
Questo religiosa serviu para abalar as
relaes entre a monarquia e o
catolicismo no Brasil. Padres passaram a
condenar
                     o Imperador em seus
sermes.

 Alm dos desentendimentos entre a
Igreja e o Estado, o governo imperial
enfrentou o descontentamento do exrcito
em relao ao regime monrquico. Em 1882
o Imprio impediu qualquer discusso
pblica que envolvesse assuntos
militares. A origem disso foram as
crticas do tenente-coronel Sena
Madureira ao montepio
                     militar. No ano
seguinte, o mesmo Sena Madureira,
ferrenho defensor da abolio foi
afastado das funes militares por
prestar homenagem ao jangadeiro cearense
Francisco Nascimento, o "Drago do Mar",
que se recusou a transportar escravos.

 Outro incidente, em 1886, envolveu o
coronel Ernesto Augusto da Cunha Matos,
que denunciou publicamente o desvio de
material militar e foi punido com a
priso. Seguiu-se uma srie de protestos
dos setores militares contra as
punies, levando o imperador a
suspend-las. No entanto, esses
acontecimentos acabaram por afastar o
exrcito do Imprio. Esses episdios
ficaram conhecidos como Questo militar,
que se caracterizou por desavenas
polticas entre a monarquia e o
exrcito.

 Sem o apoio dos setores militares, da
Igreja, das camadas mdias urbanas e dos
latifundirios, principalmente os
cafeicultores paulistas, a monarquia
enfraqueceu-se e tornou-se inadequada no
quadro das mudanas econmicas,
polticas e sociais. As questes
religiosa e militar eram apenas
evidncias conjunturais da decadncia do
regime monrquico. As campanhas
abolicionistas foram o sintoma de uma
crise estrutural profunda, na qual a
transformao do trabalho escravo em
trabalho assalariado introduzia o Brasil
nas relaes do capitalismo industrial.

 O desgaste do centralismo monrquico,
defensor da aristocracia escravagista,
no correspondia aos interesses dos
novos grupos sociais em ascenso: a
burguesia urbana e a cafeeira. Esses
grupos exigiam mais participao nas
decises do Estado brasileiro. Assim,
delineavam-se as bases para a formao
de uma nova ordem poltica, sem grandes
traumas para a sociedade brasileira. A
repblica representou a substituio de
um modelo poltico identificado com a
estrutura colonial escravagista. A
organizao republicana foi a
explicitao das alteraes sociais
operadas, gradativamente, desde a
segunda metade do sculo XIX.



 A sociedade colonial brasileira foi
latifundiria, concentradora de renda,
aristocrtica, patriarcal e
escravocrata, principalmente nas regies
produtoras do acar. O advento da
minerao deslocou o plo econmico do
Nordeste para o Centro-Sul. A
organizao social, proveniente de uma
economia mineradora mais dinmica que a
aucareira, permitiu o surgimento de uma
camada mdia ligada, sobretudo, aos
setores de servios (artesos, artistas,
tropeiros, pequenos comerciantes e
pequenos mineradores). Enquanto na
representao social dos inconfidentes
mineiros predominavam as classes
aristocrticas (com exceo de
Tiradentes, que era apenas alferes da
cavalaria), ascenso econmica do
Centro-Sul, na inconfidncia baiana
predominaram as camadas populares
(mulatos, negros, brancos empobrecidos),
refletindo a decadncia do Nordeste.
Embora a regio das Minas Gerais
apresentasse grupos sociais mdios, a
sociedade brasileira entre o final do
sculo XVIII e a segunda metade do
sculo XIX continuava a ter em geral
pequena mobilidade.

 A transferncia da familia real
portuguesa para o Brasil, em 1808,
consolidou a tendncia ao imobilismo
social. O fato de ter aparecido um grupo
burocrtico ligado  organizao do
Estado portugus no significou um
alargamento social. Por isso, a luta
pela independncia no se configurava
como uma disputa entre as camadas
superiores e inferiores, mas como uma
luta poltica em defesa de interesses
especficos entre a aristocracia rural
brasileira, desejosa da emancipao
poltica, e a burguesia mercantil
portuguesa, mantenedora do colonialismo.
Por essa razo, a independncia
brasileira no foi um movimento
nativista ou nacionalista, nem se
constituiu num conflito entre
nacionalidades (brasileiros contra
portugueses). Tratava-se, para os
proprietrios de terra e de escravos, da
ruptura do pacto colonial, da livre
comercializao dos gneros agrrios
tropicais sem o intermedirio metro-
politano.

 A independncia no rompeu com a
estrutura colonial; pelo contrrio, a
elite agrria perpetuou a escravido e a
manteve a todo custo. Por isso, a
aristocracia rural aliou-se a Dom Pedro
I para emancipar politicamente o Brasil
de Portugal. No entanto, os excessos
polticos do imperador descontentaram os
proprietrios de terras e de escravos
que, a partir de 1824, com a outorga da
Constituio, mobilizaram a populao
brasileira contra o absolutismo de Dom
Pedro I.

 Essa mobilizao teve amplas
repercusses. De um lado, a participao
da sociedade, protestando contra a crise
econmica e financeira, provocou a
abdicao do imperador. De outro, a
populao passou a exigir reformas
sociais para melhorar suas precrias
condies de subsistncia. Para as
elites, a mobilizao popular tinha a
finalidade de "expulsar" a poltica
absolutista de Dom Pedro I sem, no
entanto, alterar o modelo agrrio
exportador.

Movimentos sociais agitam o pas

 Foi dentro desse contexto de crise
econmica (nenhum produto agrcola
conseguiu ser sustentculo do Imprio;
s o caf, a partir de 1840) e poltica
(ausncia de um monarca, pois Dom Pedro
I transferiu-se para Portugal e seu
herdeiro, Dom Pedro de Alcntara, tinha
seis anos em 1831) que foram deflagradas
as revoltas regenciais de 1831 a 1840:
Cabanagem (Par), Farroupilha (Rio
Grande do Sul), Balaiada  (Maranho) e
Sabinada (Bahia).

 Setembrada (1831)

Revolta dos Mals (1835)

Sabinada (1837)

Novembrada (1831)

Abrilada (1832)

Cabanagem (1835-1840)

Balaiada (1838-1841)

Carneiradas (1834-1835)

Guerra dos Farrapos (1835-1845)

 Cabanagem: revolta popular Desde o
perodo colonial, o Par mantinha pouco
contato com as outras provncias. As
elites agrrias empreenderam um enorme
esforo de mobilizao popular para
manter o rompimento poltico com a
ex-metrpole lusitana. Nas manifestaes
antiportuguesas, o cnego Batista Campos
firmou-se como liderana de grande
penetrao junto s camadas pobres,
habitantes de choupanas  beira do rio,
os cabanos. Para garantir a participao
do Par no movimento emancipacionista do
Centro-Sul, o Imprio enviou tropas sob
o comando do mercenrio ingls Grenfell,
mas a adeso do Par demorou quase um
ano.

 Para as classes populares, que tiveram
participao decisiva no processo, a
emancipao no representou nenhuma
transformao de suas condies sociais.
Seus lderes,  Batista Campos e Malcher,
no foram convocados para o governo
provisrio. Esse fato estimulou novas
agitaes, reivindicando a presena dos
representantes populares; a resposta
imperial foi uma violenta represso,
rendendo, inclusive,  Batista Campos e
fuzilando muitos revoltosos.

 Novos movimentos de rebeldia eclodiram
aps a abdicao de Dom Pedro, na mar
de instabilidade poltica provocada
pelas regncias. Em 1833, a regncia
nomeou Lobo de Sousa para a presidncia
da provncia. Depois de muita
resistncia, ele conseguiu assumir pela
fora das armas. A politica repressiva
de Lobo de Sousa acirrou as lutas, dando
origem  rebelio dos cabanos
(1833-1836). Os irmos Vinagre, Edmundo
Angelim (seringueiro), Clemente Malcher,
o jornalista Vicente Lavor e Batista
Campos foram as lideranas do movimento
que, aps agitao pelo interior,
conseguiu ocupar Belm (capital da
provncia) em 1835.

 Malcher, "primeiro presidente cabano",
declarou-se fiel  regncia. Sua
administrao conservadora, no entanto,
no atendia s reivindicaes populares
e, ao tentar reprimir os revoltosos mais
radicais, acabou deposto e executado. O
"segundo presidente cabano", Francisco
Vinagre, no resolveu as divergncias
entre os cabanos. Vinagre tentou um
acordo com o mercenrio ingls enviado
pela regncia para pacificar a
provncia, almirante Taylor, mas este
derrotou os cabanos, que se retiraram
para o interior. Os cabanos se
reorganizaram em meio  populao rural
e conseguiram retomar Belm. No entanto,
em 1836, os cabanos foram derrotados em
Belm; resistem por mais trs anos no
interior e, fimalmente, em 1839, as
tropas regenciais controlam o movimento
e submetem o Par.

 Ao comentar a derrota dos cabanos, Caio
Prado Jr. avalia o movimento: "estava
assim terminada a sublevao dos
cabanos.  ela um dos mais, seno o mais
notvel movimento popular do Brasil.  o
nico em que as camadas inferiores da
populao consequem ocupar o poder de
toda uma provncia com certa
estabilidade. Apesar de sua
desorientao, apesar da falta de
continuidade que o caracteriza, fica-lhe
contudo a glria de ter sido a primeira
insurreio popular que passou de
simples agitao para uma tomada efetiva
do poder ".

Guerra dos Farrapos, tambm conhecida
como Revolta Farroupilha (1835-1845)
ocorreu no Rio Grande do Sul, como
reflexo de uma economia voltada para o
mercado interno e em constante crise
econmica. Foi somente a partir do
sculo XVIII, com o desenvolvimento das
charqueadas, que a regio sulista se
integrou  economia colonial. Desde essa
poca a produo do couro, do charque e
do gado destinava-se s regies da
agromanufatura exportadora. 
aristocracia rural interessava manter
preos baixos para aqueles produtos,
especialmente o charque, pois
constituam a alimentao bsica de seus
scravos. Assim, a poltica
governamental fundamentava-se na
sobrecarga de impostos aos estanceiros
gachos, importando se fosse preciso das
regies platinas, para impedir que os
pecuaristas rio-grandenses impusessem
seus preos.

 Os estanceiros gachos reivindicavam o
protecionismo a suas atividades
pecuaristas em relao aos pases
platinos e a diminuio dos preos dos
produtos envolvidos no preparo do
charque (o sal, por exemplo). Os
produtos sulinos encareciam tambm
porque o trabalho escravo, com baixa
produtividade, aumentava os custos de
produo. Enquanto isso, uruguaios e
argentinos empregavam mo-de-obra
assalariada e uma diviso de trabalho
capaz de aumentar a produtividade.
Diante da negao de reformas na
poltica tarifria e do centralismo do
governo regencial, que nomeava
diretamente os presidentes da provncia
e os funcionrios locais, os fazendeiros
gachos, apoiados pelos pequenos
produtores e pela massa de homens
assalariados e empobrecidos, deflagaram
a Guerra dos Farrapos, em 1835. No ano
seguinte, os Farrapos proclamaram a
Repblica Rio-Grandense ou Repblica de
Piratini.

 Seguiram-se anos de lutas. O governo de
Dom Pedro II anistiou os revoltosos em
1840. O pacifismo oficial no ecoou
entre os Farrapos, que continuaram a
luta. Em 1842, o baro de Caxias,
nomeado para conter o conflito, isolou o
Rio Grande, cortando as vias de
comunicao com o Uruguai. A negociao
com os rebeldes, em 1845, encerrou o
conflito. As concesses do governo
mostraram a fora do movimento. Os
revoltosos conseguiram anistia geral,
incorporao dos soldados e oficiais do
exrcito imperial em igual posto, com
exceo do cargo de general, e devoluo
das terras apreendidas.

 Sabinada e Balaiada. Tambm no Nordeste
eclodiram duas revoltas no perodo
regencial: a Sabinada e a Balaiada. Sob
o comando do mdico Francisco Sabino
lvares da Rocha Vieira, a Sabinada
(1837-1838) foi um movimento separatista
e republicano organizado na Bahia. Essa
rebelio caracterizou-se p mdias, que
contou com apoio militar das tropas
federais estacionadas em Salvador,
lutando para obter a autonomia da
provncia. No houve a mobilizao das
camadas populares, nem o apoio da
aristocracia agrria local. A Repblica
Baiana foi proclamada em novembro de
1837, com a inteno de durar at a
maioridade de Dom Pedro, mas durou
apenas alguns meses. A represso aos
revoltosos pelas tropas do governo
central foi violenta. Em. maro de 1838
a provncia reintegrou-se ao pas.

 A Balaiada (1838-1841) eclodiu no
Maranho, sob a liderana do vaqueiro
Raimundo Gomes, o fazedor de balaios
Francisco dos Anjos (originando-se da o
nome da revolta) e o negro Cosme, lder
dos escravos fugitivos da provncia.
Esse movimento foi decorrncia de
sucessivas rebelies que ocorreram em
todo o Maranho e at na provncia do
Piau, entre 1831 e 1841, em
consequncia da crise econmica
provocada pela decadncia do algodo.

 A ampla participao das camadas
populares impediu que os proprietrios
agrrios, divididos em dois grupos - os
bem-te-vis (liberais) e os cabanos
(conservadores) - utilizassem a massa
popular como instrumento para atingirem
seus objetivos de autonomia da
provncia. Seguiu-se enorme represso ao
movimento, sob o comando do coronel Lus
Alves de Lima e Silva, que conseguiu
derrotar os balaios em 1840, com a ajuda
da aristocracia local.

 Praieira. Entre as manifestaes
liberais iniciadas com a independncia,
destacou-se a Insurreio Praieira, em
Pernambuco, que eclodiu como conflito
armado em 1848. Em Pernambuco, as terras
se concentravam nas mos de poucas
familias latifundirias, fazendo com que
a populao dependesse direta ou
indiretamente dos interesses
particulres dos proprietrios
escravocratas. Enquanto isso, o comrcio
era monopolizado pelos portugueses,
dificultando o mercado de trabalho para
os brasileiros e tornando ainda mais
precrias as condies de subsistncia
das camadas mais pobres.

 Em 1843, os conflitos sociais cresceram
entre latifundirios e comerciantes
portugueses; de um lado, e os pequenos
comerciantes brasileiros e as camadas
urbanas mdias, de outro. Os praieiros -
assim chamados porque seu jornal, Dirio
Novo , localizava-se na rua da Praia, em
Recife - formavam o Partido da Praia,
que se compunha de grupos radicais
(intelectuais e camadas mdias) em
oposio tanto aos liberais quanto aos
conservadores que se alternavam no
poder, sempre representando os
latifundirios e os comerciantes.

 Em novembro de 1848, os praieiros
encetaram a luta armada, sob a liderana
de Pedro Ivo Veloso da Silveira; o
movimento estendeu-se por toda a
provncia. O programa poltico dos
praieiros compreendia o voto livre,
plena liberdade de pensamento, garantia
ao trabalho, independncia dos poderes e
a extino do poder moderador, entre
outros princpios liberais e
republicanos. Esses pontos coincidiam
aspectos, com os objetivos dos
socialistas franceses, embora no
inclussem a defesa do escravo.

 A represso das tropas governamentais
venceu os rebeldes em 1850, prendendo
Pedro Ivo e outras lideranas. A derrota
dos praieiros representou o fim dos
liberais radicais, que desde a poca da
independncia haviam lutado para
implantar a repblica no Brasil. Esses
movimentos estenderam-se por todo o
perodo e foram controlados no governo
de Dom Pedro II. Ocorreram num perodo
de consolidao do Estado nacional
brasileiro e serviram como instrumento
para a ruptura da poltica colonialista,
permitindo, em todo o pas, o confronto
dos interesses entre os setores da
aristocracia rural. Nesse confronto, as
camadas populares foram frequentemente
manipuladas pelos proprietrios, que
buscavam resolver suas disputas pelo
poder Noentanto, ao contrrio dos
desejos dos latifundirios, as massas
populares reivindicavam, tambm,
melhoria de suas condies de
sobrevivncia, utilizando-se de amplos
recursos para isso. A reao da
aristocracia s reivindicaes populares
foi sempre a mesma: represso violenta,
mortes, prises e torturas.

Confronto com o imperialismo britnico

 As intervenes na Amrica do Sul
revelaram o carter imperialista do
Brasil em relao aos pases vizinhos;
atravs de aes militares, o governo
brasileiro buscava garantir seus
interesses comerciais na regio platina.
Tambm imperialista era a postura da
Inglaterra, que de todas as maneiras
reafirmava sua hegemonia no territrio
brasileiro. Um incidente diplomtico
ocorrido no Segundo Reinado revela a
extenso do imperialismo britnico. Em
1861, o navio ingls Prince of Wales
naufragou no Rio Grande do Sul. Logo
aps ter sido recuperada, numa praia
deserta, a carga foi roubada, e isso
gerou protestos do embaixador i
Christie. Diante da impossibilidade de
identificar os culpados, ou de recuperar
a carga, o embaixador Christie exigiu o
pagamento de uma indenizao pelos
prejuzos.

 Um segundo incidente ocorreu em 1862,
no Rio de Janeiro. Marinheiros ingleses,
bbados e sem fardas, foram detidos por
desordens feitas nas ruas cariocas; aps
identificao policial, os marinheiros
foram soltos. Mesmo assim, Christie
protestou junto ao governo brasileiro,
afirmando que se tratava de uma grave
ofensa  Marinha Britnica, e exigiu a
punio dos responsveis. Diante do no
atendimento a seus pedidos, Christie
decidiu determinar a apreenso de cinco
navios mercantes brasileiros, na baa de
Guanabara. Os protestos da populao
carioca diante das atitudes do
embaixador, obrigaram o governo imperial
a romper relaes diplomticas com a
Inglaterra.

 S aps vrias negociaes, o Brasil
pagou pela carga roubada, e a Inglaterra
pediu desculpas oficiais pelos abusos do
embaixador Christie. Em 1865, Brasil e
Inglaterra reataram as relaes
diplomticas. A chamada Questo Christie
marcou um momento de afirmao do Brasil
como nao soberana e demonstrou a
importncia do pas no jogo imperialista
da Gr-Bretanha. A soluo diplomtica
valorizou a nao brasileira, sem
impedir que os britnicos continuassem a
emprestar libras para o governo de Dom
Pedro II, durante os trs anos
(1862-1865) de ruptura das relaes.

Imprio: do trabalho escravo ao
assalariado

 As agitaes que se seguiram 
independncia se prolongaram pelo
Segundo Reinado. Embora com menos
intensidade, tiveram como uma das causas
estruturais o trabalho escravo. A
escravido constitua o limite do
desenvolvimento do mercado interno e do
consumo de manufaturas internacionais.
Contra essa situao, a Inglaterra
decidiu abolir o trfico negreiro. O
tratado de 1831 formalizou o fim do
trfico negreiro, mas este, ao invs de
ser extinto, continuou a aumentar.
Assim, em 1845, o Parlamento ingls
aprovou a lei Aberdeen, lei que conferia
 Marinha Britnica o direito de apresar
qualquer navio negreiro, sendo os
traficantes obrigados a responder
processo.

 A represso ao trfico chegou mesmo 
apreenso de navios em mar territorial
brasileiro. Em maro de 1850, o governo
ingls pressionou o Imprio brasileiro,
ameaando declarar guerra se o Brasil
no cumprisse os tratados. Dessa forma,
a lei Eusbio de Queiros, de 4 de
setembro de 1850, colocou fim ao trfico
negreiro. E a economia do imprio mudou
de rumo: os capitais antes empregados na
compra de escravos passou a especular as
atividades comerciais, financeiras e
industriais. Ao mesmo tempo,
incentivava-se a luta pela abolio do
trabalho escravo.

 Paralelamente s presses inglesas
contra a escravido, o Imprio buscava
alternativas para o problema da
mo-de-obra no Brasil. Nicolau
Vergueiro, fazendeiro do interior de So
Paulo, iniciou a utilizao do trabalho
assalariado com a vinda, em 1817, de
imigrantes europeus para suas fazendas.
O esquema adotado era o de parceria, que
rapidamente foi utilizado por outros
fazendeiros de So Paulo: o contrato
entre fazendeiro e imigrantes
estabelecia que as despesas de viagem e
transporte at a fazenda, bem como a
manuteno e instalao da familia
imigrante, corriam por conta dos
proprietrios de terras. Tais despesas
eram consideradas como uma espcie de
adiantamento e, quando o colono
comeasse a produo, iniciaria o
pagamento ao proprietrio com 6% de
juros ao ano.  Cabia ainda a cada
familia um certo nmero de ps de caf
para o cultivo, colheita e secagem. Alm
disso, os imigrantes teriam um pedao de
terra para produzir gneros para sua
prpria subsistncia. O fazendeiro, ao
vender a produo cafeeira, dividia a
renda lquida com o colono. Este tambm
se comprometia a di fazendeiro a metade
do dinheiro obtido na venda de seus
produtos da roa.

 Os resultados foram modestos, e o
sistema fracassou porque o fazendeiro,
acostumado com a escravatura, tratava o
colono como escravo. Alm disso, os
colonos acusavam os latifundirios de
destinar-lhes os piores terrenos para o
cultivo do caf, de no avaliar os pesos
e medidas da produo cafeeira, da falta
de moradias adequadas (os colonos
instalavam-se em casas sem forros,
chegando at a habitar antigas
senzalas). Os colonos tambm discordavam
da entrega do fazendeiro de metade da
produo da roa, cultivada para a
prpria subsistncia, e consideravam
desonesta a cobrana de juros, que se
convertia em mais uma maneira de manter
o colono preso  fazenda.

 Em funo da extino do trfico, dos
problemas enfrentados com a parceria e
da necessidade de mo-de-obra, os
fazendeiros do Sul comearam a comprar
escravos das regies Norte e Nordeste.
Mesmo assim, a escassez de escravos
continuava a estimular a imigrao. A
partir de 1871, a imigrao crescente e
a mo-de-obra de imigrantes foi se
tornando majoritria em relao 
escrava. Dentro desse contexto, as
campanhas abolicionistas tambm
exerceram presses contra a escravido.
Assim, a transio do trabalho escravo
para o trabalho assalariado configurava-
irreversivel no processo abolicionista.

 A lei do Ventre Livre, de 1871, que
libertou os negros nascidos a partir
desse ano , enquadrou-se no processo de
transio como decorrncia das lutas
abolicionistas e do crescimento da
imigrao. Tratava-se, no entanto, de
uma vitria parcial, pois a me
continuava a ser escrava, mas a rigor
deixava de contar com o senhor para
sustentar o filho "livre". Em 1885, a
lei Saraiva-Cotegipe ou lei dos
Sexagenrios (o negro deixava de ser
escravo ao completar sessenta anos)
representou uma nova concesso aos
antiescravocratas, embora tenha sido na
prtica uma arma de dois gumes. O
ex-escravo de sessenta anos dificilmente
conseguiria inserir-se num-mercado de
trabalho assalariado. Diante de tantas
contradies no prprio sistema
escravocrata, das inmeras tentativas d
fuga e da recusa do exrcito em caar
negros foragidos, da luta dos
abolicionistas e das presses da
Inglaterra, no havia mais como
sustentar a continuao do trabalho
escravo. Na ausncia de seu pai Dom
Pedro II que estava em viagem, a
princesa Isabel assinou em 13 de maio de
1888 a lei urea que declarava extinta a
escravido no Brasil.

 "O advento do trabalho livre, no
entanto, separou a pessoa do trabalhador
de sua capacidade de trabalho, de sua
fora de trabalho (...) A sujeio da
pessoa foi substituda pela sujeio do
trabalho ao capital."

 Com a abolio da escravatura e a
consolidao do trabalho assalariado,
uma nova estrutura social foi se
delineando no final do sculo XIX. O
crescimento das cidades, a
industrializao em curso, a aplicao
de novas tecnologias e novos sistemas de
trabalho no campo trouxeram a emergncia
de um proletariado urbano e rural , de
uma burguesia ligada aos setores
industriais, alm da manuteno das
oligarquias fundirias e de um lento
processo de integrao dos negros como
trabalhadores livres, isto , ligados ao
capital.

Uma cultura urbana calcada em modelos
europeus

 A vida cultural no final do sculo
XVIII era predominantemente influenciada
pelas idias da ilustrao europia. As
academias (lugares de reunio de
literatos e cientistas) brasileiras
refletiam a literatura, arte e cultura
de Portugal e da Frana. O estilo
arcaico ou neoclssico do "Sculo das
Luzes", na Frana, tinha grande
repercusso entre a elite ilustrada
brasileira; seus poemas lembravam terras
pastoris e a ideologia burguesa
transparecia em seus escrtos e ideais
de libertao da metrpole portuguesa.

 Os inconfidentes mineiros encararam de
forma exemplar o Dirio do Sculo das
Luzes, com criticas ao sistema colonial
inspiradas nos movimentos
revolucionrios franceses. O Romantismo,
com o Brasil j independente,  que
produzir uma literatura mais ligada s
camadas mdias, esboando um carter
acentuadamente nacionalista e
manifestando a preocupao com as
condies sociais da populao
brasileira.

 No periodo de Dom Joo VI, a
preocupao oficial era a abertura para
o exterior A criao da Biblioteca Real
e do Museu Nacional pretendia preservar
a memria a tradio portuguesa e
legitimar o poder da Corte no Brasil. A
fundao da Academia Militar e da
Academia da Marinha objetivaram a
formao de quadros militares. A criao
da Escola de Comrcio e da Escola Real
de Cincias, Artes e Ofcios visava 
melhoria da qualidade de mo-de-obra no
Brasil. O desenvolvimento da imprensa
tinha por finalidade a divulgao dos
valores oficiais, o que se fazia, sob
proteo do Estado lusitano, em duas
publicaes: a Gazeta do Rio de Janeiro
(1808-1822) e A Idade de Ouro no Brasil
(1811-1823). Esta ltima era editada na
Bahia, sob a orientao do governador
local. Uma exceo nesse perodo
(1808-1822) foi o Correio Braziliense,
de Hiplito da Costa, com edies quase
mensais. Hiplito imprinia o Correio em
Londres, de onde atacava violentamente a
poltica joanina. Suas crticas
refletiam as aspiraes da aristocracia
rural brasileira, com objetivos
emancipacionistas.

 Na poca da emancipao brasileira
(1822), a Europa vivia o clima do
Romantismo. As idias da Revoluo
Francesa desenvolveram, no plano
esttico, um movimento de amplas
repercusses com a negao  rigidez dos
modelos clssicos e incentivando os
ideais de liberdade, igualdade e
fraternidade. Era uma poca de
transio, que criticava os valores
aristocrticos, mas ainda no assumia
claramente os valores da sociedade
burguesa em ascenso.

 No Brasil, a esttica romntica esteve
ligada  construo dos ideais
nacionalistas. Os poetas, prosadores e
literatos em geral buscavam nas razes
brasileiras o iderio nacional. O ndio
foi fundamental para legitimar a
nacionalidade; o Indianismo enalteceu as
qualidades idealizadas e a pureza dos
primeiros habitantes do Brasil. Jos de
Alencar, Gonalves Dias, Castro Alves,
lvares de Azevedo foram os principais
expoentes dessa fase.

 O perodo compreendido entre a
proclamao da independncia (1822) e a
guerra do Paraguai( 1870) foi marcado
pelo aparecimento de temas nacionais no
teatro e na fico em prosa. As comdias
de Martins Pena e Frana Jnior tratavam
dos costumes da poca. A fico em prosa
contou com o romance de folhetim, no
qual se destacou Manuel Antnio de
Almeida. Foi Jos de Alencar, contudo,
quem desenvolveu de forma mais elaborada
o ideal romntico, nos romances Iracema
e Guarani.

 Outras atividades artsticas e
intelectuais tiveram pouca expresso. Os
pintores, em sua maioria, eram
estrangeiros. Entre os brasileiros,
destacaram-se Pedro Amrico e Vtor
Meireles, que retratavam principalmente
cenas histricas. "Na msica, a fonte
inspiradora foi a Itlia com suas
peras. Carlos Gomes comps O Guarani,
baseado na obra de Alencar e inspirado
nas peras italianas. No Rio de Janeiro,
capital intelectual e artstica,
companhias estrangeiras encenavam peas
teatrais, geralmente em francs.

 Somente a partir das ltimas dcadas do
sculo XIX, os conflitos sociais,
polticos e econmicos apareceram nos
livros. Na Europa, comea a impor-se uma
nova tendncia literria: o Realismo.
Artistas plsticos, msicos, poetas,
romancistas e teatrlogos tentavam
libertar-se dos excessos romnticos,
inaugurando uma esttica mais adequada
ao desenvolvimento industrial.

 No Brasil, de 1880 at o final do
sculo, a produo literria foi marcada
pelas obras de fico de Machado de
Assis. O contedo de suas obras refletia
de maneira irnica, sutil, com palavras
precisas, os valores, as contradies,
as angstias da poca. Na poesia,
cultuava-se a forma pura, as rimas
ricas, sonetos eloquentes, originando o
Parnasianismo. "




 No livro II, procuramos destacar a
configurao do capitalismo atravs de
duas revolues: a Industrial (que
permitiu a grande acumulao de capitais
por meio da produo de mercadorias em
srie) e a Francesa (que trouxe o poder
poltico para as mos dos burgueses,
proprietrios de indstrias e
estabelecimentos de comrcio).

 Embora as bases cientficas e
tecnolgicas do capitalismo tenham se
desenvolvido na Inglaterra, na Frana se
estabeleceram as bases polticas e
ideolgicas da burguesia.


Panorama da economia mundial

Capitalismo liberal

 O capitalismo se desenvolveu com um
carter internacionalista. Desde o final
do sculo XVIII (1780) at fims do
sculo XIX (1870), o desenvolvimento
econmico se baseou num capitalismo
industrial liberal de
livre-concorrncia: a competio entre
as empresas promovia os ajustes entre
produtores e consumidores, garantindo
melhorias na qualidade da produo a
preos mais baixos.

 Como a livre competio passou a ser um
instrumento de auto-regulao natural
pelo processo produtivo, no havia mais
necessidade de interveno do Estado na
economia, como ocorrera no
mercantilismo. O lema dessa fase do
capitalismo era: (deixar "fazer", deixar
passar). O mercado possuiria leis
prprias que harmonizassem a oferta e a
procura de mercadorias.

 Na economia liberal, o papel do Estado
consistia apenas em dar condies para a
expanso dos lucros: a nvel interno,
atravs do controle das camadas
proletrias; a nvel externo, por meio
da garantia das conquistas de mercados
consumidores internacionais.

 De 1780 a 1830,  possvel identificar
a era da industrializao baseada na
produo txtil de consumo interno e
externo. Os anos de 1830 a 1850
constituram a era das ferrovias e da
fabricao de grandes mquinas atravs
do uso de ferro fundido em fornos a
carvo. J o perodo de 1850 a 1870
marca a era da produo em grande escala
e da reduo dos custos por unidade
produzida. O empresrio possuidor de
grandes capitais comea a engolir os
capitalistas de fundo de quintal.

 crescimento capitalista

 A partir de 1870, o livre comrcio
comeou a ser superado. O capitalismo
passou ento a basear-se nas tarifas
protecionistas:  a era dos trustes,
cartis e holdings, que se caracterizou
pela concentrao do capital e pela
substituio da concorrncia pelo
monoplio.

 O monoplio capitalista fez surgir o
imperialismo, pois tornou-se essencial
obter matrias-primas baratas de regies
pobres dominadas pelas potncias
europias.

 Se o colonialismo europeu dos sculos
XV a XVIII caracterizou-se pela
aquisio de metais preciosos, gneros
agrcolas tropicais e exportaes de
mercadorias das metrpoles do Velho
Continente para suas colnias, o
colonialismo do sculo XIX baseou-se na
busca de ferro, carvo, petrleo e
alimentos. Esse sistema abrangeu a
frica, a sia e a Amrica, onde se
aplicavam os capitais excedentes da
Europa.

 No sculo XIX, a maior potncia dessa
nova fase colonialista passou a ser a
Inglaterra, que dispunha de grandes
capitais excedentes por ter sido bero
da Revoluo Industrial. Com isso a
Inglaterra passou a dominar grande parte
da sia (ndia, Paquisto etc.),
estendendo seu imprio tambm  frica
(frica do Sul, por exemplo) e  Amrica
(ilhas Falklands etc.).

 O imperialismo resultante dessa nova
fase do colonialismo se desenvolveu a
partir dos seguintes estgios:

- "vrios paises capitalistas adiantados
lutam em condies de igualdade pelo
mercado mundial dos produtos
industriais;

- os grandes capitais formam monoplios;

- a exportao de capital torna-se a
caracteristica mais destacada das
relaes econmicas mundiais.

 Esse processo produtivo gerou duas
conseqncias principais:

- "grande rivalidade no mercado mundial,
que levou a uma intensa competio e aos
monoplios internacionais;

- diviso territorial do mundo entre as
principais potncias capitalistas;

Nacionalismo e militarismo

 O militarismo e o nacionalismo
contriburam para a ascenso das classes
burguesas na formao da sociedade
capitalista. Enquanto o nacionalismo
fornecia  suporte  ideolgico para a
derrubada dos resqucios do feudalismo,
o militarismo garantia a estruturao do
capitalismo na Europa pela fora das
armas, ao mesmo tempo que assegurava
contingentes de controle das colnias
exploradas pelas potncias capitalistas.

Estados Unidos: a poltica do porrete

 As potncias europias disputavam
territrios da frica, da sia e da
Amrica, que se tornaram ao mesmo tempo
fornecedores mundiais de matrias-primas
essenciais e promissores mercados para
os produtos industrializados europeus.

 No final do sculo XIX, agravando esse
quadro de disputa e tenso, os Estados
Unidos da Amrica tambm comearam a
emergir como potncia imperialista. O
prprio governo norte-americano adotou
na poca uma poltica chamada big stick
(grande porrete). Seguindo essa
doutrina, o presidente Theodore
Roosevelt defendia a interveno armada
dos EUA em qualquer nao do continente
que ameaasse os interesses
norte-americanos.

 As regies do Caribe e da Amrica
Central foram o grande alvo do big
stick, notadamente pases como a
Nicargua, Honduras, Repblica
Dominicana - conhecidos como
"Repblicas das Bananas" por serem
regies que a empresa americana United
Fruit Co. dominava atravs da plantao,
comercializao e industrializao de
frutas tropicais.

 Os EUA tambm estavam militarmente em
condies de dominar o resto da Amrica.
Os marines (como eram chamados os
fuzileiros navais) garantiram a presena
do capitalismonorte-americano.

O imperialismo gera guerra

 Assim, os EUA passaram a disputar com a
Europa (principalmente a Inglaterra) o
domnio sobre a Amrica Latina. Enquanto
isso, as disputas imperialistas na
Europa se aceleravam - e outros pases,
como a Alemanha, passaram a competir com
a Inglaterra pelo controle das colnias.

 Em 1870, a Inglaterra comeou a sofrer
o efeito das primeiras crises de
superproduo do capitalismo e j no
era mais a nica "oficina mecnica do
mundo". A Alemanha passou a amea-la na
competitiva busca de mercados.
Gr-Bretanha e Frana assinaram tratados
dividindo domnios territoriais
africanos. O controle do Marrocos (norte
da frica) pela Frana acirrou as lutas.
Num discurso em 'T"anger (cidade
marroquina), o Kaiser Guilherme II
(imperador alemo) afirmou que a
Alemanha tinha como lema "a politica
mundial como misso, a potncia mundial
como meta e o poder naval como
instrumento".

 As principais rivalidades entre as
potncias europias eram as seguintes:

- Alemanha X Inglaterra: a hegemonia
martima inglesa era colocada em risco
pela crescente indstria naval alem;

- Alemanha X Frana: alm do Marrocos,
os territrios franceses da
    Alscia-Lorena foram anexados pelos
alemes depois de 1871;

- Alemanha x Rssia: disputa pelo
controle do estreito de Dardanelos na
rota Berlim-Bagd, entrando em choque os
interesses imperialistas russos e
alemes sobre o domnio de regies
orientais;

- ustria X Rssia: aps a vitria na
guerra contra o Japo (1905), a Rssia
preocupou-se com o controle dos Balcs,
onde a regio da Srvia (sob o domnio
austraco) recebia apoio russo em suas
pretenses separatistas;

- ustria X Srvia: regio de constantes
atritos; os movimentos nacionalistas da
Srvia culminariam com a deflagrao da
Guerra Mundial.

Alianas no garantem a paz armada

 Os nacionalistas eram usados como forma
de esconder interesses imperialistas.
Eis alguns exemplos:

- o pangermanismo era a concepo de que
os povos germnicos (alemes) pertenciam
a uma raa superior, e por isso deviam
se unir sob a liderana da Alemanha para
combater as "raas inferiores";

- o pan-eslavismo da Europa do leste
considerava que os povos de origem
eslava precisavam se garantir contra
outros povos sob o comando da Rssia;

- como reao ao pangermanismo,
difundiu-se na Frana o revanchismo
contra os alemes, como um sentimento de
desforra diante da perda da
Alscia-Lorena.

 Um sistema de alianas polticas unia,
de um lado, Alemanha, o Imprio Austro-
Hngaro e Itlia, formando a Trplice
Aliana, e, de outro, Inglaterra, Frana
e Rssia, compondo a Trplice Entente.
Diante desses acordos, a Europa de 1910
vivia em permanente tenso.

 Nacionalismo, militarismo,
imperialismo, corrida armamentista e
expanso dos exrcitos criavam um clima
de crescente agressividade. Era a "paz
armada".

I Guerra: de quem foi a culpa?

 A "paz armada" no evitou a guerra, que
se iniciou a 28 de junho de 1914 com o
assassinato do arquiduque Francisco
Ferdinando (herdeiro do trono austraco)
na Bsnia-Herzegovina (provncia da
ustria que os srvios reivindicavam). A
maioria das naes europias acabou se
envolvendo na guerra: depois de a
ustria-Hungria declarar guerra 
Srvia, chegou a vez de a Alemanha
declarar guerra  Rssia e em seguida 
Frana. Logo os alemes invadiram o
territrio francs atravs da Blgica.
Solidria  Blgica, a Inglaterra tambm
entrou na guerra contra a Alemanha. Em
poucos dias, o conflito alcanou
dimenses mundiais, envolvendo a
Trplice Aliana e pases solidrios
contra a Trplice Entente e seus
aliados.

 Mas, "afinal, a quem coube a
responsabilidade da guerra? Quais foram
os culpados? As contradies
imperialistas entre a Inglaterra e a
Alemanha, entre a Alemanha e a Rssia,
entre a Frana e a Alemanha e entre a
Rssia e a ustria conduziram  I guerra
Mundial. Da preparao dessa guerra
participaram todas as potncias
imperialistas, dominadas por um nico
desejo: repartir o mundo, cada qual em
seu prprio proveito. A culpa da guerra
coube a todos os imperialistas".

 A I Guerra Mundial foi o primeiro
confronto travado entre Estados
nacionais modernos e mobilizou os
recursos da indstria e da tecnologia
para fns de destruio. A indstria
blica foi altamente estimulada, com o
desenvolvimento de submarinos, navios de
guerra, tanques e novos tipos de armas.

 Apesar de a Rssia ter se retirado do
conflito em 1917 por causa da ecloso da
Revoluo Russa, que instaurou o regime
socialista no pas, a entrada dos EUA na
guerra no mesmo ano definiu os rumos do
conflito em favor do grupo da
Inglaterra, da Frana e de seus aliados.

 O grupo liderado pela Alemanha acabou
derrotado e esse pas teve de assinar a
capitulao a 11 de novembro de 1918. Em
janeiro de 1919, o governo da Alemanha,
que havia se transformado em Repblica;
assinou o Tratado de Versalhes, no qual
aceitava ser fiscalizada no seu
desarmamento, perdia regies como a
Alscia- Lorena para a Frana e outras
para a Blgica, Tchecoslovquia,
Polnia, alm de territrios coloniais.
Reconhecendo-se culpada pela guerra, a
Alemanha se comprometeu a fazer pesados
pagamentos de indenizao aos
vencedores.

 O tratado fez crescer ainda mais as
rivalidades entre as naes europias.
As penalidades impostas aos alemes
pelos aliados tornaram-se um dos fatores
da ecloso da II Guerra Mundial, pois a
Alemanha mergulhou em profunda crise
econmica, gerando fortes sentimentos
nacionalistas e uma onda de dio e de
revolta popular que resultou na
ideologia nazista do lder Adolf Hitler.

Euforia frgil

 A dcada de 20 refletiu o fim do
otimismo liberal. As potncias europias
precisavam produzir mais e melhor para
compensar a destruio das fbricas
provocada pelo conflito. Paralelamente,
os EUA, que no foram afetados pela
guerra, emergiram como potncia,
substituindo a Europa no domnio sobre o
mundo.

 A guerra fez com que a Inglaterra e a
Frana perdessem mercados para os EUA, o
que resultou em desemprego, falncias e
insatisfao social. A interrupo do
fornecimento de mercadorias provocada
pela guerra estimulou tambm a
industrializao  da Amrica Latina.

 Com isso, o continente americano
conheceu um surto de prosperidade nos
anos 20. No Brasil, por exemplo,
enquanto a industrializao se
acelerava, cresciam as exportaes de
gneros agrcolas, pois a desorganizao
da economia europia diminuiu tambm sua
prpria capacidade de produzir
alimentos.

 O capitalismo desse perodo foi marcado
pelo esforo de recuperao da Europa,
pelo desenvolvimento tecnolgico e pela
implantao de empresas que cada vez
mais dispensavam mo-de-obra. Os
salrios (principal fonte de lucro para
os capitalistas) foram progressivamente
achatados, gerando desemprego e
subemprego.

 Paralelamente, as
empresasnorte-americanas passaram a
dedicar-se mais  especulao do que 
produo. As aes das empresas eram
valorizadas artificialmente, deixando de
corresponder ao capital que tais
empresas realmente possuam. A classe
mdia comeou ento a aplicar suas
economias em aes, na esperana de
ganhar dinheiro fcil.

1929: a "quinta-feira negr '

 No dia 24 de outubro de 1929, a
"quinta-feira negra", a Bolsa de Valores
de Nova York recebeu 16 milhes de aes
sem compradores, pois todos queriam
vender seus ttulos. A conseqncia foi
inevitvel: pequenos e mdios
industriais faliram, despedindo milhes
de operrios. Bancos e casas comerciais
fecharam suas portas. Casas e
apartamentos foram hipotecados ou
vendidos a baixo preo. O desemprego se
propagava.

 O mercado internacional tambm foi
afetado pela crise norte-americana. O
comrcio mundial declinou em 30%,
mostrando a interdependncia da economia
capitalista. A crise se prolongou pelos
anos 30 e se alastrou pelo mundo,
estimulando ideologias autoritrias,
como o fascismo na Itlia, o nazismo na
Alemanha e o Estado Novo em Portugal e
no Brasil, cujo resultado foi o
fortalecimento das burocracias estatais
e militares que acabaria desembocando na
II Guerra Mundial.

A poltica e a sociedade

Nascimento do proletariado

 Como vimos no livro II, o final do
sculo XVIII e o sculo XIX marcaram a
substituio do mercantilismo pelo
liberalismo. Se o mercantilismo foi
caracterizado pelo domnio poltico da
nobreza e dos reis, herdeiros ainda dos
senhores  feudais, o liberalismo trouxe
o poder para a burguesia - classe de
comerciantes, banqueiros e proprietrios
de fbricas. Pode-se dizer que a nobreza
e os reis estimularam o surgimento da
burguesia comercial dos sculos XV e
XVI, amparando-a atravs do
mercantilismo.  A burguesia, por sua
vez, passou a sustentar a nobreza e os
reis atravs de crescentes impostos. A
partir do sculo XVIII, porm, a
burguesia, fortalecida pela
diversificao de sua atividade
econmica e pela grande acumulao de
capitais, tomou o lugar da nobreza no
domnio poltico do mundo.

 Assim como a nobreza se apoiou na
burguesia e dela se aproveitou durante
sculos, os burgueses, que disseminaram
o liberalismo, se ampararam numa fora
social crescente a partir da Revoluo
Industrial: o proletariado. Os
proletrios fizeram a riqueza da
burguesia e a apoiaram contra a nobreza,
fornecendo-lhe, por exemplo, o imenso
contingente humano que lutou nas ruas
pela vitria da Revoluo Francesa.

 Porm, o proletariado logo percebeu que
a burguesia no tinha intenes de lhes
oferecer muita coisa - e isso ficou
visvel no contraste entre a abastada
vida da sociedade liberal burguesa e a
misria das camadas proletrias.

 As lutas operrias O longo processo de
luta e organizao do proletariado
nascente teve incio, na Inglaterra, o
bero da Revoluo Industrial. O
primeiro marco dessa luta foi o comcio
organizado pelos trabalhadores de
Manchester (Inglaterra) em 1819, no
chamado Campo de Pedro, onde foram
praticamente massacrados. Houve muitos
mortos e feridos, e o episdio ficou
conhecido como Peterloo, numa ironia 
Batalha de Waterloo, que custara o poder
a Napoleo.

 Os operrios ingleses, porm,
conseguiram desenvolver novas formas de
luta e organizao, formando as trade
unions (ligas operrias). Estas, de
incio, atuaram  como entidades
assistencialistas, mas logo deram origem
aos sindicatos, que passaram ento a
representar as reivindicaes dos
trabalhadores.

 Outro grande movimento operrio
estruturado a partir de 1837 foi o
Cartismo, derivado da Carta do Povo, um
documento ou petio que reivindicava
igualdade de direitos no Parlamento. A
Carta do Povo exigia:

- eleio anual do Parlamento;

- representatividade paritria entre as
classes sociais; - votao secreta; -
fim do censo de bens.

 Encabeado pela Associao de Operrios
fundada em 1836, o movimento cartista
obteve algumas vitrias para a causa
operria, mas se dissolveu em 1842,
devido a divergncias entre os que
propunham uma aliana com a burguesia e
os defensores da luta armada.

 Os ideais presentes nas trade unions e
as aspiraes cartistas podem ser
considerados como projetos ou lutas
inspirados em teorias que mais tarde
foram chamadas de socialismo utpico.
Esse tipo de ideologia criticava o
capitalismo e defendia um mundo mais
justo, mas no chegou a estruturar um
projeto poltico concreto que
viabilizasse os anseios de seus
seguidores.

 O Cartismo foi responsvel por algumas
conquistas dos trabalhadores do sculo
XIX: - a lei de proteo ao trabalho de
crianas (1833);

- a lei de regulamentao das
associaes polticas (1846);

- a limitao da jornada de trabalho em
10 horas (1847);

- estabelecimento de contratos de
trabalho.

1848: Manifesto Comunista

 A anlise das causas da explorao e
das condies dos trabalhadores na nova
ordem capitalista, aliada a uma crtica
e dinmica viso da histria e das
sociedades sob a tica da luta de
classes, permitiu a estruturao de um
projeto poltico para o proletariado.
Nesse sentido, o Manifesto Comunista de
1848, escrito por Karl Marx (1818-1883)
e Friedrich Engels (1820-1895), tem sido
considerado um dos textos politicos mais
importantes. Os conceitos de luta de
classes e ditadura do proletariado
formaram as bases para a construo de
um projeto poltico para o proletariado,
que se tornou capaz, ento, de fazer a
crtica do liberalismo
democrtico-parlamentar e de suas
contradies, propondo uma sociedade sem
classes.

 Marx e Engels tm fundamental
importncia na criao e organizao da
Associao Internacional dos
Trabalhadores, fundada em 1864 em
Londres.

Do socialismo utpico ao socialismo
cientfico

 Enquanto o liberalismo legitimava a
sociedade burguesa (propondo uma
igualdade jurdica abstrata, sem
possibilitar ao proletariado urbano as
mnimas condies humanas de
sobrevivncia), uma outra ideologia
ganhava corpo atravs das anlises de
intelectuais e trabalhadores que lutavam
por melhores condies de vida para o
proletariado: o socialismo.

 Teoria crtica que surge das
contradies do liberalismo, o
socialismo prope uma nova sociedade
baseada na socializao dos meios de
produo e no domnio poltico do
proletariado. Esta formulao foi
denominada por Marx e Engels de
socialismo cientfico, em oposio ao
socialismo utpico, que no tinha
condies de estruturar-se como projeto
poltico das classes trabalhadoras, j
que no conseguia entender a contradio
principal da sociedade liberal burguesa:
a luta de classes.

 O socialismo cientfico

 Denominou-se socialismo cientfico a
tradio terica que se originou a
partir de K. Marx.e F Engels. Estes dois
pensadores formularam uma interpretao
materialista da histria, dinmica e
baseada na compreenso das estruturas
econmicas ou modos de produo,
propondo novos rumos e diretrizes para o
movimento proletrio europeu.

 O marcismo considera que a histria 
movida pela luta de classes e que a
estrutura econmica ou modo de produo
 a instncia bsica da sociedade, sobre
a qual se constri a supra-estrutura
ideolgica: a religio, a filosofia, a
cultura e a poltica.

 A histria do homem  a histria das
lutas de classes, no escravismo, no
feudalismo e no capitalismo, segundo
Marx. O proletariado  a classe que,
pela organizao e ao revolucionria,
tomaria o Estado, instaurando a ditadura
do proletariado ou o socialismo, cujo
objetivo seria socializar os meios de
produo, as terras, as fbricas,
levando  supresso das classes, ao ser
alcanada a sociedade comunista.

Nascimento das Internacionais

 As principais reivindicaes do
operariado no sculo XIX so de contedo
trabalhista: salrios, condies de
trabalho, liberdade de organizao e
dignidade para sobreviver. Nesse
contexto, o Manifesto Comunista de Marx
e Engels foi rapidamente assimilado
pelos ncleos operrios europeus. Mas as
lutas e diretrizes do movimento operrio
internacional exigiam maior coeso,
perspectivas comuns e troca de
experincias.

 E assim surgiu na Inglaterra, tambm
sob inspirao de Marx e Engels, a
Primeira Internacional, de 1864.

 Por inspirao de Marx e Engels, a
primeira Associao Internacional dos
Trabalhadores (conhecida como Primeira
Internacional) surgiu em Londres, em
1864, com o objetivo de estabelecer
diretrizes para a luta do proletariado,
estratgias e metodologias especficas e
eficazes para a superao da ordem
capitalista.

 Na Primeira Internacional podem ser
notadas as primeiras contradies do
movimento proletrio. De um lado, Marx e
Engels defendiam uma organizao
proletria forte e disciplinada,
considerando necessria a criao de um
partido de vanguarda que conduzisse as
lutas e causas operrias  revoluo
armada, a qual garantiria a ditadura do
proletariado e a construo do Estado
socialista.

 De outro lado, Mikhail Bakunin
(1814-1876), principal terico do
anarquismo do sculo XIX, que defendia
teses diferentes das de Marx. Para
Bakunin, "toda forma de governo tende a
instituir a opresso" e por isso o
Estado e os partidos deviam ser
combatidos. Bakunin defendia a
conscientizao das massas e a
organizao sindical como estratgias de
luta.

 As teses de Marx e Engels saram
vitoriosas, mas o movimento anarquista
se fortaleceu como uma alternativa ao
marxismo na luta contra o capitalismo.

 Em 1871, com apoio de setores
militares, uma multido de operrios
comunistas franceses chegou a tomar o
poder em Paris. Mas a Comuna de Paris
durou apenas dois meses, sendo
violentamente massacrada pela
contra-revoluo burguesa. Essa
experincia fortaleceu a tese de que a
revoluo comunista precisava de um
partido forte e organizado. Diante do
fracasso, a Primeira Internacional se
dissolveu.

A Segunda, a Terceira e a Quarta
Internacionais

 Com a dissoluo da Primeira
Internacional, o movimento proletrio
sofreu forte abalo e s voltou a se
organizar a nvel'internacional em 1889,
com a fundao da Segunda Internacional,
em Paris.

 De um lado, permaneceram as idias e
teses de Marx e Engels, sobre a
necessidade de uma organizao operria
slida e forte; de outro, surgiram
propostas reformistas, de busca do poder
por via eleitoral sufragista, prpria do
Estado burgus.

 A partir das reunies da Segunda
Internacional optou-se pela fundao de
partidos social-democrticos, na busca
do poder atravs do voto e da via
democrtica.

 A primeira experincia dentro da via
social-democrata foi a Associao Geral
dos Trabalhadores Alemes, fundada em
1863, que conseguira importantes
conquistas para a classe operria alem
atravs de uma poltica reformista e
conciliatria com o Estado, sobretudo
pela atuao do dirigente alemo
Ferdinand Lassale (1825-1864). A
social-democracia procurava alcanar as
reivindicaes socialistas dentro da
ordem capitalista, garantindo alguns
avanos e ganhos para o proletariado.

 A vitria da Revoluo Russa em 1917
ps por terra as teses da Segunda
Internacional. Os socialistas acabaram
chegando ao poder pela via armada,
contradizendo a estratgia
social-democrata, o que levou 
dissoluo da Internacional. O movimento
operrio mundial passou a inspirar-se no
modelo russo dos bolcheviques liderados
por Vladimir Lnin (1870-1924).

 Essa foi a tnica da Terceira
Internacional, organizada em Moscou em
1919. Essa associao teve como objetivo
a criao de partidos orgnicos,
nacionais e centralizados, capazes de
organizar a classe operria na
construo do socialismo.

 Durante a dcada de 20, a criao e a
atuao dos Partidos Comunistas
obedeceram aos critrios da Terceira
Internacional, como foi o caso do
Brasil, cujo Partido Comunista
Brasileiro, fundado em 1922, seguia
orientao ortodoxa e centralista.

 A Quarta Internacional, realizada no
Mxico em 1938, foi marcada pelo
pensamento e pela atuao de Leon
Trotsky (1879-1940), lder exilado da
Revoluo Russa e  opositor de Stlin.
Essa associao criticou os rumos do
stalinismo e o processo de elitizao da
revoluo sovitica, denunciando que as
classes proletrias russas estavam sob
controle de funcionrios do Estado que
gozavam de privilgios.

A Revoluo Russa

A gestao da revolta

 No incio do sculo XX, a Rssia era um
enorme territrio controlado por uma
aristocracia conservadora baseada numa
economia predominantemente agrria. Sua
populao era de mais de 100 milhes de
habitantes, na grande maioria miservel,
marginalizada, controlada pela ideologia
conservadora da Igreja ortodoxa russa e
submetida, por mais de trezentos anos,
ao poder da dinastia Romanov, que teve
em Nicolau II seu ltimo representante.

 A industrializao, frgil e controlada
pelo capital estrangeiro - Frana,
Blgica e Alemanha -, formava uma
pequena burguesia ligada aos
capitalistas internacionais, presa aos
interesses da aristocracia rural e
pressionada pelas reivindicaes do
crescente proletariado urbano e rural.

 O governo de Nicolau II, marcado pelo
autoritarismo, pela represso, pela
corrupo, pela crise e pela misria
social, mostrou-se incapaz de atender s
reivindicaes  dos operrios, que
gradativamente se organizavam em
partidos polticos.

 A oposio proletria estava dividida
em dois partidos: o Bolchevique
(liderado por Lnin, que defendia a luta
armada, a organizao coesa e
disciplinada de um partido de vanguarda)
e o Menchevique (que pregava a aliana
de setores liberais da burguesia com o
proletariado para romper a estrutura
czarista).

 A entrada da Rssia na I Guerra Mundial
acelerou a crise da estrutura czarista.
Com um exrcito despreparado,
inferiorizado e sem foras, a Rssia
sofreu numerosas derrotas militares. O
resultado foram crises no abastecimento
alimentar, misria,  fome, desemprego e
revoltas.

 Em fevereiro de 1917, depois de
sucessivas greves e saques organizados
pelos partidos e sindicatos, a populao
insurreta tomou as ruas e o palcio do
czar - o Kremlin.

 A Revoluo de Fevereiro teve como
conseqncia a formao de um Comit
provisrio (DUMA), que levou  criao
de um governo liderado pelos
mencheviques. Kerensky, a principal
figura desse novo governo, no realizou
as aspiraes populares, que eram a
sada da Rssia da guerra e a reforma
agrria.

 Liderados por Lnin e por Trotsky, os
bolcheviques prepararam uma investida
contra o governo provisrio em outubro
de 1917. Os bolcheviques tomaram os
principais pontos da cidade. Kerensky
fugiu, e o Congresso Pan-russo entregou
o poder a Lnin, que comps um novo
governo, nomeando como ministros Trotsky
e Stlin. A vitria se consolidou graas
aos soviets, conselhos de operrios,
camponeses e soldados que decidiam
democraticamente as formas de atuao
para organizar a sociedade.

O Estado socialista sovitico

 As primeiras medidas do governo de
Lnin foram:

- obter a paz com os pases beligerantes
para garantir a sada da Rssia da
guerra;

- socializar as grandes propriedades e
as indstrias, sobretudo as
estrangeiras; - decretar a igualdade
jurdica entre todas as nacionalidades e
etnias da Rssia.

 Consolidada a nova ordem poltica, o
governo sovitico elaborou um plano
econmico denominado Nova Poltica
Econmica (NEP). A NEP buscava tirar o
pas do atraso social, poltico e
econmico que o czar tinha deixado como
herana. Propunha um planejamento
econmico, liderado pelo Estado, que
deveria ser rigidamente  executado em
planos qinq0enais.

 A morte de Lnin, em 1924, entretanto,
abriu uma disputa pelo poder entre
Trotsky e Stlin. Depois de intensas
lutas e enfrentamentos, Stlin eliminou
a oposio trotskista, consolidando o
poder de acordo com suas prprias
diretrizes. O stalinismo passou ento a
dar uma nova identidade  Revoluo
Russa, com sucessivas depuraes,
prises e cassaes de antigos lderes,
marcando uma administrao de terror,
medo e represso, que perdurou de 1922 a
1953.

As denncias de Rosa I,uxemburg

 Nos anos 20 e 30, a orientao dos
movimentos operrios internacionais, que
se organizavam nos moldes do Partido
Comunista Sovitico, seguiu as
diretrizes stalinistas. Essas diretrizes
recomendavam:

- obedincia irrestrita aos chefes do
partido;

- a defesa sem contestao do modelo
repressivo do governo de Stlin;

- apoio total s formas de socializao
forada dos meios de produo e da
reforma agrria.

 As catastrficas conseqncias desse
modelo foram previstas por Rosa
Luxemburg (1871-1919), militante
comunista de origem polonesa. Ela chegou
a saudar a revoluo e afirmou que o
partido de Lnin era "o nico partido na
Rssia que captava o verdadeiro
interesse da revoluo no primeiro
periodo". Mas depois combateu a forma
como Lnin e Trotsky eliminaram a
democracia e passou a criticar o
crescente autoritarismo sovitico.


O CAF SUSTENTA A REPBLICA?

 Discutimos, no livro II, a implantao
da economia cafeeira a partir de 1840.
Percebemos que um conjunto de fatores
favorveis - como o crescimento das
exportaes de caf, o aumento das taxas
alfandegrias pela tarifa Alves Branco,
a abolio do trfico negreiro, a vinda
de imigrantes europeus a partir de 1850
- permitiu a urbanizao e o lento
desenvolvimento da indstria. Esse surto
industrial foi, entretanto, efmero,
pois a partir de 1860 a lei Silva Ferraz
(anulando os aumentos alfandegrios)
provocou retrao no mercado interno e
iniciou uma srie de falncias dos
pequenos setores fabris brasileiros.

 Mas um novo surto industrial
originou-se a partir de 1870,
estendendo-se at os fns do sculo XIX.
Os investimentos exigidos pela Guerra do
Paraguai, a manuteno do Exrcito, o
crescente trabalho assalariado e a
expanso cafeeira estimularam esse novo
surto.

A economia da Repblica Velha

 De 1889 a 1930, a economia brasileira
desenvolveu-se basicamente graas ao
acmulo de capitais oriundos do setor
cafeeiro associado aos investimentos
estrangeiros. O preo pago foi a
manuteno da estrutura latifundiria e
da monocultura, que orientavam o tipo de
implantao industrial no pas. Assim, a
indstria brasileira nasceu da fuso de
tecnologias importadas com velhos
procedimentos herdados do perodo
colonial. Ricos latifundirios dedicados
 monocultura cafeeira foram ao mesmo
tempo proprietrios das primeiras
indstrias.

Industrializao regional

 Os investimentos estrangeiros
predominavam na formao da
infra-estrutura urbana. Em 1901,
capitais ingleses, belgas e franceses
instalaram a primeira usina eltrica  em
So Paulo. Em seguida, em 1904, capitais
canadenses e ingleses organizaram a
Light Power, que explorou os servios
urbanos de gs, energia eltrica,
esgoto, gua, transporte e telefone no
eixo So Paulo - Rio de Janeiro,
enquanto os Estados da Bahia, Paran,
parte de Minas Gerais, Santa Catarina e
Rio Grande do Sul eram abastecidos por
outra companhia, tambm inglesa.

 Assim,  possvel distinguir o
crescimento urbano-industrial em
diferentes regies brasileiras,  medida
que foram sendo instaladas as
infra-estruturas das cidades.

 O Rio de Janeiro contava com os
melhores servios urbanos por ser a
capital da Repblica. E isso permitiu
que essa cidade se tornasse a sede do
maior parque industrial do pas (So
Paulo a superou apenas na dcada de 20).

 O crescimento do Rio de Janeiro
deveu-se, em primeiro lugar, aos
impostos arrecadados pela Unio e s
taxas do comrcio de exportao e
importao das mercadorias  que
transitavam pelo porto carioca. Em
segundo lugar, figuravam os capitais
excedentes da lavoura cafeeira da
Baixada Fluminense (Vale do Paraiba),
que eram aplicados na indstria.
Somava-se a isso a existncia de farta
mo-de-obra constituda de ex-escravos
que se dirigiam para a cidade do Rio de
Janeiro em busca de  melhores condies
de vida. Formou-se, assim, um exrcito
industrial de reserva, isto , um
excedente de trabalhadores disponveis
que barateava os custos de produo,
pois as fbricas ofereciam baixos
salrios.

 No comeo do sculo XX, o segundo
centro urbano do Brasil era Salvador
(BA). Por ter sido uma das economias
coloniais de maior desenvolvimento do
pas, a Bahia dispunha de
matrias-primas (como algodo e fumo),
de capital (originrio da economia de
exportao) e de trabalhadores livres
capazes de assegurar a criao do  setor
fabril.

 Outra cidade nordestina em que a
indstria se desenvolveu foi Recife
(PE). L havia grande quantidade de
trabalhadores livres, vindos do interior
pernambucano, expulsos do campo pelo
processo de modernizao dos engenhos de
cana-de-acar, que se transformaram em
usinas. A existncia de matria-prima
(algodo) e de um mercado interno
regional (representado pela crescente
populao urbana) permitiu o surgimento
das primeiras indstrias pernambucanas
de grande porte: o setor txtil. A
companhia txtil do grupo Lundgrenn, por
exemplo, foi o mais bem-sucedido
empreendimento fabril da regio, pois
conseguiu aliar produo e comrcio. A
fbrica vendia no atacado e no varejo
atravs da criao de uma vasta rede
comercial denominada Casas
Pernambucanas.

 O caso de Minas Gerais diferencia-se
dos exemplos carioca e nordestino. Por
sua tradio artesanal, com uma
urbanizao rpida e dispersa provocada
pela economia mineradora do sculo
XVIII, a regio mineira abrigou uma
infinidade de pequenas fbricas, com
capitais e produo reduzidos, que se
destinavam ao abastecimento dos mercados
regionais.

 Outra regio que passou por um processo
de desenvolvimento durante a Colnia e o
Imprio foi o Rio Grande do Sul.
Estruturda em pequenas propriedades
agrrias, constituiu um mercado
consumidor de camponeses ligados a uma
atividade agrcola comercial. Aliada a
esse fator de monetarizao comercial, a
existncia de contingentes de imigrantes
europeus permitiu o desenvolvimento
urbano de pequenos mercados locais
destinados  produo artesanal. Eram
ferreiros, serralheiros, pedreiros,
marceneiros, oleiros, teceles,
alfaiates, charreteiros, moleiros,
carvoeiros e outros pequenos empresrios
que acabaram criando as primeiras
indstrias de porte moderno do Rio
Grande do Sul.

 A capital, Porto Alegre, destacou-se
pela diversificao da produo
(fbricas de charutos, de alimentos,
curtumes, moinhos, tecelagens) em
pequenos estabelecimentos. A preocupao
predominante dos setores industriais
porto-alegrenses era conquistar  o
mercado local. Uma indstria gacha
txtil e de vesturio que se projetou
nacionalmente na dcada de 10 foi a
Rener, mas na dcada de 20 entrou em
declnio devido  concorrncia das
indstrias similares de So Paulo.

 Nesse processo de industrializao
regional, o Estado de Santa Catarina
teve um significativo desenvolvimento
fabril. Semelhante  do Rio Grande do
Sul, a colonizao catarinense baseou-se
na imigrao europia, sobretudo a
germnica: A produo  se destinava a
mercados locais constitudos por grande
nmero de pequenos proprietrios rurais.
A regio de Blumenau, em vez de
concorrer com as indstrias do eixo
Rio-So Paulo, especializou-se num tipo
de produo pioneira ligada  malharia,
materiais para medicina (gazes,
ataduras), tecidos de l (especiais para
os perodos de inverno), porcelana,
instrumentos musicais. Por sua
especializao, a indstria Hering (de
origem germnica) superou as barreiras
regionais, conquistando o mercado do Rio
Grande do Sul e de So Paulo na primeira
dcada do sculo XX.

O caf financia a indstria

 Esses exemplos fabris enquadram-se no
que o economista Antnio Barros Castro
definiu como industrializao
descentralizada. Impossibilitadas de
unificar a circulao de mercadorias em
todo o territrio, devido  precariedade
dos meios de transporte, as classes
burguesas industriais ligavam-se
localmente aos produtores agrrios e aos
capitalistas ingleses, alemes
enorte-americanos.

 A fragilidade econmica da nascente
burguesia industrial do pas obrigou os
capitalistas regionais a se associarem
ao capital internacional, sobretudo
britnico.

 Com exceo de Santa Catarina, as
demais regies acabariam sofrendo a
concorrncia do eixo Rio-So Paulo,
tendo que se submeter ao controle
especialmente dos paulistas. Mas como
ocorreu esse processo de liderana
econmica da regio de So Paulo? A
resposta est na economia cafeeira.

 A crescente expanso cafeeira,
principalmente nos fns do sculo XIX,
permitiu que os grandes fazendeiros
paulistas diversificassem suas
atividades, investindo em estradas de
ferro, em companhias de seguro, em
instalaes comerciais dos portos
brasileiros, na organizao de bancos,
nos setores industriais txteis e
alimentares.

 Visando incentivar a industrializao,
Rui Barbosa, ministro da Fazenda do
governo do Marechal Deodoro da Fonseca,
abriu linhas de crdito para financiar a
implantao  de fbricas. Para isso o
governo teve de aumentar a emisso de
papel-moeda, gerando um processo
inflacionrio.

 A facilidade de crditos levou a uma
desenfreada especulao com papis e
aes das novas empresas. Essa
especulao recebeu o nome de
Encilhamento, pois a euforia barulhenta
da Bolsa de Valores lembrava o local de
apostas do jquei-clube, quando os
cavalos se preparavam para a corrida.

Emprstimos estrangeiros desenvolveram
indstrias e cidades

 Muitas fbricas foram construdas com
emprstimos de companhias de exportao
e importao estrangeiras sediadas no
pas que, na maioria das vezes, se
associavam  aos projetos industriais
brasileiros. Muitos capitalistas
ingleses investiram diretamente no setor
industrial brasileiro: de moinhos de
trigo at fbricas de calados, passando
pelas instalaes das primeiras usinas
de acar.

 Alm destas duas importantes
caractersticas (associao de empresas
nacionais com estrangeiras e
investimento estrangeiro na instalao
fabril), destaca-se uma outra, inerente
ao processo de desenvolvimento
capitalista: a concentrao de capitais,
que exigiu a instalao de
infra-estrutura (energia, transpoRTe)
nas cidades.

 As cidades constituam o fator bsico
de implantao industrial, pois
ofereciam os servios necessrios 
circulao e distribuio de mercadorias
e de capital (dinheiro, matrias-primas
e mquinas). Todo o sistema comercial e
financeiro (armazns,  lojas, bancos,
crditos etc.) instalou-se nos centros
urbanos.

 As cidades eram mercados consumidores
imediatos dos produtos fabris, alm de
fornecerem a mo-de-obra necessria 
indstria, devido a sua densidade
demogrfica.

 Nesse sentido, So Paulo apresentou
caractersticas favorveis ao impulso
industrial. O comrcio do caf promoveu
uma grande concentrao de bancos na
capital paulista, criando um mercado de
capitais. Somado a isso,
desenvolveram-se centros de treinamento
para o grande contingente de mo-de-obra
que aflua para a cidade,  constitudo
principalmente por imigrantes
estrangeiros. E o caso do Liceu de Artes
e Ofcios e do Instituto de Educandos e
Artfices. O escoamento da produo, por
sua vez, estava garantido por uma
eficiente rede de transportes - ligao
com o porto de Santos e sadas para o
interior e para outros Estados atravs
de ferrovias -, enquanto o crescimento
da cidade era assegurado por grandes
obras de infra-estrutura - pontes e
viadutos, rede eltrica e de esgotos
etc.

Convnio de Taubat: a salvao da
lavoura

 A fora dos cafeicultores pde ser
comprovada em 1906, quando a produo
brasileira de caf crescia cada vez
mais, porm os preos do produto no
mercado internacional  estavam em plena
queda devido ao excesso de oferta e 
valorizao da moeda nacional levada a
cabo pelo governo para combater a
inflao provocada pelo Encilhamento. Em
fevereiro desse ano, os cafeicultores
reuniram-se em Taubat (Vale do Paraba)
para exigir do governo federal medidas
que garantissem a valorizao do caf e
a manuteno dos lucros dessa lavoura. O
encontro ficou conhecido como Convnio
de Taubat.

 Os cafeicultores pressionaram o governo
a adotar medidas protecionistas para
garantir o preo do caf:

- proibio de novas plantaes
cafeeiras para no diminuir o preo do
produto;

- promoo publicitria do produto a
nvel governamental visando estimular o
consumo no mercado externo e interno;

- compra dos excedentes de caf pelo
governo para criar estoques reguladores
que seriam colocados no mercado quando a
produo diminusse, garantindo a
estabilidade dos preos;

- emprstimo externo de 15 milhes de
libras esterlinas para custear as
compras de caf feitas pelos Estados.

 As medidas beneficiaram os
cafeicultores, ao mesmo tempo que
comprometeram o desenvolvimento do pas,
porque no havia capital para investir
em outras reas. Os efeitos dessa
valorizao do caf foram sentidos em
1909, pois os preos internacionais do
produto aumentaram, provocando uma
elevao das arrecadaes dos setores
exportadores e um aumento das
importaes de bens de consumo (sapatos,
chapus, velas, lonas, betume, leo de
linhaa etc.) e de alimentos (manteiga,
leo, bebidas em geral).

A indstria beneficia a agricultura

 De 1906 a 1909 ampliou-se a produo
interna de alimentos, o que barateou seu
custo, possibilitando que os salrios
reais fossem preservados. Isso estimulou
a acumulao de capitais em dois setores
da economia: a agricultura e a
indstria."Est com isto definitivamente
esclarecido o problema das condies de
realizao da produo industrial:
indstria e agricultura se apiam
mutuamente criando mercados uma para a
outra:'

 Diante dessas condies, seguiu-se uma
euforia que resultou em novo aumento da
produo de caf entre 1911 e 1913. As
conseqncias puderam ser sentidas a
partir de 1914. Houve um aumento da
inflao, pois, para cumprir seus
compromissos, o governo federal emitiu
papel-moeda.

1889 a 1914: flutuam dvidas

 A histria econmica do Brasil entre
1889 e 1914 pode ser resumida na
seguinte dinmica:

- sucessivas crises do caf, seguidas de
movimentos dos cafeicultores visando a
valorizao do produto;

- paralelamente as crises, houve a
instalao de indstrias em vrias
regies do pas devido  presena de
capital estrangeiro no desenvolvimento
da acumulao de capitais;

- embora a regio de So Paulo fosse
menos industrializada que a do Rio de
Janeiro, nota-se j nesse perodo uma
tendncia favorvel  concentrao do
setor fabril na regio paulista.

 O perodo de 1889 a 1914 foi marcado
por duas renegociaes da dvida
externa, chamadas funding loans, isto ,
"dvidas flutuantes". A primeira
renegociao ocorreu em 1898 durante o
governo Campos Salles, em conseqncia
do fracasso do Encilhamento. No fim do
sculo XIX e no inicio do XX, o pas
estava com suas finanas falidas. O
acordo com os Rothschilds, banqueiros
ingleses, previa que o pagamento de
todos os emprstimos contrados nos anos
anteriores deveria ser efetuado em 1911.
Outro destaque era o pagamento dos
juros, a partir de 1901, trs anos aps
o acordo. Como garantia, o governo do
presidente Campos Salles ofereceu as
rendas alfandegrias brasileiras. O
acordo proibia tambm que o Brasil
realizasse novos emprstimos.

 O segundo funding loan foi acertado no
ano de 1914 no governo de Hermes da
Fonseca. Em decorrncia do Convnio de
Taubat, o Estado foi obrigado a
contrair novos emprstimos, onerando a
balana de pagamentos durante o perodo
de 1913 a 1914. Seguiu-se nova
renegociao da dvida com os credores
internacionais, mediante o emprstimo de
14 milhes de libras esterlinas. Os
juros comeariam a ser pagos aps trs
anos e a dvida seria ressarcida em
treze anos.

Efeitos da I Guerra Mundial

 O perodo de 1914 a 1918 comeou de
forma trgica, marcado por um novo
funding loan e pelo primeiro conflito de
propores mundiais. A I Guerra
acarretou a queda nos preos das
exportaes de caf e restringiu nossa
capacidade de importar. Alm disso,
afastou os investimentos internacionais
da economia brasileira.

 Em 1916, porm, o comrcio se
intensificou com a venda de caf aos
Estados Unidos e aos pases neutros da
Europa. Mas em 1917 a situao
internacional voltou a trazer problemas.
A intensificao da guerra obrigou os
britnicos a cancelarem a compra de
caf, e os EUA diminuram as importaes
de produtos, pois entraram no conflito.
Rompendo com a neutralidade, o Brasil
tambm entrou na guerra contra a
Alemanha, enviando  Europa apenas uma
pequena esquadra e alguns mdicos e
enfermeiros.

 Uma segunda valorizao do caf ocorreu
em 1917, quando os excedentes atingiram
6 milhes de sacas. O governo do
presidente Venceslau Brs pagou para So
Paulo tirar do mercado 3 milhes de
sacas. Em 1918, com o fim da guerra, o
gradativo restabelecimento das
atividades mercantis internacionais
permitiu uma elevao  nos lucros com as
exportaes de caf.

 Durante a I Guerra Mundial, a balana
comercial brasileira pendeu
favoravelmente para o lado
dosnorte-americanos, porque "a
participao da Frana e da Gr-Bretanha
na conflagrao reduziu,
consideravelmente, a sua capacidade de
esportar para a Amrica do Sul, enquanto
a Alemanha chegou a ponto de nada
exportar para o Brasil em 1917. Como
conseqncia, a influncia e o comrcio
dos EUA com o Brasil cresceram, embora o
esforo dos americanos de abastecer (at
1916) os aliados e os Poderes Centrais
com manufaturados e capital tenha
atrasado um pouco o aumento das
exportaes americanas para o Brasil.

Feiras livres: presses proletrias

 A nvel interno, a situao econmica
da populao brasileira, especialmente
das classes proletrias, piorou no
perodo da I Guerra. Grupos operrios
organizavam pesquisas mostrando a queda
real dos salrios e, portanto, da
qualidade de vida. A escassez alimentar
e o aumento do custo de vida provocaram
a pauperizao da sociedade e
possibilitaram o surgimento de epidemias
de grandes repercusses, como a gripe
espanhola, que em 1918 matou 8 mil
pessoas.

 Diante das manifestaes populares
contra os preos dos gneros
alimentcios foram criadas feiras livres
"como medida do governo frente s
presses do proletariado:  a venda
direta dos gneros ao consumidor, sem
intermedirios e sem impostos de
qualquer espcie, levava a um
barateamento relativo dessas
mercadorias': Alm disso, "nos periodos
de crise da produo capitalista, tal
dinmica s poderia se manter s custas
de uma superexplorao das massas
trabalhadoras, atravs da queda dos
salrios reais, aumento do desemprego,
com a conseqente carestia do custo de
vida, escassez de gneros bsicos e
fome'

Ps-guerra: ainda o caf

 Depois da I Guerra Mundial, o Brasil
acabaria se beneficiando com a
desorganizao da economia europia. As
dificuldades de importao fizeram
crescer o nmero  de estabelecimentos
industriais, especialmente no eixo So
Paulo-Rio.

 Mas a principal fonte de divisas do
pas ainda era o caf - e a exportao
desse produto sofreu um decrscimo nos
anos imediatamente seguintes ao final da
guerra. Em 1920 e 1921 houve uma
superproduo cafeeira que no encontrou
sada, pois os EUA, principais
compradores das mercadorias brasileiras
depois de 1918, estavam aplicando
capitais em programas de recuperao
econmica da Europa. A soluo foi
retomar a tradicional poltica de
valorizao do produto (a terceira entre
1921 e 1923), proporcionada por um
crdito especial do Banco do Brasil, e
os mesmos mecanismos anteriores, isto ,
retirada do produto do mercado e
diminuio de impostos aos exportadores.

 Assim, aps um perodo de recesso
internacional (1920-1921) no qual
diminuram as compras de caf, a
poltica da terceira valorizao
cafeeira conseguiu aumentar as
exportaes e a capacidade de importar,
principalmente maquinrios.  Dessa
forma, no final de 1921, o Estado de So
Paulo passou a responsabilizar-se pela
defesa permanente do caf e manteve essa
politica at a crise do final da dcada
de 20.

 As safras cafeeiras de 1925-1926 foram
grandes e as de 1927-1928 maiores ainda
(uma produo de aproximadamente 26
milhes de sacas), contrariando as
tendncias de que, aps um perodo de
grandes colheitas (como as de
1925-1926), as safras diminuiriam. Houve
queda no perodo 1928-1929 (14 milhes
de sacas) e um novo aumento em 1929-1930
(30 milhes de sacas).

 Os capitais advindos das exportaes
foram utilizados para os investimentos
na indstria de transformao, ou seja,
na instalao de mquinas e
equipamentos. A conseqncia mais
imediata do aumento de capitais foi a
acelerada  industrializao na dcada de
20.

 Novas indstrias de algodo, tecidos de
l, de seda e at de fios de seda
artificial (raiom) foram implantadas.
Tambm se desenvolveram as indstrias de
calados, elevando os investimentos e a
produo das dcadas anteriores do
sculo XX. A modernizao  industrial
tambm atingiu a moagem do trigo, a
fabricao do acar (com macia
instalao de usinas no Nordeste), a
indstria de bebidas (cerveja,
refrigerantes etc.) de fsforos, de
peas de vesturio, os setores
metalrgicos (pregos,  parafusos, porcas
etc.), a produo de cimento, ferro e
ao, os produtos de borracha, os leos
vegetais, as pastas e papel, os
frigorficos, os mveis, as editoras e
grficas e, ainda, a qumica e a
farmcia.

Industrializao: cinco fatores

 Os setores que se desenvolveram depois
da I Guerra demonstram a diversificao
do parque fabril e uma gradativa
passagem para a estruturao de uma
economia com forte predominncia
industrial ao longo das dcadas
seguintes.

 Embora dependentes do capital cafeeiro,
 possvel constatar um lento
desprendimento dos setores fabris,
que"j no eram simplesmente
complementares ou subsidirios da
economia exportadora de produtos
agricolas, mas estavam progressivamente
relacionados com o crescimento da
demanda interna por matrias-primas
industriais (cimento, ferro e ao,
produtos quimicos, papel e pasta de
papel etc.) e maquinaria em geral (para
agricultura, indstria, construo
etc.). Algumas indstrias, tais como as
de carnes congeladas e industrializadas
e de leo de caroo de algodo, foram
mesmo estabelecidas com o propsito de
processar novos produtos de exportao':

 Cinco principais fatores explicam o
crescimento industrial do Brasil na
dcada de 1920, em especial no eixo
Rio-So Paulo e predominantemente nesta
ltima regio: energia, acumulao de
capitais, mo-de-obra barata,
matrias-primas e proteo governamental
para a indstria.

- Energia: no sculo XIX e incio do XX,
o processo de instalao fabril
utilizava predominantemente mquinas a
vapor, o que obrigava  importao de
carvo. Com isso, grande parte do
dinheiro arrecadado nas exportaes era
gasto na compra desse combustvel. J
entre 1900 e 1910, a implantao de
usinas de produo de energia
hidreltrica foi fundamental para
garantir o crescimento fabril que se
processaria na dcada de 20, pois o
encarecimento do carvo durante a I
Guerra inviabilizou o uso dessa
matria-prima vegetal como fonte de
energia.

 A instalao de usinas eltricas
ocorreu no eixo Rio de Janeiro-So
Paulo, o que possibilitou o aumento da
capacidade produtiva dos setores
industriais do Centro-Sul, contribuindo
para distanciar esta regio das demais
em termos de competitividade fabril,
pois os outros Estados da Federao
levaram mais tempo para  gerar
eletricidade, comprometendo sua
produtividade.

- Acumulao de capitais: os
cafeicultores paulistas diversificaram
amplamente as aplicaes dos capitais
que ganhavam com as exportaes,
abrangendo um grande leque de
investimentos, desde a fabricao de
tecidos de algodo e juta, at o
comrcio (empresas de
exportao/importao, bancos,
ferrovias), passando pelas instalaes
de indstrias metalrgicas (maquinrio
para agricultura, para beneficiamento
agrcola, ferramentas, equipamentos de
transporte como vages, carroas, barcos
etc.). E assim o parque industrial de
So Paulo sobrepujou o resto do pas - e
as instalaes urbanas da cidade
conheceram grande desenvolvimento
(imveis, empresas de servios pblicos,
alm das indstrias de transformao).

 A principal parcela dos capitais
destinados  indstria provinha da
atividade mercantil (incluindo os
investimentos feitos por imigrantes),
"que, em geral, se acumulava
originariamente nos negcios de
exportao e importao ou no comrcio
interno', o que So Paulo j vinha
realizando desde a segunda metade do
sculo XIX.

- Mo-de-obra barata: a vinda de
imigrantes (italianos, espanhis,
portugueses etc.), durante as trs
primeiras dcadas do sculo XX, foi de
fundamental importncia para o
rebaixamento salarial dos operrios e a
consequente elevao dos lucros dos
donos de indstria. A mo-de-obra era
farta e barata, e havia um grande
contingente de mulheres e crianas
operrias que trabalhavam em jornadas de
dez ou mais horas com salrios
inferiores aos dos homens, que j eram
irrisrios.

- Matrias-primas: no foi por acaso que
as indstrias txteis e de alimentos
iniciaram o processo fabril brasileiro,
pois estavam intimamente relacionadas
com a produo desse pas tipicamente
agrrio. Mas mesmo esses setores
industriais  precisavam importar outras
matrias-primas que no eram fabricadas
aqui, como anilinas, corantes, fios de
juta, feltros (para chapus), malte
(cerveja), ferro e ao (para os setores
metalrgicos). A obteno desses
produtos vinculava-se  capacidade
exportadora das regies, e nesse ponto
So Paulo tambm se destacava pelas
atividades cafeeiras. A I Guerra,
entretanto, interrompeu o fornecimento
desses insumos, exigindo que o governo e
os empresrios se engajassem num esforo
para produzir aqui muitas
matrias-primas antes importadas. Isso
aconteceu ao longo da dcada de 20 (com
maiores resultados a partir de 1930),
caracterizando um processo de
substituio de importaes.

- Proteo governamental para a
indstria: durante o perodo de 1889 a
1914, o etor industrial txtil
predominou em vrias regies do Brasil
porque utilizava matria-prima (algodo)
produzida no local. Nessa poca,
entretanto, o governo no  isentava as
indstrias brasileiras de impostos e
aplicava taxas alfandegrias quase
simblicas aos produtos importados,
principalmente aos da Inglaterra.

 J na dcada de 20, a proteo
governamental resultou nos aumentos dos
preos das importaes como conseqncia
da desvalorizao da moeda brasileira.
Diante da recuperao da economia
europia e do crescimento da economia
norte-americana, o governo federal no
tinha um programa econmico para
desenvolver a industrializao de forma
geral, por isso passou a incentivar as
iniciativas fabris individuais. Mas os
estmulos com subsdios e emprstimos de
capitais no eram constantes e no
produziram grandes efeitos no processo
de industrializao. Assim "a formao
de capital na indstria de transformao
ainda era em grande escala baseada no
capital originalmente acumulado em
atividades ligadas ao setor exportador,
pelo menos at o fim da dcada de 1920".

No descontentamento dos cafeicultores, o
fim da Repblica Velha

 Embora ocorresse de forma
descentralizada, um amplo processo de
industrializao estava em curso no
Brasil dos anos 20. Mas a crise de 1929
- marcada pela superproduo de
mercadorias sem compradores - acelerou
as contradies entre os setores
agrrios e industriais.

 Mais uma vez, diante de outra crise, os
cafeicultores paulistas exigiram nova
valorizao do produto, concesses de
crditos, subsdios ao pagamento das
dvidas, juros baixos, prorrogao dos
prazos para pagar os emprstimos. Mas o
presidente Washington Lus (1926-1930),
notadamente favorvel  poltica
econmica de So Paulo, no compreendeu
claramente a extenso da crise econmica
e no atendeu aos pedidos do setor
cafeeiro, preferindo acreditar que os
importadores ampliariam a compra do caf
para elevar os estoques e, no momento
adequado, aumentar os preos,
compensando, desta forma, os prejuzos
momentneos. Nada disso aconteceu e o
presidente acabou por perder o apoio
poltico, econmico e social dos
latifundirios paulistas, sendo deposto
pela Revoluo de 30.

 Por isso, a repblica do Caf-com-Leite
(aliana dos cafeicultores de So Paulo
com os latifundirios de Minas Gerais,
produtores de leite, queijo e indstrias
de laticnios) no sustentou o modelo de
repblica no Brasil, baseado na
monocultura cafeeira, em latifndios e
na mo-de-obra barata.

 Afinal, o Brasil j no era apenas um
exportador de complementos de sobremesa.
"Podemos dizer que, graas s ampliaes
de sua capacidade produtiva, atravs da
importao de bens de capital" (mquinas
e equipamentos) "e pla sua
diversificao, o campo industrial
preparou-se para a recuperao da
economia como um todo depois da crise de
1929", bem como os setores agrcolas.

 De 1930 at a dcada de 80, o Brasil
continuou implementando novas relaes
produtivas, adequando sua economia aos
quadros da completa internacionalizao
do capitalismo. A regio brasileira
permanecer cumprindo sua funo
histrica essencial  organizao
capitalista, ou seja, vender
matrias-primas. S que, nos dias
atuais, ao invs de importar manufaturas
- como fazia ao longo dos sculos
coloniais at 1870, data do incio de
nossa industrializao -, o Brasil
consome produtos sofisticados como
computadores, videocassetes, antenas
parablicas e outros.

 A interveno do Estado na economia
(Getlio Vargas), o desenvolvimento
acelerado (Juscelino Kubitschek), as
reformas de base (Joo Goulart), o
"milagre econmico" (ditadura militar) e
o fracasso do Plano Cruzado, com suas
repercusses em 1988, sero os temas do
livro IV


A REPBLICA DA ESPADA

  A Repblica foi conseqncia de um
conjunto de fatores pelos quais a
sociedade brasileira passou a partir de
1850 e, principalmente, ao longo das
dcadas de 1870 e 1880. (Um desses
fatores foi a substituio do trabalho
escravo pelo assalariado (de 1850 at o
final da dcada de 1880). Outro foi o
desenvolvimento das cidades e dos
setores industriais, o que permitiu o
crescimento das classes mdias urbanas e
de uma burguesia industrial (a partir de
1870). Essas transformaes decorreram
do processo de alteraes da economia
brasileira como reflexo do
desenvolvimento do capitalismo
internacional.

 No mbito da poltica externa, a Guerra
do Paraguai representou a consolidao
da hegemonia brasileira na Amrica do
Sul. Mas essa hegemonia foi fruto de
manipulaes externas, pois o Brasil
recebeu apoio e estmulo da Inglaterra
para destruir o Paraguai. Esse pas
havia rompido a ordem imperialista,
constituindo uma economia agrria e
industrial autnoma, sem laos com a
Inglaterra. Para os britnicos, isso
podia ser o comeo de uma Amrica Latina
independente - e o Brasil foi o
instrumento de extirpao desse perigo,
ao fazer com que tod a Amrica
espanhola e portuguesa continuasse na
funo de fornecedora de matrias-primas
e minrios e compradora de produtos
industriais da Europa.

 A destruio do modelo econmico
paraguaio tambm foi til para as elites
agrrias brasileiras, pois representava
uma alternativa politica e econmica
diferente  dos latifndios monocultores
escravistas que sustentavam essa elite.

 Mas, se no mbito continental a vitria
do Brasil contra o Paraguai assegurou a
supremacia do imperialismo capitalista,
no mbito interno o esforo dessa guerra
serviu para unificar o Exrcito
brasileiro e aumentar seu contingente,
tornando-se uma grande fora politica,
decisiva para a proclamao da
Repblica.

nos 1870: a gestao da Repblica

 Na dcada de 1870, os donos de terras e
de escravos j no podiam controlar a
ascenso das classes urbanas e da
emergente burguesia cafeeira do Oeste
Paulista (Campinas, Piracicaba, Limeira,
Ribeiro Preto), que assalariava seus
trabalhadores e diversificava seus
capitais, investindo na
industrializao.

 Nessa poca surgiu o Partido
Republicano, formado por uma dissidncia
do Partido Liberal e apoYado por setores
do Exrcito j favorecido pela Guerra do
Paraguai. O Partido Republicano
compunha-se de fazendeiros e classes
mdias urbanas, e sua atuao era mais
organizada no Rio de Janeiro, So Paulo
e Rio Grande do Sul.

 J em 1873, os paulistas realizaram a
Conveno de Itu para organizar o
Partido Republicano Paulista, criando
clubes e jornais. Assim, em 1875, nasceu
o jornal A Provincia de S. Paulo (que
depois da Repblica passaria a chamar-se
O Estado de S. Paulo) para divulgao da
proposta republicana.

 No Rio de Janeiro, o movimento
republicano foi liderado pelas classes
mdias urbanas, j que os latifundirios
fluminenses estavam mais comprometidos
com a monarquia,  pois a cidade do Rio
sediava o Imprio. As camadas mdias
viam na Repblica a realizao de
mudanas capazes de desenvolver a
industrializao e as profisses
liberais (como mdicos, advogados,
engenheiros, professores). As demais
regies brasileiras se apoiavam nas
lideranas polticas de So Paulo e do
Rio de Janeiro.

Dois grupos republicanos

 No perodo de 1873 a 1889,
configuraram-se dois grupos polticos
dentro do Partido Republicano: os
republicanos histricos ou
evolucionistas e os republicanos
revolucionrios ou idealistas.

 O primeiro grupo, liderado por Quintino
Bocaiva, aglutinava personalidades como
Aristides Lobo, Rui Barbosa, Saldanha
Marinho, Jos Prudente de Morais, Campos
Salles, Rangel Pestana e Francisco
Glicrio. No setor militar, o
evolucionista Benjamin Constant,
professor da Escola Militar do Rio de
Janeiro, difundia as idias positivistas
e adequava-as ao regime republicano.

 J o grupo dos idealistas tinha em
Silva Jardim a principal liderana e
ganhou fora no Rio de Janeiro e em
Pernambuco. Republicanos idealistas,
comandados por Silva Jardim, Lopes
Trovo e Jos do Patrocnio, apoiavam a
idia de luta armada, de carter
popular, para a derrubada da monarquia e
a instalao do regime republicano. A
propaganda desse grupo procurava atingir
os setores das camadas populares,
conclamando-as  luta armada.

 Para amenizar e mesmo afastar o grupo
de Silva Jardim, os republicanos
evolucionistas se organizaram de forma a
impedir que os revolucionrios ocupassem
cargos dentro do Partido Republicano.

Federalismo e autonomia

 Os evolucionistas se baseavam nas
teorias positivistas para criticar os
idealistas. Como afirma o professor
Roberto Romano: "O pensamento
positivista, antiparlamentar e contrrio
s constituies produzidas de modo
democrtico, tem muita responsabilidade
pelas vrias ditaduras, encarnadas no
predominio do esecutivo em nosso pais".

 O positivismo influenciou as escolas
militares; seu evolucionismo histrico
afirmava ser a repblica um modo de
organizao poltica superior 
Monarquia, vista como estgio superado e
incapaz de manter o Brasil ao nivel dos
pases mais desenvolvidos. Na campanha
republicana, o federalismo era defendido
como forma de resolver as contradies
econmicas e sociais das diversas
regies do pas.

 O federalismo era apoiado pela
burguesia usineira e cafeeira, que via a
possibilidade de obter mais poderes
decisrios sobre suas regies e
interesses locais. Esse setor mais
avanado da burguesia era favorvel 
libertao dos escravos,  contratao
de assalariados e  liberdade de fazer
emprstimos externos sem depender  de um
governo central.

 Assim, a abolio dos escravos e a
Repblica eram faces de uma mesma moeda.
A Monarquia representava a velha ordem
colonial em sua estrutura econmica,
enquanto a Repblica simbolizava a
vitria do trabalho assalariado sobre o
escravo e a ascenso da burguesia
agrria cafeeira sobre as elites
agrrias tradicionais.

 Alm das campanhas abolicionistas, as
chamadas questo religiosa e questo
militar foram sintomas do desgaste
poltico da Monarquia de 1887 a 1889,
quando o Imprio viveu momentos
agitados. A partir de 1887, o Partido
Republicano inclinou-se para a soluo
militarista como forma de resolver as
crises polticas (descrdito da
Monarquia como instituio) e econmicas
(diminuio das exportaes cafeeiras).

O fim da Monarquia

 Na ltima tentativa de solucionar as
crises, no dia 11 de junho de 1889, o
primeiro-ministro visconde de Ouro Preto
apresentou ao Parlamento as seguintes
propostas de reformas liberais:

- ampliao do direito de voto, que
ento se restringia s pessoas de alta
renda, a todos os que soubessem ler e
escrever;

- plena autonomia dos municipios e
provncias;

- fim do senado vitalcio (os senadores
ficavam no cargo at a morte);

- criao de estabelecimento de emisses
de papel-moeda e facilidade de crdito
para os setores agrcolas;

- pleno direito de reunies;  casamento
civil obrigatrio;

- plena liberdade de religio;

- plena liberdade de ensino;

- leis facilitadoras de aquisio de
terras, desde que se respeitassem os
direitos dos proprietrios;

- incentivo  imigrao (barateando
ainda mais a mo-de-obra para diminuir
os custos de produo).

 Mas essas reformas no conseguiram
evitar a queda da monarquia, e o clima
era de conspirao contra o regime. O
Marechal Manoel Deodoro da Fonseca
aparece como o militar capaz de
representar os interesses conspiradores
republicanos, pois ele tinha prestgio
entre as tropas. O Exrcito estava
descontente com os privilgios da Guarda
Nacional, conjunto de tropas
particulares chefiadas por fazendeiros,
que recebiam do imperador o ttulo de
coronis.

 A 11 de novembro de 1889, o Marechal
Deodoro reuniu-se, em sua prpria casa,
com os republicanos Francisco Glicrio,
Aristides Lobo, Quintino Bocaiva, major
Slon Sampaio Ribeiro, Rui Barbosa e
Benjamin Constant.

 No dia 12 de novembro, "o imperador foi
para Petrpolis, fugindo ao calor do Rio
de Janeiro. Na manh do dia 15 o Conde
D'Eu (genro de D. Pedro II) ainda fez
seu passeio a cavalo pelo bairro de
Botafogo (RI) e s  tarde veio a saber
que as tropas do Exrcito estavam
cercando o Ministrio da Guerra.

 No comeo da tarde do dia 15, Deodoro
criticou duramente os polticos e
defendeu as naes militares "para o bem
da ptria": s 15 horas, na Cmara
Municipal do Rio de Janeiro, j com o
apoio da Marinha e de outros quartis do
Exrcito, a Repblica foi oficialmente
proclamada. As tropas se retiraram para
os quartis e  noite, por volta das 19
horas, Deodoro foi aclamado por um grupo
de republicanos em frente  sua casa.

O comeo da Repblica

 Intimada pelos militares, a familia
imperial deposta teve que deixar o
Brasil. Se, por um lado, no houve
manifestaes de grande apoio popular 
Repblica, por outro no ocorreram
reaes importantes contrrias 
proclamao.

 A mudana de regime poltico
realizou-se sem traumas ou violncias.
Tratava-se mais uma vez de um arranjo
poltico que favorecia novas foras
sociais: as classes mdias urbanas, os
fazendeiros que optaram pela contratao
de trabalhadores assalariados, a
nascente burguesia industrial e o
Exrcito.

 Assim, entre concesses e conciliaes,
esses setores sociais dominantes
articularam a passagem da Monarquia para
a Repblica, mantendo o povo afastado
das decises  do Estado.

 A articulao do poder entre os grupos
economicamente abastados tem sido a
caracterstica principal no Brasil,
quando surgem momentos de crise
poltica. Novamente,  as classe
latifundirias, notadamente seus setores
mais modernos, isto , os cafeicultores
paulistas e mineiros, controlaram (de
1889 a 1930) a poltica nacional,
criando amplos mecanismos, como fraudes
eleitorais, corrupo e violncia de
todo tipo, para se manterem no poder.

Os militares garantem a Repblica

Vrios grupos, um s objetivo

 A implantao do novo regime foi
difcil, pois vrios setores que haviam
participado na derrubada da Monarquia
disputavam o poder. O Governo Provisrio
refletia a indefinio na disputa pelo
controle do Estado. Entre setores
militares, o Exrcito preponderava sobre
a Marinha, pois aquele organismo foi
diretamente mais responsvel pela
proclamao.

 Nos setores civis ocorriam divises
entre os grupos polticos: os
republicanos histricos, liderados por
Benjamin Constant e Quintino Bocaiva;
os republicanos  objetivos, liderados
por Prudente de Morais e Campos Salles;
e os republicanos radicais, tendo 
frente Silva Jardim, Lopes Trovo e Jos
do Patrocnio.

 Os republicanos histricos ou
positivistas defendiam uma repblica
militar e autoritria, um regime de
ditadura poltica para promover o
progresso do Brasil. Segundo  eles;'o
Esrcito deveria ter uma posio
importante na direo do Estado na
Repblica, gerando a ordem necessria ao
progresso capitalista. Os militares eram
'puros e patriotas; enquanto os civis,
'os casacas; eram corruptos e sem nenhum
sentimento patritico".

 J os republicanos objetivos, que
durante a Monarquia estiveram ligados
aos histricos, separaram-se destes
quando a liderana positivista props um
regime ditatorial  atravs dos
militares. Os representantes dos
republicanos objetivos eram os grandes
fazendeiros cafeicultores paulistas e
usineiros nordestinos, desejosos de uma
repblica oligrquica, isto ,
controlada pelos grandes fazendeiros que
constituam a burguesia rural de So
Paulo e de Minas Gerais.

 Enquanto isso, o terceiro grupo, o dos
republicanos radicais, representava os
interesses das classes mdias urbanas e
os anseios das classes populares.
Defendia  uma repblica na qual houvesse
maior participao do povo.

 Essas alas polticas disputavam
ferrenhamente o controle do poder dentro
do Partido Republicano. Da o surgimento
das primeiras crises republicanas. O
estopim dos conflitos de idias foi a
escolha de nomes para os governos dos
Estados. Cada grupo tentava impor homens
ligados aos seus interesses.

Governo provisrio: crises e desgastes

 Enquanto isso, o problema econmico
desgastava o governo provisrio. A
poltica econmica de Rui Barbosa,
ministro da Fazenda, intensificava a
crise financeira. O pas herdara da
Monarquia uma balana comercial
desequilibrada (isto , gastava mais com
importaes do que ganhava com
exportaes) e precisava obter recursos
para financiar a expanso e melhoria dos
portos, ferrovias e instalao de
indstrias.

 O ministro Rui Barbosa, adepto do
positivismo, acreditava que uma rpida
industrializao seria a resposta. Alm
disso, achava que uma economia
industrial forte consolidaria a
Repblica e o estabelecimento da
democracia de modelo burgus europeu
enorte-americano. Mas essa tentativa de
industrializao a todo custo acabaria
por gerar novas crises de amplas
propores.

 Apoiado pelos pequenos industriais e
pelas camadas mdias urbanas, Rui
Barbosa abriu linhas especiais de
crditos para a instalao de fbricas
no Brasil. Ao mesmo  tempo, facilitou a
importao de matrias-primas.

 Para efetivar essa poltica, Rui
Barbosa teve de aumentar a emisso de
papel-moeda. Criou trs regies
bancrias: uma no Norte (com sede em
Salvador); a segunda na Capital Federal
(Rio de Janeiro); e a terceira no Sul
(Porto Alegre). Comearam, ento, os
problemas.

 As primeiras crticas a essa economia
vieram de dentro do prprio governo.
Campos Salles, um dos republicanos
objetivos e ministro da Justia,
opunha-se a esse tipo de poltica
industrializante. Na verdade, esse lder
expressava o pensamento da oligarquia
paulista cafeeira, que se sentiu
prejudicada por no ter sido beneficiada
pelos emprstimos do governo e temia o
aumento da influncia das classes
burguesas industriais no governo. Esses
latifundirios iniciaram, em 1890, uma
campanha para a queda do ministro da
Fazenda.

 O fracasso da poltica do Encilhamento
no deve ser atribudo exclusivamente a
Rui Barbosa. Os recursos financeiros
eram pequenos e os capitais acumulados,
nos fins do sculo XIX, vinham quase
exclusivamente do setor cafeeiro. Alm
disso, o mercado interno era restrito
para consumir a produo industrial em
larga escala, como pretendia o ministro,
e, no jogo do capitalismo internacional,
o Brasil ocupava a posio de exportador
de matrias-primas e comprador de
mercadorias fabris das potncias
industriais mais desenvolvidas.

A constituio liberal de 1891

 Enquanto a crise se acentuava, o
marechal Deodoro da Fonseca, pressionado
pelos governos estaduais, principalmente
o de So Paulo, resolveu convocar
eleies para a Assemblia Constituinte.
No dia 15 de setembro de 1890 foram
escolhidos os senadores e deputados
encarregados de elaborar uma nova
Constituio.

 As eleies foram fraudadas para
garantir a representatividade da elite e
a Constituinte foi instalada no dia 15
de novembro de 1890. Cada um dos grupos
polticos acusava o outro de fraude. Mas
os republicanos objetivos conseguiram
obter a maioria no Congresso. Os
histricos e radicais formavam a
minoria. O marechal Deodoro  tentou
ganhar deputados e senadores para
faz-los subservientes ao governo
atravs de sucessivas manobras
polticas, como promessa de cargos
pblicos, dinheiro e outras concesses.
Mas os republicanos objetivos, liderados
por Prudente de Morais, conseguiram
aprovar os artigos constitucionais que
lhes interessavam. Prudente de Morais -
oligarca paulista - havia sido eleito
presidente do Senado com o dobro de
votos de seu adversrio Saldanha
Marinho, representante do esquema de
Deodoro.

 No dia 24 de fevereiro de 1891, o
Congresso e o presidente promulgaram uma
Constituio - a segunda do Brasil e a
primeira da Repblica - de carter
liberal e dentro do jogo democrtico dos
interesses da burguesia cafeeira.

 Os pontos mais significativos da nova
Constituio eram:

- Federalismo: as provncias passaram 
condio de Estados e o pas se tornou
uma federao denominada Estados Unidos
do Brasil. Nesse esquema federalista, os
Estados tinham autonomia para realizar
constituies prprias, fazer
emprstimos externos, arrecadar
impostos, eleger governadores e at
possuir corporao prpria.

- Regime representativo: o presidente da
Repblica, os presidentes estaduais e os
membros do Congresso Nacional - composto
pela Cmara de Deputados e pelo Senado,
formando o Poder Legislativo - seriam
eleitos pelo povo, exceto pelos
analfabetos, mendigos, mulheres,
soldados e menores de 21 anos.

- Presidencialismo: o presidente da
Repblica tornava-se o chefe da
Federao, podendo interferir nos
Estados, quando algum deles apresentasse
tendncia de separao, ou ainda no caso
de invaso externa. Uma ltima
atribuio presidencial era a de
interveno nos conflitos entre os
Estados. No caso de impedimento do
presidente, seu cargo seria ocupado pelo
vice-presidente. O presidente ocuparia o
cargo por quatro anos, ficando
impossibilitado de reeleger-se por um
outro perodo imediato.

- Leis gerais: era reconhecida a
igualdade de todos perante a lei, a
liberdade e segurana individual e,
principalmente, a garantia de plenos
direitos  propriedade. Haveria, ainda,
a separao entre Igreja e Estado,
instituindo-se o registro de nascimento,
o registro de casamento civil e o
atestado de bito. No havia,
entretanto, total liberdade de culto,
pois as religies de origem africana,
como centros e terreiros de umbanda e
candombl, eram freqentemente fechados
e seus membros perseguidos e presos pela
polcia. Os indgenas foram ignorados
pela Constituio. Apenas em 1909 o
governo federal se preocuparia com essa
populao, criando-lhe leis de amparo.

Governo constitucional: continuam as
crises

 Aprovada a Constituio, os
constituintes transformaram-se em
membros do Congresso Nacional. Assim,
deputados e senadores elegeram o
primeiro presidente. Duas chapas
apresentaram-se para ocupar o cargo: uma
formada pelo Marechal Deodoro da Fonseca
como presidente, tendo Eduardo
Wandenkolk como vice, e outra formada
por Prudente de Morais, com Floriano
Peixoto como vice. O Marechal Deodoro da
Fonseca acabou eleito presidente ( 129
votos contra 97 dados a Prudente de
Morais) e a vice-presidncia ficou com
Floriano Peixoto (153 votos contra 57 de
Wandenkolk).  Na poca era permitido
votar para presidente e vice de chapas
diferentes.

 O governo constitucional de Deodoro
acumulou crises. Os problemas com a
fracassada politica do Encilhamento
provocaram crticas de todos os setores
sociais e os jornais'alardeavam os casos
de empresas "fantasmas", desvios de
verbas, corrnpes, gastos excessivos do
governo. A crise tambm se estendia aos
quartis, nos  quais o prestgio de
Deodoro se abalava. Deodoro governava o
pas como se estivesse no quartel: dava
ordens, no consultava a classe
poltica, mantinha-se distante das
discusses congressistas e irritava-se
facilmente com as impossibilidades de
resolver as crises a seu modo, ou seja,
autoritrio e ditatorial.

 As lideranas dos cafeicultores no
Congresso eram exercidas por Prudente de
Morais, Campos Salles e Bernardino de
Campos, que se opunham  poltica do
Marechal  Deodoro.

 A 22 de agosto de 1891, o Congresso
apoiou um conjunto de leis para
restringir o poder do presidente. No
final de outubro, Deodoro vetou essas
leis e ao mesmo tempo tentou armar um
golpe de Estado.

 No dia 3 de novembro de 1891, o
presidente fechou o Congresso e declarou
o estado de stio no pas, ou seja,
suspendeu as garantias individuais e as
liberdades  dos cidados - qualquer
pessoa poderia ser acusada de
conspirao contra o governo, sendo
imediatamente presa e julgada.

 Rapidamente formaram-se os blocos de
resistncia contra as tentativas de
implantao de uma ditadura militar no
Brasil. As oligarquias de So Paulo,
Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do
Sul opuseram-se ao fechamento do
Congresso e ao estado de stio. Os
setores militares tambm no concordaram
com as iniciativas do Marechal.
Percebendo a gravidade da situao, o
vice-presidente Floriano Peixoto
articulou o apoio da Marinha, dos
polticos congressistas e dos governos
estaduais. Mas Deodoro insistiu no golpe
e ordenou a priso, sem sucesso, dos
lderes da Marinha, Eduardo
Wandenkolk(antigo aliado que se tornou
inimigo do presidente)e Custdio de
Melo. Esses comandantes da Marinha
organizaram uma estratgia  militar
apontando os canhes dos navios
Iguatemi, Riachuelo, Solimes, Araguari
e Marclio Dias para a cidade do Rio de
Janeiro.

 Deodoro compreendeu que qualquer
resistncia poderia conduzir o pas a
uma guerra, e no dia 23 de novembro
renunciou ao cargo, passando a
presidncia para Floriano Peixoto.
Encerravam-se nove meses de governo
constitucional.

Floriano: o autoritarismo consolida a
Repblica

 "Floriano representou a defesa e a
consolidao do novo regime, liderando
um executivo forte, defendendo uma
centralizao autoritria e
proporcionando, por um lado, o apoio
social necessrio para a manuteno da
Repblica e, por outro, a ascenso da
burguesia cafeeira".

 O novo Marechal suspendeu o estado de
stio e reabriu o Congresso. No entanto,
procedeu  derrubada dos presidentes
estaduais (com exceo de Lauro Sodr,
do Par, que, embora fiel a Deodoro, no
ltimo instante no concordou com o
golpe) e sua substituio por homens de
sua confiana.

 Membros do Partido Republicano
Paulista, como Bernardino de Campos
(presidente da Cmara Federal) e
Prudente de Morais (presidente do
Senado), legitimaram as medidas  de
fora do presidente. Ao mesmo tempo, o
Ministrio das Finanas foi entregue a
Rodrigues Alves, oligarca paulista,
mostrando, assim, o reconhecimento aos
cafeicultores de So Paulo. Floriano
tambm buscou apoio nas baixas camadas
mdias urbanas (funcionrios pblicos,
empregados do comrcio, alfaiates,
sapateiros, quitandeiros, donos de
pequenos armazns) e na nascente classe
operria. Essas baixas camadas estavam
descontentes com Deodoro e haviam
promovido diversas manifestaes de rua
contra o governo e greves (como a dos
ferrovirios da Central do Brasil,
quando da tentativa de golpe). As
reclamaes do povo encontravam respaldo
de intelectuais (escritores,
professores, jornalistas), mdicos,
advogados, engenheiros e outros
representantes da classe mdia que
tambm desejavam ascenso econmica e
poltica.

 Medids econmicas e sociais foram
aplicadas para obter o apoio dessas
camadas como tentativa de dar "uma forte
colorao popular ao regime, necessria
para a sua manuteno. Por isso Floriano
baixou os aluguis das casas operrias,
isentou de impostos a carne, barateando
o produto, e decretou leis para
controlar o preo dos alimentos de
primeira necessidade. No conjunto, essas
medidas promoveram uma momentnea
melhora na economia nacional,  sem, no
entanto, mexer na organizao
agroexportadora cafeeira.

 Mas essa poltica descontentava as
oligarquias e os setores militares
tradicionais, como a Marinha, pois as
elites agrrias e industriais tinham
receio de que a classe mdia e os
operrios das cidades viessem a se
fortalecer e conseguissem "privilgios",
como aumento de salrios, que
diminuiriam o lucro dos capitalistas.

  evidente que essas medidas tinham uma
inteno apenas aparente, pois o
objetivo de Floriano era conquistar
apoio popular imediato, para enfrentar
as crises e consolidar as elites
agrrias no poder. Como se tratava de
uma luta pelo poder entre Exrcito e
Marinha e entre os vrios grupos das
elites de So Paulo, Par, Rio Grande do
Sul, Rio de Janeiro e Bahia, o Marechal
tentava coordenar os diversos interesses
em jogo para o controle poltico do
Estado.

 Para combater Floriano, seus opositores
utilizaram um dispositivo da
Constituio: o que definia que, caso a
presidncia ficasse vaga e o presidente
no tivesse cumprido metade de seu
mandato (isto , 2 anos), o vice
assumiria apenas por trs meses, tempo
para que se realizassem novas eleies
presidenciais.

Uma onda de revoltas

 Mas o Marechal Floriano baseou-se num
artigo transitrio da Constituio (que
lhe garantia a permanncia no poder at
o final da gesto, porque seu governo
representava uma transio entre a
Monarquia e a Repblica) para conseguir
que os polticos aprovassem sua
permanncia no poder at 1894.

 Como reao  continuidade de Floriano
no poder emergiram duas rebelies
visando a sua deposio: a Revoluo
Federalista gacha e a I Revolta da
Armada no Rio de Janeiro.

 A Revolta Federalista explodiu no Rio
Grande do Sul e rapidamente
transformou-se numa verdadeira guerra
civil entre dois grandes oligarcas
gachos: de um lado, os federalistas ou
maragatos, liderados por Gaspar Silveira
Martins; de outro, os republicanos,
chimangos ou pica-paus, comandados por
Jlio de Castilhos.

 Os federalistas defendiam o poder
federal forte, centralizado e a
instalao de um regime parlamentarista
semelhante ao que existia no Segundo
Reinado. J os republicanos,
influenciados pelo positivismo, tinham
posies prximas s de Floriano. O
presidente do Estado, Jlio de
Castilhos, perseguiu os federalistas. Em
1893, os confrontos entre maragatos e
chimangos ultrapassaram as fronteiras do
Rio Grande do Sul, atingindo as regies
prximas ao Uruguai.

 Os conflitos armados no Rio Grande do
Sul resolveram-se apenas em 1895, no
governo de Prudente de Morais, que
favoreceu os chimangos, mas anistiou os
maragatos. "A Revoluo Federalista
durou 31 meses (...) Componentes de
grande selvageria contribuiram para
tornar a revolta tristemente clebre.
Republicanos e federalistas, movidos
pelos chefes politicos locais,
massacravam-se reciprocamente. As
populaes sulistas envolvidas no
conflito (inclusive polacos e italianos
radicados em colnias) passaram por toda
sorte de privaes". No final, 10 000
pessoas atravessaram as fronteiras
gachas e aproximadamente 12 000
morreram nos combates.

 Enquanto se desenrolavam as lutas
gachas, a Marinha Armada do Rio de
Janeiro, sob o comando do almirante
Custdio de Mello, se rebelou em
setembro de 1893. As principais causas
da Revolta da Armada foram:

- disputas pelo poder entre os oficiais
do Exrcito e da Marinha representantes
de classes sociais distintas: enquanto o
Exrcito representava os setores das
classes mdias urbanas e alguns de seus
oficiais eram oriundos dessas classes, a
Marinha  era uma corporao mais
elitista, cujos membros oficiais eram
descendentes das classes oligrquicas;

- polticos que se opunham a Floriano
utilizaram-se das rivalidades entre as
duas corporaes para tirar o Marechal
do poder, insullando a Marinha contra o
presidente;

- o almirante Custdio de Melo estava
descontente com Floriano, pois pretendia
suced-lo na presidncia e se sentiu
trado quando Floriano passou a apoiar
outro candidato, Prudente de Morais.

 Para justificar a revolta, Custdio de
Mello acusava a inconstitucionalidade do
Marechal na presidncia, bem como suas
pretenses de permanecer no cargo. Os
rebeldes tentavam desembarcar em Niteri
para comear o cerco   capital. Sob as
ordens de Custdio, os navios
bombardearam a cidade do Rio. Nesse
momento, formaram-se batalhes populares
contra os revoltosos. Os cariocas,
mal-informados pelas autoridades,
acreditavam que os rebeldes eram
monarquistas desejosos de derrubar a
Repblica e se organizaram resistncias
populares. De qualquer forma, ficou
evidenciado o apoio das camadas
pauperizadas ao governo. Percebendo a
impossibilidade de continuar a luta, os
rebeldes dirigiram-se para Santa
Catarina, formando um "governo
provisrio", na cidade de Desterro,
unindo-se aos federalistas gachos.

 O presidente reorganizou seus aliados,
comprou navios dos Estados Unidos,
colocou no comando homens de sua
confiana e, respaldado pela burguesia
cafeeira paulista,  iniciou uma
contra-ofensiva. Obteve vitria ao
retomar a sede do "governo provisrio"
na ilha do Desterro - que a partir
daquele momento passou a chamar-se
Florianpolis (hoje capital de Santa
Catarina).

 No Rio, a esquadra de Jernimo
Gonalves, amigo do Marechal, cercou os
navios dos rebeldes. A revolta terminou
a 13 de maro de 1894.

Partidos: garantias aos paulistas

  "O papel de Floriano, vencendo a
oposio e consolidando as instituies
republicanas, foi fundamental para os
seus aliados paulistas. Dotados de
recursos politicos mais estveis e da
maior fora econmica do pais, os
republicanos paulistas prepararam sua
ascenso, Assim, enquanto o Exrcito
assegurava a transio republicana, os
grupos oligrquicos preparavam-se para
assumir o controle do Estado do Brasil.
De todas as oligarquias, a de So Paulo
tinha maior organizao representativa
entre os latifundirios. (O PRP -
Partido Republicano Paulista - fora
criado em 1873, durante a Conveno de
Itu.) Em 1893, os deputados e senadores
paulistas, apoiados por congressistas de
outros Estados, fundaram o Partido
Republicano Federal - PRF

 A nova agremiao partidria tinha duas
finalidades: primeiro, apoiar o governo
de Floriano, como garantia ao
fortalecimento da Repblica e, segundo,
anicular a transio de governos
militares para civis. A presidncia do
PRF ficou com o Marechal Francisco
Glicrio, homem do esquema florianista,
que procurou orientar os rumos do
partido para os projetos do presidente.

 Enquanto isso, os grupos civis do PRF
organizavam as lideranas polticas nos
Estados e dentro do Congresso para
solidificar a hegemonia dos paulistas
sobre o esquema oligrquico. Mas "o PRF
era um partido limitado, pela sua origem
e motivao. Sua composio era
estremamente heterognea (liberais,
conservadores e republicanos histricos
e, nas vsperas da eleio de Prudente
de Morais, os adesistas)".

REPBLICA DAS OLIGARQUIAS

 Indicado pelo Partido Republicano
Federal (PRF) de So Paulo, Prudente de
Morais ganhou a eleio presidencial de
12 de junho de 1894, sendo empossado
junto com o vice, Manoel Vitorino, a 15
de novembro.

 O governo de Prudente de Morais
(1894-1898) empenhou-se na consolidao
de uma economia baseada na
agroexportao, desalojando setores das
classes mdias urbanas que faziam parte
de vrios organismos do governo federal.
Gradativamente, a poltica econmica de
Floriano foi sendo abalada, refreando-se
a expanso industrial e a importao de
maquinaria, de matrias-primas e de
insumos favorveis a industrializao.

Os paulistas no poder

 Dois fatos marcaram o governo de
Prudente de Morais: a rebelio de
Canudos e a diviso do Partido
Republicano Federal.

 Identificado erroneamente com a reao
monarquista contra o governo
republicano, o movimento messinico de
Canudos (que ser tratado no prximo
capitulo) revigorou a oposio contra o
governo no Rio de Janeiro, fazendo
ressurgir  ideais de volta  Monarquia e
fortalecendo a oposio ilorianista. Mas
as manifestaes ocorridas na capital
federal foram prontamente reprimidas,
com saldo de algumas mortes.  A
perseguio aos Ilorianistas provocou
tenses no PRF. Francisco Glicrio,
presidente do partido, protestou contra
essa perseguio (afinal, ele era um
florianista e foi apoiado pelas
oligarquias gachas e piauienses). Mas
foi o bloco dos paulistas, mineiros e
baianos que conseguiu controlar a crise
partidria. E a liderana de So Paulo
voltou a consolidar-se. O grupo
florianista afastou-se do partido,
deixando o caminho livre para a
hegemonia dos cafeicultores.

 A luta contra os rebeldes de Canudos,
que foram chacinados em 1897, depois de
quatro investidas do Exrcito, teve
impacto negativo para essa instituio.
Afinal, o povo de Canudos no passava de
um grupo de homens, mulheres, velhos e
crianas armados apenas de paus e pedras
- e o Exrcito s conseguiu domin-los
com muita dificuldade. Depois desse
fiasco e da carnificina relatada por
Euclides da Cunha em Os Sertes, os
militares no estavam mais em condies
de almejar o poder A sada era voltar
aos quartis.

 Apesar dos problemas que enfrentou a
nvel interno, o governo de Prudente de
Morais obteve importantes xitos na
politica externa. Primeiro, conseguiu a
posse da ilha de Trindade, localizada no
litoral do Esprito Santo e ocupada
desde 1895 pelos ingleses, que desejavam
instalar um cabo submarino ligando a
Argentina  Europa a partir da ilha.
Segundo, resolveu questes de fronteira
com a Argentina, obtendo para o Brasil
cerca de 25 000 km2 de uma rea onde nos
sculos  XVII e XVIII haviam se
instalado algumas misses jesuticas: a
regio de Palmas - fronteira entre Santa
Catarina, Rio Grande do Sul, Paran e
Argentina.

 O ltimo acontecimento que marcou o
perodo de 1894 a 1898 foi uma tentativa
de assassinar o presidente. Quando este
passava em revista as tropas militares
vitoriosas da Guerra de Canudos, o
suboficial Marcelino Bispo disparou-lhe
um tiro de pistola. Embora no tenha
atingido Prudente de Morais, a bala
feriu mortalmente o ministro da Guerra,
Marechal Bittencourt. Prudente de Morais
aproveitou-se do fato para perseguir e
prender seus adversrios, pois o
Congresso aprovara seu pedido de
decretao de estado de stio.

"Foi assim, primeiro usando o Exrcito
contra a Monarquia, depois criando um
aparato partidrio alternativo para o
Exrcito (o PRF), que os cafeicultores
paulistas chegavam ao fim do mandato de
Prudente de Morais, em condies de
exercer o poder sem intermedirios e com
poucas concesses."

Governo Campos Salles

 A partir do governo de Prudente de
Morais montou-se o aparato da dominao
do pas pelas oligarquias de So Paulo
com o apoio das de Minas Gerais. A
poltica nacional passou a ser dirigida
pelos interesses dessas duas regies.

 Lanado pelo PRF, o candidato
presidencial, Campos Salles, iniciou sua
campanha em 1897, quando ainda era
governador de So Paulo. Filho de rica
familha de Campinas, cidade do interior
paulista, Campos Salles teve formao
conservadora e foi colega de Prudente de
Morais na Faculdade de Direito.
Conseguiu derrotar o outro candidato, o
paraense Lauro Sodr, homem do esquema
florianista.

 Colocando-se "acima dos partidos" e se
declarando homem capaz de governar no
como chefe de partido, mas do Estado,
Campos Salles postulava que era
contrrio "s grandes reunies para
deliberar sobre assuntos que, pela sua
natureza, se relacionam com a direo ou
orientao que se deve imprimir a um
determinado momento politico. Esta  uma
funo que pertence a poucos e no 
coletividade':  (Campos Salles - Da
Propaganda  Presidncia)

Vocao agrria e socializao das
perdas

 Foi diante dessas posturas que o quarto
presidente brasileiro governou com os
"poucos", isto , com a oligarquia.
Assim, sua politica se orientou para o
apoio  agricultura, pois, segundo ele,
produzir gneros agrcolas era o que o
Brasil sabia "fazer melhor" e devia
importar o que outros "faziam melhor".
Com isso, durante o perodo de 1898 a
1902, o presidente consolidou a "vocao
agrria" do Brasil, em detrimento da
industrializao.

 Um dos desafios enfrentados por Campos
Salles foi a tentativa de sanear as
finanas do pas. Desde o Imprio, toda
vez que um produto nacional, como
acar, algodo, cacau e caf, tivesse
seu preo em moeda estrangeira
diminuido, o governo promovia a
desvalorizao do dinheiro brasileiro em
relao  moeda britnica.

 Com isso, os latifundirios perdiam no
exterior, mas compensavam, essas perdas
dentro do pas, pois continuavam com
dinheiro para pagar os gastos internos.
A esse processo chamamos de socializao
das perdas, ou seja, como o pas
importava a maior parte dos produtos que
consumia, os preos das mercadorias
aumentavam e, para compensar os
prejuzos dos latifundirios
exportadores, todos os brasileiros
pagavam mais caro os artigos importados.

 Mas isso causava problemas ao governo,
porque os impostos alfandegrios eram
arrecadados em moeda nacional, enquanto
os produtos comprados no exterior eram
pagos em moeda estrangeira. Assim, a
desvalorizao do dinheiro nacional
aumentava o endividamento, pois o
governo ficava cada vez mais sem
recursos para o pagamento das
importaes, tendo de recorrer
progressivamente a emprstimos externos.

 Para enfrentar essas dificuldades, o
governo aumentou os impostos, diminuiu
violentamente as despesas pblicas,
abandonou obras, desestimulou as
indstrias e, finalmente, congelou
salrios para refrear o consumo. Como
consequncia configurou-se um quadro de
falncias, desemprego, perda de poder
aquisitivo, aumento dos preos dos
gneros de primeira necessidade e
estagnao econmica, gerando
descontentamento, principalmente nas
camadas populares, com grande ocorrncia
de greves.

A Poltica dos Governadores

 Era necessrio criar um equilibrio das
relaes politicas entre os Estados e o
governo da Unio, ou seja, um maior
entrosamento entre os grandes plos de
poder.

 Para isso Campos Salles criou a
Comisso Verificadora ou Comisso de
Reconhecimento de Poderes, composta pelo
presidente da Cmara na legislatura
anterior e por quatro membros por ele
escolhidos, todos afinados com os
desgnios

do presidente da Repblica.

 Essa comisso encarregava-se de
verificar se os deputados eleitos se
enquadravam na poltica governamental de
seus Estados: os que no se afinavam
eram impedidos de tomar posse na Cmara
Federal.

 Em troca, os governadores apoiavam a
presidncia da Repblica de forma
irrestrita. Essa prtica de auxilio
mtuo entre as oligarquias dos Estados e
o governo central  foi chamada Poltica
dos Governadores e garantia um Congresso
subserviente e dcil ao presidente. Ao
mesmo tempo, perpetuava no poder
estadual familias oligrquicas, como os
Aciolly no Cear, os Rosa e Silva em
Pernambuco, os Murtinho em Mato Grosso,
os Nery no Amazonas, e os Fonseca no Rio
Grande do Sul.

Caf-com-Leite e coronelismo

 Por outro lado, consolidava-se o
comando do PRP (Partido Republicano
Paulista), em unio com o PRM (Partido
Republicano Mineiro) e o PRR (Partido
Republicano do  Rio Grande do Sul). Era
a chamada Poltica dos Grandes Estados,
pois So Paulo, Minas Gerais e Rio
Grande do Sul tinham a maior arrecadao
econmica e possuam o maior eleitorado
do pas, controlando 50% dos votos de
todo o Brasil.

 Embora com menos presena, o Rio Grande
do Sul passou a ter influncia a partir
da presidncia de Afonso Pena
(1906-1909). Mas a Repblica Velha
continuou assentada nas duas mais
poderosas oligarquias: So Paulo e Minas
Gerais. Dos onze presidentes eleitos de
1889 a 1930, seis foram paulistas, trs
mineiros e dois de outros Estados - e
todos se afinavam com a Poltica do
Caf-com-Leite, isto ,  dos
cafeicultores de So Paulo e dos
criadores de gado de Minas Gerais. Esse
esquema se baseava num mecanismo
eleitoral de corrupo e manipulao do
eleitorado. "Os analfabetos no votavam
- num pais quase sem escolas, apenas 6%
da populao constituia o eleitorado".
Dentro da dominao oligrquica, o
coronelismo era a base da Poltica dos
Governadores.

As origens do coronelismo

 Como sabemos, o poder econmico sempre
est estreitamente ligado ao poder
poltico. Na poca do domnio das
oligarquias, os vrios grupos de
latifundirios disputavam  acirradamente
o controle de suas regies. E o
fazendeiro mais rico geralmente
sobrepujava os demais, influenciando na
eleio de polticos fiis a ele. Assim,
conseguia obter mais riqueza e poder; 
custa do dinheiro pblico, introduzia
melhorias em suas terras (estradas,
eletrificao etc.).

 Para alcanar essa posio, era preciso
manter numerosos seguidores, isto ,
clientes que viviam do favor desse
fazendeiro. Afinal, a concentrao da
terra e a produo em larga escala para
o exterior geravam desemprego, fome,
misria e marginalidade, criando um
grande contingente de pessoas cuja nica
sada era servir algum fazendeiro rico.
Quanto maior o nmero de clientes, mais
forte o latifundirio.

 Assim, esse latifundirio possua
homens armados de sua confiana
(jagunos), formando, s vezes,
verdadeiros exrcitos de indivduos
defensores dos seus desgnios. Esse
esquema vinha desde o perodo colonial,
no qual os chamados "homens bons" isto
, os grandes proprietrios de terras e
escravos, administravam a poltica
municipalista. Ainda no perodo
regencial ( 1831 a 1840), fora criada a
Guarda Nacional, com a finalidade de
manter a coeso do Imprio, a partir de
foras policiais-militares dos
municpios, subordinadas aos
latifundirios que recebiam do governo a
patente de coronel.

 As lutas entre os coronis visando o
controle da poltica municipal e
estadual acabavam por desembocar,
necessariamente, em acirradas disputas
eleitorais que cedo ou tarde derrubavam
uma oligarquia para entronizar outra.

 A garantia do domnio oligrquico
fundamentava-se no processo eleitoral.
As formas de submeter o eleitorado iam
desde o voto de curral ou de cabresto
at a fraude  nas apuraes. O voto de
curral predominava nas regies mais
interioranas: os coronis conduziam seus
eleitores aos lugares de votao e lhes
ordenavam que votassem nos candidatos de
sua preferncia. Como o voto no era
secreto, desrespeitar o coronel podia
significar a sentena de morte.

 J o voto de cabresto predominava nas
cidades e nas regies rurais prximas
aos centros urbanos: o coronel comprava
o voto com favores ou dinheiro. Eram
tambm comuns os eleitores-fantasmas
(votos de indivduos que no existiam)
ou mortos (votos de pessoas falecidas
feitos por seus parentes ou conhecidos).

 Como no havia uma justia eleitoral
independente e a votao era feita sob
vigilncia das autoridades
fiscalizadoras do governo, ficava fcil
alterar os resultados  da eleio.

 Aliando a Poltica dos Governadores com
sistema coronelista, Campos Salles
completou a tarefa de alicerar a
poltica do Caf-com-Leite a fim de
executar uma economia voltada para a
cafeicultura e para os bancos
estrangeiros, no ajustamento do Brasil 
ordem capitalista internacional.

Repblica de ltima hora

 O exerccio efetivo da Poltica dos
Governadores pde ser executado nas
eleies do substituto de Campos Salles.
O PRP lanou o nome de Rodrigues Alves
para presidente. Houve um candidato de
oposio ao esquema paulista: Quintino
Bocaiva, representante das classes
mdias cariocas e dos responsveis pela
queda da Monarquia. Ele no teve,
entretanto, possibilidades concretas de
enfrentar a engrenagem paulista.

 E assim Rodrigues Alves ( 1902-1906)
venceu o republicano histrico Quintino
Bocaiva. O novo presidente nascera em
Guaratinguet (interior de So Paulo),
era de familia latifundiria, amigo
pessoal do ex-imperador D. Pedro II,
lder do antigo Partido Conservador no
Imprio e republicano de "ltima hora",
ou seja, quando percebeu que o golpe da
Repblica era iminente, passou de
maneira oportunista para o lado das
foras vencedoras.

 Rodrigues Alves no deu continuidade 
poltica recessiva de seu antecessor.
Como a situao financeira do Brasil j
estava um pouco melhor, o novo
presidente iniciou outro processo de
emprstimos estrangeiros para investir
em obras pblicas.

 Garantido por uma hipoteca de 2% em
ouro sobre todas as importaes e pelas
rendas de todos os portos e docas, o
novo emprstimo permitiu uma srie de
realizaes, como a construo da
Faculdade de Direito do Recife, das
Faculdades de Medicina de So Paulo e de
Salvador, da Estrada de Ferro
Madeira-Mamor, melhorias na Estrada de
Ferro Central do Brasil e na Mogiana
(que ligava Bauru, em So Paulo, a Mato
Grosso; a instalao da fbrica de
plvoras (Piquete, SP); e a aquisio de
navios britnicos.

 O dinheiro estrangeiro permitiu tambm
a modernizao da cidade do Rio de
Janeiro, onde foram construdos o Teatro
Municipal, a Biblioteca Nacional e
outros prdios pblicos. Arruamentos,
aberturas de avenidas, alargamentos de
praas, saneamentos de redes de esgoto e
gua, construo de cais, remoo de
cemitrios, demolies dos casebres e
cortios no centro do Rio de Janeiro
provocaram distrbios generalizados na
cidade. Essas obras realizavam-se sempre
dentro dos aspectos autoritrios,
elitistas e distantes que caracterizavam
o Estado oligrquico.

 Casas foram demolidas e barracas de
ambulantes depredadas e queimadas por
fiscais do governo. "Tudo o que as
turmas de saneamento encontrassem nas
casas e que fosse considerado
prejudicial  higiene era apreendido e
destruido. As demolies aumentavam o
preo dos aluguis e a populao de
baisa renda viu-se espulsa para longe de
seu local de trabalho."

Revolta da vacina: autoritarismo X
ignorncia

 A misria e a pobreza em que sempre
havia vivido a maior parte da populao
do Rio de Janeiro favoreciam as
epidemias, que passaram a se alastrar
com o crescimento da cidade, provocado
pela industrializao e pelo xodo
rural. As principais doenas eram a
peste, a febre amarela e a varola.

 A situao chegou a tal ponto que
companhias inteiras de teatro
estrangeiras que chegavam para se
apresentar no recm-inaugurado Teatro
Municipal eram contaminadas e dizimadas.
No vero, quando os surtos epidmicos
aumentavam de intensidade,  os ricos
fugiam para suas casas de campo em
Petrpolis (cidade serrana nas cercanias
da capital federal).

 Para combater essas epidemias,
Rodrigues Alves contratou o sanitarista
Osvaldo Cruz. Enquanto os urbanistas
destruam cortios e favelas, a sade
pblica encarregava-se de matar ratos,
que transmitiam a peste, e mosquitos,
que espalhavam a febre amarela. Os
mtodos eram violentos. Casas eram
invadidas e pulverizadas com creolina
diante dos assustados moradores.

 Para combater a varola, o governo
imps a vacinao obrigatria.
Desconhecida no Brasil, a vacina gerou
temor na populao e em muitos crculos
intelectuais. Descontente com o
autoritarismo de Rodrigues Alves e com a
destruio de suas moradias,  a
populao reagiu com violncia 
obrigatoriedade da vacina. A revolta
popular comeou em novembro de 1904 e
foi duramente reprimida.

 Bondes foram queimados, prdios
incendiados e a polcia atirava nos
manifestntes, gerando um quadro de
guerra civil. Oficiais florianistas
aderiram  revolta e passaram a exigir a
demisso do ministro da Justia "pela
violncia  com que o povo estava sendo
tratado" A Escola Militar da Praia
Vermelha, com apoio de generais e
polticos, pegou em armas contra o
governo.

 Rodrigues Alves, porm, conseguiu
vencer os rebeldes com auxilio do
general Hermes da Fonseca, que comandou
as tropas fiis ao governo. Os cadetes
da Praia Vermelha tiveram de se render.

 Debelado o brao militar da revolta,
Rodrigues Alves voltou-se para as
classes populares. Bombas, tiroteios,
pedras, dinamites eram trocados entre as
tropas legais e as camadas proletrias,
transformando o Rio de Janeiro em
batalha campal. Controlados os focos de
rebeldia, o governo retirou o decreto de
obrigatoriedade da vacinao.

Borracha: a Amaznia fica rica

 Enquanto desenvolvia o programa de
modernizao da capital federal, o
governo Rodrigues Alves empenhou-se
tambm numa agressiva poltica externa,
com a Questo do Acre, que culminou com
a compra, pelo Brasil, dessa rea antes
pertencente  Bolvia.

 A regio acreana era grande produtora
de borracha obtida do ltex, ou seja, da
seiva da seringueira (Hevea
brasilierrsis), rvore das regies
tropicais da Amrica, predominante na
Amaznia.

 A descoberta da vulcanizao da
borracha (mistura do ltex com enxofre e
outros procedimentos que do resistncia
ao material), feita em 1842 pelo
norte-americano Charles Goodyear,
possibilitou a industrializao desse
produto. Assim, o desenvolvimento da
indstria automobilstica no incio do
sculo XX transformou a borracha numa
matria-prima fundamental, pois passou a
ser usada para fabricar pneus.

 O trabalho de recolhimento do ltex era
executado de forma primitiva. Os
seringalistas (proprietrios das reas
de explorao das rvores) contratavam
os seringueiros  (trabalhadores
encarregados de extrair ltex).

 Os seringueiros percorriam caminhos,
que eles prprios abriam na selva, em
torno de 4 a 6 km, faziam cortes
superficiais nas rvores, acoplavam uma
tigela e recolhiam o produto aps
algumas horas. A cada dia, os
seringueiros sangravam mais de cem
rvores. Depois de coletar o ltex, o
defumavam at a coagulao, enrolando-o
para formar bolas que eram vendidas aos
seringalistas.

 As bolas ou "pelas" (como eram
conhecidas) ficavam guardadas em
armazns dos seringalistas, que as
vendiam a "aviadores" ; isto ,
comerciantes intermedirios entre os
produtores da borracha e os compradores
das firmas de exportao. Esses
aviadores adquiriam o produto nas
regies interioranas e o transportavam
at Manaus ou Belm, onde o vendiam para
empresas americanas, inglesas,
holandesas e francesas.

 A produo de borracha trouxe grande
desenvolvimento para a regio amaznica.
As cidades de Manaus e Belm
transformaram-se rapidamente em centros
urbanos desenvolvidos. Manaus, por
exemplo, chegou a ter seu Teatro
Municipal com mrmore italiano e
cristais importados da Alemanha. Grandes
companhias de pera de Roma e Paris iam
a essas cidades s vezes para uma nica
apresentao.

 Do final do sculo XIX at o incio da
dcada de 10, o ltex foi o segundo
produto na pauta das exportaes
brasileiras, depois do caf. No entanto,
a partir de 1912 a produo declinou,
porque os ingleses iniciaram o cultivo
de seringueiras em suas colnias da
Malsia e do Ceilo com sementes
contrabandeadas do Brasil.

 O surto econmico da borracha provocou
um conflito de fronteiras entre Brasil e
Bolvia. J no incio do atual sculo, a
regio do alto Purus e alto Juru -
divisa da Amaznia brasileira com o Acre
(territrio boliviano) - tornara-se a
terceira rea de produo, logo depois
dos Estados do Par e do Amazonas. Alm
disso, a maior parte dos seringueiros da
regio acreana era de origem nordestina,
notadamente cearenses que tentavam
melhores condies de sobrevivncia, j
que as constantes secas do Nordeste
ameaavam sua vida.

 Embora o governo da Bolivia no tivesse
se preocupado com a colonizao do Acre,
a regio logo atraiu o interesse de
grupos capitalistas internacionais.
Norte-americanos associados a grupos
ingleses e alemes formaram o Bolivian
Syndicate (com maioria de capitais
americanos) para a explorao do ltex
na regio do Acre. Acordos secretos
entre o governo boliviano e capitalistas
americanos acertaram o reconhecimento,
por parte dos Estados Unidos, dos
direitos da Bolvia sobre a regio
acreana. Em troca, os americanos doariam
armas e munies aos exrcitos
bolivianos para o enfrentamento com o
Brasil, caso houvesse um conflito entre
as duas naes. Por seu lado, a Bolvia
abateria em 50% as taxas pagas pela
companhia Bolivian Syndicate para a
extrao do ltex por um prazo de dez
anos.

 No final do sculo XIX, Dom Luiz Galvez
Rodrigues de rias (espanhol residente
no Brasil) tentou proclamar a
independncia do Acre, mas foi derrotado
por tropas  bolivianas e brasileiras.
Porm novas formas de rebelio
continuaram a se alastrar pela selva.
Afinal, os altos lucros das seringueiras
mereciam os sacrifcios da guerra.

 Uma nova conspirao contra os grupos
internacionais estourou na regio sob a
liderana do gacho Orlando Correia
Lopes, que conseguiu atrair a simpatia
pela causa acreana do major Plcido de
Castro, grande estrategista da Revoluo
Federalista.

 Diante das dificuldades de combater a
guerra de guerrilha promovida pelas
tropas brasileiras sob o comando de
Plcido de Castro, o governo boliviano
se disps a conversar com os diplomatas
brasileiros. Aps negociaes com o
baro do Rio Branco  , foi assinado, em
novembro de 1903, o Tratado de
Petrpolis, definindo os limites
fronteirios entre os dois pases. Pelo
tratado, o Brasil faria um pagamento de
dois milhes de libras esterlinas 
Bolvia. Alm disso, o governo
brasileiro se incumbiria de construir a
Estrada de Ferro Madeira-Mamor, que
possibilitaria o acesso da Bolivia ao
mar, atravs do oceano Atlntico. A
ferrovia acabaria se revelando invivel,
mas o Brasil conquistou um Estado a mais
para seu territrio por vias
diplomticas,  evitando uma guerra que
prometia ser longa e desgastante. Os
prprios lucros obtidos com a explorao
da borracha acreana logo pagaram as
indenizaes devidas.

 O encerramento do agitado perodo do
governo Rodrigues Alves culminou com o
controvertido Convnio de Taubat. Por
esse convnio, os cafeicultores
pretendiam oficializar a poltica de
valorizao do caf, envolvendo capitais
ingleses e norte-americanos. Enquanto os
governos estaduais deveriam comprar o
caf a preo fixo, garantindo os
aumentos constantes da produo, os
bancos estrangeiros emprestariam libras
aos governos de So Paulo e Minas Gerais
para que estes realizassem a compra do
produto. Os mesmos bancos se
responsabilizariam pela comercializao.

Afonso Pena e Nilo Peanha

 Em 1906, a oligarquia cafeeira de So
Paulo, aliada aos fazendeiros gachos
liderados por Pinheiro Machado, fez
presidente o mineiro Afonso Pena, que
administrou  a Unio  sombra dos
membros do PRP e PRM: construiu estradas
de ferro, equipou a Marinha e o
Exrcito, comprando navios e armamentos,
facilitou o processo imigratrio por
presses dos setores industriais e, por
fim, em 1908, realizou uma exposio
internacional com produtos nacionais e
estrangeiros, na cidade do Rio de
Janeiro, em comemorao aos cem anos da
Abertura dos Portos.

 Afonso Pena no concluiu o mandato,
falecendo em 1909. Nilo Peanha, o
vice-presidente, assumiu o cargo. Esse
representante da oligarquia fluminense
criou o Servio Nacional de Proteo ao
ndio (SNPI), entregando a chefia da
nova organizao ao Marechal Cndido
Rondon. Como os brancos estavam ocupando
territrios antes isolados, o governo
interessou-se em integrar o ndio 
sociedade, porque representava
mo-de-obra barata e, principalmente,
conhecia o interior do pas, facilitando
o encontro de riquezas e o controle
militar de regies inspitas. Assim, no
foi por acaso que um membro do Exrcito
foi designado para a chefia do novo
rgo.

 No mbito da poltica interna, o
governo de Nilo Peanha foi palco da
continuao de uma luta pelo poder que
j havia se intensificado na
administrao de Afonso Pena. Uma nova
fora oligrquica, liderada pelo gacho
e ex-general Pinheiro Machado, comandara
a formao de um bloco dos chamados
Estados Menores, ou seja, Estados de
pequena influncia poltica que se
opunham ao bloco dos grandes Estados (
So Paulo, Minas Gerais e Rio de
Janeiro).

Primeiros abalos na oligarquia

Civis X militares: Campanha Civilista

 O candidato oficial para a sucesso de
Afonso Pena e Nilo Peanha era David
Campista, ministro da Fazenda. Mas
Pinheiro Machado, lder dos Estados
Menores, no concordou com essa
candidatura e tentou romper a Poltica
do Caf-com-Leite. Os nomes apresentados
por Pinheiro Machado foram rejeitados, e
como reao o oligarca gacho passou a
apoiar a candidatura do Marechal Hermes
da Fonseca, que havia  rompido com
Afonso Pena e passou a aglutinar as
oposies. Os oligarcas paulistas
apoiaram ento o deputado baiano e
ex-ministro Rui Barbosa.

 A morte de Afonso Pena acelerou a
disputa, e Nilo Peanha tentava, na
aparncia, manter-se neutro. Mas os
ministros escolhidos por Nilo Peanha,
em substituio ao Ministrio anterior,
apresentavam tendncias favorveis a
Hermes da Fonseca, o que reforava essa
candidatura e inviabilizava a do
opositor.

 Por seu lado, Rui Barbosa e os
paulistas promoveram, a nvel nacional,
a Campanha Civilista. Mesmo sabendo das
pequenas possibilidades que Rui teria
para a presidncia,  o patrocinio 
Campanha Civilista foi gigantesco: pela
primeira vez um candidato a presidente
viajou pelo pas todo divulgando sua
plataforma politica. Muito dinheiro foi
gasto no aluguel de trens para o
transporte das caravanas civilistas. O
financiamento de Rui vinha da poltica
de valorizao do caf. So Paulo
mostrava, assim, sua fora econmica e
politica, numa clara aluso a manter o
Convnio de Taubat a qualquer custo e
resultado.

 Para fazer frente a So Paulo, Pinheiro
Machado escolheu, apoiado no PRM, o
mineiro Venceslau Brs como candidato 
vice-presidncia de Hermes, o que
representava uma ruptura entre paulistas
e mineiros. Realizadas as eleies, como
sempre fraudulentas, com denncias de
corrupo eleitoral por parte dos dois
candidatos, o Marechal Hermes da Fonseca
obteve a presidncia para o perodo de
1910 a 1914.

 Venceu o novo arranjo poltico, no qual
Pinheiro liderava um grupo de militares
que aspiravam por amplas participaes
no poder e se encaixavam nos desejos do
bloco de civis do oligarca gacho.
Assim, "uma nova fora oligrquica,
produto de uma aliana entre militares e
jovens politicos ligados aos interesses
da familia presidencial, juntamente com
as oligarquias locais menores, procurou
quebrar e alterar as rigidas e velhas
estruturas de poder. A "poltica de
salvao nacional".

 Numa velha manobra, caracteristica da
postura elitista das oligarquias,
Pinheiro Machado fundou, em 1910, o PRC
(Partido Republicano Conservador),
organizando nova articulao a nvel
nacional, em apoio ao governo Hermes no
Congresso e nos Estados. Sob a liderana
do ministro da Guerra, general Dantas
Barreto, o PRC e setores militares
promoveram a derrubada dos coronis
oligrquicos opositores ao novo grupo
poltico e ao presidente.

 Promovendo a substituio de
oligarquias no poder, o novo bloco
poltico sedimentou velhas disparidades
sociais e fomentou dios e conflitos
locais para beneficiar novos grupos
latifundirios. Esse esquema de
substituio de  oligarquias por outra
com ajuda das tropas federais foi
chamado de poltica de salvao
nacional. As Foras Armadas eram usadas
para garantir a deposio de politicos e
governadores de Estado que no se
alinhassem com o governo federal,
substituindo-os por interventores.

 Mas o esquema "salvacionista" se
desgastou gradativamente. Dissidncias
nos setores militares, entre os que
aprovavam e os que eram contra a
intromisso do Exrcito  na poltica,
acabaram por derrubar o general Dantas,
enfraquecendo o processo de interveno
nos Estados; com isso declinou o poder
de Pinheiro Machado.

 A contribuio da confusa, inepta e
ineficiente poltica econmica da
administrao de Hermes foi decisiva
para a decadncia do "salvacionismo".
Desequilibrio oramentrio, queda das
exportaes de caf, aumento da emisso
de papel-moeda e outros fatores
negativos obrigaram o governo a recorrer
a um novo funding loan, atravs do qual
o Brasil adiava o pagamento de suas
dvidas, mas se comprometia a no
recorrer a emprstimos externos at
1917.

A sucesso de Hermes

 O fracasso da poltica de Hermes da
Fonseca mostrou que era invivel manter
um governo oligrquico e ao mesmo tempo
desprezar as oligarquias mais poderosas
dos chamados Grandes Estados. As
oligarquias menores no tinham a fora
dos cafeicultores. E o eixo So
Paulo-Minas-Rio voltou a atuar para
garantir a sucesso presidencial.
Pinheiro Machado candidatou-se 
presidncia, mas uma rearticulao do
PRM e PRP e o fracasso da "salvao
nacional" contribuiram para inviabilizar
o ex-militar gacho. Menos desgastado, o
PRP lanou, estrategicamente, o nome de
Venceslau Brs para o poder executivo da
nao.

 Eleito presidente para o perodo de
1914 a 1918, Venceslau Brs teve de
enfrentar agitaes internas de toda
ordem. Os Estados do Par, Espfrito
Santo, Alagoas e Piau sofreram
interveno do governo central, devido a
lutas irreconciliveis entre os vrios
grupos latifundirios locais. A guerra
do Contestado (que ser abordada no
captulo seguinte), na fronteira do
Paran e Santa Catarina, havia exposto a
crescente pauperizao das classes
populares rurais. A seca nordestina de
1915 aprofundara as contradies do
esquema agroexportador latifundirio,
ocasionando a morte de milhares e a
misria de milhes de pessoas.

 Embora ouvesse um surto industrial,
provocado pela I Guerra, isso no evitou
manifestaes operrias nos grandes
centros urbanos, como a Greve Geral de
1917, provocada pela situao de
penrias das classes proletrias (ver
captulo seguinte). Assim, enquanto na
Europa a I Guerra terminava em 1918, no
Brasil iniciava-se a crise oligrquica
que se estenderia pela dcada de 20.

Epitcio Pessoa: governo de aparncias

 A sucesso de Venceslau Brs
transcorreu dentro do esquema poltico
do Caf-com-Leite. Por ser a vez de um
paulista na presidncia, o PRP indicou e
conseguiu eleger Rodrigues Alves para um
segundo mandato. Mas o presidente eleito
no chegou a tomar posse, pois estava
doente e faleceu em janeiro de 1919.

 Conforme a Constituio vigente, o
vice-presidente, Delfim Moreira, assumiu
a presidncia, mas teve dificuldades
para governar, pois tambm estava doente
e no possua bases polticas entre as
elites. Convocaram-se novas eleies. A
escolha do presidente foi tumultuada,
porque as oligarquias de Minas Gerais e
So Paulo no conseguiam decidir-se por
um nome.

 Os polticos dos grandes Estados
acabaram optando por um latifundirio de
um Estado menor, a Paraba. Assim, a
escolha recaiu sobre Epitcio Pessoa,
homem de grande prestgio internacional,
pois fora chefe da misso brasileira na
Conferncia de Versalhes, onde foram
julgados os crimes dos perdedores da I
Guerra.

 Graas  mquina das oligarquias,
Epitcio Pessoa venceu as eleies sem
fazer campanhas e sem sair da Europa, de
onde voltou para tomar posse. Seu
governo foi marcado por uma
administrao de aparncias, mais
voltado para comemoraes, como a do
Centenrio da Independncia. Devido a
sua postura omissa diante das
dificuldades econmicas, ganhou a
oposio de todos os setores da
sociedade brasileira.

 Durante os anos da I Guerra at 1919, o
Brasil havia conseguido exportar mais do
que importava. Com a retomada econmica
da Europa e dos EUA, as importaes
brasileiras aumentaram e as atividades
fabris nacionais diminuram,
reduzindo-se drasticamente as reservas
de libras no pas.

 A administrao de Epitcio Pessoa foi
confusa. O presidente se negou a
aumentar as taxas alfandegrias, o que
provocou reaes de grupos de
comerciantes de importao  e
exportao. Tentou ainda suspender a
valorizao do caf com recursos
financeiros federais, gerando violentos
protestos das oligarquias que o elegeram
- o que o fez recuar da deciso e voltar
a cumprir o Convnio de Taubat. Tambm
desvalorizou a moeda brasileira,
provocando protestos dos industriais por
diminuir o poder aquisitivo da
populao. Como conseqncia dessa
ltima medida, a inflao se acelerou.
Desencadeou-se uma onda de protestos
populares, que foram violentamente
reprimidos. O descontentamento se
alastrou para amplos setores militares,
pois o presidente vetou propostas de
aumento de soldo para eles e nomeou
civis para os ministrios da Guerra e da
Marinha.

 O aprofundamento da crise obrigou o
governo a intervir militarmente na
Bahia, no Amazonas e no Esprito Santo.
A nvel internacional, mudou o padro de
converso da moeda brasileira,
substituindo a libra pelo dlar.

 Evidenciou-se tambm a mudana da
esfera de influncia a que se
subordinava o Brasil, pois os
norte-americanos passaram a ter presena
mais decisiva na poltica nacional.

 Os recursos financeiros aplicados em
obras contra a seca do nordeste tiveram
pouca eficcia e geraram grandes
protestos dos setores cafeeiros, que
exigiram exclusividade  federal no
auxilio ao produto principal das
exportaes. Com isso, o governo no
concluiu as obras e os investimentos
foram desperdiados.

 crise da oligarquia

"Reao Republican '

 Os erros acumulados e o
descontentamento geral tiveram uma
conseqncia imediata: no incio de
1921, as oligarquias paulistas e
mineiras anicularam rapidamente a
sucesso de Epitcio. As lideranas
polticas do Caf-com-Leite escolheram o
mineiro Artur Bernardes para substituir
o latifundirio paraibano. Mas, ao mesmo
tempo, j acertaram previamente que o
paulista Washington Lus seria o
sucessor de Bernardes.

 As oligarquias gachas, porm,
lideradas por Borges de Medeiros,
reagiram contra o candidato Artur
Bernardes. Os gachos queriam reafirmar
seu poder sobre as elites polticas dos
pequenos Estados e medir foras com a
aliana So Paulo-Minas. Assim, Borges
uniu-se aos polticos do Rio, Pernambuco
e Bahia, formando a Reao Republicana.
Rompia-se a aliana entre as oligarquias
nacionais. A dissidncia de Borges de
Medeiros lanou uma candidatura
oposicionista com Nilo Peanha para
presidente e Jos Joaquim Seabra para
vice.

 A campanha de Nilo Peanha adquiriu
propores inditas, at ento
desconhecidas pela Repblica do
Caf-com-Leite. Recebeu apoio de amplos
setores das classes mdias, dos jovens
oficiais militares e da prpria
dissidncia das elites.

 A discusso poltica acentuou-se dentro
dos quartis, pois muitos militares
passaram a pregar o fim do esquema
oligrquico-coronelista. Hermes da
Fonseca, que na presidncia tentara
inutilmente romper esse esquema, emergiu
como lder dos militares descontentes. A
situao tornou-se tensa a partir do
episdio das cartas falsas. Dois
elementos ligados aos setores
dissidentes, Oldemar Lacerda e Jacinto
Guimares, inventaram duas cartas que,
propositadamente, foram atribudas a
Artur Bernardes. O jornal Correio da
Manh (RJ) publicou a 9 de outubro de
1921 uma das cartas, que continha
insultos a Hermes da Fonseca, chamando-o
de "sargento sem compostura" e aos
militares de "canalhas" e "venais"

Governo Bernardes: dificuldades e
tenses

 Apesar dos protestos contra a
oligarquia, a corrupo e a fraude
eleitoral garantiram a vitria de Artur
Bernardes. As intervenes de Epitcio
Pessoa no Maranho e em Pernambuco foram
acompanhadas de reaes armadas,
principalmente no Recife. A situao
tornou-se mais tensa quando o Marechal
Hermes telegrafou ao comandante  militar
da capital pernambucana solicitando aos
militares que no obedecessem ao
governo. Epitcio prendeu Hermes e
baixou uma lei fechando o Clube Militar,
do qual o Marechal era presidente de
honra.

 A reao da jovem oficialidade foi
imediata. Os tenentes se preparavam para
impedir a posse de Artur Bernardes. Se,
por um lado, os chefes polticos civis e
militares  eram opositores de Bernardes,
por outro no concordavam com as
atitudes de rebeldia sem controle por
parte dos jovens oficiais. No dia 5 de
julho de 1922, eclodiu a primeira
manifestao dos movimentos tenentistas
( que sero tratados no  captulo
seguinte). Se no conseguiram impedir a
posse de Bernardes em 15 de novembro, os
tenentes chegaram a abalar a
administrao do penltimo governo
oligrquico.

 Artur Bernardes governou 48 meses, 44
deles sob estado de stio. Por
iniciativa do presidente, o Congresso
aprovou uma reforma constitucional que
aumentou os poderes do presidente,
facilitando a interveno do governo
federal nos Estados. Os jornais tambm
passaram a sofrer rigorosa censura.

 Bernardes iniciou uma intensa
perseguio aos polticos da Reao
Republicana (Nilo Peanha, J. J. Seabra
e Borges de Medeiros), realizando
intervenes no Rio e na Bahia.
Bernardes no conseguiu intervir no Rio
Grande do Sul, mas enfraqueceu Borges de
Medeiros atravs de manobras polticas.

 Apesar das agitaes polticas e
militares contra o Caf-com-Leite, o
esquema poltico da cafeicultura
conseguiu se impor e eleger o paulista
Washington Lus para a presidncia da
Repblica no perodo de 1926 a 1930.

 Washington Lus: o ltimo oligarca

 Poltico hbil, Washington Lus
governou o pas centralizando os poderes
e mantendo um ministrio obediente, e
subserviente s suas ordens. Empreendeu
uma poltica de apaziguamento dos
"nimos nacionais", concedeu liberdade a
presos polticos, diminuiu a vigilncia
sobre os jornais e, em maro de 1927,
decretou o fim do estado de stio.

 O governo iniciou tambm uma reforma
financeira, criando uma nova moeda, o
cruzeiro, e introduzindo o padro-ouro
como valor monetrio, ou seja, as notas
que circulavam no pas estariam
asseguradas em ouro. Assim, era possvel
trocar dinheiro pelo equivalente em
ouro. Essa medida ajustava a nao
brasileira aos critrios econmicos
internacionais. Mas essas reformas
financeiras foram interrompidas pela
crise de 1929.

 Apesar da grande depresso
econmica,1929 foi um ano de preparao
eleitoral. Assim, de acordo com a
rotatividade entre paulistas e mineiros
na presidncia, agora era a vez de um
poltico de Minas Gerais ocupar o cargo.
Desde 1928, o governador  de Minas,
Antnio Carlos Ribeiro de Andrade,
preparava-se para a candidatura.
Entretanto, Washington Lus, rompendo
com a tradio poltica, apontou, em
1929, o governador de So Paulo, Jlio
Prestes, para substitu-lo.

Aliana Liberal: a ltima dissidncia

 Com a ruptura do pacto poltico, o
prprio Antnio Carlos organizou, com a
Paraba e o Rio Grande do Sul, uma chapa
opositora ao candidato do governo: a
Aliana Liberal. Por essa chapa, Getlio
Dornelles Vargas (latifundirio gacho e
ex-ministro da Fazenda de Washington
Lus) candidatou-se a presidente e Joo
Pessoa (oligarca paraibano) a vice.

 A Aliana Liberal fez uma intensa
campanha contra o esquema oligrquico.
Os comcios nas praas pblicas de So
Paulo e Rio de Janeiro apresentaram
faixas por todos os lados e os
candidatos eram amplamente saudados por
imensas multides.

 Mas o governo, controlando a maioria
dos Estados e fraudndo as eleies,
conseguiu eleger Jlio Prestes (Vargas
chegou a obter, no Rio Grande do Sul,
298 627 votos, contra 982 dados a Jlio
Prestes). Ao fim das apuraes,
entretanto, Jlio Prestes recebeu 1097
000 votos e Getlio Vargas 744 000
votos. As duas chapas haviam se
comprometido a aceitar os resultados das
urnas. Ficava claro, nas palavras de
Joo Pessoa, que os aliancistas no
pensavam numa revolta: "Nunca contaro
comigo para um movimento armado. Prefiro
dez Jlio Prestes a uma revoluo':

 Por outro lado, os membros jovens das
oligarquias dissidentes, como o mineiro
Virglio de Melo Franco e os gachos
Joo Neves da Fontoura e Oswaldo Aranha,
aliados a Juarez Tvora e Joo Alberto -
lderes tenentistas - estavam dispostos
a romper o pacto oligrquico. O
descontentamento crescia entre as
camadas populares e as classes mdias
urbanas.

Revoluo de 30: golpe na oligarquia

 As elites rurais e os setores burgueses
industriais preocupavam-se com as
constantes agitaes populares nos
grandes centros urbanos e com as
articulaes da jovem oficialidade
militar. Temendo que as manifestaes
adquirissem aspectos radicais, muitos
grupos dissidentes aderiram ao golpismo.
O governador de Minas, Antnio Carlos,
deu o tom do movimento golpista:
"Faamos a Revoluo, antes que o povo a
faa".

 Um fato precipitou o golpe: o
assassinato de Joo Pessoa (26 de
julho), na Paraiba, devido a disputas
locais entre os chefes polticos. No dia
3 de outubro, tropas gachas, sob o
comando de Gis Monteiro, marcharam para
a captal. No Nordeste, a rebelio tomou
conta de todos os Estados. Outras
expedies militares partiram de Minas
para So Paulo. Depois de curtos
combates na regio de Itarar, os
rebeldes conseguiram desfazer a
resistncia.

 Em 24 de outubro de 1930, uma junta
militar formada por Tasso Fragoso, Mena
Barreto, Leite de Castro e pelo
almirante Isaas Noronha deps o
presidente Washington Lus. A junta
demorou dez dias para passar o poder ao
chefe da Aliana Liberal e futuro
presidente provisrio: Getlio Dornelles
Vargas.

  fcil dizer quem perdeu a Revoluo
de 30: o esquema oligrquico-coronelista
e os setores das elites econmicas que
tentaram mant-lo. Mas  difcil apontar
o vencedor. As foras que lutavam contra
a Repblica do Caf-com-Leite eram
heterogneas: oligarquias dissidentes, o
Partido Democrtico, dissidncia
paulista do PRP em que se apoiou a
Aliana Liberal nas eleies, os
tenentes, as classes mdias urbanas, os
industriais.

 Durante o processo de construo da
ordem republicana, os quarenta anos da
Repblica Velha traaram um perfil do
poder executivo que poderia, em linhas
gerais, apresentar os seguintes
aspectos:

- todos os presidentes no poder
colocavam-se acima dos partidos, o que
evidenciava o carter personalista dos
chefes polticos, ou seja, os partidos
representavam as articulaes
necessrias para medir foras de
prestgio social, econmico e aquele que
possusse trnsito poltico entre as
vrias faces dentro de um mesmo poder
tornava-se presidente.

- o presidente, que nos comcios dizia
representar todo o povo brasileiro,
consultava um nmero muito pequeno de
pessoas, atendia aos interesses
econmicos dos que o apoiavam e usava de
todo o rigor repressivo contra as
manifestaes populares.

Assim, "  questo social era uma
questo de policia".

 Esses perfis no desapareceram do
cenrio poltico brasileiro. De 1930 a
1964, a presidncia da Repblica tambm
governou em funo das elites, mas
buscava-se engajar as classes
proletrias (massa eleitoral) no projeto
poltico das elites agrrias e urbanas,
sem, contudo, permitir mudanas
profundas que abalassem a estrutura de
poder no Brasil ou ameaassem a
perpetuao dos interesses econmicos
das camadas abastadas.

 Todos os setores sociais concordavam
com a necessidade de alteraes no
quadro poltico. Era necessrio 
prpria manuteno da ordem capitalista
executar reformas sociais para
disciplinar as formas de lucro e ampliar
a acumulao de capitais, adequando o
processo econmico-poltico aos
ajustamentos do crescimento
internacional do capitalismo.

 De 1964 a 1988, novos ajustamentos
polticos foram elaborados, sempre com o
mesmo propsito: modernizar o Brasil,
para engaj-lo na sociedade industrial
de elevada produo tecnolgica.

 Quais as formas polticas utilizadas
para submeter as classes trabalhadoras
ao intenso processo de modernizao do
Brasil?

"Eu organizo o movimento

eu oriento o carnaval

eu inauguro o monumento

no planalto central

do pais"

(Caetano Veloso)

 Mas quem organizava o movimento? E qual
monumento inaugurava? As respostas a
essas questes esto no prximo livro.


OS MOVIMENTOS DE RESISTNCIA E REBELIO

 J compreendemos que a Repblica
brasileira nasceu sob o pacto poltico
entre as elites cafeeiras, os crculos
militares e os intelectuais positivistas
como Benjamin Constant, Silva Jardim e
outros. A Repblica coronelista,
clientelista e oligrquica continuou
representando os interesses das elites
rurais com total descaso pelas camadas
populares. Tanto que a mudana poltica
da ordem imperial para a republicana no
alterou significativamente o modo de
vida das classes trabalhadoras, agora
composta de negros libertos, artesos,
mestios e principalmente imigrantes. A
minoria proprietria (os coronis
fazendeiros) manteve a apropriao da
riqueza, os privilgios e o poder, e a
grande maioria permaneceu sem condies
de acesso aos mnimos direitos sociais e
polticos.

 Com a poltica de valorizao do caf e
com o incipiente processo de urbanizao
e de industrializao em algumas reas
do pas, formaram-se e consolidaram-se
novas classes sociais: a burguesia
industrial e o proletariado, alm da
classe mdia constituda por pequenos
proprietrios, comerciantes, artesos,
profissionais liberais e militares.

 A formao dessas classes sociais 
explicada pelas transformaes da
estrutura econmica da sociedade, ou
seja, pelas mudanas implcitas no
prprio modo de produo capitalista,
que passou de uma sociedade escravocrata
para uma sociedade de classes. 
importante observar ainda que essa
passagem no foi semelhante ao modelo
clssico europeu ocorrido no sculo XIX,
que se caracterizou pela luta entre os
setores industriais e agrrios, j que a
posse da terra era a base do modo de
produo feudal, anterior ao
capitalista. No Brasil no houve uma
crise nem uma  ruptura entre os dois
setores. A classe que tinha a posse da
terra, os latifundirios, deteve a
iniciativa da industrializao. Mesmo os
raros empresrios que no saram de seus
quadros, basicamente os imigrantes,
acabaram se associando aos proprietrios
ru rais para ter acesso aos privilgios
e participar da ordem poltica
dominante.

 No comeo do sculo XX, a burguesia
agroexportadora era composta pelos
coronis - os cafeicultores paulistas,
os senhores de engenho nordestinos, os
proprietrios das terras de fumo e de
algodo. A mais importante faco era
representada pelos cafeicultores
paulistas, que se denominavam
"progressistas", sobretudo por terem
introduzido a mo-de-obra assalariada e
terem atuado com firmeza na derrubada do
Imprio. Eram smbolos da riqueza dessa
burguesia os casares coloniais, os
vestidos e roupas confeccionados em
Paris, os bailes e casamentos faustosos
que consolidavam alianas entre os
proprietrios. Apesar de dominar
politicamente, a burguesia dependia dos
grandes grupos econmicos
internacionais, que controlavam, atravs
do capital financeiro, a produo, a
comercializao e a exportao de nosso
principal produto.

A classe operria vai  luta

 O caf acarretou profundas modificaes
na economia do pas. Alm de introduzir
a mo-de-obra assalariada imigrante na
lavoura, induziu investimentos na rea
de servios e comrcio, em particular no
setor de transportes (como a construo
de estradas de ferro) e nos servios
porturios. Assim, foi nas docas de
Santos que surgiu o primeiro grupo
importante de trabalhadores, cujas lutas
se iniciaram j em fins do sculo
passado.

 So Paulo comeou a crescer apenas na
ltima dcada do sculo XIX: entre 1890
e 1900, a populao paulistana passou de
cerca de 65 000 habitantes para cerca de
240 000. Grande parte desse crescimento
decorreu do afluxo de imigrantes que se
dirigiam para os bairros operrios e
para as indstrias nascentes. As
condies de vida desse operariado eram
subumanas: as jornadas de trabaiho
chegavam quase sempre a mais de dez
horas dirias e a seis dias por semana;
no tinham direito a frias e estavam
totalmente desprotegidos de um mnimo de
direitos sociais. Os salrios podiam ser
rebaixados e os sindicatos e as ligas
no eram reconhecidas pelo governo e
pelos industriais.

 Nesses primeiros decnios da nossa
industrializao, era bastante elevado o
nmero de mulheres e crianas operrias.
Apesar de trabalharem o mesmo nmero de
horas que os homens, as mulheres eram
discriminadas: recebiam metade do
salrio masculino e, muitas vezes,
sofriam agresses fsicas e morais. As
crianas eram vtimas de espancamentos,
mutilaes pelas mquinas quando
adormeciam em servio, alm de receberem
apenas 1/3 do salrio dos adultos.

 A presena das mulheres e crianas no
contingente da fora de trabalho sempre
representou uma presso sobre os
salrios, pois amplia o exrcito
industrial de reserva, isto , aumenta o
nmero de trabalhadores disponiveis no
mercado. Por outro lado, os empresrios
de alguns ramos tinham interesse na
mo-de-obra infantil e feminina porque 
mais submissa e dcil que a masculina.


 As grandes greves da Repblica Velha

 As primeiras lutas do proletariado
foram por melhores condies de vida e
de trabalho, atravs de greves que
marcaram as primeiras dcadas da
Repblica Velha.

 A luta era conduzida pelos imigrantes
italianos, adeptos da ideologia
anarquista, que atravs de comcios,
panfletos, jornais, ligas culturais e
greves conseguiram o reconhecimento da
classe operria pelo governo e pela
oligarquia.

 Segundo Boris Fausto, entre 1905 e 1908
d-se a formao da Federao Operria
de So Paulo e realiza-se o Primeiro
Congresso Operrio; ocorreram duas
grandes greves em Santos (1905 a 1908),
a greve da ferroviria da Paulista, a
greve generalizada de maio de 1907 em
So Paulo, a paralisao dos sapateiros
na capital da Repblica (1906)".
(Trabalho urbano e conflito social.)
Sero as greves que se estendem de julho
de 1917 at 1920, porm, que marcaro o
ascenso da classe operria. Vamos
analisar com mais detalhes a greve de
1917, que se iniciou em So Paulo, se
alastrou por outras cidades do interior
e atingiu as capitais de alguns Estados.
Em junho daquele ano, os operrios da
indstria Crespi, localizada no bairro
da Mooca, zona leste de So Paulo,
entraram em greve contra o prolongamento
da jornada de trabalho noturno.
Operrios das fbricas vizinhas aderiram
ao movimento, ampliando as
reivindicaes: exigiram aumento de
salrios, pagamentos de horas-extras,
tempo mnimo para o almoo etc.

 Ao longo do ms de junho a insatisfao
cresceu e os operrios realizaram
manifestaes nas portas das fbricas.
No dia 9 de julho, soldados da Fora
Pblica atiraram  contra os grevistas,
em frente  Tecelagem Maringela, do
grupo Matarazzo.

 Um operrio morreu e a reao foi
violenta. Segundo a narrativa do
jornalista e um dos lderes do
movimento, operrio da poca, Edgard
Leuenroth o enterro dessa vitima da
reao foi uma das mais impressionantes
demonstraes populares at ento
verificadas em So Paulo (...). Foram
percorridas as principais ruas do centro
(...) sob um silncio impressionante,
que assumiu o aspecto de uma
advertncia".

 Na volta do cemitrio comearam os
distrbios nas ruas:Sem que se possa
precisar detalhes, verificou-se uma
agitao entre a multido estacionada
nas imediaes  da avenida Rangel
Pestana " (bairro do Brs em So Paulo).
Havia sido assaltada uma carrocinha de
po. Essa ocorrncia teve o efeito da
chispa lanada ao rastilho de plvora.
(...)As fbricas e oficinas
esvaziaram-se, enquanto as ruas se
povoavam de multides agitadas em todos
os sentidos:'. Isto ocorreu entre os
dias 10 e 15 de julho de 1917.

 A situao s voltou  normalidade
quando o governo estadual e os
empresrios prometeram atender algumas
das reivindicaes: aumento salarial,
libertao e integrao dos operrios
presos, rigorosa vigilncia quanto s
condies do trabalho  infantil e
feminino, reduo do preo dos alimentos
e vesturios.  medida que os operrios
voltavam ao trabalho em So Paulo, o
movimento grevista se alastrava pelo
interior e outros Estados.

 As condies materiais de sobrevivncia
da classe operria explicam em parte a
exploso da greve de 1917. Apesar de ter
havido um signifcativo surto industrial
com a I Guerra Mundial, principalmente
por causa do declnio das importaes, a
situao da classe operria piorou.
Assim, entre 1914 e 1917, a produo
industrial cresceu em quase 100%, o
custo de vida em 28% e os salrios em
apenas 7%.

 A queda do poder aquisitivo dos
trabalhadores decorria em grande medida
da inflao gerada pelas constantes
emisses de papel-moeda que atendiam 
poltica de valorizao do caf. Alm
disso, durante a guerra houve um aumento
das exportaes de alimentos, como
carne, arroz, acar, feijo, banha,
para atender s populaes dos pafses
aliados, que ofereciam preos mais
atraentes do que o mercado  interno. A
exportao acarretava o aumento dos
preos de primeira necessidade.

 As pequenas conquistas da Greve Geral
de 1917 logo se dissiparam; o aumento
salarial foi rapidamente corrofdo pela
inflao e os rgos de defesa da classe
operria - ligas, jornais, sindicatos -
foram duramente reprimidos.

 Aps o trmino da I Guerra, a situao
era de crise econmica, provocada pela
queda das exportaes, acarretando
falncias, desemprego, aumento de
preos. A classe operria, apesar de ter
sido a mais atingida pela crise,
conseguira levar a mobilizao ao seu
momento de auge. "O ano de 1919 e os
trs primeiros meses de 1920 delimitam o
momento mais alto da conjuntura (...).
So Paulo reaparece como centro das
mobilizaes, com 64 greves na Capital e
14 no interior, em 1919, onde se inclui
a grande paralisao do ms de maio, que
abrange s na Capital mais de 45 000
trabalhadores e a greve generalizada do
ms de outubro".

 Ningum mais podia ignorar a existncia
da classe operria, nem o Estado
oligrquico nem os industriais. Apesar
de algumas tentativas por parte dos
deputados mais liberais de apresentar
uma legislao social, o que prevaleceu
como atitude poltica de fato foi a
represso, cujo alvo sistemtico eram os
anarquistas, em especial os
estrangeiros, submetidos  expulso do
pas (s no ano de 1917, o governo
deportou 132 estrangeiros). Os jornais
operrios foram apreendidos ou fechados,
as manifestaes proibidas e os
sindicatos invadidos.

 O movimento operrio tinha clara
conscincia de que todos esses atos
repressivos no se constituiam de aes
passageiras, mas faziam parte de uma
ao mais global. Um dos instrumentos
utilizados pelo Estado para reprimir o
movimento anarquista foi o projeto do
senador Adolfo Gordo. Segundo ele,
considerava-se crime a colocao ou
exploso de bombas de dinamite ou
semelhantes nas vias pblicas e nos
edifcios; a provocao, por escrito ou
verbalmente da prtica de crimes tais
como dano depredao, incndio,
homicdio, com o fim de subverter a
ordem social; fazer apologia dos delitos
praticados contra a organizao da
sociedade.

 Aps 1920, o movimento operrio sofreu
um certo refluxo e ganhou novos rumos
com a fundao do Partido Comunista do
Brasil, em 1922, por intelectuais e
lderes operrios do movimento
anarquista.

Os rebeldes da terra

 Com a implantao da Repblica, a
situao das grandes massas rurais pouco
se alterou. As revoltas que marcaram os
primeiros decnios do sculo XX no
passaram de consequncias das brutais
diferenas sociais que caracterizavam o
campo desde o Imprio. A conquista do
voto representou apenas mais uma forma
de dominao dos proprietrios,
preocupados somente em garantir seus
currais eleitorais. O Nordeste, palco da
maioria das revoltas, era uma regio que
j havia perdido sua importncia
econmica e que desde o sculo passado
era assolada por  secas contnuas (s na
grande seca de 1877/79 morreram 30 000
pessoas).  populao rural no restava
outra alternativa serto migrar para as
reas economicamente mais desenvolvidas
, como a do caf (So Paulo) ou a da
borracha (Amaznia), ou ento
integrar-se aos bandos de cangaceiros ou
aos movimentos messinicos. Em Santa
Catarina, onde ocorreu uma verdadeira
guerra civil na regio do Contestado, os
camponeses entraram em conflito com os
grandes proprietrios e o capital
estrangeiro. Em todos esses movimentos o
que se observou foi a luta de uma
populao marginalizada em busca de
justia, acreditando na atuao
salvadora de um lder religioso, e que
acabou respondendo com violncia 
violncia de que eram vtimas.

Canudos - a guerra do fim do mundo

 A Revolta de Canudos foi, sem dvida,
um dos mais expressivos movimentos de
resistncia sertaneja. Pregadores que
perambulavam pelo serto eram
  muito comuns na quela poca, mas
nenhum deles foi to carismtico como
Antnio Conselheiro , conhecido pelo
povo como " profeta e santo sertanejo .
Uma figura messinica; vestido com uma
batina azul, esse pregador andara por
todo o serto nordestino, rezando e
pregando o "fim dos tempos",
reconstruindo cemitrios e cruzeiros,
numa peregrinao infatigvel. Quando
resolveu se fixar em Canudos, no serto
da Bahia, e construir o arraial sagrado
de Belo Monte, o beato Antnio
Conselheiro reuniu mais de 30 000
adeptos, gente pobre, doente,
desempregada, desertores da policia e do
Exrcito, enfim; todos os excludos, os
marginalisados. Numerosas familias saiam
das fazendas e rumavam para Canudos,
onde o trabalho era coletivo, tanto na
construo das casas como no plantio das
roas. A disciplina moral e religiosa
era extremamente  rigorosa. Canudos, em
pouco tempo, comeou a se transformar em
uma ameaa para os fazendeiros. Alm de
constituir uma alternativa de vida para
o sertanejo, reduziu a oferta de
mo-de-obra em decorrncia do intenso
afluxo para o arraial. A reao no se
fez esperar. No dia 12 de novembro de
1898, o governo mandou a primeira
expedio para Canudos. Porm, foi
necessrio o envio de mais trs para
terminar com a resistncia dos fanticos
, como eram chamados pelos polticos e
jornais conservadores.

 Euclides da Cunha (1866-1909), escritor
e jornalista paulista, acompanhou como
correspondente do jornal O Estado de S.
Paulo as expedies militares enviadas
pelo governo republicano, a pedido dos
coronis oligarcas baianos. Seu relato
contundente e vigoroso ficou registrado
em sua obra imortal Os Sertes.

 A ltima expedio levou at canhes
para destruir o arraial sagrado. Antnio
Conselheiro, que morrera antes da tomada
do arraial, foi exumado e sua cabea
cortada. Era a vitria da Repblica.
Sete mil homens da Fora Pblica tinham
sido mobilizados para desbaratar os
rebeldes e destruir as 5 200 casas do
arraial. No dia 5 de  outubro de 1897,
no restava mais nada, como relatou
Euclides da Cunha: "Canudos no se
rendeu. Esemplo nico em toda a
histria, resistiu at ao esgotamento
completo. Expugnado palmo a palmo, na
preciso integral do termo, caiu no dia
5, ao anoitecer, quando cairam os seus
ltimos defensores, que todos morreram.
Eram quatro apenas: um velho, dois
homens feitos e uma criana, na frente
dos quais rugiam raivosamente cinco mil
soldados': (Euclides da Cunha - Os
Sertes) .

"Ns no tem direito de terra e tudo 
para a gentes da Oropa"

 A regio do Contestado, situada entre
os Estados do Paran e de Santa Catarina
, foi palco de uma "guerra santa",
durante o governo de Hermes da Fonseca.
A posse dessa regio, naquela poca, era
disputada pelos dois Estados; alm
disso, o Contestado era dominado pelos
grandes proprietrios que exploravam a
erva-mate e a madeira.  A regio havia
sido povoada por fugitivos da Guerra dos
Farrapos e da Revoluo Federalista, e
na poca da rebelio os camponeses
estavam sendo expulsos da terra devido
s constantes disputas entre os grandes
fazendeiros. Em 1900, o governo resolveu
construir a Ferrovia So Paulo-Rio
Grande, por intermdio da empresa
norte-americana  Brazil Railway, que
contratou jagunos para expulsar os
posseiros.

 Assim como no Nordeste, tambm no
Contestado haviam surgido figuras
msticas, conhecidas como "monges , que
congregavam o povo com suas curas e
promessas de dias  melhores. Em 1844, j
se tem notcia do monge Joo Maria; em
1897 surge outro monge com o mesmo nome.
Durante o episdio do Contestado, em
1914 , com popularidade um monge de nome
Jos Maria, figura messinica, magra, de
longos cabelos, que pregava o fim da
Repblica, a "lei do diabo". Em
Taguarau, Jos Maria fundou o seu
primeiro "quadro santo" da "Monarquia
Celeste" com mais de setecentos fiis.
Destrudo esse primeiro reduto, os fiis
se reorganizaram em Irani, onde tambm
foram atacados, morrendo Jos Maria. A
crena no retorno do monge reuniu
novamente os fiis agora em Santa Maria.
O governo mandou atacar os redutos da
"Monarquia Celeste". Os camponeses
reagiram e a guerra ganhou novas
propores. Cidades como Canoinhas,
Papanduva, Itaipolis e outras foram
atacadas. Centenas de pessoas morreram.
Os coronis exigiram uma ao mais
decisiva do governo. Para terminar com
esse bando de "fanticos" e
"degenerados" como eram tratados pelos
coronis e pelo governo, foi necessria
uma mobilizao militar de mais de 6 000
homens e pela primeira vez os avies
foram utilizados para fns militares. O
conflito se arrastou por quase cinco
anos (1912 a 1916). A "guerra santa"
terminou apenas durante o governo de
Venceslau Brs, deixando um saldo de
mais de 20 000 mortos.

"Vou acert minha vida no grupo de
Lampio '

 A mesma atitude de negao das
aspiraes populares adotada pelo
governo contra Canudos e Contestado
repete-se na represso aos movimentos
conhecidos como cangao.

 Jagunos e pistoleiros sempre foram
figuras comuns no contexto poltico do
Nordeste. Contratados pelos senhores das
grandes fazendas, serviam como guarda
pessoal na execuo dos pactos de morte
ou na luta pelas disputas de terras. O
cangao tinha um carter diferente; era
um movimento independente de revolta
contra os latifundirios. Os cangaceiros
eram ex-vaqueiros, ex-camponeses,
ex-jagunos ou ex-militares, sob a
chefia de algum lder carismtico, e
viviam de assaltos, pilhagens,
seqestros de pessoas ricas, buscando a
justia com o rifle na mo. O mais
famoso grupo foi o de Virgulino Ferreira
da Silva, conhecido como Lampio, o rei
do cangao, que durante vinte anos (1918
a 1938) dominou o serto. Lampio sempre
recebeu  apoio dos camponeses e
vaqueiros pobres que concentravam suas
esperanas nas faanhas do cangaceiro,
conforme afirma a poesia popular: "
perciso uma inleio/pra faz de
Lampio/Gunvernador do Brasil".

 Seu romance com Maria Bonita, mulher
forte e valente, passou para a cultura
po- # pular. Perseguido pelas volantes
policiais - expedies militares com
finalidade de capturar criminosos e
bandidos -, Lampio s foi derrotado
devido  traio de um dos membros de
seu grupo, j que conhecia bem melhor a
caatinga e contava com a simpatia da
populao sertaneja.

Os fiis do "Padim Ccero" enfrentam a
tropa

 Ainda no governo de Hermes da Fonseca
(1910-1914) explodiu uma outra revolta,
mais uma vez no Nordeste, em Juazeiro,
liderada pelo padre Ccero Romo
Batista, aliado dos coronis e venerado
por milhares de sertanejos. As
circunstncias em que ocorreu a revolta
estavam relacionadas com a poltica das
salvaes de Hermes da Fonseca.

 O presidente destituiu o governador do
Cear, que era um de seus opositores, e
nomeou o interventor coronel Franco
Rabelo. Os coronis da regio, liderados
pela familia Accioly, no aceitaram a
interveno e articularam-se indicando
Floro Bartolomeu para o governo e
armando os sertanejos. O elemento
catalizador dessa revolta foi o padre
Ccero, ou Padim Cio, prefeito de
Juazeiro do Norte, aliado de Floro
Bartolomeu. Nessa poca, o Cear era uma
espcie de "feudo" da familia Accioly,
que, apoiada nos coronis (dos quais
faziam parte Floro Bartolomeu e o
prprio padre Ccero), dominava todo o
Estado.

 A cidade de Juazeiro do Norte,
transformada em centro militar dos
rebeldes, era totalmente dominada pelo
padre Ccero, que ali havia congregado
uma imensa populao constituda de
pobres, perseguidos, desnutridos e at
criminosos. J em 1909, mais de 15 000
pessoas estavam instaladas na cidade e
na frtil regio do Cariri, onde se
dedicavam  produo de alimentos.

 O interventor ordenou a ocupao
militar de Juazeiro, mas no contou com
a resistncia da populao, fiel ao
padre Ccero. O cerco durou mais de dois
meses; apesar  da superioridade das
armas do governo, Rabelo, que liderava o
cerco, teve que ordenar a retirada e o
presidente Hermes devolveu o poder 
velha familia Accioly.

 A derrota de Hermes da Fonseca deixou
claro que o governo tinha pouco poder
diante dos coronis e que a melhor
poltica era de associao e no de
confronto com as oligarquias
tradicionais.

Os rebeldes do mar

 A Revolta da Chibata, como ficou
conhecida a revolta dos marinheiros
contra os castigos corporais e por
melhores soldos, foi um desses fatos
raros na Histria do Brasil em que as
exigncias dos "sem cultura" foram
atendidas.

 O Brasil, no comeo do sculo, tinha
uma importante frota, sendo a terceira
potncia naval do mundo. Apesar de seu
poderio, o recrutamento dos marujos era
na maioria das vezes forado, ou ento
eram incorporados condenados  priso .
O cdigo disciplinar da Marinha, que
vigorava desde o Imprio, consistia num
tratamento desumano, com predomnio do
castigo fsico.

 J em 1891, a guarnio do navio
Primeiro de Maio havia se rebelado
contra os maus-tratos. Em junho e
novembro de 1910, os marujos se
rebelaram novamente; mas a resposta foi
o aoitamento pblico dos amotinados. No
fim de novembro de 1910, os marujos se
organizaram melhor, tomaram em luta
sangrenta a oficialidade dos navios
Minas Gerais, So Paulo, Deodoro e
Bahia, sob a liderana de Joo Cndido
Felisberto. Os rebeldes enviaram uma
mensagem ao presidente Hermes: "No
queremos a volta da chibata. Isso
pedimos ao Presidente da Repblica e ao
Ministro da Marinha. Queremos resposta
j e j. Caso no tenhamos,
bombardearemos a cidade  os navios que
no se revoltaram."

 Diante da ameaa de bombardeio da
cidade do Rio de Janeiro, o Senado
aprovou rapidamente um projeto que
revogava os castigos corporais e
concedia a anistia aos revoltosos. Mas
to logo os amotinados depuseram as
armas, foram presos e desterrados,
alguns fuzilados e quase todos os
lderes torturados, como foi o caso de
Joo Cndido, que quase morreu na
priso. Contudo, nunca mais foram
aplicados castigos corporais na Marinha.

 Hoje uma msica, composta por Joo
Bosco e Aldir Blanc, exalta a figura
admirvel de Joo Cndido, o almirante
negro: "H muito tempo Nas guas da
Guanabara,/ o drago do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro A quem
a histria no esqueceu/ Conhecido como
navegante negro (...)"

Os tenentes: os redentores da Repblica

 Sem dvida, o mais significativo
movimento de contestao da Repblica
Velha foi a Revolta dos Tenentes,
militares de baixa patente pertencentes
sobretudo ao Exrcito. A sua importncia
no decorreu apenas de seu contedo
ideolgico; podemos identificar na ao
tenentista a crise de sustentao da
ordem oligrquica que culmina com a
Revoluo de 1930.

 A base ideolgica sobre a qual se
desenrolou a ao tenentista eram a
busca e a afirmao do papel das Foras
Armadas no processo poltico do pas. J
vimos que a Guerra do Paraguai havia
sido o grande batismo das foras
militares, que resultou na criao de
uma auto-imagem de purificadores
messinicos, de salvadores da ptria.

 Na Repblica, somou-se a essa imagem
messinica a concepo positivista de
ordem e progresso propagada nas escolas
militares do Rio de Janeiro. E a idia
de uma "ordem nacional" dogmtica e
autoritria, que no levava em conta as
lutas e contradies de classe. O
positivismo tambm exaltava as
tradies, as riquezas naturais,  bases
para uma postura nacionalista que faria
parte integrante do iderio tenentista.

 Desde o incio da Repblica, os
militares esto  frente do cenrio
poltico brasileiro, inicialmente com
Deodoro da Fonseca e depois, com a
consolidao do novo regime, com
Floriano Peixoto.  medida que a
Repblica foi sendo dominada pelas
oligarquias do caf, o Exrcito passou a
ter um papel secundrio, embora se
mantivesse atuante como mantenedor da
ordem (como na represso de Canudos e do
Contestado,  por exemplo). Apesar disso,
o Exrcito era a nica instituio de
carter nacional. O Estado, por sua vez,
se esforava para manter a unidade, mas
era obrigado a atender aos interesses
das oligrquias regionais. O Exrcito
estava relegado  ao abandono e ao
descaso (falta de armamentos e materiais
blicos, baixos salrios e
principalmente falta de prestgio e de
reconhecimento da sociedade civil). Os
jovens oficiais no comprometidos com os
interesses da Repblica oligrquica
tentaram ento resgatar o papel
histrico das Foras Armadas, tomando
para si o papel messinico de defender a
verdade, lutar pela purificao e
redeno de uma  ordem considerada
perfeita, mas que agora estava corrupta.

 Assim, os tenentes estabeleceram em seu
programa poltico o combate  corrupo,
ao mandonismo e  farsa eleitoral
(consagrada pelo voto do cabresto) e
defenderam  o voto secreto e livre.
Defenderam ainda uma administrao
honesta e competente, rejeitando os
desmandos administrativos da Velha
Repblica, a corrupo, o nepotismo dos
cargos pblicos, os emprstimos
estrangeiros e a dependncia externa, a
melhoria do nvel de vida da populao e
a superao da misria. Adotaram como
bandeira de luta o nacionalismo, a busca
de um caminho desenvolvimentista
prpria, atravs da industrializao,
superao da dependncia da monocultura
cafeeira,  sustentada pelo dinheiro
pblico. Em resumo, partindo de uma
crtica interna da prpria instituio,
os tenentes esboaram um programa mais
amplo de mudanas e transformaes
sociais.

 No incio do movimento, os tenentes
agiram de forma isolada, julgando que a
ao atravs das armas era a nica
maneira de conseguir a "regenerao" das
instituies. Essa atitude  muito
ntida nas rebelies de 1922 e 1924 e
mesmo na Coluna Prestes (embora tenha
havido tentativas de aliciar alguns
elementos da sociedade civil). Depois,
os tenentes resolveram se articular com
as foras polticas civis e apoiaram a
Aliana Liberal, desembocando na
Revoluo de 30.

A ao tenentista

 Podemos registrar trs grandes momentos
histricos da expresso do tenentismo ,
que, se por um lado no atingiram os
objetivos propostos, contriburam
decisivamente para o esboroamento da
Velha Repblica. O primeiro ocorreu em 5
de julho de 1922 e ficou conhecido como
o Levante de Copacabana ou Os 18 do
Forte. A questo que desencadeou o
levante foi a sucesso de Epitcio
Pessoa. A oligarquia dominante usou a
estrutura burocrtica e jurdica para
eleger Artur Bernardes, que no era
bem-visto pelos militares. Com a
publicao nos jornais do Rio de uma
carta assinada por Bernardes contendo
ofensas ao Exrcito, os nimos se
acirraram (mais tarde ficou provado que
a carta era falsa). O Clube Militar,
liderado por Hermes da Fonseca,
considerou a carta autntica. As
principais unidades militares
prepararam-se para um golpe militar,
visando a derrubada de Epitcio Pessoa e
impedindo a posse de Bernardes.

 O presidente Epitcio Pessoa agiu
prontamente, decretando a priso de
Hermes e o fechamento do Clube Militar.
As foras leais ao governo cercaram as
unidades rebeldes, o Forte de Copacabana
e a Escola Militar. Muitos rebelados
aceitaram a rendio e depuseram as
armas. No Forte de Copacabana, dezoito
soldados e tenentes no se renderam e
foram fuzilados, tendo sobrevivido
apenas Eduardo Gomes e Siqueira Campos.

 O segundo levante tenentista foi em
1923, durante o governo de Artur
Bernardes. O motivo fora a sucesso
governamental no Rio Grande do Sul. O
governador gacho, Borges de Medeiros,
comandava a oligarquia do Estado, sendo
reeleito para o cargo diversas vezes. Em
1928, formou-se forte oposio a Borges
de Medeiros, liderada por Assis Brasil,
que reclamava mudanas e reformas no
governo do Estado. Os tenentes gachos,
entre os quais se destacava Lus Carlos
Prestes, aderiram  luta contra Borges
de Medeiros, apoiando Assis Brasil. Aps
alguns confrontos celebrou-se o acordo
que ficou conhecido como Tratado de
Pedras Altas, pelo qual se alterava um
artigo da Constituio do Estado
proibindo a reeleio para o cargo de
governador.

 O terceiro movimento se iniciou com a
sublevao de vrias unidades em So
Paulo, no dia 5 de julho de 1924, sob a
liderana de Joaquim Tvora, Juarez
Tvora e Eduardo Gomes, alm de dois
generais adeptos das causas tenentistas,
Miguel Couto e Isidoro Dias Lopes. Os
combates entre as foras tenentistas e
as tropas governamentais se estenderam
por 22 dias. Os revoltosos seguiram para
o Paran, onde mais tarde se juntariam 
Coluna Prestes. Tambm ocorreram
revoltas em outros Estados, sendo a mais
bem organizada a do Rio Grande do Sul. A
28 de outubro de 1924, Lus Carlos
Prestes sublevava a tropa de Santo
ngelo. Cercado pelas tropas fiis ao
governo, os revoltosos marcharam em
direo ao norte. Dessa maneira
iniciava-se a famosa Coluna Prestes que
entre abril de 1925 e fevereiro de 1927
percorreu mais de 24 000 quilmetros.
Saindo do Rio Grande do Sul, indo at
Foz do Iguau, onde foi fundado um
ncleo militar-tenentista, seguindo em
direo a Gois e depois Maranho,
atravessaram todo o Nordeste, chegando 
Bahia e Minas onde, pressionados  pelos
governistas, retornaram  Bahia. Foram
inmeros os combates travados durante
essa marcha, inclusive contra os
jagunos de Floro Bartolomeu e do padre
Ccero. Segundo o historiador Hlio
Silva, a Coluna Prestes foi "a mais
importante demonstrao de guerrilha do
continente". Seu objetivo era sublevar o
povo, engajando-o na luta contra a Velha
Repblica. Porm, no conseguiu seu
intento. Perseguido, Prestes e seus
companheiros se dirigiram  Bolvia.
Muitos de seus participantes e lderes
conheceram de perto a realidade do pais,
tornando-se figuras destacadas do
movimento de 30. O capito Lus Carlos
Prestes aderiu  mais tarde ao Partido
Comunista do Brasil e ficou conhecido
como o Cavaleiro da Esperana,
alimentando as aspiraes do povo por
melhores condies de vida.


A CULTURA NA REPBLICA VELHA

 O fim do sculo XIX foi marcado, no
Brasil, por transformaes que
acarretaram a queda do Imprio e o
advento da Repblica. Essas rupturas
polticas se traduziram em rupturas
sociais: a Abolio, a imigrao, a
introduo do trabalho assalariado, e a
nivel econmico ocorreu a ascenso da
aristocracia cafeeira, a
industrializao e a urbanizao. Essas
transformaes tiveram seus reflexos a
nvel cultural apenas alguns decnios
mais tarde. Assim, podemos identificar,
no perodo da Repblica Velha, dois
momentos bastante distintos. No
primeiro, tanto a manifestao anstica
como os comportamentos e modos de vida
ainda estavam presos aos padres
vigentes no final do Imprio. A
referncia da moda, dos costumes e dos
comportamentos era Paris, que naquela
poca vivia a chamada Belle poque, um
estilo de vida difundido pela burguesia
que se apoiava na idolatria da cincia e
da tcnica, na busca do belo e do
prazer. Na Europa, a ruptura ocorreu de
forma dramtica com a ecloso da I
Guerra Mundial. No Brasil, essa ruptura
foi mais simblica com a Semana de Arte
Moderna, realizada em So Paulo em 1922.
Apesar das vaias, da reao negativa do
pblico, em particular dos estudantes da
Faculdade de Direito, reduto do
conservadorismo, as novas idias, as
novas manifestaes ansticas
frutificaram nos anos seguintes.

As cidades se modernizam

 Na virada do sculo, a sociedade
brasileira ainda respirava os ares de
fazenda e de campo, e as cidades tinham
aspecto de vilarejos da poca da
colnia. No Rio de Janeiro, capital da
Repblica, que, desde a vinda da Familia
Real, era o centro politico e econmico
mais importante do pas, havia em 1910
um pouco mais de 900 000 habitantes; dez
anos depois a cidade contava com mais de
1 milho de pessoas. O Rio de Janeiro,
apesar de sua beleza natural, possuia
becos, cortios e muito lixo nas ruas;
no havia rede de esgoto, o
abastecimento de gua era precrio, os
focos de epidemias eram constantes e a
populao morria de febre amarela,
clera, tifo e tuberculose. No governo
de Rodrigues Alves, o Rio ganhou novo
aspecto. As ruas foram alargadas, casas
derrubadas e a cidade foi saneada. Em
1922, na poca da instalao da
Exposio Internacional do Centenrio da
Independncia, o centro do Rio j
contava com grandes edifcios, cinemas,
teatros, cafs e uma fervilhante vida
social e intelectual.

 Tambm So Paulo cresceu e se urbanizou
nesses decnios. Em 1900, havia na
cidade 240 000 habitantes, incluindo um
elevado contingente de imigrantes.
Tambm os ricos fazendeiros vieram se
instalar em So Paulo, surgindo, assim,
os bairros  residenciais da elite, como
Campos Elseos e Higienpolis. Em 1917
j existiam mais de 1700 automveis e
vrias oficinas de consertos e garagens
de aluguel onde se podiam alugar
automveis de luxo. At 1907, o, Rio de
Janeiro liderou a produo manufatureira
do pas. Em 1920, porm, So Paulo
passou  frente: 31,5% da produo do
Brasil estava concentrada nesta cidade.

Futebol e samba

 O foot-ball, esporte ingls,
introduzido no Brasil por Charles Miller
em 1894, passou a ser cada vez mais
popular. Fundaram-seclubes como a A.A.
Ponte Preta, em 1900, o Palestra-Itlia
(Palmeiras) e outros. Em 1919, o
Fluminense, fundado em 1902, inaugurou o
primeiro grande estdio de foot-ball com
capacidade para 18 000 pessoas. Em So
Paulo sobem as chamins, apitam as
sirenes, bondes cruzam a cidade e nas
ruas se discute o ltimo match. O
futebol comeava a ser o grande lazer
das massas. Suas regras e estilo ingls
sofreram transformaes e adaptaes,
saindo dos clubes aristocrticos para as
vrzeas, praias e subrbios. S que
comprar uma bola de couro era carssimo;
ento, o jeito era improvisar bolas de
meias, de pano, para realizar o match ou
fazer o goal.

 No Rio de Janeiro tornara-se moda a
promoo de saraus, onde as conversaes
e as canes tocadas ao piano eram em
francs, e poemas parnasianos ou rcades
eram recitados. Os jovens escreviam
trovas nos lencinhos de papis
importados,
  passando-os sorrateiramente s moas
na hora do ch. Mas, no morro, um ritmo
novo se afirmava; com um gingado
estonteante, ia descendo a ladeira e
chegando aos sales: o samba. Em 1917,
foi gravado o primeiro samba do Brasil:
Pelo Telefone.  A princpio o samba foi
muito combatido por quem queria
continuar ouvindo as canes francesas,
valsas ou modinhas. Durante o Carnaval,
o morro organizava blocos e grupos que
desfilavam pela cidade. Porm, severas
proibies restringiam os desfiles das
futuras escolas de samba. Tambm a
capoeira era proibida, por causa de seus
gestos "obscenos" e jeitos
"desengonados".

A Semana de Arte Moderna

 A riqueza e a prosperidade geradas pelo
caf tambm permitiram  elite passar
longas temporadas na Europa, onde
entrava em contato com as novidades,
como o relgio de pulso, chapus e as
ltimas modas em vestidos e penteados;
com as idias da vanguarda anstica,
como o cubismo, o dadasmo e o
surrealismo, e tambm com as idias
polticas, como o comunismo e o
fascismo.

 Em Paris, Alberto Santos Dumont voou
pela primeira vez, em 23 de outubro de
1906, em um aparelho mais pesado que o
ar, o 14 Bis. Foi Santos Dumont tambm o
primeiro a dirigir um carro pelas ruas
da cidade de So Paulo, provocando
espanto e curiosidade em todos.

 Na arte, buscava-se superar as escolas
anteriores, como o Parnasianismo e
Simbolismo, e se afirmava uma nova
posio irreverente e contestadora que
passou a ser chamada de Modernismo. Esta
corrente rompia com a mtrica e o
formalismo estril dos movimentos
anteriores e buscava as feies e formas
populares, valorizando o regionalismo.

 Esse carter renovador era apoiado, em
parte, pelos setores progressistas da
burguesia brasileira, especialmente a
burguesia industrial paulista que
controlava  a imprensa e os espaos
culturais, como o Teatro Municipal de
So Paulo, onde explodiu a Semana de
Arte Moderna.

 "Vamos assustar essa burguesia que
cochila na glria de seus lucros." Essa
foi a inteno dos organizadores da
Semana, os irmos Prado, ricos
fazendeiros de caf e o pintor Di
Cavalcanti.

 Nos dias 13,15 e 17 de fevereiro de
1922, jovens artistas e intelectuais
reuniram-se no Teatro Municipal de So
Paulo para apresentar sua arte, suas
idias e ler seus manifestos. Foram
duramente vaiados e criticados, mas
permaneceram firmes, pois confiavam em
sua arte. Estavam presentes artistas que
seriam posteriormente as maiores figuras
da cultura brasileira: os escritores
Mrio de Andrade e Oswald de Andrade, os
pintores Anita Malfatti, Di Cavalcanti,
Tarsila do Amaral, o msico Heitor
Vila-Lobos, o escultor Victor Brecheret
e tantos outros.

 Em todos os campos os anistas, que
representavam a nova classe intelectual
do pas, buscavam a ruptura com as
tradies acadmicas, a destruio do
esprito conservador e conformista, a
atualizao da cultura brasileira e a
formao de uma conscincia criadora
nacional. O principal papel do movimento
foi fazer ruir as  velhas frmulas
culturais, como afirmou Paulo Prado, um
dos organizadores da Semana.

 Aps o escndalo da Semana de 22,
alguns anistas e intelectuais se
reuniram para formar o grupo Pau-Brasil,
apoiando as idias e orientaes
polticas de esquerda.

Mas dessa ebulio intelectual tambm
surgiu o Movimento Verde-Amarelo, em
1926, de posies nacionalistas e
conservadoras, liderado por Plnio
Salgado e Menotti del Picchia, que daria
origem ao Grupo Anta, defensor do
Integralismo.

 Em 1928, Oswald de Andrade, em seu
Manifesto Antropofgico, j iniciava a
crtica ao Modernismo: pensamento novo
no criamos. Continuou o pensamento
velho de importao (...). O grande erro
dos modernistas foi esse. A preocupao
esttica exclusiva .

Os movimentos da burguesia e da classe
mdia

 A incipiente burguesia industrial,
embora ligada por laos de familia e
interesse s oligarquias agrrias, no
conseguiu se expressar politicamente,
reivindicando apenas proteo para o seu
desenvolvimento. Fundando Ligas e
Partidos da Mocidade cujos objetivos
eram apenas a luta pelo saneamento noral
da Repblica, a burquesia identificava
os "males brasileiros" com o federalismo
excessivo, o analfabetismo, a falta de
patriotismo, a anarquia, o
internacionalismo.

 A Liga de Defesa Nacional, criada pelo
poeta e intelectual positivista Olavo
Bilac , foi um exemplo tpico dessa
posio moralista. Os temas centrais
dessa Liga foram a ordem, a disciplina,
a dignidade patritica e o servio
militar obrigatrio: oQue  o servio
militar generalizado? E o triunfo
completo da democracia; o nivelamento
das classes; a escolha da ordem, da
disciplina, da coeso; o laboratrio da
dignidade prpria e do patriotismo.

 Outro movimento de contedo moralista e
conservador que tentou retomar sua
importncia dentro do cenrio poltico
foi o da Igreja Catlica, cujo lder, D.
Sebastio Leme, arcebispo de Olinda e
Recife, tornou-se mais tarde cardeal do
Rio de Janeiro. A Igreja tentou ganhar
novos espaos, principalmente junto 
formao da elite intelectual e poltica
do pas; da a necessidade de difundir o
ensino religioso e de criar centros de
estudo, atraindo leigos pertencentes 
classe dominante. Junto s camadas mais
pobres, a Igreja s estaria presente em
termos de obras filantrpicas. Foram
fundados, assim, os Centros Dom Vital,
cujo rgo de divulgao era a revista A
Ordem, voltados para a formao da
intelectualidade catlica. Jackson de
Figueiredo e Alceu Amoroso Lima foram
lderes desse movimento. O grupo
catlico comeou a ter intensa
participao nas campanhas presidenciais
e na manuteno do regime. Defendiam um
governo sob a tutela da Igreja contra o
socialismo  , o anarquismo e os ideais
liberais dos tenentistas.

 O discurso catlico e civilista
alimentou uma outra corrente de
pensamentos que j estava presente no
Brasil desde a dcada de 20, o
Integralismo, inspirado no fascismo. Em
1928, foi fundado no Brasil o Partido
Fascista; a figura destaque desse
movimento foi Plnio Salgado, que teve
importante atuao no perodo posterior
a 30 atravs da Ao Integralista
Brasileira.

Anarquismo, socialismo e comunismo

 Apesar do reduzido nmero de operrios
em relao ao total da populao, nos
primeiros decnios do sculo o movimento
desse setor da sociedade assumiu grandes
propores, Em 1907, existiam no Brasil
3187 estabelecimentos industriais e
149140 operrios. Em 1920, o nmero de
empresas ascende para 13 336 e o nmero
de operrios para 275 512. A grande
maioria era de imigrantes de origem
europia com uma certa experincia
industrial, mas havia tambm migrantes
provenientes das regies atrasadas do
pas ou descendentes de operrios
urbanos.

 Ainda no sculo passado, os proletrios
formaram as primeiras organizaes em
defesa da classe, mas a maioria delas
fracassou. Em 1902 foi fundado o Partido
Socialista do Brasil, em So Paulo. Na
apresentao de seu programa estavam
presentes  vrios conceitos marxistas
misturados com uma viso anarquista.
Apesar de sua efmera existncia, a
importncia do Partido Socialista
consistiu na denncia das questes
sociais e na conscientizao da nascente
classe trabalhadora.  O movimento mais
importante desse perodo foi o
anarquismo, trazido pelos imigrantes
italianos e espanhis. Resultante de uma
dissidncia da Primeira Internacional
(1869), o movimento anarquista teve como
lder Bakunin, que rejeitava  a tese
marxista da necessidade de uma ditadura
do proletariado para o advento da
sociedade sem classes. O anarquismo
defendia a substituio da autoridade do
Estado por formas de cooperao entre os
indivduos. A supresso do capitalismo,
segundo os anarquistas, dar-se-ia pela
ao direta dos indivduos e no travs
da luta poltica.

 A recusa dos anarquistas em formar
partidos polticos fez com que buscassem
maior participao nos organismos
reivindicatrios de classe - os
sindicatos, as ligas, as associaes de
auxflio mtuo. O sindicato era
considerado o rgo fundamental de luta
e a principal ttica era a greve geral.

 No Brasil, dada a composio da classe
operria (grande porcentagem de mulheres
e crianas), o sindicato nunca conseguiu
se transformar em instrumento eficaz de
luta poltica. Mais importante foram os
jornais que proliferaram nessa poca,
difundindo as idias anarquistas e
funcionando como centros organizadores
de luta. Os mais importantes foram A
Plebe, Jornal Operrio, O Protesto,
Avanti e A Terra Livre.

 A atuao dos anarco-sindicalistas
resultou, entre o fim do sculo XIX at
1930, em mais de duzentas greves e
paralisaes, deflagradas nos principais
centros industriais do pas. Mas foi
entre 1917 e 1920 que aconteceram os
mais importantes  embates da classe
operria, no apenas devido ao grande
nmero de greves, mas sobretudo em
decorrncia do elevado nmero de
operrios envolvidos. Esse ascenso da
classe operria no pode ser explicado
apenas pelo confronto de classes e pela
mobilizao anarquista, como afirma
Boris Fausto: "estes so anos de um
grande ascenso revolucionrio na Europa,
que pe em risco a ordem capitalista. A
partir de outubro de 1917, os conflitos
sociais internos recebem alento e passam
a ser vistos sob uma nova tica. (...)
Subjacente (...), em cada pequena
batalha ou grande mobilizao esto
presentes os lances de um cenrio maior:
a Revoluo de outubro na Rssia, a
Revolta espartaquista, na Alemanha, a
comuna hngara, os conselhos italianos
(...)". (Trabalho urbano e conflito
social.)

 Entre 1913 e 1920 foram realizados
vrios congressos a nvel nacional, na
tentativa de anicular o movimento de
maneira mais centralizada e orgnica.

 Em 1919 foi fundada, em Moscou, no
nascente Estado Socialista, a Terceira
Internacional, que firmou os princpios
que deveriam nortear a luta operria no
mundo, a partir do sucesso da Revoluo
Sovitica. A Terceira Internacional
conclamou os operrios a defenderem o
novo regime, proclamou a solidariedade
internacional da classe operria e
props a organizao de partidos
comunistas nacionais.Sob a inspirao da
Terceira Internacional, foi fundado o
Partido Comunista do Brasil, em 1922,
por ex-lderes anarquistas. Existiam
srias divergncias tericas entre os
adeptos do anarquismo e do comunismo,
que dificultaram a conduo das lutas
sindicais: os comunistas buscavam
assumir a liderana dos principais
sindicatos (que estavam sob o controle
dos anarquistas). Astrogildo Pereira e
Cristiano Cordeiro foram dois lderes
comunistas que procuraram atuar nos
sindicatos seguindo as orientaes da
Terceira Internacional.

 Aps a Revolta do Forte de Copacabana
(julho de 1922) e a declarao do estado
de stio, o partido foi invadido e
declarado ilegal, passando 
clandestinidade. A sua atuao se
restringiu, ento,  imprensa, tambm
clandestina e vanguardista, com os
jornais Movimento Operrio e Classe
Operria. Na clandestinidade e
juntamente com outras foras de
esquerda, o Partido Comunista procurou
centralizar a luta com a fundao do BOC
(Bloco Operrio e Campons) em 1927,
reunindo anarquistas, socialistas,
comunistas e anarco-sindicalistas em
torno de um programa em comum.

Nasce o populismo

 A partir das primeiras dcadas do
sculo XX, o Brasil sofre mudanas
profundas. O processo de urbanizao e
de industrializao se acelera, uma
classe mdia se desenvolve, surge um
proletariado urbano. Se o modernismo 
considerado por muitos como um ponto de
referncia,  porque este movimento
cultural trouxe consigo uma conscincia
histrica que at ento se encontrava de
maneira  esparsa na sociedade. Ao se
cantar o fox-trot, o cinema, o
telgrafo, as asas do avio, o que se
estava fazendo era de fato apontar para
uma gama de transformaes que ocorreram
no seio da sociedade brasileira.

 Assim, contrariando o samba do
compositor popular Salvador Correa que
dizia: "Estava na roda do samba/Quando a
policia chegou/Iamos acabar com este
samba/Que seu delegado mandou", na
dcada de 30, o governo tratar as
questes sociais e culturais no mais
como questo de polcia, porm como
questo poltica, ou seja,  reconhecendo
o samba, o carnaval e outras
manifestaes populares, para com isso
dominar, subordinar as camadas
proletrias s novas relaes de poder,
permitindo s elites econmicas
(agrrias e industriais) continuar com o
controle do Estado.

 O reconhecimento das manifestaes
ansticas populares fazia parte de uma
postura poltica visando convencer a
todos que uma nova ordem econmica e
social eliminava  os conflitos sociais,
pois tratava-se agora de um projeto
dirigido  toda populao brasileira e
no apenas para as camadas populares
privilegiadas. Essa poltica de controle
das camadas denominou-se populismo.

PANORAMA DA SITUAO MUNDIAL DE 1930 A
1989

Com a I Guerra Mundial, a Europa perdeu
a hegemonia politica e social do mundo,
que passava para os Estados Unidos. Nos
anos 20, os norte-americanos
experimentaram um vertiginoso
crescimento, causado por fatores como o
desenvolvimento industrial do
ps-guerra, o financiamento da
reconstruo europia, o crescimento das
exportaes, a revoluo tecnolgica e
gerencial. Logo em seguida, os EUA
defrontaram-se com a crise de 1929. Isso
significou o colapso da famosa
prosperidade americana, devido 
superproduo industrial descontrolada e
anrquica. O New Deal foi a resposta a
essa crise, simbolizada, pela quebra da
Bolsa em 1929. A crise teve como
resultado principal a criao do Estado
planejador, isto , a superao dos
principios liberais pela adoo de uma
economia dirigida em que o Estado
esercia funo preponderante. Com o New
Deal, o Estado passou a intervir na
economia e a exercer uma politica de
investimento social, com programas de
reforma conduzidos por rgos
governamentais. O sentido dessas
reformas amplia a tendncia monopolista
do capitalismo.

 Assim, o mercado interno cresceu,
consolidando o padro de vida da classe
mdia americana, encarnado no american
way of life, emblema do bem-estar e da
mentalidade consumista. Recomposto
internamente, o capitalismo americano
expandiu-se pelo mundo, dando incio ao
que ficou conhecido como imperialismo
norte-americano. Esse  programa
expansionista baseava-se no poder
blico-industrial, na conquista dos
mercados internacionais e na
"exportao" da ideologia americana de
vida. A Europa conseguia preservar-se,
graas a sua tradio e independncia,
enquanto a influncia americana
penetrava na Amrica Latina atravs da
"poltica de boa-vizinhana" e alcanava
a sia, muito visada por sua importncia
estratgica e militar.

 Uma profunda crise ideolgica e
econmica atingiu toda a Europa. Marcada
pela Grande Depresso de 29, a
Inglaterra conheceu o desemprego, a
recesso e as tenses sociais. Mais
tarde, o Imprio Britnico recuperou-se
graas  sua condio de grande mercado,
fornecedor de matria-prima e centro
consumidor industrial. Assim, contribuiu
decisivamente para a retomada do
crescimento capitalista.

 Alm das contradies oriundas da
guerra, na qual perdera suas riquezas, a
Frana viveu as oscilaes politicas
representadas, de um lado, pela
democracia liberal conservadora e, de
outro, pela experincia socialista de
1936. Desse modo, no conheceu  a
estabilidade. Embora muito atingidas
pela crise, Inglaterra e Frana
conseguiram administr-la e super-la,
mantendo os princpios e as estruturas
liberais.

 No entanto, a Alemanha - a grande
perdedora da I Guerra - encontrava-se
sufocada pelas disposies estabelecidas
pelo Tratado de Versalhes. Convivendo
com desemprego,  inflao, recesso e
misria, no conseguiu resolver suas
crises dentro do modelo liberal. O mesmo
destino foi compartilhado por Itlia,
Espanha e Portugal. Desse impasse,
nasceram o fascismo italiano e o nazismo
alemo.

As ideologias do fascismo e do nazismo

O triunfo do fascismo na Itlia

 O fascismo foi um movimento poltico e
social originado na Itlia na dcada de
20, cujo principal lder foi Benito
Mussolini. Enquanto ideologia, o
fascismo baseia-se em princpios
totalitrios, assumindo caractersticas
diversas na Itlia e na Alemanha.
Fundamenta-se na recusa de princpios
liberais, negando a pluralidade de
representao poltica e os direitos da
liberdade individual. Sua doutrina
agrega elementos totalitrios como o
culto ao chefe (ditador), a
militarizao da sociedade e das
decises polticas, a idolatria
nacionalista (identificando Estado e
Nao, Nao  e Partido), a submisso
das massas, a assimilao da economia 
organizao
   corporativista, entre outras
caractersticas.

 O fascismo surgiu numa Itlia
desorientada diante do desemprego,
inflao, recesso e pnico social. A
classe mdia via-se desnorteada diante
da perda de poder aquisitivo, da
"proletarizao" acelerada, enquanto o
proletariado esfacelava-se como classe
empurrada para a margem da sociedade,
lutando atravs de manifestaes e
greves.

 A diviso das esquerdas, principalmente
na conduo de lutas sindicais, entre
comunistas e socialistas, invalidava
qualquer estratgia poltica
consistente. Assim,  as promessas de
ordem e estabilidade pregadas pelo
Partido Fascista de Benito Mussolini
alcanavam um extraordinrio sucesso
junto  classe mdia, apavorada com sua
prpria desintegrao. A organizao
paramilitar do fascismo reprimia as
greves, exercendo uma ao
"disciplinadora", que afirmava a
violncia organizada como um mtodo para
pr fim  convulso social e garantir a
estabilidade. Esse objetivo - a
conquista da estabilidade - parecia
suficiente para as massas. A exaltao
do orgulho nacional e a defesa da "ordem
e da propriedade" uniam a classe mdia e
a alta burguesia industrial e
financeira: era preciso evitar o caos da
revoluo proletria.  Assim, devido
sobretudo a sua ao prtica, o Partido
Fascista imps como soluo capaz de
reformar o capitalismo a reconciliao
dos diversos in sociais e a manuteno
da ordem atravs da represso. Convocado
pelo rei Vtor Emanuel a formar um
governo, Mussolini passou a controlar o
Estado burocrtico, implantando pouco a
pouco um sistema totalitrio
(1922-1926).

 Depois desse perodo de aparncia
legal, Mussolini aboliu os partidos,
dissolveu os direitos constitucionais,
atrelou os sindicatos e formou um Estado
corporativista, alm de impor o culto 
personalidade do chefe (Duce) e o
partido nico. As campanhas militares na
frica e a aproximao com a Alemanha
foram acontecimentos que ajudaram a
precipitar a II Guerra Mundial.

O nazismo: a formao do III Reich

 O nazismo, representado pelo Partido
Nacional Socialista, ou Nazista, contm
em linhas gerais as mesmas
caractersticas do fascismo. No entanto,
seus componentes ra cistas, seu ideal
messinico de uma Alemanha predestinada
a governar o mundo  e a maior
sistematizao de sua organizao
militar constituem traos especficos
que no podem ser desprezados.

 Em meio  terrvel convulso social de
uma Alemanha arrasada econmica e
socialmente, o nazismo imps-se como uma
ideologia capaz de recuperar a grandeza
perdida desse pas e lev-lo a uma
posio de liderana mundial. Apoiado em
uma organizao paramilitar e liderado
por Adolf Hitler, um hbil manipulador
de multides, o partido ia consolidando
seu prestgio junto a uma populao
desorientada. Em 1923, o partido tentou
dar um golpe no governo constitucional,
mas fracassou.

 Com a crise internacional de 1929, a
Alemanha mergulhou de vez na depresso
econmico-social. O pas estava
desgovernado e traviou-se uma luta
aberta entre as organizaes de esquerda
(as Frentes Vermelhas) e os grupos
paramilitares nazistas. Com o apoio da
burguesia, os seguidores de Hitler
afirmavam-se como restauradores da ordem
pela ao militar contra as esquerdas.
Ao mesmo tempo, a mensagem de
superioridade  tnica e do destino
privilegiado da Alemanha davam ao
nazismo a aparncia de colocar-se acima
dos conflitos de classe. Por outro lado,
a manipulao do orgulho nacional
despertava o revanchismo, enquanto todos
os males eram atribudos  conspirao
judaica e  perverso comunista. Estavam
criadas as condies para a ascenso do
nazismo.

 Em 1939, Hitler foi convidado para o
cargo de chanceler. Depois de assegurar
o poder pelo controle dos aparelhos de
Estado, deu incio ao III Reich. A
perseguio aos judeus comeou
imediatamente e as foras de oposio
foram liquidadas. A militarizao das
estruturas sociais, a organizao
corporativista e policial do Estado, a
criao do modelo nacionalista de
capitalismo definiam a ordem nazista. A
isso devem-se somar a doutrinao
constante das massas atreladas pelo
culto ao chefe (Fhrer) e pela
obedincia ao partido, a nfase na
indstria armamentista e o recrutamento
macio da populao para o servio
militar. Esses eram requisitos
indispensveis s campanhas de anexao
e  retomada dos territrios reclamados
como "propriedade alem". O
expansionismo de Hitler - a doutrina do
"espao vital" - foi a causa principal
para a deflagrao da II Guerra Mundial,
sobretudo aps a invaso da ustria e da
Polnia, em 1939.

EUA e URSS: as potncias do ps-guerra

 Derrotado o nazi-facismo e finda a
guerra, EUA e URSS emergiram como as
duas grandes potncias. Esses ex-aliados
passaram a consolidar suas reas de
liderana, enfrentando-se por causa de
seus interesses e buscando o poder
hegemnico atravs  da chamada guerra
fria. Esse confronto alimentou a corrida
armamentista dos dois pases, criando um
clima de tenso e medo no contexto
internacional.

 Os EUA firmaram seu domnio militar e
expandiram suas empresas, aumentando os
interesses monopolistas do capital e
criando mercados dependentes. A
instalao de empresas subsidirias em
"pases aliados" encontrava abundncia
de mo-de-obra barata, mercados de
grande potencial e trazia enormes
lucros.

 Cada vez mais dependente do modelo
norte-americano, a Europa voltou a
reorganizar-se com a formao do Mercado
Comum Europeu (1958), procurando novas
formas para a planificao, equilbrio
poltico, recomposio de suas economias
e reconquista de seu padro de vida.

 O Japo, embora muito desgastado com as
penalidades originadas pela perda da
guerra, alcanou um notvel
desenvolvimento industrial e
tecnolgico, mas sem exercer influncia
poltica relevante.

 A rea de poder da URSS cresceu
significativamente com a organizao das
repblicas socialistas do Leste Europeu:
Hungria, Bulgria, Romnia, Iugoslvia,
Polnia, Tchecoslovquia, Albnia e
Alemanha Oriental. No entanto, o
controle sovitico sobre essas reas
carregou-se de tenso e conflito ao
chocar-se com a busca de autonomia por
parte de alguns pases, gerando a
interveno armada da URSS na Hungria e
na Tchecoslovquia. Com o advento do
comunismo na China, quebrou-se a
estrutura monoltica dsse sistema.

 Ao mesmo tempo, imps-se a ideologia do
Terceiro Mundo, formada pela luta de
emancipao dos pases da frica e da
sia e pela tentativa das naes da
Amrica Latina de libertar-se da
dependncia econmica e ideolgica
imposta pelos Estados  Unidos. Os pases
da frica e da sia precisavam superar
as condies subumanas de sua populao,
determinadas pela desigualdade na
distribuio da riqueza mundial.
Conscientes de sua espoliao,
articularam uma aliana baseada na ajuda
mtua e na  solidariedade. Em torno
dessa conscincia, ergue-se a ideologia
do Terceiro Mundo.

 O processo de descolonizao da frica
e da Asia revelou definitivamente que o
progresso dos grandes centros de poder
era construdo s custas da misria e da
explorao dessas regies. As lutas de
emancipao nacional contra o jugo
imperialista evoluram para a afirmao
de uma terceira fora, independente da
disputa travada pelos dois blocos
hegemnicos. De um modo geral, foi essa
a tendncia que prevaleceu, apesar das
presses e das concesses relativas
obtidas tanto dos Estados Unidos quanto
da Unio Sovitica. A luta de Mahatma
Gandhi, na ndia, contra o domnio
ingls, a guerra da Arglia e a luta
pela independncia do Vietn
constituram-se em exemplos dessa
conquista de soberania nacional.

 Em 1960, dezessete pases africanos
alcanaram sua independncia; em 1969,
esse nmero chegou a 39 e, em 1974,
quando o imprio portugus implodiu,
passaram a existir 45 Estados africanos
independentes. Em alguns casos, como os
de Angola e Moambique, a libertao
nacional conduziu  formao de Estados
socialistas.

 A Conferncia de Bandung (1955)
oficializou a posio terceiro-mundista
com a condenao do racismo, do
colonialismo e da corrida armamentista
desenvolvida pelas  potncias
hegemnicas. Consagraram-se, assim, o
princpio de autodeterminao dos povos
e seu direito ao bem-estar, alm da
busca de modelos alternativos de
desenvolvimento.

O contexto da Amrica Latina

 De um modo total, a identificao da
Amrica Latina com o Teiceiro Mundo
baseou-se sobretudo no
subdesenvolvimento crnico, na
instabilidade poltica, na dependncia
econmica e financeira (questo da
dvida externa) e na busca de um modelo
autnomo de desenvolvimento. Sua
solidariedade constitui-se a partir da
necessidade de superar as condies
subumanas de sade, habitao, trabalho,
sobrevivncia. Dentro desse quadro,
ressalta-se a oscilao poltica de
muitos pases da Amrica Central e do
Sul, marcados por ciclos alternados de
tentativas de construo democrtica e
de implantao de ditaduras militares. A
exploso de guerrilhas tambm passou a
constituir  um trao caracterizador da
complexa situao poltica dessas
regies. As lutas de guerrilha na
Amrica Central, a Revoluo Sandinista
na Nicargua - que governou o pas por
dez anos (desde a derrubada de Anastasio
Somoza, em 1979) -, a guerra civil em S.
Salvador, a queda de Alfredo Stroessner
- presidente do Paraguai durante 35 anos
-, ao lado do processo de
redemocratizao da Argentina, do Chile
e do Brasil - que, em 1989, elegeram seu
presidente pelo voto direto - foram as
principais transformaes polticas da
dcada de 80.

 O crescimento da dvida externa e as
dificuldades de negociao com os
organismos financeiros internacionais,
sem prejudicar o desenvolvimento
interno, tornaram-se graves problemas,
que atingem a Amrica Latina como um
todo.

As ideologias em crise

 Em meio s grandes contradies do
mundo contemporneo, uma constatao
baseada em fatos relevantes parece
impor-se: a purza monoltica das
doutrinas econmicas e ideolgicas
atravessa crise decisiva. Na Inglaterra,
por exemplo, o papel de interveno do
Estado na economia sofreu uma drstica
reduo no governo de Margaret Thatcher.
J a Frana do governo socialista de
Franois Mitterand, aps uma srie de
medidas estatizantes, encaminhou-se para
um novo equilibrio entre a planificao
e a livre empresa. Todas essas
oscilaes e reformulaes parecem
indicar uma tendncia para solues que
escapam aos modelos econmicos
consagrados e aos princpios ideolgicos
que os sustentam.

 Essa procura de novos modelos de
soluo hirida atingiu tambm o bloco
socialista. A crise veio por conta das
condies recessivas da economia
sovitica e das outras repblicas
socialistas do Leste Europeu. A essa
dimenso econmica, juntou- se uma crise
poltica determinada pelos movimentos de
dissidncia dentro da URSS. A resposta
veio com o novo programa do lder
Mikhail Gorbatchev, consubstanciado nos
princpios da glasnost (transparncia) e
na perestroika (reestruturao
scio-econmica). Ao mesmo tempo, a
hegemonia sovitica no Leste Europeu
tornou-se mais vulnervel, com a crise
poltica atingindo a Polnia, onde o
sindicato independente Solidariedade
reivindicava, j no incio dos anos 80,
medidas de abertura  poltica e
econmica, que s comearam a ser
implantadas no fim da dcada. Num
processo que inclui a prpria URSS, e
que talvez no se defina ainda neste
sculo, os pases socialistas buscam uma
nova forma de instituir-se poltica e
economicamente. E nesse contexto vale
destacar a reunificao das duas
Alemanhas, iniciada com a queda do muro
de Berlim, em novembro de 1989.

 Do ponto de vista do equilibrio do
poder, as recentes negociaes de
desarmamento entre URSS e EUA abriram um
dilogo promissor, reduzindo os riscos
apocalpticos  de uma conflagrao.

 Tambm a China, aps a morte de Mao
Ts-tung (1976), promoveu uma
reaproximao com o Ocidente, adotando
uma reforma no interior da economia
estatal, atraindo investimentos
estrangeiros e voltando-se para um
programa de modernizao.  As
manifestaes contra o governo, porm,
continuam sendo duramente reprimidas.
Assim, milhares de estudantes chineses
foram mortos em 1989, quando ocupavam a
Praa da Paz Celestial, no centro de
Pequim, reivindicando democracia.

 De uma outra perspectiva, o crescimento
do mercado asitico e a extraordinria
afirmao tecnolgica do Japo dividiram
o mundo em trs mercados hegemnicos: o
europeu, o norte-americano e o asitico.
Os programas de equilbrio comercial
entre esses mercados forneceram a base
das relaes mternacionais
contemporneas.

A revoluo dos valores

 A experincia da barbrie totalitria,
o horror dos campos de concentrao
nazista e a exploso da bomba atmica em
Hiroxima e Nagasqui abalaram a
"conscincia civilizada". Os mais altos
valores criados pelo Ocidente entraram
em crise.

 Ao mesmo tempo, o vertiginoso
desenvolvimento dos meios de comunicao
e da tecnologia e a fora
homogeneizadora da "cultura de massa"
impuseram profundas modificaes
culturais, gerando as condies para o
questionamento de valores e
comportamentos tradicionais.

A Europa perplexa, firmou-se cada vez
mais a conscincia pacifista, ao lado de
sinais de inquietao e de desejos de
mudana. Assim, uma filosofia complexa
como o existencialismo vulgarizou-se
atravs dos meios de comunicao e
converteu-se em manifestao de
comportamento rebelde. Nos Estados
Unidos, a atitude beat e o fascnio pela
cultura negra (do jazz ao rock) levaram
a juventude a romper com os padres de
comportamento americano. A conscincia
feminista, por sua vez, adquiriu um novo
impulso. Eram os traos precursores da
grande rebelio da dcada de 60.

 A recusa dos padres de comportamento e
dos valores sustentados pelo
establishment caracterizou essa dcada.
O impacto da contracultura repercutiu em
todos os planos, do inconformismo diante
das ideologias existentes s relaes
familiares, da libertao sexual s
roupas, do protesto poltico s drogas.
O fenmeno da contestao inclua desde
o movimento hippe at a rebelio
estudantil francesa de maio  de 1968.
Nos EUA, a rebelio estendeu-se s
manifestaes de protesto contra a
Guerra do Vietn. Por outro lado,
manifestaes artsticas, como a msica
pop e os happe-nings, por exemplo,
sintonizavam-se com o surgimento de uma
"nova conscincia".

 Os anos 70 herdaram algumas dessas
conquistas ideolgicas. A conscincia
pacifista ampliou-se, o movimento
feminista alcanou vitrias importantes,
a defesa da ecologia entrou na ordem das
questes polticas, surgiram as
reivindicaes das minorias, os
homossexuais organizaram-se em torno de
seus direitos e a questo racial foi
debatida amplamente.

 Para alguns analistas, os anos 80
trouxeram um refluxo conservador.
Apontam, por exemplo, o impacto inibidor
da Aids nas relaes sexuais para
validar esse ponto de vista. No entanto,
um balano objetivo indica que, em
linhas essenciais, a mudana de valores
veio para ficar.


DESENVOLMENTO, "MILAGRE" E INFLAO

As fases da economia de 1930 at hoje

 A grande crise de 1929 repercutiu no
Brasil, causando baixas sensveis na
produo at 1933. Para compreender o
desenvolvimento das linhas essenciais de
nosso processo econmico, impe-se uma
diviso em perodos. Segundo Paul
Singer, a primeira fase  constituda
pela transio da industrializao e vai
de 1933 a 1955, incluindo a implantao
das indstrias de base; em seguida,
passa-se  expanso do capital
monopolista (multinacional e estatal),
de 1956 a 1967; por fim, chega-se 
consolidao das transformaes
estruturais, de 1968 a 1980. Da em
diante, o processo caracteriza-se por
novos reajustes das transformaes
estruturais.

1933 a 1955: industrializao extensiva
e indstria de base

 Crescimento do mercado interno De 1933
a 1939, a produo industrial dobrou,
registrando-se o crescimento anual de
setores industriais, como o da borracha
, o do cimento, o mobilirio, o
siderrgico e o do papel.  fundamental
saber que esses setores esto
relacionados aos bens intermedirios,
capazes de estimular a produo de bens
de consumo.

 O crescimento industrial seguia,
portanto, uma estratgia de substituio
das importaes, cuja caracterstica
fabril era a expanso da fiao, da
tecelagem e de bens de consumo. Desse
modo, o governo dava prioridade ao
desenvolvimento do mercado interno e
organizava a industrializao no sentido
de diminuir a dependncia da economia
nacional em relao ao mercado
internacional.

 Rodovias: desenvolvimento barato

 A construo de rodovias em vez de
ferrovias foi outra estratgia do
desenvolvimento nesse perodo. A
construo de rodovias era bem mais
barata que a de ferrovias, sobretudo
porque a estrada no passava de mera
trilha, alargando-se gradativamente pelo
trnsito de nibus e caminhes.

 A expanso da rede rodoviria
concentrou-se em So Paulo e tornou as
mercadorias industriais acessveis a
todo Centro-Sul. Dessa forma, tornava-se
necessria a especializao da
mo-de-obra para capacit-la ao trabalho
e promov-la a consumidora dos produtos
fabris. A industrializao estimulou a
urbanizao das populaes brasileiras e
ampliou a rede de distribuio urbana de
alimentos, o que, por sua vez, expandiu
a produo da agricultura comercial.

 Em conseqncia, o uso de petrleo,
caminhes e nibus adquiriu uma
importncia essencial na economia e na
pauta de importaes. Depois da crise de
29 e a partir de 1931, o Brasil comeou
a desenvolver um novo ramo industrial: a
montagem de veculos. Era o incio da
etapa de substituio das importaes,
ainda que fbricas estrangeiras (Ford,
General Motors) dominassem as
subsidirias no processo de montagem.  A
crise da agricultura: Enquanto o
crescimento industrial prosseguia, a
agricultura enfrentava uma sria crise,
com recursos desiguais distribudos
entre os Estados para superar as
dificuldades. Os maiores investimentos,
a concesso de crditos e o mais
expressivo mercado consumidor
concentravam-se no Centro-Sul. Em 1939,
So Paulo detinha mais da metade de toda
a produo agrcola do pas, enquanto a
agropecuria de Minas Gerais, do Norte e
do Nordeste permanecia com o cultivo
estagnado.

 Iniciou-se, ento, o xodo rural: os
traballiadores do campo transferram-se
para as cidades, sobretudo as de So
Paulo e do Rio de Janeiro. Diante das
precrias condies de sobrevivncia,
provocadas pela concentrao da
propriedade da terra, da monocultura e
da espoliao da mo-de-obra camponesa,
a cidade surgia como a grande
alternativa  para escapar  misria.

A industrializao retardatria

 A existncia de mo-de-obra disponvel
era essencial  expanso industrial,
criando um exrcito industrial de
reserva (mo-de-obra em excesso) capaz
de ser requisitado  medida que
surgissem os empreendimentos.

 A expanso industrial, baseada na
substituio de importaes, requeria
matrias-primas e bens de capital
trazidos dos pases industrializados.
Desse modo, como  todo pas de
industrializao retardatria, o Brasil
importava tecnologia e aumentava
consideravelmente sua pauta de
importaes no ps-guerra. Essas
importaes passaram  a abranger tambm
uma srie de bens de consumo, como
automveis, geladeiras e outros
eletrodomsticos.

 A interveno do Estado na economia foi
uma iniciativa do Estado Novo
(1937-1945) e seu propsito era a
modernizao capitalista. Para
promov-la, a ditadura Vargas aliou- se
ao setor cafeeiro, adequando o
crescimento industrial aos recursos
provenientes do setor agrcola.

O papel do Estado na economia

 Aps o impulso inicial dado pelo Estado
 industrializao, as classes burguesas
passaram a exigir sua participao nas
decises econmicas. A interveno
estatal  fora essencial para o deslanche
industrial. No entanto, aps 45, os
setores industriais julgaram que essa
interveno se mostrava inadequada. Por
isso, a redemocratizao de 1946, no
governo Dutra, objetivava tambm reduzir
a interveno do Estado na economia,
favorecendo a penetrao do capital
estrangeiro.

 No entanto, logo aps a guerra, o
capital estrangeiro no demonstrava
interesse em investir no Brasil. Assim,
a usina de Volta Redonda, construda
pela Cia. Siderrgica Nacional e
terminada ainda no perodo da guerra, s
iniciou sua produo em 1946 com
capitais estatais.

 O economista Paul Singer descreve assim
esse perodo: Ogoverno criou ainda
durante a guerra a Fbrica Nacional de
Motores, que se tornou a primeira
empresa brasileira que fabricava
veiculos (35% de nacionalizao do peso
do caminho, em 1952), em vez de
limitar-se a mont-los. Outro setor em
que se iniciou a substituio de
importaes foi o de petrleo. ( ..) Uma
grande campanha nacionalista contra a
entrega do petrleo brasileiro a
companhias estrangeiras se desenvolveu
entre 1948 e 1953, e acabou logrando
xito. Estabeleceu-se o monoplio
estatal da explorao e do refino do
petrleo, constituiu-se a Petrobrs
(1953) que comeou a construir
refinarias, criou uma frota de
petroleiros e organizou a explorao.
(Interpretao do Brasil: uma
experincia histrica de
desenvolvimento.)
  Em 1954, foi criada tambm a
Eletrobrs, pois o desinteresse do
capital estrangeiro pelo setor de
energia eltrica empurrou para o Estado
a iniciativa do empreendimento.

1956 a 1967: expanso do capital
monopolista

  1956-1957: JK e o Plano de Metas

 Acabada a etapa de reconstruo das
economias europias do ps-guerra,
acelerou-se o processo de trocas
comerciais de tecnologia entre EUA,
Europa e Japo, o que se refletiu no
Brasil com a poltica do
Nacional-Desenvolvimentismo do governo
de Juscelino Kubitschek (1956-1960). Seu
programa de governo estabelecia o Plano
de Metas, com desenvolvimento dos
setores atiea energia, transporte,
indstria, educao e alimentos. Para
isso, o governo investiu na
industrializao de base, como produo
siderrgica, refinao de petrleo,
alumnio, cimento, celulose (papel).

 Das realizaes industriais, peso
significativo coube  implantao da
indstria automobilstica. O governo
ofereceu s empresas uma srie de
incentivos, desde que implantassem
fbricas de veiculos capazes de produzir
no Brasil (...).  A produo de
caminhes e de nibus passou de 19 855
unidades em 1957 para 51325 em 1960; a
de automveis comeou apenas em 1958,
com 2189 unidades e atingiu 37 843 em
1960.

 Entre 1957 e 1960, a produo fabril
cresceu em 11,9% ao ano, com particular
destaque para os ramos de material de
transporte e de material eltrico, ambos
com  27% ao ano, quimica com 16,7% ao
ano, mecnica com 16,5% ao ano,
metalrgica com 15,6% ao ano e de
borracha com 16% ao ano. Estes ramos so
os que produzem bens de capital (capital
fixo), bens intermedirios e bens
durveis de consumo.

 O Plano de Metas obteve xito tambm
nos setores energtico e de petrleo.
Assim, a energia cresceu em 43,3% e a
produo petrolfera chegou a atingir 30
milhes de barris por ano em 1960 (em
1955, era de 3 milhes barris/ano).

JK: realizaes e desigualdades

 Por outro lado, cabe considerar as
observaes dos economistas Joo M. C.
de Mello e Lus G. Belluzzo, para os
quais o capitalismo monopolista do
Estado se instaura no Brasil, ao trmino
do periodo Juscelino, que marca a ltima
fase da industrializao. Isto porque s
ento so constituidas integralmente as
bases tcnicas necessrias para a
autodeterminao de capital,
cristalizadas no estabelecimento de
relaes entre os Departamentos de Bens
de Produo, Bens de Consumo  do
Assalariado e Bens de Consumo
Capitalista, o que impe uma dinmica
especificamente capitalista ao processo
de acumulao.

 Assim, a ideologia nacional,
desenvolvimentista do governo JK no
explicitava que a economia nacional
subordinava-se  dinmica internacional
do capitalismo. Entretanto, mesmo a
noo de desenvolvimento veiculada pela
propaganda presidencial no podia
ocultar que os xitos do perodo
estiveram associados ao aumento das
disparidades regionais, das
desigualdades de renda, dos focos de
tenso, dos bolses de  misria, e isso
se utilizarmos apenas a linguagem do
prprio discurso "desenvolvimentista".
Essas desigualdades foram os altos
custos que recaram sobre a economia
nacional.

  importante considerar que o governo
JK direcionou as empresas estatais para
viabilizar o amplo investimento das
multinacionais nos setores da indstria
pesada: material eltrico e eletrnico,
eletrodomsticos, produtos qumicos e
farmacuticos de matria plstica (alm
da indstria automobilstica e de
caminhes).

 A partir do perodo JK, a expanso das
empresas multinacionais foi crescente, o
que significou uma gradativa associao
de empresas nacionais com essas
empresas. Desse modo, reduziu-se o peso
econmico e poltico dos empresrios
nacionais. O predomnio das
multinacionais no pas acabou provocando
o inevitvel aparecimento  do
desequilibrio na balana de pagamentos:
a remessa de lucros para o Exterior,
alm dos pagamentos pelo uso de marcas e
patentes (royalties) e da importao da
maquinaria, superava rapidamente o
capital que as multinacionais
inicialmente  investiram.

 O governo Jnio Quadros (31 de janeiro
a 25 de agosto de 1961) no conseguiu
articular um plano capaz de resolver a
elevao da taxa inflacionria com o
processo  de industrializao. Com a
renncia de Jnio, Joo Goulart (7 de
setembro de 1961 a 30 de maro de 1964)
assumiu a presidncia, aps um
tumultuado perodo poltico.

Jango e as reformas de base

 Durante o governo Goulart foi elaborado
o Plano Trienal (programa econmico para
seus trs anos de
administrao:1963,1964,1965). Esse
plano, baseado nas Reformas de Base
(agrcola, educacional, administrativa,
fiscal, bancria), pretendia equacionar
as tendncias da economia desde 1960: a
acelerao inflacionria, que atingiu
37% em 1961 e chegou a 51% em 1962, e a
desacelerao  do crescimento com taxa
de 7,3% em 1961, caindo para 5,4% em
1962.

 O Plano Trienal tentava conciliar o
combate inflacionrio com o
desenvolvimento econmico, atravs de um
conjunto de reformas. A reforma agrria,
por exemplo, tinha como objetivo
distribuir terras a pequenos
proprietrios para estancar o crescente
xodo rural, bem como para assegurar o
abastecimento alimentar aos centros
urbanos. A reforma administrativa
objetivava dinamizar a mquina estatal,
controlar a burocracia e elevar a
eficincia dos servios pblicos. A
reforma fiscal organizava-se no sentido
de reduzir a sonegao dos impostos,
tornar mais eqitativa a cobrana do
imposto de renda, fiscalizar com maior
rigor a arrecadao das empresas para
conseguir viabilizar o controle dos
impostos pagos por elas. A reforma
bancria buscava o controle dos juros e
da remessa de lucros das empresas
atravs dos depsitos bancrios. A esse
conjunto de reformas deu-se o nome de
Reformas de Base.

 No entanto, essas reformas estavam
articuladas a duas medidas:
refinanciamento da dvida externa;
amortizao de emprstimos anteriormente
contrados. Esses "remdios" eram
praticamente ineficazes como medidas
antinflacionrias, pois amortizar
dividas com a entrada de capitais
estrangeiros agravaria ainda mais o
nosso endividamento no exterior.

 Por outro lado, como conciliar medidas
amargas de combate  inflao (como
restrio creditcia, reduo de gastos
pblicos, congelamento de salrios) com
apoio popular? Alm disso, no final de
1963 e incio de 1964, as empresas
norte-americanas  e europias, bem como
seus governos, dificultavam a negociao
da dvida e de emprstimos ao pas.

 1964: intlao e golpe militar

 O resultado era a inviabilizao do
controle inflacionrio. Ao mesmo tempo,
as multinacionais, os setores militares
e os grupos polticos articulavam um
golpe de  Estado. Assim, sob a
justificativa pblica e oficial de
promover a "limpeza" da economia, o
golpe de 64 apareceu como o "salvador"
da crise , buscando legitimao popular.
Para os idelogos do golpe militar, "no
era mais possvel conviver com uma
inflao de 92%" (em 1980, seria de 110%
e, no primeiro semestre de 88, de cerca
de 200%).

 A poltica econmica do perodo
1964-1967 teve como objetivo prioritrio
atrair os investimentos estrangeiros.
Para executar essa poltica, tornava-se
necessria a centralizao do poder,
associada a um conjunto de reformas
econmicas e financeiras capazes de
promover uma completa insero no
sistema capitalista internacional. Essa
poltica econmica baseava-se na
concepo de que a economia do pas
passava necessariamente pelo controle
dos meios de pagamento, atravs da
reduo de ofertas de mercadorias.

 Nesse sentido, foi criado o Conselho
Monetrio Nacional (CMN), encarregado de
estabelecer os rumos da poltica
monetria, enquanto a execuo do plano
ficaria por conta do Banco Central
(criado em 1964). Assim, o governo criou
as ORTNs (Obrigaes Reajustveis do
Tesouro Nacional), com dupla finalidade:

- As ORTNs financiariam os dficits
(falta de dinheiro) do Tesouro;

- As ORTNs regulariam a oferta de
dinheiro no pas.

 Para atrair o investimento estrangeiro,
estabeleceu-se o mecanismo da correo
monetria, que ajustaria as ORTNs de
acordo com a taxa inflacionria vigente
e com os rendimentos de juros.

 No plano scio-econmico, procurava-se
estimular a construo de casas com o
fim de dinamizar o setor imobilirio
privado, levando-o a investir nesse
setor. Em 1964, fundou-se o BNH (Banco
Nacional de Habitao), cujos recursos
vinham do Fundo de Garantia por Tempo de
Servio (FGTS) que as empresas recolhiam
nos bancos. O FGTS tinha como objetivo
substituir o direito  estabilidade no
emprego aps dez anos por uma nova forma
de indenizao ao trabalhador demitido.

Abertura ao capital estrangeiro

 A instituio do mecanismo do FGTS
estimulava a rotatividade da
mo-de-obra, facilitando as dispensas
dos trabalhadores e a imediata
contratao de outros, quase sempre com
salrios menores.

 Por outro lado, o governo incentivava a
formao de grandes empresas, j que a
poltica de restrio ao crdito
provocava a falncia de pequenas e
mdias empresas. Toda essa estratgia
visava estimular o investimento pesado
por parte das empresas multinacionais e
formar grandes bancos e empresas
comerciais. O objetivo, em suma, era
atrair as empresas multinacionais, as
nicas que possuam capital suficiente
para sobreviver sem crdito, ou cujos
emprstimos estavam garantidos para os
setores financeiros (bancos) por seus
altos rendimentos e por seus bens de
capitais.

 Desse modo, o modelo econmico
instaurado pelo regime militar era o de
uma "industrializao excludente", isto
, um modelo capaz de excluir a quase
totalidade da populao brasileira de
seus beneficios, pois sua regra era a de
que s os altos investimentos permitiam
lucros elevados e desenvolvimento
assegurado.

1968-1980: consolidando as
transformaes

 A montagem do "milagre econmico" Todo
esse processo conduz necessariamente 
constatao de que o perodo de 1957 a
1967 integrou definitivamente o mercado
nacional aos quadros internacionais do
capital monopolista. Segundo o
economista Paul Singer, as relaes da
economia brasileira com o resto do
mundo, vale dizer, com as naes
capitalistas, sofreram mudanas
significativas.

 A partir dos fins da dcada dos anos
60, o pais comea a se integrar numa
nova diviso do trabalho, criada pelas
multinacionais, cuja participao na
economia mundial capitalista passa a um
nivel qualitativamente diferente. As
multinacionais surgem nos paises
industrialmente mais avanados,
principalmente nos Estados Unidos, e
estabelecem subsidirias em outros
paises, que se acham em diferentes
estgios de desenvolvimento.

 Esse perodo caracterizou-se pelo auge
e declnio do "milagre econmico"
brasileiro. Esse "milagre" foi a
conseqncia de todo um processo de
substituio das importaes. O que foi
o milagre? Como se tornou possvel?
Quatro pontos sustentaram a montagem do
milagre:

- reconcentrao da renda;

- ampliao do sistema de crdito;

- abertura ampla da economia ao mercado
externo;

- crescimento das empresas estatais.

 Na reconcentrao da renda, o processo
iniciou-se a partir da industrializao
de artigos de luxo, os chamados bens de
consumo durveis. Para a absoro pelo
mercado dessa produo de bens durveis,
o Estado criou um sistema de crditos ao
consumidor, com facilidade de emprstimo
para as camadas mdias e mdias altas.
Verificou-se, assim, uma expanso signif
cativa na compra de automveis,
televises em cores, eletrodomsticos
sofisticados, bem como a aquisio de
apartamentos luxuosos, elevando o padro
dessas camadas.

 Ao mesmo tempo, o Estado tomou medidas
para controlar a expanso do consumo de
bens no-durveis: calados, tecidos,
alimentos, bebidas etc. Com a estagnao
do mercado consumidor interno desse
setor; o governo adotou medidas para
estimular as exportaes de bens
no-durveis, dando vazo  expressiva
produo desse setor. Dessa forma,
nasceu o famoso slogan: "Exportar  o
que importa". Na exportao,
encontrava-se a soluo-chave para que o
pas pudesse capacitar-se para realizar
a importao de equipamentos e
matrias-primas indispensveis
aocrescimentoeconmico. Como resultado,
a exportao servia para pagar os
emprstimos contrados  no exterior.

 O quadro para a consumao do "milagre"
completava-se com a criao de
facilidades capazes de atrair os
investimentos estrangeiros, isto , as
multinacionais. Com  uma proporo maior
de capitais dos EUA e menor da Europa e
Japo, caberia a elas o controle da
produo em setores como eletrnica,
mecnica, eltrica, qumica, metalrgica
etc. Quanto s empresas estatais, sua
funo era:

- garantir a infra-estrutura para as
instalaes das multinacionais
(Petrobrs, Eletrobrs, Nucleobrs,
Portobrs etc.);

- criar empresas de pouco valor atrativo
aos setores multinacionais, mas que
seriam importantes para conjugar o
desenvolvimento combinado:
multinacional-empresa estatal.

Crise do "milagre"

 Nos anos do "milagre" (1968 a 1973),
aproximadamente quinze milhes de
brasileiros participaram de um
consumismo desenfreado, adquirindo
produtos sofisticados.  No final de
1973, porm, o "milagre" comeou a
esgotar-se. A crise do petrleo, ou
seja, o aumento do custo do produto, foi
um ponto significativo nesse processo de
esgotamento. Mas os pontos essenciais da
crise do "milagre" foram:

- o endividamento externo ;

- a contrao de novos emprstimos -
necessrios  continuao do modelo do
"milagre" -, que no Brasil eram
convertidos em cruzeiros, obrigando o
Banco Central a emitir papel-moeda e
provocando inflao;

- o crescimento do dficit pblico, j
que para manter o nvel da produo o
governo comprava os excedentes das
empresas para revend-los no mercado
externo a preos muito mais baixos,
estimulando novas emisses de cruzeiro
pelo Tesouro.

 Com a finalidade de controlar a
circulao de dinheiro no mercado, o
governo lanou as Letras do Tesouro
Nacional (LTNs) para resgat-las a curto
prazo e lan-las no open market. O
governo federal e os governos estaduais
emitiram ttulos das ORTNs e LTNs. Esse
era um expediente para impedir o
aquecimento econmico e a inflao. Na
carncia de dinheiro, o governo
compraria as LTNs atravs do Banco
Central, pondo o dinheiro em circulao.

 No entanto, as ORTNs e LTNs aplicadas
no open market podiam ser resgatadas a
curto prazo, representando dinheiro vivo
em curto espao de tempo.

 Ento, o open market - concebido para
combater a inflao - transformou-se em
rea de alta especulao, onde os
"investidores" apostavam na inflao e
ganhavam. Em suma, os grupos financeiros
e todos aqueles que possuiam grande
liquidez (dinheiro
vivo)"jogavamnoopen,
obtendolucrosfabulosos. Logicamente,
ficava faltando dinheiro para fins
produtivos, o que automaticamente
elevava a taxa de juros, cujo aumento
era incorporado s mercadorias. O
consumidor-que nada tinha a ver com isso
-pagava o  juro que os especuladores
ganhavam no open.

 As empresas tambm passavam a aplicar
no open, ocasionando diminuio dos
investimentos e reduo da produo e da
oferta de empregos. Como conseqncia,
elevou-se, de um lado, o arrocho
salarial (pagamento de baixos salrios
aos trabalhadores) e, de outro lado,
para compensar as perdas, o governo
aumentou a arrecadao de impostos,
enquanto as empresas multinacionais e os
setores bancrios ampliavam seus
lucros.

Geisel: incio do disparo inflacionrio

 No governo Geisel (1974-1978), a crise
econmica comeou a adquirir seus traos
decisivos, embora seus efeitos tenham
sido adiados. Em 1974, o crescimento
global foi de 9,5%, mas a dvida externa
saltou de 6,2 bilhes de dlares para
11,9 bilhes, e a inflao oficial
saltou de 15,7% (1973) para 37,5%. De
1974 a 1978, a economia no teve o mesmo
desempenho que no perodo de 1968 a
1973.

 A partir de 1974, o quadro tornou-se
bastante negativo: a correo
inflacionria no reduziu a inflao; o
setor estatal de bens de produo no se
diferenciou nem se completou,
continuando dependente das importaes;
os capitalistas nacionais s  tiveram
como alternativa associarem-se s
grandes firmas internacionais; a
modernizao da agricultura, alm de
insuficiente, gerou novos problemas,
devido  forma como  foi feita: expulso
de posseiros, invaso de reservas
indgenas, crescimento do "exrcito" de
bias-frias na periferia das cidades do
interior e crise crnica no
abastecimento de certos produtos
essenciais (como o feijo), prejudicando
as lavouras  de exportao.

 Atingido pelas altas do petrleo (desde
1933), o crescimento econmico voltado
para a exportao de manufaturados e
gneros agrcolas (soja, milho etc.)
mostrava-se  em processo de esgotamento.
Do mesmo modo, a importao de bens de
capital (mquinas, equipamentos,
tecnologia), os insumos industriais
(petrleo, derivados siderrgicos)  e os
emprstimos externos mostravam-se
incapazes de manter o modelo econmico
do "milagre".

 Nos anos de 1979 e 1980, a crise foi-se
avolumando. Chegou a tal ponto de
gravidade, que o governo Figueiredo
(1979-1984) estabeleceu como prioridade
administrativa o combate sem trgua 
inflao. Em 1980, a marca atingida foi
de 110%.

1981-1989: os reajustes estruturais

Deficincias da economia

 No entanto, a partir de 1981, as
deficincias da expanso econmica
segundo esse modelo vieram a se agravar
ainda mais com a recesso econmica.
Alm da inflao, a dvida externa
levava o Brasil  exausto econmica.

 No final de 1982, o governo recorreu ao
FMI, o qual receitou os "remdios" de
sempre: recesso (j iniciada e agora
aprofundada), cortes de salrios
(prontamente efetuados pelos ministrios
econmicos), diminuio das importaes,
investimentos do Estado e ampliao das
exportaes. Em 1983, a inflao era de
200% ao ano; em 1984, chegava
aproximadamente a 270% ao ano. A Nova
Repblica, em 1985, tentou reduzir as
propores da crise.

 Cruzado: sobras e faltas

 Em fevereiro de 1986, diante de uma
inflao galopante, o governo Sarney
props o Plano de Estabilizao
Econmica ou Plano Cruzado para combater
a inflao. Eis  as principais medidas:

- o cruzeiro  substitudo por uma nova
moeda, o cruzado;

- os preos so congelados por um ano;

- os aumentos salariais ocorreriam uma
vez por ano, ou quando a inflao
atingisse os 20%;

- extino da correo monetria, que 
substituda pelo ndice de Preos ao
Consumidor (IPC);

- os trabalhadores recebem abono de 8% e
os salrios so recalculados com base na
mdia dos ltimos seis meses;

- as ORTNs so substitudas pelas OTNs
(Obrigaes do Tesouro Nacional).

 Se, por um lado, havia sobra de
dinheiro no sufocado oramento das
classes trabalhadoras, por outro, as
mercadorias sumiam das prateleiras dos
supermercados, a carne desaparecia dos
aougues, as filas cresciam dia a dia e
o gio (diferena que o comprador paga a
mais sobre o valor nominal de uma
mercadoria) se tornava a  nova mania
nacional.

Falncia do cruzado

 A falncia do Plano Cruzado, no final
de 1986, era visvel. Esse declnio
relacionava-se s seguintes questes:

- as classes empresariais que controlam
os meios de produo no quiseram ceder
a nada, nem arriscar. Alm disso,
rebelaram-se quando descobriram que o
Plano Cruzado exibia uma face
distributiva e impulsionaria o
crescimento dos salrios com maior
velocidade que os lucros;

- a segunda questo estava no modelo
econmico.

 Como observou Francisco Viana, a
economia foi projetada para atender a
uma elite e ficou atordoada quando se
deparou com a entrada macia de novos
consumidores num mercado onde
tradicionalmente os estudos desprezam
cerca de 50% a 60% da populao
marginalizada do consumo. (O Brasil
oficial rasga a fantasia.)

Economia: fracasso e hiperinflao

 Em 1987, o governo defrontou-se com
mais um agravamento da crise econmica.
O Plano Bresser no conseguiu reduzir a
inflao, que atingia ndices superiores
aos do ano de 1955.

 Ainda segundo Francisco Viana,1987
comeou com um horizonte de visibilidade
quase nulo. O Cruzado estava no cho, a
inflao se revelava insubmissa, os
investidores estrangeiros batiam em
retirada, os investidores nacionais
preferiam a ciranda financeira s linhas
de produo ( ..).

 Para 1987, os analistas tinham previsto
uma hiperinflao, mas esta s veio em
1988, com uma taxa de 30% ao ms e
trazendo as suas inevitveis
conseqncias: estagnao quase completa
dos investimentos, situao anrquica no
sistema de preos e de produo,
"dolarizao da economia".

 No fim de 1988, a inflao cravou 933%.
Diante desse quadro crtico, o
presidente Sarney, tendo como ministro
da Fazenda Mailson da Nbrega, decretou,
em janeiro  de 1989, o Plano Vero, que
criava o cruzado novo (valendo mil
cruzados), congelava preos e salrios e
extinguia a OTN. Mas, com gastos sem
controle, o prprio governo se incumbiu
de fazer o plano fracassar. E o pas, em
meio a grave  crise, elegeu, em dezembro
de 1989, um novo presidente, protelando
para 1990 a adoo de novas medidas
econmicas.


A ERA VARGAS

 As transformaes que a sociedade
brasileira atravessava, desde a dcada
de 20, configurariam uma forte crise
econmica, social e poltica. Com
efeito, o aumento da industrializao
vinha acompanhado de uma oscilao na
cafeicultura e trouxe uma gradativa
predominncia industrial na economia.

 No plano poltico e social, o velho
modelo oligrquico no se adaptava mais
 ascenso social das camadas mdias.
No era mais possvel tratar a "questo
social  como caso de polcia" (expresso
de Washington Lus), isto , resolver
pela represso uma srie de aspiraes
sociais.

 O desfecho desse quadro de crise e
mudana foi a Revoluo de 30. A aliana
formada pelos tenentes militares e os
"tenentes civis" (jovens das camadas
urbanas ou das elites agrrias que
ajudaram na Revoluo) com as classes
mdias urbanas e os setores interessados
na industrializao foi a base social
responsvel pela deposio  de
Washington Lus.

 A partir de novembro e dezembro de
1930, a Revoluo teve um componente
popular, com a adeso das camadas pobres
s manifestaes dos revolucionrios.
Pouco a pouco, o governo provisrio, sob
a chefia de Getlio Vargas, passou a
compor-se com representantes das foras
oligrquicas opostas aos interesses do
esquema Caf-com-Leite.

 Em novembro de 1930, a criao do
Ministrio do Trabalho, Indstria e
Comrcio evidenciava no apenas a
revalorizao do caf, mas tambm o
interesse em manipular as classes
proletrias. Com a revalorizao da
poltica do caf, Vargas seguia o mesmo
modelo da Velha Repblica, apoiado na
monocultura e no latifndio. Essa linha
de conciliao das reformas com a
manuteno do esquema dominante ser uma
caracterstica da poltica brasileira.

Construo do Estado Novo:1930-39

O controle do conflito social

 O comando de Vargas dava sinais de
desejar a continuidade. No incio de
1931, a represso ao movimento operrio
e outras manifestaes populares
comeava a mostrar a face de uma
ditadura nascente. Em maro de 1931, foi
criada uma lei de sindicalizao. Sob o
pretexto de erguer-se  condio de
rbitro dos conflitos de classe, o
governo de Vargas arquitetou uma slida
estratgia de represso: a "estrutura
sindical corporativa", que institua a
representao nos sindicatos operrios
de 50% de membros do patronato e de 50%
de trabalhadores, descaracterizando a
natureza da organizao  sindical.

 Como mostra talo Tronca, os objetivos
da lei de sindicalizao eram claros: 1)
transformar o sindicato, de arma
autnoma dos trabalhadores, em agncia
colaboradora do Estado; 2) disciplinar o
trabalho, considerando-o mero fator de
produo; e 3) evitar a emergncia da
luta de classes, utilizando o sindicato
como "pra-choque" entre o capital e o
trabalho.

 Com esse esquema, o governo Vargas
promovia uma estratgia de subordinao
das classes operrias. O Estado
controlava os sindicatos e intervinha
nas diretorias sindicais. As
reivindicaes eram filtradas e
convertidas em instrumento poltico a
ser manipulado segundo os interesses dos
grupos no poder.

O regime dos interventores

 Em 1931, o sistema de controle do poder
nos Estados foi implantado. Os lderes
do movimento tenentista eram nomeados
para interventores nos Estados e os
"tenentes civis" iam ocupar postos-chave
nos ministrios e na administrao
federal. No entanto, a manuteno da
estrutura agrria inviabilizava as
mudanas polticas, e os interventores
enfrentavam as oligarquias estaduais sem
condies de alterar  as regras do poder
local.

 A essa dificuldade somava-se a de
montar suas administraes. O ditador
assumia uma posio de rbitro moderador
diante do confronto entre as velhas
elites e os interventores. Utilizava o
confronto para consolidar sua autoridade
e poder, manipulando os tenentes para
combater os inimigos civis e, ao mesmo
tempo, servindo de juiz nos instantes
mais graves do confronto.

So Paulo: resistncia  interveno

 A maior oposio a esse fortalecimento
do poder central veio de So Paulo. A
nomeao de um interventor pernambucano
- Joo Alberto Lins de Barros - irritou
a oligarquia paulista, que desejava
homens do prprio Estado para essa
posio. Joo Alberto demitiu-se em
julho de 1931; seguiram-se outros
interventores, mas a instabilidade
continuou. Em 1932, os antigos partidos
de oposio (PRP e PD) formaram uma
Frente nica com o objetivo de enfrentar
o poder central com o mximo de fora
possvel.  Essa Frente nica lanou a
campanha por eleies a uma Assemblia
Constituinte, que Vargas insistia em
adiar constantemente. A campanha
adquiriu popularidade, com manifestaes
pblicas e comcios. Jovens
universitrios organizavam passeatas
exigindo eleies, com o apoio da
burguesia industrial e das elites
agrrias. Numa passeata realizada em
maio de 1932, a polcia matou quatro
estudantes. Rapidamente se formaram
comisses com o nome de MMDC (Miragaia,
Martins, Drusio e Camargo - os
estudantes monos) e, com o apoio do
interventor Pedro de Toledo, depuseram
Miguel Costa (chefe da Fora Pblica,
atual Polcia Militar) e Cordeiro de
Farias (chefe de Polcia), homens de
confiana de Getlio.

Revoluo de 1932: objetivos claros

 Dessa forma, os membros do PD, PRP,
classes mdias, burguesia e
latifundirios pretendiam abalar a
autoridade de Vargas e, ao mesmo tempo,
tentar recuperar o comando da poltica
brasileira. Entretanto, a luta pela
Constituinte, sob o pretexto  de ser um
desejo nacional, escondia o objetivo das
classes abastadas de So Paulo:
controlar as agitaes populares. De
maro a junho de 1932, a cidade de So
Paulo  (e algumas cidades do interior)
foi palco de uma srie de manifestaes
das camadas populares - passeatas,
saques de lojas e armazns, queima de
bondes eltricos -,  num claro protesto
contra a situao de penria provocada
pela crise econmica de 1929 e que
permanecia sem soluo.

 As elites agrrias e a burguesia
industrial de So Paulo temiam o
crescimento dos descontentamentos se no
fossem resolvidos os graves problemas
econmicos e financeiros do Estado.
Aproveitando-se do clima de insatisfao
geral de toda a populao paulista, as
lideranas polticas e militares
perceberam a gravidade dos protestos e
cartalizaram os problemas da crise
econmica para o comando autoritrio de
Vargas e sua recusa em realizar eleies
para a Constituinte.

 Tratava-se de desviar as falhas do
sistema oligrquico e direcionar as
energias para um outro conflito. No dia
9 de julho de 1932, eclodiu a Revoluo
Constitucionalista, desencadeada pela
proclamao da Junta Revolucionria,
formada alguns dias antes por Francisco
Morato (do Partido Democrtico), pelo
general Isidoro Dias Lopes (do movimento
tenentista de 1924), pelo general
Bertoldo Klinger (que conseguiu apoio de
alguns quartis do Mato Grosso), por
Pdua Sales (membro do PRP) e pelo
interventor Pedro de Toledo. O coronel
Euclides de Figueiredo tomou o comando
da segunda Regio Militar (So Paulo).
Comeava a Guerra Civil.

 O conflito armado durou trs meses. So
Paulo no tinha capacidade militar para
enfrentar as foras do governo federal.
Alm disso, falhou o apoio prometido por
outras regies; com a falta de armas e
munies, no havia a menor condio de
manter a luta. Em setembro, os membros
da junta foram presos. Com a vitria,
Vargas saa fortalecido. Por outro lado,
teve de ceder s presses e convocou
eleies para a Assemblia Nacional
Constituinte. Por esse motivo, pode-se
dizer que as classes abastadas de So
Paulo no foram completamente
derrotadas. Pelo contrrio, alcanaram
um relativo sucesso com toda a
mobilizao criada no pas por causa da
Revoluo Constitucionalista.

1934: Nova Constituio

 Por mais que o governo autoritrio de
Vargas tenha procurado protelar a
convocao de eleies, o Congresso
Nacional e o presidente do governo
provisrio j haviam promulgado o Cdigo
Eleitoral, desde 24 de fevereiro de
1932. Esse cdigo estabelecia:

- o voto secreto (o que diminuiu a
corrupo eleitoral, pelo menos nos
centros urbanos);

- novo limite de idade para ser eleitor:
de 21 anos para 18 anos;

- o direito de voto s mulheres ;

- a criao da Justia Eleitoral, que
organizava as votaes.

 No dia 3 de maio de 1933, realizam-se
as eleies para a Assemblia
Constituinte. No entanto, no s os
deputados eleitorais faziam parte da
Constituinte. Por presses dos tenentes
e inspirada no corporativismo fascista,
a Assemblia teria ainda "representao
classista", ou seja, as associaes
profissionais e sindicais de patres  e
empregados elegeriam delegados. Assim,
em 28 de junho, quarenta delegados foram
eleitos para a Constituinte.

 Por trs dessa representao classista
existiam dois objetivos:

- diminuir o peso poltico das
oligarquias;

- escolher os delegados das associaes
e sindicatos, o que aumentava a esfera
de poder de Getlio e diminua a fora
dos adversrios, principalmente de So
Paulo e Minas Gerais. Assim, Vargas
conseguiu mais aliados para fazer suas
manobras polticas, ou seja, aumentou
sua representao poltica para alcanar
seu objetivo: centralizar as decises na
sua pessoa.
  Aps um perodo de trabalhos
tumultuados, no qual os constituintes
sofreram as tentativas fracassadas de
golpe militar por parte do general Gis
Monteiro, a Assemblia e o presidente
promulgaram, em 16 de julho de 1934, a
nova Constituio.

 Com vrios pontos de contato com a
Constituio de 1891, o novo texto
estabelecia:

- a continuao do federalismo;

- a adoo do sufrgio universal (voto
secreto) para deputados, senadores,
governadores, presidente da Repblica,
vereadores e prefeitos;

- o respeito s garantias individuais,
com plena liberdade de crena, reunio,
associao poltica e liberdade de
imprensa.

 A nova Carta ampliava tambm os poderes
do governo federal, cabendo a este por
lei a maior parcela da arrecadao dos
impostos recolhidos pelos Estados.
Estava preparado o caminho para a
centralizao do poder politico. Essa
medida foi aprovada  por fora das
presses dos tenentes, adeptos de um
Estado nacional que governasse acima de
quaisquer interesses regionais. Essa
idia era amplamente apoiada pelos
chefes militares mais autoritrios, como
o general Gis Monteiro.

 Por presses tenentistas, foram
aprovadas tambm leis que garantiram a
nacionalizao das guas e das riquezas
do subsolo - a explorao de minrios
por parte dos estrangeiros, permitida em
legislao anterior, agora passava a ser
feita exclusivamente pelo Estado.

 Por outro lado, a participao das
classes populares na Constituinte de
1934 era muito pequena. Comprometidos
com as causas proletrias estavam os
socialistas Domingos Velasco e Maurcio
de Lacerda, e o comunista Zoroastro
Gouveia. Para entender  o pequeno grupo
dos representantes populares 
necessrio recuperar a trajetria das
tendncias socialistas no Brasil.

Formao do Bloco Operrio

 A intensa agitao dos movimentos
operrios de 1901 a 1920 sofreu um
declnio em funo do rgido esquema
repressivo exercido a partir de 1920
contra as lideranas operrias,
sindicatos, organizaes anarquistas e
anarco-sindicalistas. Com o estado de
stio (perda das garantias individuais)
decretado por Artur Bernardes
(1922-1926), o Partido Comunista do
Brasil caiu na clandestinidade em 1924,
retornando  vida legal em 1927, no
governo Washington Lus (1926-1930), e
aparecendo publicamente na cena poltica
nacional.

 No incio de 1927, o jornal A Nao
divulgava o programa do Partido
Comunista. Logo em seguida, o mesmo
jornal publicou a Carta Aberta da
Comisso Central da Executiva do Partido
Comunista do Brasil, propondo a formao
de uma frente nica composta por todas
as organizaes operrias, com uma
plataforma poltica unitria para
possibilitar  classe operria a disputa
nas eleies como organizao
independente dos demais partidos. Esta
frente nica ficou conhecida como Bloco
Operrio.

 A plataforma poltica do Bloco Operrio
defendia as classes ,proletrias e,
segundo A Nao, a tarefa dos candidatos
identificados com as mais urgentes
necessidades e as aspiraes minimas das
classes oprimidas deste pas consistia
em chamar a massa operria ao exercicio
efetivo de seus direitos politicos de
classe, assim como a necessidade de
assumir o prvio comprmisso de
subordinar sua atividade parlamentar ao
controle da massa operria.

 No entanto, a atuao do Bloco Operrio
e, principalmente, do PCB sofreu grande
represso a partir de 28 de julho de
1927, quando o deputado Anbal de Toledo
conseguiu aprovar no Congresso a Lei
Criminal ou Lei Celerada. Essa lei -
assinada  pelo presidente Washington
Luis em 12 de agsto - permitia o
fechamento de qualquer tipo de
associao que praticasse atos
considerados ofensivos  moral,  ordem,
 segurana pblica, alm de impedir
qualquer tipo de publicao que se
enquadrasse nesses casos.

A experincia do BOC

 A lei dirigia-se a toda manifestao
oposicionista, mas visava sobretudo 
militncia socialista e proletria,
levando o PCB  clandestinidade.

 Nessas circunstncias, o PCB levou a
experincia do BOC para outros Estados,
j que at ento ele funcionava apenas
no Rio de Janeiro. A ao poltica
estendeu-se tambm ao campo, dando
origem ao Bloco Operrio e Campons
(BOC), fundado em 1928. No entanto, o
trabalho junto aos camponeses foi quase
nulo.

 Apesar das perseguies, o BOC
conseguiu formar uma representao em
So Paulo. Chegou tambm a eleger dois
candidatos no Rio de Janeiro, mas no
conseguiu fazer nenhum representante nos
cargos legislativos (vereadores e
deputados estaduais) por causa da
Comisso Verificadora.  dificil avaliar
com preciso a influncia concreta do
BOC sobre a classe operria, pois a
imensa maioria das classes trabalhadoras
era analfabeta e, alm disso,
compunha-se de estrangeiros sem direito
a voto. No entanto, pode-se afirmar que
o BOC, de maneira geral, tinha ao
bastante reduzida junto s camadas
populares.

 Por outro lado, o BOC chegou a apoiar a
Revoluo de 1930, mas a partir de 1933
comeou a desaparecer gradativamente
como frente poltica  esquerda, dando
lugar a uma nova agremiao esquerdista
(ANL), formada a partir de 1935, com
caractersticas de frente poltica
semelhantes s diretrizes do BOC.

ANL: uma frente de resistncia

 Com a Aliana Nacional Libertadora
(ANL), surge um amplo movimento popular
nascido da necessidade em que se achavam
os brasileiros de emancipar-se
economicamente do jugo estrangeiro
(1930-1937). A ANL tinha como membros
ex-tenentes, liberais, socialistas,
comunistas, lderes sindicais. 
semelhana das Frentes Populares
europias,  tentava-se formar uma
organizao de carter antiimperialista
e antifascista. Lus Carlos Prestes, do
PCB, foi escolhido presidente de honra,
enquanto a presidncia efetiva cabia ao
capito Hercolino Cascardo.

 O programa poltico da ANL tinha como
pontos bsicos:

- suspenso do pagamento da dvida
externa;

- nacionalizao das empresas
estrangeiras;

- proteo do Estado aos pequenos e
mdios proprietrios de terra, dando ao
Estado a incumbncia de promover uma
reforma agrria (entregar terras dos
grandes proprietrios aos camponeses);

- organizao de um governo popular;

- amplas garantias de liberdade de
expresso, comunicao e organizao das
classes proletrias.

 Houve organizaes de ncleos da ANL
por todo o Brasil. O pequeno crescimento
popular em torno da ANL comeou a
preocupar o governo, que determinou o
fechamento dos ncleos e da sede em 11
de julho de 1935. Diante da ilegalidade,
os membros  mais liberais, alguns
tenentistas e socialistas deixaram a
ANL, que passou a ser dirigida pelos
membros do PCB. Vrios dirigentes
comunistas falavam em uma insurreio
armada.

Intentona Comunista: vitria de Vargas

 Essa conspirao militar ficou a cargo
dos grupos tenentistas, membros do
partido. Mesmo com oposio de vrios
participantes do PCB, que duvidaram do
xito de uma revolta armada contra o
governo Vargas, os grupos mais radicais
organizaram um levante. Assim, em 23 de
novembro de 1935, contrariando as
determinaes da direo do PCB para que
os revoltosos s comeassem a rebelio
aps o sinal do comando revolucionrio
no Rio de Janeiro, a revolta foi
deflagrada inesperadamente em Natal e,
no dia 24, em Recife.

 O movimento inesperado dos rebeldes foi
precedido por um falso telegrama,
enviado aos membros da ANL na capital do
Rio Grande do Norte pela polcia, dando
o sinal para a rebelio. O governo
Vargas acompanhou os acontecimentos
ciente do falso sinal. Vargas permitiu
que a revolta ocorresse, mas impediu que
as informaes chegassem aos comandos do
Rio de Janeiro. Em 25 de novembro,
tropas governamentais controlavam a
situao tanto em Natal quanto em
Recife.

 Desse modo, as notcias do levante
levaram quatro dias para chegar aos
comandos cariocas. Com isso, o governo
preparou armadilhas sem evitar a ecloso
da revolta no Rio. No dia 27 de
novembro, os revolucionrios foram
controlados sem muitas dificuldades pelo
comandante da primeira Regio Militar,
Eurico Gaspar Dutra. Estava sufocada a
chamada Intentona Comunista, ou seja,
uma tentativa de levante militar e
poltico organizada pelo PCB.

 Vargas soube, entretanto, tirar
proveito do fracasso e da desorganizao
comunista. O episdio foi facilmente
controlado e Getlio, consciente dos
limitados recursos dos revoltosos,
utilizou o acontecimento para preparar
um golpe dois anos mais tarde.

Governo Vargas: segunda fase -1937-1945

Preparao para o golpe

 Com um esquema extremamente repressivo
a qualquer suspeita de insubordinao
poltica, Vargas, nos anos de 1936 e
1937, criou um clima tenso no pas, com
constantes notcias de tentativas de
novos levantes comunistas. Finalmente,
em 22 de  setembro de 1937, os jornais
denunciaram a existncia de um novo
golpe comunista, que estaria contido no
Plano Cohen - suposto plano de subverso
comunista que inclua detalhes sobre a
derrubada do governo.

 O falso plano fora forjado pelo capito
Olmpio Mouro Filho, com o
consentimento do general Gis Monteiro,
do alto comando militar e do ministro da
Guerra General  Dutra. Esses militares
apresentaram  sociedade brasileira os
escritos do capito como um plano
comunista capturado pelo servio secreto
do Estado-maior do Exrcito. Mais tarde,
na dcada de 1960, o general Olmpio,
quando inquerido sobre o Plano Cohen,
respondeu que fizera um trabalho de
literatura.

 No Congresso Nacional, alguns deputados
denunciaram as intenes do plano:
preparao para um golpe com o qual
Getlio teria poderes excepcionais para
governar centralizada e
autoritariamente. O governo, por seu
lado, criava uma Comisso Executora do
Estado de Guerra, tomando as seguintes
determinaes:

- priso de qualquer suspeito;

- organizao de campos de concentrao
militar para disciplinar os jovens que
se desviassem dos direitos civis; em
outras palavras, priso para os
suspeitos de serem comunistas;

- criao de comisses com o intuito de
estimular nas escolas uma propaganda
organizada contra o comunismo.

Implantao da ditadura

 Ao mesmo tempo, Getlio Vargas, Gis
Monteiro e Gaspar Dutra elaboravam um
plano de governo nos moldes
nazi-fascistas da Alemanha e da Itlia.
Em Minas Gerais, o governador assegurava
apoio ao golpe, enquanto eram feitos
contatos com os governadores do Norte e
do Nordeste. Por sua vez, o jurista
mineiro Francisco Campos  redigia uma
nova Constituio, inspirada no modelo
fascista da Polnia (nascendo da o
apelido de "Constituio Polaca").

 Entretanto, no dia 5 de novembro, o
jornal O Correio da Manh publicou
notcias, afirmando que setores do
governo admitiam o cancelamento das
eleies de 3 de janeiro de 1938.
Imediatamente, o candidato liberal
oposicionista, Armando de Sales,  junto
com Artur Bernardes, Otvio Mangabeira,
Prado Kelly e outros, redigiu um
manifesto aos militares, apelando para o
esprito democrtico e mantenedor da
ordem das  Foras Armadas para garantir
as eleies.

 O manifesto s foi lido em alguns
quartis e na Cmara Federal, sendo
censurado  populao. O efeito do
manifesto foi estimular a antecipao do
golpe, que inicialmente fora
estabelecido para o dia 15 de novembro,
mas efetivou-se em 10 de novembro  de
1937. Enquanto a nova Constituio era
publicada no Dirio Oficial (jornal de
divulgao das leis assinadas pelos
poderes republicanos), o Senado e a
Cmara Federal foram fechados e os
membros do poder legislativo presos pela
polcia. Vargas,  noite, ocupou as
rdios do pas para uma trasmisso
nacional, anunciando o novo governo.

Estrutura do Estado Novo

 O Estado Novo foi a instalao de uma
ditadura, ou seja, de uma organizao
poltica que suprimia as liberdades
individuais, para concentrar as decises
governamentais nas mos de um indivduo.
A ditadura Vargas baseava-se numa
Constituio autoritria, pela qual o
Congresso, as Assemblias e as Cmaras
Municipais foram fechadas e o presidente
da Repblica governava por decretos.

 Vargas extinguiu os partidos polticos;
o poder legislativo era exercido pelos
deputados que apoiaram o golpe de Estado
(substituio ilegal de um governo por
outro subverso da ordem
Constitucional), pelo presidente da
Repblica e pelo Conselho Nacional
(homens da confiansa de Vargas). O
estado Novo instituiu ainda a pena de
morte para os crimes contra o Estado e a
ordem pblica.

 O ditador nomeou novos interventores
nos estados que no aceitavam a
ditadura: RJ, SP, BA, PE. O governo
passava a perseguir, prender e matar
todos os suspeitos de serem comunistas.
Os sndicatos e associaes eram
"livres" desde que fossem reconhecidos
pelo Estado e tivessem suas diretorias
aprovadas pelo Ministrio do Trabalho.

 Por fim, o Estado Novo criou m
organismo de publicidade oficial: O DIP
(Departamento de Imprensa e Propaganda).
Esse rgo governamental encarregava-se
de censurar todos os meios de
comunicao. Mas o DIP tambm funcionava
como instrumento de divulgao dos
benefcios do governo, formulando uma
poltica cultural que visava controlar
as classes populares.

Vargas: "Pai dos pobres, me dos ricos"

 No incio da dcada de 1940, Getulio
conseguiu estabelizar o Estado Novo s
custas de violenta represso aos
adversrios. Ao mesmos tempo, articulava
uma poltica de "de conciliador
nacional": o DIP encarregava-se de
projetar uma imagem de "homem generoso,
forte, e no homem de fora", "homem sem
dio e sem vaidade; dominado pela
preocupao de fazer o bem", homem
"tolerante, capaz de mobilizar a
cimpatia como fora poltica", "no
prestando ateno aos seus inimigos" e
"um mestre da reconciliao". Esses
atributos circulavam diariamente nos
jornais e rdios de todo o pas.

 O objetivo dessa estratgia
publicitria era impor  opuniam pblica
um mito sobre Getlio. Esse mito foi
diariamente trabalhado atravs da
exaltao exastiva das gualidades de ser
humano e homem pblico.Assim, Vargas
aparecia como "guia da juventude
brasileira", o "grande pai", o "apstolo
nacional", o "reformador", mas tambm
"pacifista", "pai dos pobres" e "me dos
ricos", pois "me sempre e mais
generosa", como dizia com humor uma
inscrio num muro em So Paulo nessa
poca.

 Essas imagens fabricadas pelo DIP
traziam uma mensagem poltica muito
significativa, segundo a qual Getlio
Vargas era o nico homem capaz de
governar o Brasil. Estava implcito que
qualquer outra soluo poltica
desintegraria a estabilidade da nao.

Bases polticas da ditadura

 As foras polticas e sociais que
sustentavam a ditadura Vargas formaram
uma aliana que dava legitimidade ao
Estado Novo. Essa base poltica era
constituda por:

- setores militares, sobretudo o
Exrcito, sob a liderana de Gis
Monteiro, apegados ao nacionalismo e 
misso do Exrcito como rbitro dos
conflitos polticos e sociais;

- setores latifundirios com os quais a
ditadura se comprometia a manter intacta
a estrutura agroexportadora;

- classes mdias urbanas identificadas
com as possibilidades de de ascenso
social criadas pela burocracia estatal e
pelo Estado, tido como responsvel pelo
CresCimento industrial;

- industriais que recebiam facilidades
de crdito, garantias de infra-estrutura
dada pelo Estado (energia eltrica, gua
etc.) para as instalaes industriais,
alm de uma legislao que controlava
rigidamente as manifestaes
trabalhistas;

- crescimento industrial com elevadas
taxas de exportao em funo do
fvorvel contexto internacional
(ascenso do nazismo e II Guerra);

- violenta represso policial s
reivindicaes trabalhistas e completo
controle dos sindicatos por agentes do
governo.

 A oposio  ditadura era exercida
atravs da atuao clandestina de
setores liberais ou comunistas, apesar
das prises, da brutalidade repressiva e
da existncia de um esquema de tortura
nas prises.

1942: uma nova realidade

 A partir de 1942, a situao
internacional comeava a se alterar com
a perspectiva de vitria das foras
democrticas aliadas contra o
nazi-fascismo. O ditador de direita
viu-se obrigado a mudar de posio e,
pressionado pelos norte-americanos,
declarou guerra  Alemanha, aps a
Marinha mercante brasileira ter sido
atacada por alemes. Mais tarde, na
dcada de 60, alguns historiadores
chegaram a afirmar que os bombardeios
aos navios brasileiros foram feitos
pelos americanos para forar Getlio a
lutar a favor dos Aliados.

 A situao mostrava-se, diante da
declarao de guerra ao nazi-fascismo,
contraditria, pois o Exrcito combatia
na Europa a mesma ideologia que mantinha
a organizao do Estado brasileiro. Alm
desse efeito externo, a prpria ditadura
Vargas criava tambm contradies, pois
 medida que ocorria o desenvolvimento
industrial, este mesmo desenvolvimento
estimulava a participao dos setores
afastados do poder.

1943: a oposio democrtica

 Assim, iniciava-se um processo de
abertura poltica em 1943. (Alis, a
Constituio de 1937 previa um
plebiscito, ou seja, uma consulta 
populao brasileira sobre o regime
nesse ano.) Vargas empenhava-se em adiar
o plebiscito. Ao mesmo tempo, as
oposies oligrquicas, entre elas a
familia Mesquita do jornal O Estado de
S. Paulo - ocupado e administrado pela
ditadura de 1937 a 1945 -, articulavam
protestos contra a permanncia de
Getlio no poder.

 Em 2 de novembro de 1943, os
oposicionistas conseguiram organizar, em
Minas Gerais, com a adeso de numerosos
setores (advogados, escritores,
jornalistas, intelectuais, engenheiros,
professores, mdicos, banqueiros)
bastante representativos das aspiraes
da classe mdia, o lanamento do
Manifesto dos Mineiros, exatamente na
data de comemorao dos treze anos da
Revoluo de 30.

 O manifesto reivindicava reformas como
direito de voto, habeas-corpus (recurso
jurdico que permite a uma pessoa,
acusada de cometer crime, responder a
processo em liberdade) e outras
garantias capazes de favorecer o retorno
das liberdades formais da democracia.

 Por outro lado, dentro do governo
tambm ocorriam divises, e as
influncias norte-americanas foram
decisivas para reduzir as foras
fascistas e alguns grupos minoritrios
dentro do prprio governo e do Exrcito.
As cises governamentais evidenciam-se
m agosto de 1944, quando o ministro das
Relaes Exteriores, Oswaldo Aranha,
renunciou ao cargo como protesto contra
a ordem dada por Vargas de fechar uma
entidade ligada aos interesses
norte-americanos. O mesmo aconteceu com
o general Gis Monteiro, que se demitiu
do Comit de Emergncia e Defesa
Poltica da Amrica  Latina. Com o
afastamento de Oswaldo Aranha e Gis
Monteiro, Vargas comeou a perder apoio
de setores importantes, como a burguesia
reformista e os militares.

O isolamento de Vargas

 Configurava-se, dessa forma, um
gradativo isolamento de Vargas no poder.
Alm dessas questes polticas, a ordem
econmica tambm enfrentava
dificuldades, principalmente a partir de
1943, com o acirramento da guerra. A
reduo das importaes prejudicava a
reposio de mquinas e equipamentos;
assim, comprometia-se a produtividade e
elevavam-se os preos dos produtos. O
Estado Novo j no conseguia assegurar o
apoio de vrios segmentos da sociedade,
pois a manuteno das taxas
inflacionrias comeava a escapar do
controle. Os interesses econmicos
somavam-se  s crticas polticas,
aumentando a oposio ao governo.

 Diante dessa conjuntura, Vargas
declarava que quando terminar a guerra,
em ambiente prprio de paz e ordem, com
as garantias mximas  liberdade de
opinio, reajustaremos a estrutura
politica da nao, faremos de forma
ampla e segura as necessrias consultas
ao povo. Alm disso, Getlio ameaava as
oposies oligrquicas com a
possibilidade de manipular o apoio dos
trabalhadores, anunciando uma campanha
de sindicalizao em massa, concedendo
aumentos salariais e prometendo manter a
organizao sindical corporativista.

 O ano de 1945 foi decisivo para a luta
contra a ditadura. O I Congresso
Brasileiro de Escritores - organizado em
So Paulo, no ms de janeiro, por
intelectuais de formao liberal,
socialista e comunista - publicou um
manifesto exigindo um Estado democrtico
no Brasil. Os jornais tambm rompiam com
a censura, entrevistando lderes da
oposio, ex-aliados desalojados do
poder pela ditadura. Um exemplo foi  a
notcia do jornal O Globo, lanando, em
fevereiro, a candidatura  presidncia
do brigadeiro Eduardo Gomes - ex-tenente
e um dos sobreviventes do primeiro
movimento  tenentista, Revolta do Forte
de Copacabana.

 A oposio externa contra o regime
tambm crescia. OS EUA - como lder do
bloco democrtico mundial - exigiam a
queda de governos inspirados no
nazi-fascismo. O problema com o Brasil
era outro, pois o governo Vargas
aliava-se ao bloco norte-americano. A
questo dos EUA com o Estado Novo
relacionava-se ao fato de o governo
getulista fazer uma poltica de
nacionalismo econmico, reduzindo a
penetrao de capitais estrangeiros,
sobretudo norte-americanos. Por essa
razo, os EUA posicionaram-se, atravs
de seu embaixador no Brasil, a favor de
um regime democrtico.

Formao dos partidos

 Diante das novas presses, Getlio
decretou, em 28 de fevereiro de 1945, o
Ato Adicional n 9 (lei complementar 
Constituio), no qual estabelecia o
prazo de noventa dias para a realizao
de eleies em todos os nveis:
presidente, governadores, prefeitos,
deputados, senadores e vereadores.

 Em sincronia com esse processo de
abertura poltica, articulava-se na
sociedade brasileira a formao de
partidos polticos. Assim, em maro,
setores oligrquicos,  ou seja,
latifundirios, fundaram, com o apoio de
Vargas, o PSD - Partido Social
Democrtico. Getlio, pressionado por
segmentos militares, lanou o nome do
ministro da Guerra, general Eurico
Gaspar Dutra, para candidato 
presidncia pelo PSD que tambm
congregava setores da burguesia
industrial e comercial.

 Em abril, grupos democrticos liberais,
socialistas, membros do empresariado
industrial e financeiro e at de alguns
setores latifundirios formaram a UDN -
Unio Democrtica Nacional. Tambm nesse
ms, o PCB voltou  legalidade, aps 23
anos de intensa perseguio a seus
militantes.

 A oposio do PCB era, no entanto,
contraditria, pois se de um lado
defendia o fim da ditadura e a
convocao de eleies gerais e de uma
Assemblia Constituinte, por outro lado
aliava-se aos operrios ligados aos
sindicatos corporativistas do esquema
getulista para juntos lanarem o MUT -
Movimento de Unif cao dos
Trabalhadores -, que se tornou o
instrumento poltico do queremismo, ou
seja, do apoio a Vargas: o "Getlio".
PCB e MUT pregavam uma nova
Constituio, mas com a manuteno de
Vargas no poder.

 Getlio, percebendo o movimento da
populao brasileira, fez uma jogada
poltica de ampla repercusso: em junho
de 1945, decretou a Leia Malaia. Por
essa lei, declarava-se uma guerra
antitruste, restringindo a participao
de capitais estrangeiros  no pas.

 Logo em seguida, Vargas esteve presente
na formao do PTB - Partido Trabalhista
Brasileiro -, composto por dirigentes
sindicais getulistas, membros da
burocracia  do Estado brasileiro e
setores dos pequenos proprietrios.
Criado em agosto de 45, o PTB pretendia
"representar" os trabalhadores.
Tratava-se, como ficou evidenciado ao
longo das dcadas seguintes, de um
instrumento partidrio para a
manipulao  dos votos dos setores
populares.

 O PTB, desse modo, servia a Getlio,
que manobrava as classes proletrias
para impor seu estilo de "homem
conciliador". Na prtica o PTB seria
usado sempre que Vargas enfrentasse
obstculos por parte dos setores
conservadores.

Duas frentes: com e sem Getlio

 Entretanto, as oposies ao Estado Novo
aumentavam. Formaram-se duas frentes de
luta contra a ditadura, mas de carter
distinto. Enquanto as oligarquias, os
liberais da classe mdia, os setores
socialistas e comunistas (no
identificados com o PCB) organizavam a
Unio sem Getlio, outros setores
burgueses, funcionrios da burocracia
estatal, proletrios dos sindicatos
getulistas e at faces oligrquicas
beneficiadas pela ditadura compunham a
Unio Nacional com Getlio.

  importante perceber que os elementos
da Unio Nacional com Getlio combatiam
a ditadura, mas, principalmente no caso
comunista, mostravam-se dispostos a uma
aliana com Vargas, seduzidos pelo seu
nacionalismo estatizante. Os burocratas
defendiam Vargas, interessados na
manuteno de seus cargos, privilgios e
favorecimentos polticos, enquanto os
setores latifundirios e industriais
beneficiavam-se da proteo e do
patrocnio financeiro do Estado montado
por Vargas.

 Os queremistas organizaram, em outubro
de 1945, uma grande manifestao no Rio
de Janeiro, defendendo uma proposta para
eleio de uma Constituinte em que a
eleio do presidente seria decidida
pela Nova Constituio. Vargas
aproveitou-se da situao e antecipou,
por decreto, as eleies para
governadores e prefeitos para o dia 2 de
dezembro. Era uma manobra poltica muito
hbil de Vargas contra as frentes
oposicionistas, j que estas no
disporiam mais de tempo hbil para a
montagem de  uma campanha eleitoral em
todos os Estados. Essa antecipao
beneficiava os setores queremistas,
dando-lhes total vantagem, j que toda a
burocracia do Estado trabalhava para os
candidatos getulistas.

 Diante dessa nova circunstncia, a UDN
articulou um golpe contra Vargas. Otvio
Mangabeira, Armando de Sales Oliveira e
o brigadeiro Eduardo Gomes conseguiram o
apoio das oligarquias, dos industriais,
dos EUA (atravs de seu embaixador), da
alta oficialidade militar (Exrcito,
Marinha e Aeronutica) para desfechar a
queda de Getlio.

Queda da ditadura

 Um acontecimento justificou e apressou
o golpe. O chefe da Polcia Federal do
Rio de Janeiro Joo Alberto, ligado aos
udenistas, proibiu uma manifestao do
MUT. Imediatamente, Vargas destituiu-o
do cargo, nomeando seu irmo Benjamin
Vargas. Por tratar-se de um cargo de
confiana dos setores militares, estes
cercaram o Palcio do Catete no dia 29
de outubro de 1945, obrigando Getlio a
renunciar  presidncia. Jos Linhares,
presidente do Supremo Tribunal Federal,
ocupou o lugar do ditador do Estado
Novo.

 Terminava, enfim, aps oito anos, a
ditadura do Estado Novo. Getlio
entregou o poder sem derramamento de
sangue, prises e exilios forados - ato
incomum na histria do pas, se
lembrarmos 1889,1930 e 1937. Bem ao
contrrio, ele foi poupado pelos novos
detentores do poder, que permitiram a
sua candidatura ao Senado e Cmara. A
liberalizao vinha assim marcada pela
conciliao entre as classes dirigentes
e tambm  pela continuidade de certos
esquemas politicos, o que teria grande
influncia na etapa seguinte da Histria
do Brasil Republicano.


DO POPULISMO A DITADURA

A Repblica Populista: 1946-1964

1946: a Nova Constituio Liberal

 Com as eleies para presidente e de
deputados e senadores para uma
Assemblia Constituinte, iniciava-se a
tentativa de construo democrtica,
abrindo um novo perodo da histria da
Repblica. Em 1946, concorreram quatro
candidatos  presidncia da Repblica: o
general Eurico Gaspar Dutra pela
coligao PSD/PTB, o brigadeiro Eduardo
Gomes pela UDN, Yedo Fiza pelo PCB e
Rolim Teles pelo Partido Agrrio.

 Dutra venceu as eleies com 55% dos
votos. O PSD e a UDN elegeram o maior
nmero de deputados (54% e 26%,
respectivamente); o PTB obtinha 7,5%, o
PCB alcanava 4,7%, enquanto os outros
partidos dividiram o restante dos votos:
7,3%.

 Em 18 de setembro de 1946, a nova
Constituio (a quinta do Brasil e a
quarta da Repblica) foi promulgada,
contendo as seguintes caractersticas
liberais:

 continuao do regime republicano,
presidencialismo (com cinco anos de
durao), representativo e federativo;

 sufrgio universal (voto secreto e
direto para maiores de dezoito anos, com
exceo de analfabetos, soldados e
cabos);

 direito de liberdade de opinio e
pensamento, mas com censura para
espetculos e diverses pblicas;

 preservao de um Executivo com
poderes para nomear os ministros do
Supremo Tribunal Federal e continuao
dos sindicatos corporativistas definidos
como "rgos de colaborao do Estado",
duas medidas antidemocrticas, resduos
do autoritarismo do Estado Novo;

 diviso em trs poderes (Executivo,
Legislativo, Judicirio), relativa
autonomia dos Estados, restabelecendo-se
o Senado e a Cmara de Deputados;

 manuteno do direito de propriedade
como garantia fundamental para as bases
econmicas e sociais do Estado
brasileiro.

 Esse perodo de reconstruo
democrtica foi caracterizado pelo
domnio de um fenmeno poltico: o
populismo.

O fenmeno populista

 O populismo no  privilgio desse novo
perodo da Histria brasileira; mesmo no
regime ditatorial de Vargas podem ser
encontrados traos evidentes de uma
poltica populista. Para Francisco
Weffort, o populismo, como estilo de
governo sempre sensivel s presses
populares, ou como politica de massas
que buscava conduzir, manipulando suas
aspiraes, s pode ser compreendido no
contexto de crise politica e de
desenvolvimento econmico que se abre
com a revoluo de 1930.(O populismo na
politica brasileira.)

 O populismo produz sempre um discurso
poltico dirigido s massas, dentro de
uma sociedade que as exclui de
beneficios econmicos e sociais,
acenando-lhes com uma perspectiva de
melhoria, apoiando-se em parte nelas
para manipul-las e usando esse apoio na
conciliao de interesses divergentes
entre as faces dominantes do sistema
poltico-social.

 Entre ns, o populismo se caracterizou
como a expresso do periodo de crise da
oligarquia e do liberalismo, sempre
muito afins na histria brasileira, e do
processo de democratizao  do estado
que, por sua vez, teve de apoiar-se
sempre em algum tipo de autoritarismo,
seja o autoritarismo institucional da
ditadura Vargas (1937 - 45), seja o
autoritarismo paternalista ou
carismatico dos lderes de massa da
democracia do pos-guerra.

 Ainda segundo a viso de Weffort, o
esquema populista foi tambm uma das
manifestaes das debilidades polticas
dos grupos dominantes urbanos quando
tentavam substituir-se  oligarquia nas
funes de dominio poltico de um pas
tradicionalmente agrrio, numa etapa em
que pareciam existir as possibilidades
de um desenvolvimento capitalista
nacional.  esse processo que
determinar os rumos da poltica
brasileira nesse perodo de retorno 
legalidade constitucional.

GOVERNO DUTRA: novas contradies

 O governo do general Dutra representou
alinhamento do pas com os Estados
Unidos dentro do quadro internacional da
guerra fria. A influncia
norte-americana trouxe como conseqncia
a abertura econmica s empresas
multinacionais dos EUA e tambm a
ruptura de relaes do Brasil com a URSS
dentro do conseito de seguransa do
hemisfrio ocidental atlntico. Em
seguida, foi decretada a ilegalidade do
Partido Comunista Brasileiro (1947).

 No plano interno, o governo Dutra
procurou reduzir a interveno do Estado
na economia, enquanto fracassava no
propsito de estabelecer uma poltica
econmica basiada na sade, alimentao,
transporte e energia: o famoso Plano
Salte, que ficou sem aplicao. No
entanto, conseguiu ampliar a acumulao
de capitais, adotando inclusive modelo
agroexportador, enquanto o pas passou a
importar equipamentos ferroviarios,
artigos de plastico, altomovel e
equipamentos de televiso, com a
implantao das primeiras emissoras em
1950.

 O governo empreendeu uma "poltica de
conciliao nacional", que se tradusia
na diviso de poderes entre os grupos
oligrquicos e as foras consolidadas
com a Revoluo de 30, o setor urbano
industrial e tambm representantes das
camadas sociais em asceno. O controle
sobre as representaes sindicais
permaneceu, com mais de 180 intervenes
estatais no sindicato nesse perodo.

GETULIO: a preparao da volta

 A Abertura ao capital extrangeiro
limitava a ao do estado e dificultava
o crescimento industrial de setores da
economia nacional. Setores da burguesia
fabril, idelogos do nacionalismo de
seguimentos das classes mdias urbanas
desejavam a volta de Getulio. O
ex-ditador possuia tambm apoio popular,
graas a sua imagem de "pai dos pobres".
o retorno de Getulio significava a
retomada de um desenvolvimento sob o
patrocnio do Estado com uma poltica de
subsdios  expanso industrial com
concesso de crditos e ainda com a
reduo de pressos de matrias primas, a
serem produsidas pelas empresas
estatais. Essa convergncia de
interesses privilegiava Getulio como o
unico dirigente capaz de realizar esse
programa de desenvolvimento.

 Os defensores da industrializao
nacionalista apegavam-se  iluso de que
o desenvolvimento levaria  emancipao,
ao mesmo tempo e com igual resultado, o
pas e classe trabalhadora. A
mobilizao das massas - atravz de
comcios, sindicatos e do PTB -
tornou-se o principal instrumento de
presso dos populistas contra a oposio
conservadora: os setores
agroexportadores, os importadores, as
parcelas mais tradicionais da classe
mdia, os representantes do capital
estrangeiro e as faces (grupos) "mais
retrogrados" (mais conservadores e
contrarios) das forsas armadas.

 Alm disso, Getulio podia acionar um
slido controle das reivindicaes das
classes trabalhadoras atravs dos
sindicatos sob controle estatal.

 Nas eleies de 3 de outubro de 1950,
Getulio(PTB) venceu com 48,7% dos votos,
Eduardo Gomes (UDN) conseguiu 29,7% e
Cristiano Machado (PSD) 25,5%. Na Cmara
Federal, o PSD reuniu 112 deputados, a
UDN conseguiu 81, o PTB conquistou 51 e
o PSP (Partido Social Progressista) -
comandado por Ademar de Barros, com
grande fora poltica em So Paulo -
obteve 24 deputados; os demais partidos
ficaram com 36 deputados.

O NACIONALISMO VARGUISTA

 Em janeiro de 1951, Vargas e Caf Filho
assumiram a presidncia e a
vice-presidncia, ja contando com o
apoio do PSD. Embora esse partido tenha
lanado Cristiano Machado para candidato
a presidente, na prtica o PSD trabalhou
para Getlio.

 A poltica de Vargas foi a de
incentivar a industrializao. Assim, o
nacionalismo econmico getulista,
pregado na campanha presidencial, era o
de reservar a explorao mineral e as
indstrias de base (siderurgia, usinas
hidreltricas, construo de rodovias,
eletrificao) ao capital privado de
algumas empresas nacionais ou ao
capital do Estado. Alis, o Estado
garantia o desenvolvimento de setores da
economia quando a iniciativa privada no
se interessava, quer porque os custos
fossem elevados e, portanto, com lucros
menores, quer porque o retorno do
capital investido e sua  lucratividade
demorassem um tempo considerado grande
demais para os setores privados.

 Esta poltica econmica deixava ao
capital estrangeiro as indstrias de
bens de consumo. Outra finalidade do
nacionalismo varguista era reduzir a
participao das empresas estrangeiras
no comrcio e nas atividades financeiras
(como os  bancos).

  importante compreender a dupla
contradio do nacionalismo de Getlio.
De um lado, buscava uma autonomia
econmica atravs da expanso
industrial, financiando setores fabris
nacionais; ao mesmo tempo, tentava fazer
essa poltica parecer de interesse de
toda a populao brasileira. De fato,
atendia aos interesses das classes
abastadas dos setores industriais. Por
outro lado, Vargas precisava dos
capitais internacionais para implantar
uma suposta independncia econmica.
Verifica-se, portanto, que o
desenvolvimento do pas estava
condicionado aos emprstimos
estrangeiros.

 Assim, os setores da burguesia
brasileira mais identificados com o
capital internacional, como a UDN,
fizeram oposio s polticas
nacionalizantes de Vargas. Em  1951,
Getlio enviou ao Congresso o projeto de
criao da Petrobrs - empresa de
capital misto, mas com a maioria das
aes em poder do Estado, garantindo
monoplio estatal para realizar a
perfurao de poos de prospeco e o
refino de petrleo.

Confuses e perigos do populismo

 A oposio a Getlio relacionava-se aos
discursos da campanha, na qual chegou a
dizer: Empenhar-me-ei a fundo em fazer
um governo eminentemente nacionalista. O
Brasil ainda no conquistou a sua
independncia econmica e, nesse
sentido, farei tudo para consegui-lo.
Cuidarei de valorizar o caf, de
resolver o problema da eletricidade e,
sobretudo, de atacar a explorao das
foras internacionais. Mas, alm disso,
Getlio prometia de forma populista que
se for eleito a 3 de outubro, no ato de
posse, o povo subir comigo as escadas
do Catete (palcio presidencial)... E
comigo ficar no governo.

Estas posies populistas aterrorizavam
os grupos conservadores, pois a
identificao da posio nacionalista
com os postulados comunistas provinha do
fato de que  o PCB, atravs de seus
porta-vozes "legais'; vinha defendendo o
desenvolvimento de um capitalismo
nacional ; estimulado pela idia de que
haveria um setor "burgus-nacionalista"
interessado em competir com o capital
monopolista estrangeiro.

Oposies conservadoras a Getlio

 Nos dois anos que se seguiram at a
aprovao da Petrobrs (criada em 1953),
a UDN e o capitalismo internacional
promoveram intensa campanha contra a
poltica de "emancipao nacional". O
ano de 1953 ficou marcado pelo impasse
scio-poltico e econmico do getulismo.

 De um lado, as classes trabalhadoras
reivindicavam melhores salrios (afinal,
desde 1951 o salrio-mnimo no subia),
mais empregos e exigiam o cumprimento
das promessas varguistas do "povo subir
as escadas do palcio e governar com
ele". De outro lado, a ampliao do
parque industrial e a infra-estrutura
(siderurgia, eletrificao etc.) para
garantir o crescimento fabril
necessitavam de investimentos
estrangeiros. Vargas exps-se, ento,
aos ataques do capital internacional.

 A UDN, identificada com os interesses
norte-americanos, criticava as
"nacionalizaes" do governo, defendendo
o fim da interveno estatal para
beneficiar a indstria. Para a UDN, a
indstria e a agricultura deveriam
desenvolver-se livremente, de acordo com
as foras do mercado (o que era uma
forma de tentar manter vivo o "pas
agrrio", alm de valorizar o capital
estrangeiro, atribuindo-lhe o papel de
"suprir" as dificuldades "naturais"do
pas. Quanto  politica externa, o
partido, ao lado das correntes das
Foras Armadas, era o maior defensor do
alinhamento com o bloco "ocidental";
liderado na Guerra Fria pelos Estados
Unidos.

  fundamental compreender, entretanto,
que Vargas tinha clareza a respeito das
ntenes da poltica imperialista
norte-americana e no desejava de forma
alguma romper com os Estados Unidos. Mas
pretendia, como era do seu estilo,
manter uma poltica de conciliao entre
os setores mais conservadores, que no
ofereciam resistncia ao imperialismo, e
os nacionalistas, que acreditavam numa
suposta autonomia nacional  ,
esquecendo-se do carter internacional
da economia capitalista.

1954: ano decisivo

 O ano de 1954 foi marcado pela proposta
do ministro do Trabalho, Joo Goulart,
de conceder um aumento de 100% no
salrio mnimo. As reaes das classes
empresariais e dos setores conservadores
se fizeram presentes atravs de inmeros
protestos nos jornais e manifestos das
Foras Armadas contra as medidas do
Ministrio, resultando na demisso de
Goulart e do ministro da Guerra.

 Para os dois ministrios, Vargas nomeou
homens mais conservadores, mas manteve
sua poltica de nacionalizao, enviando
ao Congresso um projeto para a criao
da Eletrobrs. Desse modo, os ataques
oposicionistas continuaram. Em abril do
mesmo ano, a UDN e setores de direita
das Foras Armadas formaram a Cruzada
Democrtica - unio das foras mais
reacionrias (aquelas que so contrrias
a qualquer ao do progresso social) -
para lutar pelo afastamento do
presidente.

 A UDN tentou no Congresso a aprovao
do impedimento de Vargas no exerccio da
presidncia. Vargas ainda dispunha de
deputados do PSD, PTB e PSP que no
apoiaram a medida da UDN e resolveu dar
um "troco"  oposio. No dia 1  de
maio de 1954, fez vrios elogios ao
ex-ministro Joo Goulart e concedeu 100%
de aumento no salrio mnimo.

 Novos ataques surgiram e um incidente
selou a administrao varguista. Um dos
mais fiis colaboradores de Getlio, o
general Mendes de Morais, ordenou ao
guarda-costas do presidente, Gregrio
Fortunato, que preparasse um atentado ao
jornalista Carlos Lacerda - o mais
critico oposicionista ao governo Vargas,
aliado  UDN e ligado s Foras Armadas.
No dia 5 de agosto, na fracassada
tentativa de assassinar Carlos Lacerda,
saiu mortalmente ferido o major da
Aeronutica Rubens Vaz - membro de um
grupo militar que escoltava Lacerda.

 A repercusso do fato provocou
manifestaes, nas quais as Foras
Armadas e os setores conservadores
exigiam diariamente a renncia do
presidente.

 Diante das presses, Vargas reuniu o
Ministrio no dia 23 de agosto, para
anunciar que concordava em tirar uma
"licena" do cargo, mas no aceitava
renunciar. As foras oposicionistas e,
em particular, o Exrcito no aceitaram
a deciso presidencial  e reafirmaram o
desejo de renncia de Vargas. Na manh
de 24 de agosto de 1954, aps um
encontro com o ministro da Guerra,
Zenbio da Costa, que lhe comunicou a
posio do Exrcito, Vargas foi para
seus aposentos e suicidou-se com um tiro
no corao.

 Formaram-se protestos populares contra
os oposicionistas, e os jornais
antivarguistas fecharam por alguns dias,
alm de sofrerem vrios atentados.
Lderes da oposio, como Carlos
Lacerda, tiveram que se ausentar do
pas. Houve uma comoo total por parte
da populao brasileira.

 No dia 25 de agosto, tomava posse o
vice-presidente Ca e Filho, que
reformulou o Ministrio, colocando um
ministro do Exrcito menos comprometido
com os setores polticos, o general
Henrique Teixeira Lott, que acima de
tudo gozava de grande respeitabilidade
em todos os setores militares. Diante
das presses, o governo de  Caf Filho
facilitou a ascenso da UDN.

A tentativa de golpe

 Com a aproximao de novas eleies, as
foras getulistas do PSD e PTB uniram-se
novamente e lanaram para candidato o
ex-prefeito de Belo Horizonte e
goverrnador de Minas Gerais: o mineiro
Juscelino Kubitschek de Oliveira.
Realizadas as eleies, JK conquistou
36% dos votos.

 A UDN no aceitou a derrota e tentou
impugnar atravs do Congresso a posse
dos eleitos, acusando de corrupo o
pleito eleitoral. Fracassada nas suas
tentativas perante o Congresso para
anular as eleies, a UDN e grupos das
Foras Armadas organizaram um golpe de
Estado. Evidenciava-se, dessa forma, que
os conservadores, no possuindo adeso
popular, utilizavam as foras militares
para "salvar a democracia",  ou seja,
recorriam ao Exrcito, Marinha e
Aeronutica para conseguir o poder.

 As articulaes foram montadas: Caf
Filho tirou licena por motivo de
doena, sendo substitudo por Carlos
Luz, presidente da Cmara dos Deputados.
Do lado das foras militares, o coronel
Bizarria Mamede era o encarregado de
incitar as foras armadas. Assim, no
enterro do general Canrobert, pronunciou
um discurso contra a posse de JK. O
general Lott determinou a punio de
Mamede, colocando-o preso. Mas os
superiores do coronel recusaram-se a
puni-lo. Lott exigiu que o
presidente-interino Carlos Luz o
apoiasse, deixando evidente sua posio:
ou cumpriam-se suas ordens ou ele seria
demissionrio do cargo de minstro.
Carlos Luz no aprovou a deciso de
Lott, o que o obrigou a romper com o
governo.

 No entanto, na noite do dia 10 de
novembro, Lott participou de uma reunio
com chefes militares de confiana, os
quais advertiram-no sobre as ntenes
do presidente Carlos Luz.

 Na manh do dia 11 de novembro de 1955,
tropas e tanques militares ocuparam o
Rio de Janeiro, provocando a fuga de
Carlos Luz, Carlos Lacerda e outros
lderes conservadores, que tentaram
organizar uma resistncia em So Paulo,
mas as foras militares colocaram-se a
favor da lei, ou seja, garantiram a
posse dos eleitos. O Congresso destituiu
Carlos Luz, mas tambm impediu o retorno
de Caf Filho - que subitamente
"curou-se" de sua enfermidade, estando
evidente seu apoio  tentativa de golpe.
O Congresso nomeou ento o senador Nereu
Ramos para  presidente at a posse de JK
e de seu vice, Joo Goulart, em 1 de
fevereiro de 1956.

1956-1961 - O governo JK

 Esse episdio teve dois significados
claros. primeiro, as Foras Armadas, na
figura do general Lott, procuravam se
guiar pela "lgica do aparelho militar",
pois era mais importante assegurar a
posio maioritria especificamente
militar, garantindo-se com o auxilio do
mito da "coeso das Foras Armadas";
procurando parecer mais solidrio com o
esprit de corps interno ao Exrcito, que
com um partido de "paisanos".

  O segundo significado da tentativa de
golpe pelas foras conservadoras foi o
retorno da herana de Vargas. Sem
dvida, como afirmou o jurista Abelardo
Jurema, Vargas comandava, do tmulo, os
acontecimentos, tudo passou sob sua
batuta imaterial (...). A vingana do
morto se fazia sentir, dia a dia, ms a
ms, at que Juscelino Kubitscliek
assume, levantando de novo, de fato e de
direito, a bandeira PSD-PTB, sob a gide
da imagem de Vargas.

 O suicdio de Getlio (1954) adiou por
dez anos o golpe das foras
conservadoras. Por outro lado, essas
mesmas foras perceberam que a
organizao de um golpe bem-sucedido
precisava de elaboraes mais eficientes
contra o esquema populista.

 O governo JK pautou-se por um projeto
de crescimento econmico baseado no
setor industrial atravs do Plano de
Metas, ou seja, o estabelecimento de 31
metas que, em resumo, buscariam atravs
do desenvolvimento da energia,
transporte, alimentao, educao e
construo civil a expanso do parque
industrial.

 Essa poltica de incentivo industrial
foi chamada de
Nacional-Desenvolvimentismo, pois o
governo JK entendia por nacional o fato
de o programa econmico ser coordenado
pelo Estado, enquanto o
desenvolvimentismo reconhecia a
necessidade do investimento estrangeiro
no Brasil.

 Dentro dessa estratgia, o Estado
incumbiu-se de investir na criao de
usinas hidreltricas, na indstria de
base, como siderrgicas com maior
capacidade produtiva, na construo de
estradas e da nova capital do pas -
Brasilia. Em suma, cabia ao Estado
desenvolver a parte menos lucrativa e de
maior emprego de capitais.

 Dessa forma, o governo JK concedeu 
iniciativa privada e ao capital
estrangeiros os setores econmicos de
menores despesas e de lucratividade mais
atraente: a expanso de bens de consumo
durveis (eletrodomsticos, automveis,
tratores, produtos qumicos etc.).

 Por outro lado, esse projeto nacional
desenvolvimentista conplicava a
substituiu das importaes. Isso
significava, aps perodos de constantes
ajustes (como a Era Vargas, o governo
Dutra e o segundo governo Vargas), dar o
passo definitivo para a
internacionalizao da economia.

 A essa perspectiva corresponde uma
outra: no h dvida de que a adoo
dessa poltica corresponde tambm a
outra determinao, externa, a da nova
etapa de expanso do grande capital
monopolista em direo ao investimento
industrial direto dos pases
subdesenvolvidos, configurando a nova
fase do imperialismo. "50 anos em 5"

 Esse desenvolvimento econmico implicou
a permanncia da associao do capital
estrangeiro com o nacional. A poltica
desenvolvimentista criava laos com os
setores internacionais, atravs da
importao:

 de tecnologias para produtos
farmacuticos, automveis, mquinas,
produtos qumicos etc.;

 de capital para o pagamento dessas
tecnologias, dos emprstimos e juros.

 Em contrapartida, o governo JK
permitia, sem fiscalizao, imensas
remessas de lucros das empresas
estrangeiras no pas, como forma "de
tornar mais atraente o pas para as
outras naes", como chegou a declarar
um dos colaboradores de JK.

 As conseqncias se fizeram sentir j
no governo JK, pois a criao de
mercados barateou o fornecimento de
matrias-primas e impulsionou os
investimentos do Estado. Expandindo a
economia com essa dinamizao econmica,
JK cumpria a promessa da campanha, ou
seja, promover o desenvolvimento do
Brasil de "cinqenta anos.em cinco".

 O clima era de euforia, com um
entusiasmo ilimitado pela nova
capacidade produtiva do pas. Novamente,
como em 1930, relacionava-se a
emancipao do Brasil com o processo de
industrializao. Para consolidar a
idia de um bem geral para toda a
sociedade, o governo populista de JK
construiu a nova capital do pas,
Braslia, trnando-a o smbolo da
prosperidade sem limites do nacional-
desenvolvimentismo.

 Na prtica, Brasilia representava a
mudana estratgica do poder para uma
regio desabitada. Assim, o deslocamento
do poder era fundamental para os grupos
dirigentes escaparem do eixo So
Paulo-Rio, pois essas regies
incomodavam os governantes, na medida em
que funcionavam como presso dos grupos
organizados das classes populares, com
suas reivindicaes e manifestaes.

 Para o governo JK, Braslia significava
o fim da polarizao econmica do
Centro-Sul (So Paulo, Minas Gerais e
Rio de Janeiro), possibilitando que
todas as regies tivessem agora o mesmo
crescimento. Segundo os defensores de
Braslia, a mudana da capital do
litoral (RJ) para o interior serviria
para efetivar a harmonizao econmica e
poltica entre as regies.

 No entanto, a prtica
desenvolvimentista de JK fazia
exatamente o contrrio: reforava a
industrializao nas regies
tradicionalmente de produo fabril,
notadamente So Paulo. Alm disso,
baseados em padres tecnolgicos do
capitalismo europeu e norte-americano,
os novos rumos industriais (automveis,
eletrodomsticos, txteis, sintticos
etc.) absorviam limitadamente a
mo-de-obra disponivel e acentuavam o
carter concentracionista e
internacionalizado da economia
brasileira. Seus beneficios estendiam-se
 burguesia e s camadas mdias de alta
e mdia renda (engenheiros, analistas,
tcnicos etc. Os nicos com acesso s
novas maravilhas da indstria moderna.

 Enquanto isso, as classes proletrias
tiveram participao bastante inferior
em relao s classes mdias. De 1955 a
1959, enquanto os lucros industriais
aumentavam 76% e a produtividade 35%, o
salrio minimo elevava-se apenas 15%.
Isto evidenciava o carter limitado do
desenvolvimento econmico.

 No final do governo JK, os problemas
mostravam novos impasses na economia,
com o aumento da inflao, provocado
pelas emisses de papel-moeda para
financiar os investimentos estatais e de
crditos. Os organismos internacionais
exigiram de Juscelino um controle
inflacionrio. No entanto, o presidente
negu-se a fazer uma poltica de
conteno financeira, pois isso
implicaria a reduo dos salrios, a
diminuio dos crditos estatais s
importaes de mercadorias essenciais,
como, por exemplo,  a gasolina.

 Do ponto de vista estratgico,
Juscelino conseguiu fazer uma aliana
com os setores militares, confirmando no
cargo de ministro da Guerra o general
Lott. Com isso, Juscelino garantiu
importante estabilidade poltica, que
tinha como preo a concesso  de cargos
administrativos a setores militares. Ao
mesmo tempo, JK manipulava os cargos de
menor peso estratgico, cedendo-os 
classe poltica. Com esses expedientes,
conseguiu manobrar o Congresso Nacional
para a aprovao de seus projetos. No
foi  por acaso que Juscelino lanou o
general Lott como candidato a
presidente. Explicitava-se, assim, a
relao estreita entre JK e os setores
militares.

O indeciso Jnio

 Entretanto, nas eleies de 1960, Jnio
da Silva Quadros, apoiado pela UDN,
elegeu-se presidente com expressivos 5
636 623 votos. Concorrera com o general
Lott, candidato da aliana PSD- PTB-PSB,
que obteve 32% (3 800 000) dos votos.
Joo Gpulart (PTB) foi reeleito para a
vice-presidncia com 4 500 000 votos (na
poca podia-se votar para presidente de
um partido e vice-presidente de outro).

 Em parte, o sucesso eleitoral de Jnio
devia-se ao seu estilo politico: um
populismo extremamente personalista e
carismtico que o ajudara a se eleger
vereador, prefeito de So Paulo em 1953
e governador no ano seguinte. Ao
contrrio de Getlio e Ademar de Barros,
sua fora no se baseava em esquemas
partidrios e sindicais ligados ao
Estado. Ela resultava da combinao da
insatisfao generalizada de massas
trabalhadoras e camadas mdias, cujo
nivel de conscincia era Ilimitado, com
o estilo mobilizador moralista e
"renovador" de ,Jnio Quadros.

 Apesar do carter populista, o governo
Jnio foi marcado por uma economia
conservadora. Afinal, herdara do governo
anterior uma inflao de 25% ao ano e
uma dvida  externa alta para os padres
da poca (1 bilho e 365 milhes de
dlares). No incio, o governo janista
organizou projetos de controle de
crditos, medidas antiinflacionrias,
congelamento dos salrios, reduo de
emisses de papel-moeda, o que agradou
ao FMI (Fundo Monetrio Internacional),
permitindo amplos emprstimos externos.

 No entanto, j no ms de abril, Jnio
mudou sua estratgia, diminuindo o
controle rgido da economia, concedendo
crditos mais fceis e retomando uma
inflao mais compatvel com a poltica
continuadora do desenvolvimentismo. O
governo passava a seguir a orientao
dos setores desenvolvimentistas. Essa
poltica de oscilao no se limitou ao
setor econmico. Na conduo da poltica
externa, o governo janista tentava uma
independncia em relao ao bloco
imperialista dos EUA. Assim, no  s
defendeu o governo cubano de Fidel
Castro, como tambm condecorou, no
Brasil, Ernesto Che Guevara, ento
ministro da Economia de Cuba.

 Mas o apoio ao governo comunista cubano
no se dava por simpatias ao regime;
pelo contrrio, Jnio sempre se
posicionou publicamente como
anticomunista fervoroso. O problema era
o impasse nos rumos a serem seguidos,
pois o pas atravessava  um perodo de
crises: ou controlava o crescimento e a
inflao como queriam os setores dos
banqueiros internacionais, ou continuava
o crescimento industrial. Assim, as
oscilaes janistas evidenciavam a falta
de uma perspectiva poltica crescente.

 Como se no bastassem essas hesitaes,
Jnio foi tambm gradativamente perdendo
o apoio dos funcionrios pblicos, os
quais se irritaram quando o governo
decretou o aumento da jornada de
trabalho. Diante das presses, Jnio
voltou atrs, porm perdeu o apoio dos
setores desejosos da moralizao
estatal. Sua relao com os  polticos
tambm foi desastrosa, pois Jnio
constantemente ameaava promover
investigaes nos governos anteriores,
alm de denunciar a corrupo e o
descontrole financeiro do perodo JK.
Por essa razo, acusando o PSD de ser o
que sempre foi, e ganhando portanto
poderosos inimigos no Congrsso,
rapidamente isolou-se do poder.

 Apesar de tudo, Jnio tentou uma ltima
sada: renunciou, em 25 de agosto de
1961,  presidncia da Repblica,
esperando que pelo menos algum setor da
sociedade brasileira lhe desse apoio,
pois:

- contava que os polticos, em especial
os da UDN, lhe concedessem amplos
poderes para governar;

- imaginava que os militares lhe
fornecessem cobertura, porque as Foras
Armadas consideravam "perigoso" Jango
(como era conhecido Joo Goulart) na
presidncia;

- acreditava que as classes populares
fizessem manifestaes pblicas,
exigindo sua volta ao poder.

 Mas nenhum dos trs segmentos sociais
se decidiu a sustent-lo. Afinal, os
impasses econmicos e polticos
inviabilizaram o apoio dos dois
primeiros, que imediatamente aceitaram
sua renncia. E as classes
trabalhadoras, prejudicadas pelas
medidas de controle econmico e
instabilidades governamentais, no se
manifestaram a seu favor.

 Jnio deixou o pas  beira de uma
guerra civil, pois aproveitara-se da
ausncia de Joo Goulart, que se
encontrava em visita oficial  China
comunista, para renunciar.

Jango: posse tumultuada

 Os conservadores, rapidamente, se
mobilizaram contra a posse de Jango. As
correntes direitistas, como o jornal O
Estado de S. Paulo, que se tornou um dos
porta-vozes desses grupos, e setores
militares tramavam para impedir que Joo
Goulart assumisse a presidncia,
acusando-o de esquerdista e aliado dos
comunistas. O Estado exigia em seus
editoriais que o Congresso modificasse a
emenda da Constituio que concedia ao
vice-presidente o direito de suceder ao
presidente.

 Ao mesmo tempo, organizou-se uma
resistncia legalista, liderada pelo
governador Leonel Brizola com o apoio do
general Machado Lopes, comandante do III
Exrcito (RS). Voluntrios e rdios do
RS, SC, PR, com adeso pouco a pouco do
restante do pas, formaram a Rede da
Legalidade, isto , um movimento
poltico nacional a favor do cumprimento
constitucional que garantia a posse do
vice-presidente.

 A soluo da crise veio com a aprovao
pelo Congresso do regime
parlamentarista, com a figura de um
primeiro-ministro para dividir com o
presidente o poder. O primeiro-ministro
seria o chefe de governo, com poderes
para nomear ministros e organizar  a
administrao governamental. Ao
presidente caberiam as funes de chefe
de Estado e chefe das Foras Armadas.
Essa soluo reduzia o poder
presidencial.

 A emenda do regime parlamentarista
previa um plebiscito ao final do governo
Goulart, ou seja, uma consulta 
sociedade para confirmar ou no o
parlamentarismo. Porm, houve oposio a
esse regime: socialistas, comunistas e
alguns liberais posicionaram-se contra a
emenda, mas foram vencidos.

 Joo Goulart demorou para voltar ao
pas de sua viagem  China, pois
aguardava que os militares e as foras
civis encontrassem uma soluo
institucional para os impasses
polticos. Estrategicamente, Goulart
chegou ao Brasil a 5 de setembro,
assumindo a presidncia a 7 de setembro,
dia de comemorao da Independncia.

Novo governo, velha crise

 O governo Jango iniciou-se em meio a
grave crise econmica e financeira. Trs
fatores contriburam para a crise.
Primeiro, reduziu-se a capacidade de
importao,  o que provocou a diminuio
das importaes de mquinas e
equipamentos em conseqncia da baixa
produtividade agrcola, resultando na
queda dos preos dos alimentos para as
exportaes. Segundo, houve uma elevao
dos emprstimos externos, subindo a
dvida do pas.  claro que esse aspecto
relacionava-se aos problemas originados
da baixa produtividade do pas. O
terceiro fator foi o aumento
inflacionrio que se acumulava desde o
final do governo JK.

 Para combater essa crise, Jango optou
por uma poltica nacionalista e
reformista, isto , tentava aumentar os
crditos s empresas nacionais e
estatais para os setores bsicos da
economia e permitia ao capital
estrangeiro a participao em bens de
consumo durveis. A administrao
Goulart estabeleceu um Plano Trienal de
Desenvolvimento Econmico e Social,
elaborado sob a liderana de Celso
Furtado, na qualidade de ministro
Extraordinrio para Assuntos de
Desenvolvimento Econmico (atual
Ministrio do Planejamento).

 O Plano Trienal compreendia as Reformas
de Base, entendidas como um projeto de
"capitalismo nacional". O governo
defendia o controle da inflao para
manter nveis altos de taxa de
crescimento. No entanto, a administrao
Jango advogava  a necessidade de
emprstimos externos, mas com
renegociao da dvida para aumentar os
investimentos internos. Para a
realizao dessa poltica, tornavam-se
necessrias as Reformas de Base, isto ,
um conjunto de reformas sociais,
polticas e econmicas  capaz de
modernizar o pas. Essas reformas
incluam a estrutura agrria, o processo
eleitoral, o controle das remessas de
lucros das multinacionais e dos bancos
estrangeiros, um sistema de impostos que
permitisse ao governo elevar seus
recursos financeiros e investir na
produo.

 Mas contradies de peso inviabilizavam
o projeto reformista do governo. A
poltica de estabilizao econmica
implicava a conteno salarial e no era
popular;  ao mesmo tempo, a execuo de
reformas de base agitava a oposio
conservadora sem que fosse possvel ao
governo mobilizar as camadas populares a
seu favor.

 Outra contradio decorria dos erros
politicos das foras nacionalistas e de
esquerda. Para elas, que integravam a
coligao populista, o programa de
reformas democrticas e nacionalistas
interessaria tanto aos trabalhadores
quanto  burguesia "progressista": A
"luta antiimperialista"e contra o
"latifndio semifeudal" era vista como
uma etapa necessria do processo de
transformaes da sociedade brasileira,
que se daria atravs de uma "revoluo
democrtico-burguesa" e de forma
pacifica, comandada pela burguesia
nacional.

 O parlamentarismo mostrava-se frgil
diante dessa conjuntura crtica. De
setembro de 1961 a janeiro de 1963, trs
primeiros-ministros se sucederam:
Tancredo Neves (PSD), Brochado da Rocha
(PSD) e Hermes Lima (Partido Socialista
Brasileiro).

O retorno ao presidencialismo

 Diante do fracasso parlamentarista,
realizou-se um plebiscito (6/01/63) para
a escolha entre presidencialismo e
parlamentarismo. Num ambiente confuso e
tenso, o presidencialismo venceu com 74%
dos votos apurados.

 No entanto, a crise avanava. A
inflao continuava a elevar-se, a
dvida externa era negociada e
representava, em 1963, 43% das
exportaes; o nmero de greves
aumentava tanto nos centros urbanos como
nas zonas rurais. Por outro lado, os
governos europeus e o norte-americano
concediam emprstimos aos governos
estaduais de oposio a Goulart, o que
reforava ainda mais a crise financeira
e enfraquecia o governo central.

 Jango tambm se desgastava com os
partidos polticos, sendo combatido pela
UDN e pelo PSD. Sentindo-se enfraquecido
pelas crises econmico-financeiras e
tendo enorme resistncia no Congresso, o
presidente voltava-se para os grupos
reformistas  mais radicais. Abandonando
o Plano Trienal, apostava nas Reformas
de Base como soluo para as crises.

 Ao mesmo tempo, formavam-se correntes
de apoio ao governo: PTB, PSB,
dissidentes do PSD e da UDN, UNE (Unio
Nacional dos Estudantes), Confederao
Geral dos Trabalhadores  e o Partido
Comunista Brasileiro (mesmo na
ilegalidade). Esses grupos polticos
faziam parte da Frente Parlamentar
Nacionalista.

 Do outro lado, setores empresariais
organizavam-se contra o governo: surgia
a Ao Democrtica Parlamentar, composta
por UDN, PSD, IBAD (Instituto Brasileiro
de Ao Democrtica, financiado pela
Embaixada dos Estados Unidos) e o IPES
(Instituto de Pesquisas e Estudos
Sociais), com o objetivo de organizar
estratgias de luta  do empresariado
contra o governo.

 No incio de 1964, as disputas pelo
poder entre os setores mais
conservadores e os mais progressistas
(indivduos com posies mais 
esquerda, por exemplo, os defensores das
reformas de base) acirravam-se. Nessa
situao, o governo Goulart iniciou  o
processo de reforma agrria sem a
deciso e aprovao do Congresso. Esta
deciso estimulava as classes
proprietrias e camadas mdias
(prejudicadas pela inflao  e abaladas
pelo temor da "comunizao" do pas) a
organizarem manifestaes contra o
governo: a maior delas foi a Marcha da
Familia com Deus e pela Liberdade, da
qual participaram 400 mil pessoas na
cidade de So Paulo, mobilizadas pelos
grupos conservadores da Igreja e do
empresariado.

 A ecloso do movimento da classe mdia
conservadora vinha somar-se s
conspiraes tramadas porgrupos de
oficiais das Foras Armadas,
conferindo-lhes apoio politico e social.
Um destes grupos conspiratrios era
liderado, desde o inicio do governo
Goulart, pelo general Olimpio Mouro
Filho. Outro, reunindo civis e
militares, era liderado pelo almirante
Silvio Hech, enquanto um terceiro vinha
sendo organizado, tambm desde a posse
de Goulart, por um grupo de coronis e
generais - entre eles os coronis "Joo
Batista de Figueiredo, Costa Cavalcanti
e os generais Ernesto Geisel e Bizarria
Mamede", a maioria assinante do
"Memorial dos Coronis" de 1954.

Preparao para o golpe

 Entretanto, diante das tentativas de
militares favorveis s reformas,
organizadas pelo general Assis Brasil -
ministro da Casa Militar - de elaborar
um programa de apoio a Jango e diante
das mobilizaes do governo, como o
comcio de 13 de maro em frente 
Estao Central do Brasil no Rio de
Janeiro, os setores militares de
oposio e com situao de comando
dentro do Exrcito decidiram-se pela
conspirao contra Joo Goulart. O golpe
comeou a ser articulado e, entre seus
defensores, estava o general Castelo
Branco, chefe do Estado-maior do
Exrcito.

 A radicalizao levou o conflito social
a interiorizar-se nas Foras Armadas. A
Associao dos Marinheiros declarou-se
em "assemblia permanente", o que
significava a recusa em apresentar-se s
unidades da Marinha. A situao era
intolervel para os militares, ferindo o
princpio bsico da hierarquia militar e
desgastando definitivamente o governo.

 O "motim" dos marinheiros apressou o
golpe militar. No dia 31 de maro de
1964, o general Olmpio Mouro Filho,
comandante da IV Regio Militar em Juiz
de Fora, reuniu as tropas de Minas e
marchou em direo ao Rio de Janeiro
(onde Goulart se encontrava) para
pressionar o comandante do I Exrcito a
aderir. O comandante do II Exrcito (So
Paulo) aderiu ao general Olmpio. Alm
disso, os governadores Carlos Lacerda
(RJ), Magalhes Pinto (MG) e Ademar de
Barros (SP) deram completo apoio ao
movimento armado.

 Grupos nacionalistas e de esquerda no
possuam esquemas de resistncia. Sua
reao,portanto, limitou-se a alguns
focos isolados de correntes sindicais e
estudantis. Goulart, em 1 de abril,
rumou para Braslia e seguiu  noite
para Porto Alegre, recusando as
propostas de revide ao movimento militar
feitas por Leonel Brizola. Ainda no dia
1, com o presidente Constitucional Joo
Goulart em territrio brasileiro, o
presidente do Senado, Auro de Moura
Andrade, declarou o cargo da presidncia
da Repblica vago e nomeou Ranieri
Mazzilli (presidente da Cmara Federal)
como novo presidente do Brasil.

 No dia 8 de abril, o alto comando da
revoluo (denominao militar para o
golpe que afastou o Presidente legtimo,
pois fora eleito pela populao),
formado pelo general Costa e Silva,
almirante Augusto Rademaker e brigadeiro
Correia de Melo, decretava o Ato
Institucional n 1 (poder excepcional
usado de forma ilegal, pois no constava
do termo constitucional), autorizando o
Congresso a eleger novo presidente. Em
15 de abril de 1964, o Alto Comando
designou, com a aprovao do Congresso,
o marechal Humberto de Alencar Castelo
Branco como novo presidente da Repblica
do Brasil.

Sob o regime da ditadura militar

A modernizao conservadora

 O golpe militar de 1964, iria comear
uma fase do desenvolvimento que foi
caracterizada como "modernizao
conservadora". Um resumo das
circunstncias que levaram ao golpe
militar e ao novo modelo econmico e
poltico  feito por Caio Navarro de
Toledo: a crescente radicalizao
politica do movimento popular e dos
trabalhadores, pressionando o Executivo
a romper os limites do "pacto
populista"; levou o conjunto das classes
dominantes e setores das classes mdias
- apoiados e estimulados por agncias
governamentais norte-americanas e
empresas multinacionais - a condenar o
governo Goulart. A derrubada do governo
contou com a participao decisiva das
Foras Armadas, as quais - a partir de
meados de abril de 1964 - impuseram ao
pas uma nova ordem
politico-institucional com
caracteristicas crescentemente
militarizadas. As reformas exigidas pelo
capitalismo brasileiro seriam agora
implementadas. Repudiando o
nacional-reformismo, as classes
dominantes, atravs do Estado burgus
militarizado, optariam pela chamada
"modernizao conservadora'; excluindo
assim as classes trabalhadoras e
populares da cena politica e pondo fim 
democracia populista.

 A "modernizao conservadora" consistia
na realizao de novos ajustes na
economia que permitissem o
desenvolvimento urbano-industrial e a
concentrao de renda, em beneficio das
elites, atravs da livre empresa sem o
intervencionismo do Estado.

Castelo Branco: o incio da ditadura

 Esse projeto correspondia ao modelo de
um governo militar autoritrio. Coube ao
marechal Castelo Branco realizar as
primeiras reformas. De posse do Ato
Institucional n 1, estabelecido pelo
Comando Supremo da Revoluo, que
suspendia as garantias constitucionais
por sessenta dias, Castelo Branco cassou
os direitos polticos de Joo Goulart,
Leonel Brizola, Celso Furtado, Miguel
Arraes, Darci Ribeiro e tambm extinguiu
a Frente Parlamentarista Nacionalista e
as organizaes que apoiavam as Reformas
de Base: o CGT (Comando Geral dos
Trabalhadores), o PUA (Pacto de Unidade
e Ao) e as Ligas Camponesas.

 Enquanto isso, sindicatos e associaes
proletrias foram interditados, com
nomeasses de interventores do governo.
Ao mesmo tempo, operrios, camponeses e
estudantes foram presos, perseguidos,
exilados, sob a acusao de subversivos
da ordem. Nessa mesma linha, os
processos polticos passavam a ser
julgados pela Justia Militar. A
cassao de JK, no ltimo dia de
vigncia do AI-1, mostrava os contornos
do regime, isto , tratava-se de uma
ordem institucional na qual as
lideranas burguesas seriam afastadas do
novo processo de organizao do Estado.

 O governo do marechal Castelo Branco
optou pelo fortalecimento do Executivo,
bem como pela segurana do Estado. Para
isso, criou-se o SNI (Servio Nacional
de Informaes), encarregado de vigiar
os inimigos do regime militar,
localiz-los e prend-los.

 Dentro dessa perspectiva, a poltica de
segurana justificava o AI-1, a
prorrogao do mandato de Castelo Branco
(portanto, o cancelamento das eleies
presidenciais de 1965) e uma verdadeira
guerra aos oponentes do regime. Outro
AI, o n 2, seguiu-se aps a derrota dos
candidatos do governo s eleies para
governador (os governistas perderam em
cinco dos onze Estados brasileiros).
Assim, em 27 de outubro de 1965, o AI-2
dissolvia os partidos polticos, criando
o bipartidarismo: Arena (Aliana
Renovadora Nacional) e MDB (Movimento
Democrtico Brasileiro), o partido
oficial  de oposio que, entretanto,
teve problemas para se formar, pois o
nmero de deputados e senadores era
pequeno, quase inviabilizando sua
implantao.

 O AI-2 concedia plenos poderes ao
presidente: cassar mandatos, decretar
estado de stio sem prvia autorizao
do Congresso, autorizar fechamento do
Poder Legislativo, intervir nos Estados
e municpios. A justificativa para esses
atos era "prevenir ou reprimir a
subverso". Por trs dessas represses
estava a "jovem oficialidade", composta
principalmente pelos coronis de
Exrcito, empenhados na "pureza dos
princpios revolucionrios", ou seja, na
eliminao dos vestgios do governo
anterior. A posio poltica desse grupo
militar ficou conhecida como "linha
dura", isto , aqueles militares
favorveis  resoluo dos problemas
polticos pela truculncia de aes
repressivas.

 A fora da "linha dura" foi testada
vrias vezes (quando ocorreram o AI-1,
AI-2, SNI, fim dos partidos), mas, sem
dvida, a indicao do ministro da
Guerra, general Artur da Costa e Silva,
para presidente marcava de forma
decisiva a presena dessa corrente
militar. O Congresso, no dia 3 de
outubro de 1966, elegeu Costa e Silva,
com a presena apenas de deputados e
senadores arenistas, pois o MDB, mesmo
sendo uma oposio consentida, no
compareceu, justificando sua ausncia
por no "contestar uma farsa".

Constituio de 1967: a legalizao do
autoritarismo

 Um incidente marcou o fim do governo
Castelo Branco (15 de abril de 1964 a 15
de maro de 1967) de forma dramtica. O
presidente da Cmara no aceitou as
ltimas cassaes de polticos feitas
pelo marechal. Esse fato constituiu-se
num desafio ao poder militar e, sob o
comando do coronel Meira Matos, o
Congresso foi fechado. Quando, em 1967,
rebriu-se o Congresso, deputados e
senadores tiveram que aprovar a nova
Constituio, redigida por juristas do
governo, que entrou em vigor com o novo
presidente.

 A Constituio de 1967 (sexta do pas e
quinta da Repblica) concedeu poderes
excepcionais ao presidente. Alm
daqueles concedidos pelos Atos
Institucionais, o  Executivo tinha
exclusividade para propor projetos de
lei sobre segurana e oramentos
governamentais. A reduo da autonomia
dos Estados se consolidava na medida em
que os governadores eram eleitos
indiretamente, ou seja, o presidente
indicava o governador e as Assemblias
Legislativas, dominadas pela Arena,
aprovavam a indicao.  Assim tambm, em
muitos municpios considerados "reas de
segurana nacional", os prefeitos eram
nomeados atravs de um acordo entre o
presidente e os governadores.
Evidenciavam-se, portanto, o
enfraquecimento da Federao e a
conseqente centralizao poltica nas
mos do presidente da Repblica.

 Nessa Carta Constitucional tambm se
incluram a Lei de Imprensa (os meios de
comunicao estavam sujeitos a processo
com julgamento na Justia Militar sobre
qualquer notcia considerada pelos
golpistas como "atentado  subverso da
ordem")  e a Lei de Segurana Nacional
(enquadramento na Justia Militar dos
opositores ao regime).

Costa e Silva: a oposio cresce

 O governo Costa e Silva (15 de maro de
1967 a 31 de agosto de 1969) contou com
reaes da sociedade brasileira contra a
ditadura militar. Polticos cassados e
marginalizados do poder formaram a
Frente Ampla (1967) - organizao
extra-parlamentar, composta por Carlos
Lacerda, Joo Goulart, Juscelino
Kubitschek, lderes estudantis e
operrios contra a ditadura. O programa,
de carter eminentemente poltico,
inclua anistia geral, Constituio
democrtica e eleies diretas para
todos os nveis. Embora a Frente Ampla
tenha fracassado, de qualquer forma
representava o descontentamento com o
regime pelo conjunto da sociedade
brasileira.

 As manifestaes cresceram em 1968.
Mesmo com a forte represso, os
estudantes realizavam passeatas de
protesto contra a ditadura. Entretanto,
num desses movimentos, o estudante Edson
Lufs morreu em choque com a policia. Em
vez de se intimidarem,  os estudantes
conseguiram organizar, no Rio, a
Passeata dos Cem Mil, que se tornou a
maior manifestao pblica de oposio
ao governo militar.

 Outros movimentos de oposio ocorreram
em todo o pais. Enquanto a poltic
econmica reduzia os salrios, a
populao brasileira organizava atos de
repdio  administrao  da ditadura,
como as greves operrias de Osasco (So
Paulo), Contagem (Minas Gerais) e a
oposio parlamentar no Congresso.

 As promessas de democracia do governo
Costa e Silva no se concretizaram. Pelo
contrrio, o regime mostrou, no episdio
de cassao do deputado Mrcio Moreira
Alves, a sua tendncia ao endurecimento.
Pressionado pela "linha dura", diante
das manifestaes pblicas e das
insubordinaes dos polticos, Costa e
Silva,  no dia 13 de dezembro de 1968,
depois de fechar o Congresso, editou o
AI-5: esse novo ato conferia as mesmas
atribuies ao presidente j feitas pelo
AI-2, mas acrescentava as de confiscar
bens em caso de "enriquecimento ilcito"
e de no conceder o direito de  habeas
corpus aos indivduos enquadrados na Lei
de Segurana Nacional.

 Segundo os idelogos do Regime, era
necessrio um novo "surto
revolucionrio"; pois o cenrio politico
estava conturbado por causa da oposio
sistemtica ( ..). As cassaes ceifaram
mandatos e direitos politicos at de
lideres civis articuladores do movimento
vitorioso quatro anos antes, como Carlos
Lacerda.

  importante observar, entretanto, que
a consolidao da ditadura contava com o
apoio dos setores empresariais (agrcola
e industrial), dos EUA, das
multinacionais e dos banqueiros
internacionais.

Mdici: coero para a economia crescer

 Um acidente afastou Costa e Silva.
Vtima de uma trombose cerebral, o
"presidente" afastou-se do poder, que
foi ocupado por uma junta governamental,
composta pelos  trs ministros militares
(Exrcito, Marinha e Aeronutica), sob a
chefia do general Lyra Tavares. O
vice-presidente, Pedro Aleixo, poltico
civil, no pde assumir o cargo, pois os
militares no permitiram. A junta editou
uma emenda constitucional, incorporando
ao texto da Constituio o AI-5, e
incluiu outros artigos que determinavam
o fim das imunidades parlamentares e
instituam a priso perptua e a pena
de morte. Por fim, a junta determinou as
eleies para o novo presidente,
indicando o  nome do general Emlio
Garrastazu Mdici - outro militar da
chamada "linha dura".

 Mdici (30 de outubro de 1969 a 15 de
maro de 1974) assumiu a presidncia
diante de contnuas manifestaes de
oposio  ditadura. A resposta foi a
extrema represso a qualquer movimento
de contestao  ordem militar, quer de
forma radical, quer de modo liberal ou
moderado.

 Diante dessa situao, surgiram vrios
grupos oposicionistas que partiram para
a luta armada contra a ditadura. A
guerrilha urbana foi deflagrada por
grupos como a VAR-Palmares (Vanguarda
Armada Revolucionria), comandada pelo
ex-capito do Exrcito, Carlos Lamarca;
a ALN (Aliana Libertadora Nacional),
liderada por Carlos Marighella,
ex-membro do PCB; o MR-8 (Movimento
Revolucionrio 8 de Outubro - em
homenagem ao dia da morte de Che Guevara
na Bolvia) e, no incio da dcada de
70, o PC do B (Partido Comunista do
Brasil, de orientao chinesa) organizou
uma guerrilha rural na regio do
Araguaia, no sul do Par.

 Seguia-se uma onda de seqestros,
assaltos a bancos e execues polticas
realizados pelos grupos guerrilheiros em
resposta ao endurecimento da ditadura.
Em contraposio, os setores militares
empreenderam uma violenta ao
repressiva. Assim, qualquer movimento
oposicionista passava a ser identificado
como "comunista", "terrorista",
"subversivo" e recebia tratamento duro:
com prises, torturas, mortes
indiscriminadas. Como desdobramento
dessas aes, o DOPS (Departamento de
Ordem Poltica e Social) realizava
prises e at sofisticava mtodos de
tortura, alm de realizar pesquisas
sobre  formas mais adequadas e
eficientes de se obter a confisso de
presos polticos.

 Ainda em 1969, os setores repressivos
mataram Carlos Marighella (em
circunstncias desconhecidas), ao mesmo
tempo em que o governo implantava o
decreto lei 477, atravs do qual proibiu
estudantes, professores e funcionrios,
principalmente das Universidades, de
realizarem qualquer manifestao
poltica.

 Essas aes coercitivas eram
justificadas como garantia para a defesa
do Estado e da estabilidade econmica.
Foi desse perodo o desenvolvimento do
"milagre econmico", uma estratgia de
expanso industrial, beneficiando a
levao dos lucros  das elites e
classes mdias altas, enquanto o poder
aquisitivo das classes trabalhadoras, em
geral, se reduzia.

Mdici: "milagre econmico ' e represso

 O clima de "euforia desenvolvimentista"
valeu-se at do ingrediente do futebol -
paixo nacional - com a conquista pela
seleo brasileira do titulo mundial em
1970. Para capitalizar esse xito a seu
favor, o governo lanou uma campanha
publicitria ufanista: "Ningum segura
este pais". O xito na luta contra a
guerrilha contribuiu para o outro
slogan, revelador da profunda
intolerncia reinante no pais: "Brasil,
ame-o ou deixe-o".

 Outra caracterstica do governo Mdici
foi a inaugurao de estradas com o
mesmo efeito do "milagre econmico":
rpido e de importncia duvidosa. Esto
nesse caso a ponte Rio-Niteri e a
Transamaznica. Em resumo, o governo do
quarto general-presidente marcou pela
expresso e pela doutrina de segurana
nacional. Esses dois traos
vinculavam-se  outra doutrina: a do
desenvolvimento a qualquer custo. No
entanto, o "milagre econmico" mostrava,
nos fins de 1973, sinais de abalo em
alguns setores industriais, provocando
um aumento da inflao. Ento, o
ministro da Fazenda, Delfim Neto,
alterou os dados para que a taxa
inflacionria se aproximasse dos 12%,
que o governo havia previamente
estabelecido. Assim, conseguia-se o
"desenvolvimento a qualquer custo", ou
seja, manipulavam-se os dados
inflacionrios para legitimar o modelo
econmico em decadncia.

 Mdici indicou o general Ernesto Geisel
para suced-lo na presidncia,
comunicando sua deciso ao Colgio
Eleitoral. Esse colgio compunha-se de
127 deputados indicados  pelas
Assemblias Legislativas, 310 deputados
federais e 66 senadores. Assim, Geisel
foi eleito por 400 votos, contra seu
concorrente, Ulysses Guimares, que
obteve 76 votos.

Geisel: governo centrlizador

 O perodo Geisel (15 de maro de 1974 a
15 de maro de 1979) encontrou esgotado
o modelo do "milagre econmico": incio
de uma nova crise do sistema capitalista
expresso na crise do petrleo. Essa
conjuntura mostrava os limites de um
modelo econmico calcado numa fonte de
energia esgotvel como o petrleo. Por
seu estilo autoritrio e personalista,
Geisel centralizou tods as decises
governamentais  em suas mos.

 Diante das dificuldades econmicas,
tornaram-se freqentes as insatisfaes
das classes trabalhadoras, manifestas
nas eleies legislativas (Cmara
Federal e Senado) de 1974, com a
obteno pelo MDB de vitrias
significativas, principalmente nos
grandes centros urbanos. A reao dos
militares de "linha dura" voltou-se
contra o incio  de uma tmida abertura
poltica, como ocorreu nas eleies e na
gradativa retirada da censura prvia aos
jornais, revistas, rdios, televiso que
vinham sendo controlados desde a
implantao do AI-5 (dezembro de 1968).

 Em 1975, o descontentamento da
oficialidade mais radical manifestou-se
atravs das prises em massa realizadas
pelo comandante do II Exrcito, general
Ednardo D'vila de Mello, que
arbitrariamente prendeu professores,
intelectuais, jornalistas, engenheiros,
mdicos e operrios, submetendo-os a
torturas nos pores do DOI-CODI
(organismo  de espionagem dos setores
militares).

 A tortura nos interrogatrios acabou
por matar o jornalista Wladimir Herzog.
O crime foi justificado pelo comandante
do II Exrcito como "suicdio". Esse
episdio, somado a outra morte, a do
operrio Manuel Fiel Filho nas
dependncias do DOI- CODI, tambm
classificado como "suicdio", exigiu do
general Geisel uma postura enrgica,
resultando na exonerao do general
Ednardo.

 Essa atitude de Geisel demonstrou o
controle sobre as situaes polticas e
sobre as tropas. O governo, no entanto,
investia tambm sobre as oposies. A
cassao do mandato do deputado Lysneas
Maciel e o decreto da Lei Falco - que
proibia a propaganda eleitoral no rdio
e na televiso, para evitar uma derrota
da Arena - foram duas demonstraes dos
limites da abertura poltica, prevista
por seus planejadores para ser "lenta,
gradual e segura".

 A "lentido" significava que o controle
e as regras do jogo poltico eram dados
pela centralizao governamental. Mas os
descontentamentos populares faziam
crescer as greves, as manifestaes de
amplos setores das classes proletrias,
especialmente dos metalrgicos. Por sua
vez, o MDB, estimulado pelas vitrias de
1974, passava a representar as
insatisfaes gerais da populao
brasileira. Diante dos crescentes
protestos, Geisel colocava sempre como
condio do processo de redemocratizao
do pas a vitria a qualquer custo da
Arena, partido governista.

O fechamento do Congresso

 Sentindo-se ameaado com a recusa pelo
MDB da reforma do judicirio, proposta
pelo governo, Geisel fechou o Congresso
Nacional e lanou o Pacote de Abril de
1977. Esse pacote serviu para legitimar
no s a reforma judiciria, mas tambm
para estabelecer as seguintes medidas:

 as eleies para governador
continuariam indiretas ;

 I/3 do Senado seria eleito por escolha
indireta, ou seja, o presidente indicava
o nome dos senadores sem passar por
eleies, expediente que assegurava ao
governo ter homens de sua inteira
confiana (esses senadores indiretos
receberam o nome de "binicos");

 alterao nas regras eleitorais, com
limitao do nmero de deputados por
Estado, o que diminua a
representatividade dos grandes Estados,
como So Paulo, Minas Gerais, Rio de
Janeiro e Rio Grande do Sul, ou seja, os
maiores opositores ao regime.
Aumentava-se, portanto, a importncia
dos Estados menores, onde a Arena
possua maiores possibilidades de
vitrias eleitorais;

 o mandato do prximo presidente
passava de cinco para seis anos.

 Dessa forma, a ditadura mostrava-se
intransigente e disposta a perpetuar-se
no poder. Seguiram-se protestos contra o
pacote em todo o pas. As oposies
propunham uma Assemblia Constituinte
precedida de uma anistia poltica ampla,
geral e irrestrita. Papel importante,
nesse momento (1977), teve a OAB (Ordem
dos Advogados  do Brasil), na gesto do
jurista Raimundo Faoro, por suas
atuaes contundentes.

Figueiredo: candidato oficial

 No entanto, dentro do poder
iniciava-se, no segundo semestre de
1977, a luta pela sucesso presidencial.
Os militares da "linha dura" propunham o
nome do general Slvio Frota (ministro
da Guerra), enquanto setores governistas
indicavam o chefe  do SNI general Joo
Figueiredo. Aps intensa luta nos
bastidores do poder, Frota foi afastado
do Ministrio. Figueiredo tornou-se o
candidato oficial, anunciado
publicamente em 78.
  Nesses anos tambm ocorreram eleies
para deputados e senadores. Privilegiada
pelo Pacote de Abril, a Arena elegeu o
maior nmero de congressistas - embora a
soma dos votos dos deputados e senadores
oposicionistas fosse muitas vezes
superior  dos arenistas. Geisel, no
entanto, antes de deixar o poder,
assinou um decreto abolindo o AI-5 a
partir de 1  de janeiro de 1979. A 15
de maro do mesmo ano,  Figueiredo
tomava posse da presidncia.

 A administrao Figueiredo
responsabilizou-se pelas tentativas de
transio democrtica entre um regime de
ditadura e um de liberdade democrtica
calcada em leis e na participao
popular. Diante dos primeiros sinais
democrticos, os grupos conservadores
mais radicais comearam com aes
terroristas contra a efetivao da
abertura poltica.

 Em 1980 niciaram-se as aes de
violncia dos grupos de direita, com
incndios em bancas de jornais de Minas
Gerais e So Paulo, com o propsito de
aterrorizar os proprietrios para que
estes no vendessem em suas bancas
publicaes indicadas como "subversivas"
(o jornal Movimento foi o mais visado
pelos direitistas). Em julho, na visita
do papa Joo Paulo II ao Brasil, o
jurista Dalmo Dallari (opositor ao
regime militar) (foi seqestrado e
agredido por homens desconhecidos, a fim
de impedir seu discurso ao papa.

 No segundo semestre de 1980, houve
atentados a bomba no Rio de Janeiro:
primeiro, na OAB (em sua sede do
Conselho Federal), o que provocou a
morte de uma funcionria e, segundo, na
Cmara Municipal (na sala de um vereador
peemedebista), mutilando um funcionrio.

 No dia 30 de abril de 1981, no Rio de
Janeiro, em um show comemorativo ao Dia
do Trabalhador, ocorreu a exploso de
uma bomba no colo de um sargento do
Exrcito, provocando sua morte imediata
e ferindo gravemente um capito que
dirigia um carro de "chapa fria". Tudo
indicava que ambos estavam no Rio Centro
(local do show) para aes terroristas.

 O desdobramento poltico do atentado
foi o pedido de demisso do general
Golbery do Couto e Silva do Ministrio
da Casa Civil. Sua sada deveu-se  no
punio dos responsveis envolvidos no
atentado. Esse militar era o principal
articulador da abertura poltica, que
prosseguiu com seu substituto no
ministrio, Leito de Abreu.

 As interpretaes, na poca, indicavam
que esses atentados eram praticados por
fora policial - militares responsveis
pelas torturas, prises e assassinatos
de prisioneiros polticos, que temiam os
possveis revanchismos criados pela
perspectiva de uma redemocratizao do
pas.

 Mas a abertura prosseguiu. O governo
Figueiredo concedeu anistia (1979)
parcial ; e restabeleceu o
pluripartidarismo (1980). Em ambos os
casos, o governo tentava dividir as
foras oposicionistas. Contentava-se com
a permanncia de um partido majoritrio
aliado ao governo e com a fragmentao
das oposies.

Renascimento dos partidos polticos

 Mas esse recurso - a pulverizao das
oposies em muitos partidos - era uma
clara manifestao da perda de poder
poltico da ditadura. Das imposies
autoritrias passava-se a uma manobra
ardilosa, mas sujeita aos movimentos
criados pelo conjunto da sociedade. E
vrios setores comearam a organizar-se,
iniciando-se um perodo de intensa
negociao poltica.

 Nesse contexto, surgiram o PP (Partido
Popular, que mais tarde se fundiu com o
PMDB); o PTB (sob o comando de Ivete
Vargas); o PDT (liderado por Leonel
Brizola) e o PT. Este ltimo, o Partido
dos Trabalhadores, nasceu da organizao
dos sindicatos  metalrgicos do ABC
paulista e constitui-se na maior
novidade poltica do pas, tendo como
lder Lus Incio Lula da Silva. Os
limites da reforma partidria ficaram
evidentes com a proibio de legalizao
dos partidos comunistas.

 As eleies de 1982 consolidaram os
partidos em todo o pas. A partir de
1983, articulou-se um movimento para a
adoo de eleies diretas para
presidente. O movimento s conquistou a
adeso popular em 1984, ano de escolha
do sucessor de Figueiredo.  Popularizado
com o nome de "Diretas J", o movimento
provocou as maiores concentraes
populares j registradas na histria do
pas. Seus maiores xitos foram as
manifestaes de 10 de abril, na
Candelria no Rio, e de 16 de abril, no
Anhangaba em So Paulo (com mais de um
milho de pessoas em cada).

Essas manifestaes revelaram o enorme
descontentamento popular com o regime
implantado em 64.

 No entanto, a emenda do deputado Dante
de Oliveira (PMDB-MS), que restabelecia
as eleies diretas, foi rejeitada em 25
de abril de 1984, pois o PDS (cujo
presidente na poca era Jos Sarney)
articulou-se de forma coesa, impedindo a
vitria da emenda.

 A partir desse momento, o PMDB lanou
Tancredo Neves como candidato
oposicionista para concorrer ao cargo
presidencial pelo Colgio Eleitoral.
Como candidato do regime, o deputado
Paulo Salim Maluf foi escolhido pela
Conveno Arena sem, no entanto, contar
com a aprovao de Figueiredo e seu
governo.

 Como Maluf no era candidato de
consenso do PDS, em julho de 1984 os
dissidentes do partido governista
formaram a Frente Liberal, com
disposio de apoiar a candidatura  de
Tancredo Neves. Do acordo entre o PMDB e
a Frente Liberal, nasceu a Aliana
Democrtica, que passava a defender a
candidatura de Tancredo para presidente
e de Jos Sarney para vice (Sarney
rompeu com o PDS aps a confirmao de
Maluf como candidato oficial).

 Tancredo contava com amplo apoio dos
setores empresariais, classe mdia e
alguns setores da classe proletria.
Numa clara manobra para viabilizar a
eleio oposicionista,  a mesa do Senado
decidiu que o voto de cada membro seria
dado de p e em voz alta. Assim,
Tancredo elegeu-se, no dia 15 de janeiro
de 1985, com 480 votos, contra 180 dados
a Maluf e 26 abstenes.

 Mas as articulaes para essa aliana
sofreram um duro golpe. Com um tumor nos
intestinos, Tancredo Neves foi internado
no dia 14 de maro, vspera da posse, no
Hospital de Base de Brasilia.
Transferido para So Paulo, sofreu uma
srie de cirurgias, vindo a falecer no
dia 21 de abril, vtima de septicemia.

Nova Repblica, Velha Ordem

 A Nova Repblica, denominao dada por
Tancredo, caiu ironicamente nas mos de
Jos Sarney, um dos articuladores, no
Maranho, do golpe de 64 e ex-presidente
do PDS. De qualquer forma, o PMDB
tomaria posse do governo no Planalto
Central, j que era o partido
situacionista em SP, MG, PR, GO, ES e
outros desde 1982. Por outro lado, em
novembro de 1985, seriam realizadas
eleies para prefeito das capiTais,
estncias hidrominerais, municpios at
ento de segurana nacional e municpios
recm-criados. Era o primeiro grande
teste do PMDB. Os resultados mostraram
que a populao brasileira no
     aprovava a administrao
peemedebista de forma unnime - embora o
     PMDB tenha vencido em grande parte
das capitais.

 Diante das constantes elevaes da
inflao e da necessidade de recuperar
seu prestigio, a cpula do PMDB planejou
medidas econmicas de impacto. Assim, em
28 de fevereiro de 1986, o ministro da
Fazenda, Dilson Funaro, anunciou um
plano de estabilizao econmica para
eliminar a inflao, Todos preos
congelados, juros baixos e facilidades
creditcias; o cruzeiro foi substitudo
por uma nova moeda, o cruzado, e se
instituiu o gatilho salarial, pelo qual
os salrios seriam reajustados sempre
que a inflao chegasse a 20%.

 Com a adeso em massa da sociedade
brasileira, o Plano Cruzado obteve
resultados favorveis a ponto de
garantir ao PMDB, nas eleies de
novembro de 86, a vitria em 22 dos 23
Estados brasileiros, obtendo tambm a
maioria dos deputados e senadores para a
Assemblia Nacional Constituinte,
convocada pelo novo governo.

 No entanto, a inviabilidade do Plano
Cruzdo foi constatada no incio de
janeiro e, em abril, com o fracasso do
Cruzado II - um pacote de medidas
impopulares, anunciado um dia aps as
eleies de novembro -, Funaro se
demitiu. Em julho, o novo ministro,o da
Fazenda, Lus Carlos Bresser Pereira,
lanou o Plano Bresser, que desvalorizou
a moeda em 10,5%, congelou preos por
noventa dias e substituiu o gatilho
salarial pela URP (Unidade de Referencia
de Preos), que estabelecia reajustes
mensais nos salrios. Esse plano
sobreviveu apenas alguns meses e, no
final de 1987 - com a inflao em 365,9%
e sem chegar a bom termo na negociao
da dvida externa -, foi a vez de
Bresser pedir demisso.

 Na rea da Constituinte, as manobras
internas e os lobbies (grupos
organizados por representantes dos
vrios setores econmicos da sociedade)
dos empresrios mais poderosos formaram
o Centro, isto , uma congregao
poltica conservadora com elementos de
vrios partidos. Essa articulao
mostrou que o PMDB no fora capaz de
aliar os interesses polticos s
pretenses pessoais de seus
representantes. Assim, o Centro
neutralizou as tentativas de conquista
para as camadas populares de grupos de
esquerda
     na Assemblia. Em outubro de 1988,
aps um ano e oito meses de atividades,
a Assemblia Constituinte deu por
concludo o texto da nova Carta
Constitucional, que, submetida ao
Congresso, foi aprovada por 474 votos a
favor, 15 contra e 6 abstenes.

 Enquanto a Constituio era promulgada,
a inflao corria solta, atingindo, no
final de 1988, 933%. Em janeiro de 1989,
com Mailson da Nbrega no Ministrio da
Fazenda, Sarney decretou o Plano Vero,
que criava outra moeda - o cruzado novo,
valendo mil cruzados -, congelava preos
e salrios por noventa dias e extinguia
a OTN. Mas, ignorando as prometidas
demisses no inchado servio pblico e
gastando descontroladamente, o prprio
governo acabou derrotando seu plano.

 Praticamente acfalo, envolvido em
grave crise, que exigia solues
urgentes, o pas caminhou para as
eleies presidenciais de novembro. Dos
22 candidatos, passaram para o segundo
turno Fernando Collor de Mello e Lus
Incio Lula da Silva. No dia 17 de
dezembro, somando 35 milhes de votos
(contra 31 milhes de Lula), Collor foi
eleito o 36 presidente do Brasil.


OS SINDICATOS E O CONFLITO SOCIAL

As lutas sociais de 1930 a 1937

 manipulao do conflito social

 A Revoluo de 1930 consolidava uma
nova ordem poltica e estrutura social
instauradas pelas reformas promovidas
pela nova elite poltica que tomou o
poder e controlou o Estado. A hegemonia
da classe burguesa, mercantil e
industrial era inconteste, embora alguns
movimentos tenham ameaado, em parte,
essa nova ordem social. A classe mdia,
com contornos muito fluidos, alcanava
notvel expresso cultural e ideolgica
nos primeiros anos da Revoluo. A
nascente classe operria, organizada  em
partidos e sindicatos, teve uma atuao
vigorosa, mas pouco a pouco foi
enquadrada ou reprimida em suas lutas,
sobretudo a partir do advento do Estado
Novo, com a ofensiva ideolgica do
populismo e do paternalismo autoritrio
de Getlio.

 Apesar dessas manipulaes, a questo
social impunha-se e no podia mais ser
tratada como "caso de polcia". Embora o
Estado no reconhecesse a legitimidade
das reivindicaes de classe como
expresso de necessidades divergentes de
segmentos sociais, houve um ntido
crescimento do espao reivindicatrio e
organizacional das categorias mais
oprimidas.

 Ainda assim, o recurso da represso
policial e da violncia prevalecia no
tratamento das questes sociais. A
efervescncia dos movimentos populares,
as expresses de luta e protesto dos
segmentos mdios e at mesmo a resposta
do Estado a esse conjunto de
reivindicaes deixavam a estrutura de
classes e seus interesses divergentes
claros dentro do modelo poltico e
social inaugurado pela Revoluo de
1930.

 Esses movimentos de protesto tornavam a
provisoriedade do pacto revolucionrio
visvel e definiam, pouco a pouco, o
governo getulista como expresso de
interesses da burguesia.

Esquerda, direita e o golpe de 37

 Depois da vitria sobre o movimento
Constitucionalista de 1932 em So Paulo,
o governo reforou sua estrutura de
poder e promulgou a Constituio de
1934.

 Para as esquerdas e, em particular,
para o Partido Comunista (bem organizado
e com maior consistncia ideolgica), a
Constituio veio assegurar o direito de
expresso, organizao e atuao. A
adeso do ex-capito Lus Carlos Prestes
deu ao  partido um prestgio e uma
repercusso ainda maiores. Como resposta
ao adiamento pelo governo das prometidas
reformas sociais, formou-se, ainda nos
primeiros anos do regime getulista, uma
frente de oposio congregando os
"tenentes" insatisfeitos, socialistas,
comunistas e anarquistas. Essa frente
recebeu o nome de Aliana Nacional
Libertadora (ANL).

 A direita tambm se organizou, formando
a Ao Integralista Brasileira (AIB),
composta por setores da classe mdia,
representantes do clero tradicionalista
catlico, faces do Exrcito e, claro,
por militantes do integralismo. O
integralismo era a verso cabocla do
fascismo, cuja principal palavra de
ordem era o anticomunismo intransigente.
 semelhana do fascismo, criava grupos
paramilitares de ao. De certo modo, o
governo manipulava o conflito entre
essas foras antagnicas, mas recebeu o
apoio dos integralistas ao golpe de
1937.

Identidade poltica do Estado Novo
-1939-1945

O atrelamento sindical

 A partir do golpe de 37 e da
instituio do Estado Novo, o governo
Vargas assumiu uma identidade poltica
bem definida. Em termos ideolgicos,
abandonou os traos liberais dos
primeiros anos "revolucionrios",
aproximando-se de um nacionalismo
radical e de uma estrutura de Estado
totalitrio, calcado nos moldes
fascistas.  Passou a apoiar-se numa
faco da burguesia industrial e
comercial, nos quadros burocrticos
vindos de camadas mdias e no aparelho
policial-repressor. A esses componentes,
agregava um paternalismo autoritrio nas
suas relaes com o operariado.

 A Constituio de 37 consagrava o
perfil centralizador e fascistizante do
Estado Novo. Na parte trabalhista, essa
Constituio incorporava  princpios da
Constituio fascista italiana,
proibindo greves, manifestaes e
passeatas, alm de atrelar os sindicatos
operrios ao Estado.

 Firmou-se tambm uma estrutura de
Estado centralizador, reduzindo
drasticamente a autonomia dos Estados.
Ao mesmo tempo, eram criados mecanismos
de represso e controle ideolgico das
foras sociais pelo recurso da
propaganda (DIP), da censura, da polcia
poltica e de uma organizada estratgia
populista.

O perfil poltico de Vargas

 A trajetria pessoal e poltica de
Vargas no pode se reduzir a uma anlise
simplista baseada nos conceitos de "bem"
e de "mal". Do ponto de vista
histrico-social, organizou um governo
que permitiu a expresso dos interesses
de uma nascente burguesia industrial,
acomodando-a aos privilgios das
oligarquias tradicionais e dando ao
Estado o papel de rbitro dos conflitos
sociais. Sua relativa independncia do
capitalismo internacional baseava-se na
promoo de uma concepo nacionalista e
estatizante capaz de promover o acordo
entre os diferentes interesses das
classes dirigentes.   construo de um
Estado planejador, fiscalizador e
repressor, acrescentou um componente
paternalista no trato com as classes
proletrias, expresso na legislao
trabalhista.

 Dentro de seus princpios estratgicos
de controle social, o Estado Novo
voltou-se para a criao de leis
trabalhistas que regessem as relaes
capital-trabalho. Em 1943, Vargas,
atravs do Ministrio do Trabalho,
criava a Consolidao das Leis
Trabalhistas (CLT). Esse conjunto de
leis constituiu-se na expresso mxima
do legado varguista como "protetor dos
trabalhadores" e "pai dos pobres". Entre
seus mais importantes tpicos
destacam-se: a criao da previdncia
social, do direito  aposentadoria e da
assistncia mdica; a instituio do
salrio mnimo atado pelo Ministrio do
Trabalho; a instituio da jornada
diria de oito horas; o direito a fris
e a descansos semanais remunerados.

O processo de organizao do
proletariado

 Em 1946, com o fim do Estado Novo
(1937-1945), que manteve sob rgido
controle as manifestaes das classes
trabalhadoras, abria-se um periodo
favorvel ao desenvolvimento das lutas e
organizaes populares.

 No entanto, essas manifestaes logo
revelaram a inconsistncia da fachada
democrtica do governo Dutra.
Desfechou-se ento uma perseguio
sistemtica ao PCB e s lideranas dos
trabalhadores. A Confederao Geral dos
Trabalhadores do Brasil e (CGTB) foi
fechada, com vrias prises e destruio
da sede. Tratava-se de desmantelar uma
organizao que tinha carter autnomo
em relao ao Estado. Por essa razo, o
Ministrio do Trabalho instituiu a
Confederao Nacional dos Trabalhadores
na Indstria (CNTn, para exercer um
controle efetivo sobre as organizaes
sindicais.

 Cerca de quatrocentos sindicatos
sofreram interveno do Estado durante o
perodo Dutra (1946-1950). Em 1952, no
governo Vargas, quatrocentos mil
grevistas se manifestaram e o movimento
da Passeata da Panela Vazia reuniu, em
So Paulo e no Rio, perto de quinhentas
mil pessoas. Em 1953, ocorreu a Greve
dos 300 mil, em So Paulo. Iniciada nos
setores txteis, espalhou-se entre
grficos, metalrgicos, marceneiros,
vidreiros e durou 21 dias.  No governo
JK, em 1957, tambm aconteceu uma greve
geral, realizada em So Paulo,
paralisando quatrocentos mil
trabalhadores por dez dias em outubro.
Por outro lado, a organizao dos
trabalhadores rurais tambm crescia. As
Ligas Camponesas (associaes de
camponeses e trabalhadores rurais) foram
criadas na dcada de 50 e, lideradas
pelo deputado Francisco Julio,
estimularam as reivindicaes rurais.

 Desde 1953, o movimento sindical
tentava unir as lutas das categorias sob
um comando nico. No entanto, foi no ano
de 1962 que as classes operrias criaram
o Comando  Geral dos Trabalhadores
(CGT), conseguindo agrupar 386
sindicatos e consolidando a unidade da
luta sindical.

 As organizaes sindicais na dcada de
60 conseguiram ampliar o alcance de sua
luta poltica. Exemplo disso foi a
atuao dos sindicatos na luta pela
posse de Goulart, com a realizao da
Greve pela Legalidade (agosto de 1961).
Em 1963, nova greve geral em So Paulo
mobilizou setecentos mil trabalhadores,
que conquistaram aumentos salariais.

 Com o golpe de 64, deflagrou-se uma
perseguio em massa, afastando e
eliminando as lideranas sindicais. A
represso que se estabeleceu com a
ditadura militar interrompeu o processo
de democratizao das lutas populares,
com interveno em todos os sindicatos
urbanos e o fechamento de 90% dos
sindicatos rurais. O golpe final veio
com a decretao do AI-1, impedindo
todas as manifestaes operrias nas
ruas e nas fbricas.

Reativao dos movimentos populares e
dos sindicatos

 De 1968 a 1972, os movimentos populares
retraram-se em funo do esquema de
violncia repressiva imposto pelo regime
com prises, torturas e assassinatos de
seus opositores. Foi nesse perodo que
surgiu a luta armada desfechada pelo
terrorismo.

 Mas a luta popular renasceria em outras
bases. Em 1972, moradores da zona sul de
So Paulo realizaram assemblias para
reivindicar melhores condies de
transporte. Trs anos depois, estavam
organizados os movimentos comunitrios
nos bairros e na periferia de So Paulo,
com apoio de setores da Igreja catlica.
Renovava-se o carcter das manifestaes
das classes trabalhadoras.

 Essas lutas tiveram como resultado a
criao, em 1975, do Movimento do Custo
de Vida (MCV), em So Paulo. J em 1978,
o MCV conseguiu organizar uma lista com
um milho e trezentas mil assinaturas,
na qual exigia das autoridades
governamentais medidas para reduzir o
custo de vida.

 Abria-se caminho para a reorganizao
dos movimentos operrios a partir de
1979.

 Em maio desse ano,113 mil operrios
fizeram a primeira greve dos
metalrgicos do ABC, cuja reivindicao
principal era a reposio de 78% no
salrio, Numa das greves foi assassinado
o operrio Santo Dias da Silva. Foi
desse contexto que surgiram as novas
lideransas do movimento operrio,
destacando-se Lus Incio Lula da Silva,
A resposta do sistema foi a interveno
no Sindicato dos Metalrgicos de So
Bernardo, com a ocupao pela polcia
militar do estdio em que se realizava
uma assemblia da categoria. A represso
no sufocou esses movimentos e, graas
 coeso da classe trabalhadora, novos
protestos se seguiram no Rio, Belo
Horizonte, Salvador Porto Alegre etc.

O movimento operrio

 O ano de 1980 foi o grande marco dos
movimentos reivindicatrios. No ABC os
oPerrios paulistas conseguiram se
manter em greve 41 dias, apoiados pelo
maior movimento de solidariedade j
realizado na Histria do Brasil. A
campanha de solidariedade reuniu
polticos, Igreja catlica, associaes
civis como OAB (Ordem dos Advogados do
Brasil e ABI (Associao Brasileira de
Imprensa). A greve catalisou o
descontentamento de amplos setores da
sociedade brasileira diante da poltica
econmica da ditadura. A manifestao do
dia 1  de Maio de 1980 mobilizou cem
mil trabalhadores numa evidente prova de
resistncia e desafio ao regime militar.

 Em 1981, os setores mais organizados do
operariado brasileiro realizaram a I
Conferncia Nacional da Classe
Trabalhadora. Compareceram cerca de
cinco mil lderes sindicais. Os
resultados mais importantes dessa
reunio foram a condenao da politica
econmica e a deciso de fundar a
Central nica dos Trabalhadores (CUT).

 Liderada por militantes do PT (Partido
dos Trabalhadores), a CUT surgiu em
1982. Uma dissidncia formada por
militantes do PCB e PC do B deu origem,
em 1983,  CGT (Confederao Geral dos
Trabalhadores).

A modernizao social do campo

 O processo de modernizao do campo
iniciou-se com o governo Vargas
(1930-45) e estendeu-se ao governo JK
(1956-60). O desenvolvimento da economia
nacional tornava-se incompatvel com o
atraso das relaes de produo no
campo. Ainda na dcada de 60, mais de
50% da populao brasileira residia no
campo, vivendo isolada da economia de
mercado, ou seja, sobrevivia s custas
de subsistncia: plantando para comer.

 A partir do golpe de 64, a ditadura
militar empreendeu uma srie de
reformas, visando  gradativa integrao
das populaes rurais ao processo
produtivo capitalista.

 Assim, o regime militar combateu os
bolses obsoletos, procurando atrair
para o mundo moderno setores
selecionados da agricultura. ( ..) A
arma mais poderosa do arsenal de
"estimulos"foi a enorme ampliao do
crdito rural: capital para modernizar
o campo, financiar as colheitas e a sua
comercializao, assim como beneficios
capazes de aumentar o rendimento das
culturas. Alm disso, foi concedida a
iseno de impostos, que barateou a
compra de fertilizantes e equipamentos
mecnicos,  como tratores, por exemplo.

 No entanto, essa poltica no atacou a
questo-chave dos problemas agrrios: a
organizao latifundiria de propriedade
da terra. Assim, at mesmo na dcada de
80 permaneceram as formas mais atrasadas
de produo. A primeira conseqncia do
processo de modernizao do campo foi a
adoo do trabalho assalariado, que
atingiu cerca de 70% da populao ativa.
Uma segunda conseqncia foi a queda do
nmero de pequenas propriedades, o que
abrangeu mais de seiscentos mil
camponeses. Uma terceira foi a reduo
do nmero de arrendatrios, ou seja, de
indivduos que cultivavam os campos de
propriedade de terceiros, mas que, em
vez de dividir a produo, alugavam a
terra.

 Uma concluso parece impor-se: a
maioria dos pequenos agricultores
tornou-se assalariada. No entanto, a
instalao de um regime assalariado no
campo no trouxe  elevao do nvel de
vida para o trabalhador rural,
configurando apenas um modo de
organizao mais eficiente desse setor
produtivo.

Classe burguesa e classe mdia

 Da urbanizao  industrializao e 
expanso da estrutura de servios no
Brasil contemporneo, o processo de
modernizao abriu para as camadas
mdias oportunidades de mobilidade e
ascenso social. No entanto, o quadro j
restrito desse processo em relao 
totalidade da sociedade brasileira -
caracterizada por violentas
desigualdades sociais expressas no
modelo de concentrao da renda - vem
sofrendo uma  reduo ainda mais
drstica com a quase estagnao da
economia e com o fechamento gradativo do
mercado. A perda de poder aquisitivo
motivada pela inflao e pela conteno
dos salrios completa dramaticamente o
quadro atual.

 Para termos uma viso das classes
sociais no Brasil de 1930 a 1988,
torna-se necessrio verificar os traos
de continuidade e de mudanas dentro da
estrutura das  classes burguesas. Numa
perspectiva ampla, o bloco dirigente em
nossa sociedade continua formado por
capitalistas e grandes empresrios
rurais, como no final do sculo XIX,
porm com trs grandes diferenas:

a) o plo dominante se tornou a
burguesia;

b) a frao hegemnica da burguesia 
integrada por altos financistas e grupos
industriais poderosos;

c) os grandes proprietrios de terras
so latifundirios aburguesados.

 Um dos principais setores da composio
diferenciada da classe burguesa  o
formado pelos "pequenos empresrios".
Para se ter uma idia de sua
importncia, basta verificarmos que em
1980, no setor de comrcio, as pequenas
empresas capitalistas representavam 90%
dos estabelecimentos e 86% do valor de
vendas.

 Em relao s classes mdias, cabe aqui
a observao de Raymond Aron, ao
defini-las como uma espcie de quarto de
despejo, para onde vo as pessoas que
no pertencem nem ao campesinato, nem ao
proletariado, nem s elites. Esse
universo fluido comporta muitas vezes
significativas diferenas de renda. No
entanto, a recesso econmica dos anos
80 est condenando a sociedade
brasileira como um todo e, em
particular, as camadas mdias a um
processo acelerado de proletarizao.

DA CONSCINCIA CRTICA  CULTURA DE
MASSA

A riqueza cultural da dcada de 30

Modernismo, regionalismo e samba

 O perodo inaugurado pela Revoluo de
30 foi marcado por transformaes na
economia, na poltica e na estrutura
social. De um lado, o sentido geral
dessas transformaes correspondia ao
esprito do Movimento Modernista de
1922; de outro, iria repercutir em um
novo movimento literrio: o
regionalismo.

 A conscincia modernista aliava a
necessidade de pesquisa de novos meios
formais de comunicao a uma ntida
preocupao com o conhecimento da
realidade brasileira. A dcada de 30
aprofundou e deu novos traos  questo
de uma cultura brasileira dotada de
fora anstica e capaz de reflexo
crtica.

 Por sua vez, o advento do rdio
promoveu a popularizao do samba, que
desceu definitivamente do morro para a
cidade. Alm do rdio, outro meio de
comunicao de massa passou por uma
decisiva transformao: surgiu o cinema
falado. Os dois veculos participavam do
carter internacionalizador da cultura
de massa. O rdio divul gava as msicas
francesas e norte-americanas, mas tinha
em contraposio o samba. J o cinema
trazia a divulgao do american way of
life e popularizava tambm expresses
estrangeiras. Essas caractersticas
foram registradas com ironia no samba
No tem  traduo, de Noel Rosa, em
versos como: O cinema falado  o grande
culpado da transformao ( ..) E esse
negcio de "al, boy, al ohnny" s pode
ser conversa de  telefone.

 No entanto, todo esse complexo fenmeno
cultural restringia-se s cidades. O
campo, o interior do pas, permanecia
afastado e vinculado s suas tradies
culturais  e folclricas. Toda essa
realidade foi tratada criticamente pelo
regionalismo literrio.

Da criao literria  reflexo sobre o
Brasil

 Em 1930, Carlos Drummond de Andrade
publicou seu primeiro livro, Alguma
poesia, que se integrava  viso
modernista, mas trazia uma nota pessoal
de inveno e de registro irnico. A
fico regionalista comeou a se fixar
como tendncia predominante, revelando
autores como Graciliano Ramos, Jos Lins
do Rego, Jorge Amado e rico Verssimo.
Estava iniciada a "era do romance
brasileiro". Em 1930 surgiu O quinze, de
Raquel de Queirs; em 1931, O pas do
carnaval, de Jorge Amado; em 1932,
Menino de engenho, de Jos Lins do Rego;
em 1933, Caets, de Graciliano Ramos.

 De modo geral, duas vertentes marcaram
a fico regionalista: uma, de teor
crtico, e outra, de traos mais
pitorescos, apegada ao exotismo. O
carter de realismo crtico fixado na
realidade social brasileira assinalou a
direo tomada pelos melhores
representantes do regionalismo. Essa
perspectiva crtica assumiu um teor
burlesco  no romance Serafim Ponte
Grande (1933), do modernista Oswald de
Andrade.

 Com a publicao de Casa grande e
senzala, de Gilberto Freyre ( 1933),
iniciou-se todo um processo de reflexo
sobre a formao cultural brasileira e
suas caractersticas econmico-sociais.
Desse modo, o ensaio de Freyre
converteu-se numa espcie de marco da
produo ensastica brasileira. Com uma
perspectiva marxista, o ensaio de Caio
Prado Jr., Evoluo politica do Brasil
(1933), desencadeou tambm um rico
dilogo de anlise e de confrontos de
perspectivas crticas. Em 1935, Raizes
do Brasil, de Srgio  Buarque de
Holanda, trouxe novos elementos para o
conhecimento crtico da realidade
brasileira.

 Essa importante produo intelectual
era, por assim dizer, a contrapartida
crtica  manipulao nacionalista
exercida pelo governo Vargas. Na
verdade, o rdio forneceu ao getulismo o
grande instrumento de convencimento
popular. A partir de 1938 , em pleno
Estado Novo, Getlio Vargas criou o
programa A hora do Brasil, e o DIP
(Departamento de Imprensa e Propaganda)
incumbiu-se fazer prevalecer a
doutrinao e a propaganda oficial.
Nesse mesmo ano, surgiu a Unio Nacional
dos Estudantes (UNE), que desempenharia
um papel de crtica e de formao de
militantes no perodo posterior ao
Estado Novo. Para fechar o balano
cultural da dcada de 30  fundamental
registrar as tentativas de criao de
uma produo cinematogrfica nacional.
Nesse sentido, destaca-se a obra de
Humberto Mauro; Ganga bruta(1932/33),
Favela de meus amores (1935) e o
documentrio O descobrimento do Brasil
(1936).

Os anos 40 - o "americanismo" e o
Brasil: a chegada do Z Carioca

 Os conturbados anos 40 foram o palco da
II Guerra Mundial e de suas
conseqncias. A principal delas foi a
diviso do mundo em dois grandes blocos
econmicos e Ideolgicos: EUA e URSS,
iniciando o perodo que se convencionou
chamar de guerra fria. Uma srie de
expurgos e de sectarismos ideolgicos
marcou esse perodo, e o Brasil no
fugiu  regra.

 Alinhado com os EUA, dos quais
historicamente sempre esteve mais ou
menos dependente, o Brasil, atravs da
poltica econmica, conheceu tambm a
dependncia cultural. O interesse dos
Estados Unidos em manter sua influncia
ideolgica diante do avano da URSS e do
scialismo foi um fator determinante
nesse processo.

 O intercmbio cultural - estimulado
pelo governo atravs do cinema e da
msica - que teve na carreira
internacional de Carmem Miranda sua
melhor expresso, aumentou ainda mais a
americanizao dos costumes e modos de
vida dos brasileiros. Em 1941, por
exemplo, Walt Disney, que se tornara o
porta-voz da poltica externa americana,
batizada de "boa vizinhana" escolheu a
msica Aquarela do Brasil, de Ari
Barroso, para trilha sonora do filme
Salud, amigos (Al amigo!), que acabou
sendo um filme promocional da poltica
norte-americana na Amrica Latina. A
criao do personagem de Disney - Z
Carioca - representando o Brasil,
tornou-se um dos maiores esteretipos de
nossa cultura no exterior.

 O rdio continuou expandindo seu
alcance comercial e seu poder
ideolgico. Destacavam-se a Rdio
Nacional, encampada pelo governo em
1940, a Rdio Tupi de So Paulo; a Rdio
Record (SP) e a Rdio Nacional (RJ), que
passaram a transmitir, a partir de 1941,
um dos maiores fenmenos de audincia do
rdio: o Reprter Esso.

 Tambm em 1941, foi fundada a Companhia
Cinematogrfica Atlntida, responsvel
pela popularizao do cinema e pela
criao de um gnero popular de produo
cinematogrfica: as chanchadas, mistura
de comdia e de musical, que a partir de
Moleque Tio, lanado em 1943,
apresentaram uma dupla clebre do cinema
brasileiro: Grande Otelo e Oscarito.

O reino das chanchadas

 Os anos 40 assinalaram tambm a
consagrao de um grande autor teatral
brasileiro, com uma temtica crtica e
irnica voltada para a classe mdia
urbana: Nelson Rodrigues. Em 1943,
estria no Rio a pea Vestido de noiva,
em 44, lbum de familia e, em 46, Anjo
negro.

 Na fico, destacam-se as obras de
Clarice Lispector, cujo primeiro romance
- Perto do corao selvagem - foi
publicado m 1943, seguido pelo
lanamento, em 1946, de O lustre. Nesses
romances, afirmava-se uma literatura de
teor introspectivo. Na poesia, o ano de
1942 trouxe a revelao de Joo Cabral
de Melo Neto com Pedra de sono, seguido
por O engenheiro (1945).

 Bibi Ferreira (filha do consagrado ator
Procpio Ferreira), Paulo Autran, ngela
Maria, Vicente Celestino e Gilda de
Abreu eram os dolos do teatro e do
rdio. O scilogo Josu de Castro
publicou em 1946 seu livro mais famoso,
Geografia da fome, e Victor Nunes Leal
criticou o sistema oligrquico da
Repblica Velha com o livro Coronelismo,
enxada e voto, publicado em 1949. Nesse
ano, fundou-se em So Paulo a Companhia
Cinematogrfica Vera Cruz, concorrente
da Atlntida, j consagrada pelo enorme
sucesso de suas produes.

 Para a inaugurao do Maracan - o
maior estdio do mundo - o Brasil, sede
da Copa de 50, promoveu uma festa que
acabou em comoo nacional com sua
derrota para o Uruguai (2x 1), na
partida final.

 As novelas de rdio, o futebol, os
programas de notcias radiofnicos e os
programas de auditrio alcanaram e
interessaram todo o territrio nacional.
O teatro  chegou a seu perodo de
esplendor, com forte penetrao na
classe mdia. Mas tudo isso pouco
significava perto do acontecimento de 18
de setembro de 1950: foi ao ar, pela
primeira vez na Amrica Latina, uma
emissora de televiso. Era a PRF 3 TV
Tupi, em So Paulo; comeava,
lentamente, uma nova fase cultural.

A exploso cultural dos anos 50

Nacionalismo cultural

 O segundo governo da terceira Repblica
foi ocupado por Vargas (1950-1954), que
retornou ao poder pelo voto. Durante
esse perodo, seu governo
caracterizou-se por uma organizao
naionalista da economia, evidenciada
com a criao da Companhia Siderrgica
Nacional e da Petrobrs. Esse
nacionalismo econmico, que continuou
sob o governo de Juscelino como
nacional-desenvolvimentismo, revitalizou
as preocupaes com a questo da cultura
brasileira, sobretudo na produo
teatral e no cinema.

 Nesse sentido, dois diretores
anteciparam o que veio a se chamar de
Cinema Novo. Em 1953, Lima Barreto
filmou O cangaceiro e conquistou uma
premiao no Festival Internacional de
Cannes no mesmo ano. Filiando-se ao
neo-realismo italiano, Nelson Pereira
dos Santos dirigiu, em 1955, Rio, 40
graus e voltou a exercer sua viso
critica da realidade em 1957, com Rio,
Zona Norte. Ainda, no mundo do cinema,
um ator-diretor alcanou enorme xito
popular: Mazzaropi, que cunhou o tipo do
caipira paulista ingnuo e trapalho em
Sai da frente (1952).

 Duas outras emissoras de televiso
entraram no ar: a TV Rio e a TV Record.
Em 1956, a populao brasileira assistiu
 primeira partida de futebol pela
televiso: o jogo entre Brasil e Itlia,
no ms de janeiro. A televiso
suplantava pouco a pouco o domnio do
rdio, um fenmeno que se concretizaria
com sua implantao a nvel nacional.

 A literatura consagrou um escritor
mineiro: Guimares Rosa, com a
publicao de Grande serto: veredas e
Corpo de baile, ambos em 1956. Sua
estria na literatura completava
exatamente uma dcada, pois seu primeiro
livro, Sagarana,  de 1946.  O Brasil
passou tambm a discutir o anncio da
construo da nova capital por
Juscelino: Braslia. O populista Jnio
Quadros, governador de So Paulo,
alcanava as manchetes com a proibio
de execuo de rock'n roll em bailes. Na
rea do esporte, Maria Ester Bueno
tornou-se campe de tnis em Wimbledon,
enquanto Pel estreava na seleo
brasileira.

1958: Brasil campeo

 E, por fim, em 1958 o Brasil tornou-se
campeo mundial de futebol, vencendo a
Sucia na final por 5 x 2. Pel,
Garrincha, Didi e Vav tornaram-se
dolos nacionais. Ainda em 1958, entrou
em funcionamento a TV Cultura - Canal 2,
de So Paulo. Enquanto no Rio e em So
Paulo um novo jeito de tocar violo e de
cantar, cujos representantes maiores
eram Joo Gilberto, Nara Leo, Tom
Jobim, Roberto Menescal e outros da
chamada Bossa Nova, dava destaque para a
suavidade, o intimismo, a voz como um
instrumento, as notas baixas e
dissonantes. Esse "som" brasileiro
correria o mundo; anos mais tarde, Joo
Gilberto estaria no Carnegie Hall de
Nova York, onde se radicaria
definitivamente consagrando-se como um
dos mais respeitveis msicos
brasileiros, no exterior, ao lado de Tom
Jobim.

 A chanchada chegava ao fim, com a
progressiva influncia da tev,
simbolizada no fechamento e na falncia
das grandes companhias cinematogrficas.
Mas o teatro se revigorava com novos
autores e temas sociais, como a pea
Eles no usam black-tie, de
Gianfrancesco Guarnieri, no Teatro de
Arena, em So Paulo, ainda em 1958. Em
1959, Celso Furtado publicou o clssico
Formao econmica do Brasil e Antnio
Cndido lanou seu famoso ensaio
Formao da literatura brasileira. As
cincias humanas e sociais alcanavam
espao e distino nas universidades,
destacando-se entre estas a produo da
USP. A formao cultural da dcada
chegou ao fim com a montagem da pea O
pagador de promessas, do jovem autor
Dias Gomes, e com a publicao de Laos
de familia, de Clarice Lispector, alm
da monumental Histria Geral da
civilizao brasileira, organizada por
Srgio Buarque de Holanda.

 As diversidades econmicas, polticas e
ideolgicas da sociedade brasileira
refletiam-se na arte e nas expresses
mais significativas dessa sociedade: a
cultura, com uma riqueza e efervescncia
mpares em sua histria.

Os loucos anos 60

Novos talentos

 Os anos 60 foram ricos em crises e
contradies no mundo todo e igualmente
no Brasil. Era a maturidade da primeira
gerao do ps-guerra e ela no deixou
de marcar poca e fazer histria. Foram
anos de rupturas polticas, sociais,
morais e ideolgicas.

 O Brasil comeou a dcada saudando a
nova capital - Braslia - e nas eleies
presidenciais escolheu Jnio Quadros e
sua "vassoura" para presidente com a
maior votao da histria do pas.

 Enquanto Jnio renunciava e toda uma
crise poltica levava Joo Goulart ao
ltimo governo constitucional da dcada,
der Jofre sagrou-se campeo mundial dos
pesos galo; em 1962, o Brasil tornou-se
bicampeo mundial de futebol no Chile e
profundas contradies econmicas
levavam a inmeras greves, paralisaes
e passeatas, em todos os setores
sociais. A maior destas foi a luta pela
reforma agrria. S ao Congresso
Campons de 1961, realizado em Belo
Horizonte, compareceram 1600 delegados,
lanando a campanha nacional pela
reforma agrria. Em Recife, no ano
seguinte, as manifestaes  pela reforma
agrria foram reprimidas por tropas do
Exrcito.

  A UNE assumiu dimenso nacional com a
criao do CPC (Centro Popular de
Cultura); em 1963, o educador Paulo
Freire alcanou notoriedade nacional com
seu "mtodo" de alfabetizao e
conscientizao de adultos, em
Pernambuco e em todo o Nordeste. O
cinema Anselmo Duarte O pagador de
promessas. Em 1963, Nelson Pereira dos
Santos filmou Vidas secas, baseado no
clssico de Graciliano Ramos, e Glauber
Rocha afirmou seu talento com Deus e o
diabo na terra do sol (1964). Com o
golpe de 64, surgiu a necessidade de
"resistncia cultural". O prdio da UNE
foi incendiado no Rio; seguiram-se
prises de lderes polticos,
estudantes, anistas e intelectuais.  O
reacionarismo e  tradicionalismo, alm
do patrulhamento ideolgico, da censura
e dos mecanismos de coao tomaram conta
do cenrio cultural do pas. No governo
de Castelo Branco realizou-se em So
Paulo uma campanha de "moralizao" nas
escolas: estudantes foram obrigados a
cortar o cabelo, usar calas de boca
estreita, e tambm proibidos de exibir
cores berrantes ou "roupas exticas". Em
1965, a censura proibiu inmeras peas
teatrais e filmes. Mesmo assim, foram
lanados os filmes A falecida, de Leon
Hirzsman, e Opinio pblica, de Arnaldo
Jabor.

 As transformaes culturais e morais
que o movimento hippie, os Beatles, o
rock desencadeavam na sociedade
internacional entraram no Brasil
filtradas pela ditadura militar. Mesmo
assim, a msica popular nos anos 60 foi
importante fator de resistncia ao
regime repressivo e apelo  liberdade de
expresso. Os festivais foram o palco
privilegiado dessa resistncia. Em abril
de 1965, a TV Excelsior de So Paulo
promoveu o I Festival de Msica Popular
Brasileira, que deu a vitria  msica
Arrasto, de Edu Lobo e Vincius de
Morais. Em setembro do mesmo ano, entra
no ar a TV Jovem Guarda, um programa
comandado por Roberto Carlos e Erasmo
Carlos, vinculado ao rock. Ao mesmo
tempo, a Universidade de Braslia foi
invadida e quinze de seus professores,
presos. Os Atos Institucionais
extinguiam os partidos polticos,
criando o sistema bipartidrio: ARENA
(governo) e MDB (oposio).

 Em 1966, no Festival de Msica Popular
da TV Record saram vencedoras as
composies A Banda de Chico Buarque de
Holanda, e Disparada de Geraldo Vandr e
Theo Azevedo. No ano seguinte,
explodiram as primeiras investidas
armadas contra o regime: oito
guerrilheiros do MR-8 foram presos em
Capara, MG. O festival de MPB desse ano
teve como vencedor Edu Lobo com a msica
Ponteio. Nesse mesmo ano, a CNBB
(Conferncia Nacional dos Bispos do
Brasil) divulgou um manifesto
denunciando a priso de padres e freiras
que tinham participao social de
oposio ao governo. Ainda em 1967, o
governo criou a FUNAI (Fundao Nacional
do Indio) e o MOBRAL (Movimento
Brasileiro de Alfabetizao) e a UNE
realizou seu 29 Congresso na
clandestinidade, e vrias faces de
esquerda optaram pela ao terrorista e
pela guerrilha para enfrentar a
ditadura.

68: o auge dos festivais

 Em 1968, a tenso entre as foras de
oposio e o governo chegou ao mximo.
Organizaes paramilitares de direita,
como o Comando de Caa aos Comunistas
(CCC), depredaram o teatro onde se
apresentava a pea Roda Viva, de Chico
Buarque de Holanda, ferindo vrios
atores e participantes. Os atentados se
multiplicaram. Ainda  em 68, realizou-se
no Rio o III Festival Internacional da
Cano, no qual o pblico se identificou
com a composio de Geraldo Vandr, Para
no dizer que no falei  das flores, que
considerada subversiva, levou seu autor
 priso, e foi proibida de ser
executada.

 Uma crise entre o Congresso e o governo
emergiu com a cassao do deputado
Mrcio Moreira Alves. A resposta foi o
AI-5, o fechamento do Congresso e a
concesso de poderes de exceo ao
presidente. Desencadeou-se, ento,
violenta represso do governo,
estabelecendo censura prvia a rgos de
imprensa, livros e obras de arte  alm
da perseguio e priso de lderes
estudantis, intelectuais e todos os
opositores ao regime. Por outro lado, a
exploso do movimento tropicalista, com
Caetano Veloso  e Gilberto Gil,
provocava reaes indignadas tanto em
setores da direita quanto da esquerda.

 A Operao Bandeirantes (OBAN) -
montada pelo governo - foi responsvel
por inmeras prises, torturas e
desaparecimentos. Em contrapartida,
grupos guerrilheiros seqestraram o
embaixador norte-americano Charles
Elbrick, exigindo para solt-lo a
libertao de presos polticos. Foram
mortos os lderes guerrilheiros Virglio
e Carlos Marighella. No topo desse
confronto, foi eleito presidente o
general Garrastazu Mdici, inaugurando a
dcada de 70.

dcada de 70: da represso  abertura

Tortura e TV em cores

 Enquanto o Brasil conquistava o
Tricampeonato Mundial de Futebol no
Mxico , embalado pela marchinha Pra
frente Brasil ; e os brasileiros
acompanhavam pela TV a maestria da
"seleo canarinho' ; vibrando com Pel,
Jairzinho, Tosto, Gerson, acontecia
muita coisa nos pores do DOI-CODI. Aos
atentados terroristas de esquerda o
Estado respondia com tortura, morte,
desaparecimento. Anunciaram-se a
Transamaznica e mais tarde a Itaipu. O
ministro Delfim Neto proclamava;
"milagre brasileiro' : Em 1971, depois
de torturado e morto pelas Foras
Armadas, desaparece o deputado Rubens
Paiva. Enquanto isso, o Brasil via, em
cores, as primeiras emisses coloridas
da Amrica Latina, a propaganda do
governo e seu lema: "Brasil, ame-o ou
deixe-o".  O  ministro Jarbas Passarinho
reagiu s denncias, encampadas por
organismos internacionais, de tortura no
Brasil: Afirmar que a tortura, no
Brasil,  praticada como sistema de
governo  uma infmia.

 Em 1972, a Rede Globo lanou a primeira
novela em cores no Brasil - O Bem-Amado
- criada por Dias Gomes e estrelada por
Paulo Gracindo. As novelas da televiso,
ou telenovelas, passavam a ter cada vez
maior repercusso e audincia. Em 1972,
a populao brasileira chegou aos cem
milhes de habitantes. A televiso
adquiriu a condio de moderadora de
opinies e comportamentos, quer pela
padronizao das informaes quer pela
propaganda e excitao ao consumismo.

 O cinema recomps-se com a organizao
do I Festival de Gramado (RS), onde o
filme Toda nudez ser castigada, de
Arnaldo Jabor, sagrou-se o grande
vencedor. Em 1977, Raquel de Queirs
tornou-se a primeira mulher eleita para
a Academia Brasileira de Letras. Com a
"abertura" do governo Geisel, retornaram
ao Brasil alguns lderes polticos e
artistas exilados no exterior. Ainda
nesse ano, um manifesto de 1046
intelectuais exigia que o governo
extinguisse a censura no pas. Na
mobilizao  contra a censura, ganhou
destaque uma campanha pela liberao da
pea Rasga Corao, de Oduvaldo Viana
Filho, proibida desde 1974 e liberada em
1978.

Os anos 80

Redemocratizao, sindicalismo, Igreja

 As lutas pela redemocratizao do pas
ganham fora no incio dos anos 80. As
grandes redes de televiso tentavam
reeditar os famosos festivais dos anos
60, sem  o sucesso esperado, mas
revelando alguns talentos. O processo de
redemocratizao do pas era saudado
pelos intelectuais, pela imprensa e pela
Igreja, respaldada por amplos setores da
sociedade. O sindicalismo dos ltimos
dois anos da dcada anterior tornara-se
importante movimento de conscientizao
e repolitizao da sociedade. Os
crculos reacionrios, organizados em
grupos e faces paramilitares,
descontentes com o processo de
"abertura", promoveram inmeros
atentados, entre os quais se contam uma
bomba colocada na sede da OAB (que matou
uma pessoa) e o episdio Rio Centro, em
que uma bomba explodiu em um carro onde
se encontravam oficiais do Exrcito, 
paisana, com o intuito de sabotar a
celebrao do 1  de Maio.

 Os inmeros conflitos de terra,
mediados pela Igreja, multiplicaram-se
pelo pas. O papa Joo Paulo II visitou
o Brasil, encontrando-se com os
operrios em So Paulo. Dois padres
franceses foram presos por envolvimento
em conflitos de terra no Araguaia.

 As cidades histricas de Ouro Preto e
Olinda, bem como Brasilia, a capital do
pas, foram consideradas "patrimnio
cultural da humanidade" pela UNESCO. O
Brasil iniciou pesquisas na Antrtida e
lanou seus primeiros satlites de
comunicaes - O Brasilsat I e II.

 Os filmes O Homem que virou suco, de
Joo Batista de Andrade, e Pixote, de
Hector Babenco, foram premiados
internacionalmente. Depois de uma crise
com a Embrafilme e outra com a censura,
o filme de Roberto Farias Pra frente
Brasil conseguiu ser exibido, recebendo
o prmio no Festival de Cinema de
Berlim. Nelson Pereira dos Santos filmou
Memrias do Crcere, de Graciliano
Ramos, estrelado por Carlos Vereza, que
recebeu um prmio no Festival
Internacional de Cinema da India por seu
desempenho. O beijo da mulher aranha,
produo brasileira dirigida por Hector
Babenco, levou o Brasil at Hollywood e
Eu sei que vou te amar, de Arnaldo
Jabor, deu  Fernanda Torres o prmio de
melhor atriz no Festival de Cannes.

 Por ocasio da votao de uma emenda
proposta pelo deputado Dante de Oliveira
(PMDB) para eleies diretas como forma
e conduo da sucesso presidencial, no
final do governo Figueiredo, explodiu
uma das maiores manifestaes populares
da Histria do pas, consagrada como
"DIRETAS J". O comcio da Candelria,
no Rio, reuniu  1 milho de pessoas. Era
o fim da ditadura militar.

 Depois que a morte afastou Tancredo
Neves da presidncia, a Nova Repblica
comeava com Jos Sarney. A proibio do
filme ,e vous salue, Marie, de Jean-Luc
Godard, e Teledeum, em 1987, demonstrava
a vigncia, ainda que restrita, de
mecansmos de censura de obras
artsticas.

O dilogo cultura-sociedade

 1930: retlexo sobre as contradies. A
dcada de 30 continuou e aprofundou a
reflexo crtica sobre a sociedade
brasileira inaugurada pelo Modernismo. A
sociedade que surgia via-se presa entre
as contradies da ordem poltica
internacional  e as prprias
contradies do embate interno entre as
classes sociais divergentes e
antagnicas. Essas intensas
contradies, ao lado da emergncia de
um combate ideolgico em todo o mundo,
foram aspectos decisivos para o impulso
que orientou a cultura brasileira. O
rdio, o cinema e a televiso, embora
desenvolvam contornos e peculiaridades
ligados s nossas especificaes, quase
sempre foram os meios de padronizao
veiculao e sustentao das expresses
culturais dominantes, sob forte
influncia dos EUA, a nao hegemnica
do hemisfrio ocidental
  Depois do modernismo, a fico
regionalista espelhou situaes que
afetavam distores e misrias presentes
em nossa realidade. O trao local no
impediu que certas caractersticas
essenciais de toda uma sociedade fossem
reveladas por Graciliano Ramos,  devido
 fora artstica de suas obras.

 De outro lado, a prpria cultura, como
tudo o mais, passou a ser tratada, pela
era de consumo de massa do capitalismo,
como mercadoria. O rdio e a indstria
fonogrfica criaram uma faixa de
consumidores que, em certa escala,
passava a absorver a mercadoria cultural
de selo internacionalizado, enquanto o
cinema americano gerava mitos e padres
de comportamento.

 1940: americanizao. A dcada de 40
marcou o perodo ureo do alinhamento
poltico-ideolgico do Brasil. Os traos
j delineados da cultura de massa
adquiriram um raio de ao ainda mais
amplo.

 Em contraposio, a universidade
adquiria uma presena decisiva na vida
intelectual brasileira, com nfase
especial para a Universidade de So
Paulo, que na dcada de 30 realizava um
intenso programa de intercmbio com as
universidades francesas. Por fim, a
prpria americanizao pode ser vista
tambm como a conseqncia da
modernizao do pas e de seu ingresso
nos padres de consumo do mercado
internacional.

 1950: a dcada da fermentao.
Escritores como Carlos Drummonn de
Andrade, Murilo Mendes, Guimares Rosa,
Clarice Lispector e Joo Cabral de Melo
Neto do continuidade s suas obras,
mantendo suas qualidades e aprofundando
suas Pesquisas, oferecendo ao conjunto
da literatura brasileira uma elevao
nunca antes atingida.

 No cinema, Nelson Pereira dos Santos
iniciava uma obra que anteciparia as
preocupaes do Cinema Novo, e a Bossa
Nova trazia uma renovao rtmica e
harmnica  , alm de uma sensibilidade
intimista nas letras e nas
interpretaes. A ideologia
desenvolvimentista e a necessidade de
modernizao tomavam a sociedade urbana
brasileira.

 A vanguarda anstica definia-se na
poesia, na pintura e na msica erudita
com a esttica do concretismo.

 De 1960 e 1980: dilaceramento e
padronizao. Com a televiso,
instrumento Privilegiado de
padronizao, o pas tornou-se objeto de
uma certa homogeneizao cultural. O
controle do setor de comunicaes pela
ditadura imprimiu  televiso um papel
de catequese ideolgica. Na msica, o
tropicalismo foi a grande manifestao
sintonizada com a revoluo cultural dos
anos 60. O Cinema No  herdava a
tradio crtica do melhor romance
brasileiro e adquiria prestgio
internacional. A vitalidade do teatro
afirmou-o tambm como palco da
resistncia cultural  ofensiva da
represso ideolgica desfechada pela
ditadura. Exlios, prises, torturas,
guerrilhas, assassinatos configuraram
uma poca trgica, com um impacto de
certo modo paralisante na cena cultural.
Certos crticos vem os anos 80 ainda de
primidos por essa paralisia, mas a
extrema diversificao cultural
alcanada pelos grandes centros urbanos
 um fator importante e aberto s
possibilidades de criao.

